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Reunião salva de extinção ladeira em São Paulo "onde skate nacional nasceu"

Bruno Freitas/UOL
Ladeira na Praça Joanópolis é considerada um dos "berços" do skate paulista e nacional Imagem: Bruno Freitas/UOL

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

05/05/2012 06h00

Uma reunião na tarde da última sexta-feira em São Paulo conseguiu dar sobrevida à prática do skate em uma ladeira da cidade histórica para a modalidade no país. Um grupo de moradores do bairro do Sumaré acionou a Prefeitura para construção de medidas que inibissem as manobras no local, reclamando que o esporte estimula um pequeno cenário de desordem pública por lá. No entanto, um acordo mediado pelo subprefeito da Lapa determinou regras para que a descida junto à Praça Joanópolis continue recebendo saudosistas das rodinhas e skatistas novatos da vizinhança.

Nos últimos meses, a Somasu (Sociedade Amigos do Sumaré) conseguiu emplacar junto à Prefeitura uma ação para coibir a prática de skate no local, através da instalação de três faixas transversais de paralelepípedos na ladeira. Quando um pequeno quadrilátero do material foi construído ao longo da descida, no começo do trabalho recapeamento, o caso acabou mobilizando reação da comunidade skatista da cidade.

Trecho de paralelepípedos visava coibir a prática do skate em praça do Sumaré, em São Paulo

Liderada por dirigentes da Confederação Brasileira de Skate, a comunidade foi incumbida pelo coronel Ademir Ramos, subprefeito da Lapa, de preparar uma sugestão de projeto de convivência entre os praticantes e os moradores incomodados com o burburinho radical. Na reunião da última sexta, ficou estabelecido que a prática está permitida apenas entre 8h e 21h. Um representante dos skatistas deve atuar para que o horário seja cumprido.

"A batalha termina, mas a guerra não. A gente espera que os skatistas da região respeitem, é algo que parte deles também. A gente confia nisso. É uma ladeira com 40 anos de tradição no skate. Tem menino andando hoje lá que o avô andou no passado. São três gerações", afirmou Edson Scander, vice-presidente da Confederação Brasileira de Skate, após a reunião.

UM DOS BERÇOS DO SKATE EM SP

A descida do Sumaré que provocou a disputa entre skatistas da cidade e moradores do bairro faz parte da história da modalidade no país. A ladeira da Praça Joanópolis foi um dos primeiros locais que viram a popular prancha de madeira sob rodinhas no país.

Existem vídeos no site YouTube que resgatam competições de skate no local há quase 40 anos. Um deles apresenta um comercial da Pepsi, filmado em 1976 (reproduzido abaixo da matéria), em que a juventude da época consome refrigerantes em meio à novidade radical.

Hoje, o local conhecido como "praça do skate no Sumaré" recebe poucos adeptos, em razão do asfalto velho e da descida estreita. No entanto a Joanópolis ainda mexe com saudosistas do downhill e serve de iniciação a jovens skatistas do bairro.

"Dois moleques acabaram de sair daqui", afirmou um operário que trabalha em uma obra da praça, durante visita da reportagem na tarde de sexta-feira.

O subprefeito da Lapa admitiu em conversa com a reportagem do UOL Esporte que o caráter cultural "pesou" no esforço do poder público para uma solução que preservasse o local. Esse também era o sentimento de outros participantes do encontro.

"É o lugar onde nasceu o skate, o berço do skate no Brasil. Tem uma questão cultural incluída nesta discussão. Vai haver uma reeducação para que o local continue sendo utilizado pelos skatistas", manifestou Tiago Lobo, representante da secretaria de Esportes, Lazer e Recreação, que também participou da mediação.

Representante da Sociedade Amigos do Sumaré, João Fava levou ao debate os argumentos dos moradores contrários ao skate, como acúmulo de lixo, barulho em horários impróprios, riscos de acidentes, além de desconforto com consumo e tráfico de drogas, relacionados à parte dos praticantes.

"A associação está preocupada com duas coisas: com o desconforto que uma atividade como essa vem trazendo e com os usuários de drogas. É muito mais pelo risco, pelo barulho. É preocupante para os próprios skatistas, que estão correndo risco de acidentes. A gente sabe que a droga não é por causa do skate, mas o fato é que existe um grupo que consome", argumentou o representante da Somasu pouco antes da reunião de conciliação.

Em outra resolução da reunião, ficou decidido que o paralelepípedo instalado recentemente no meio da ladeira vai ser recoberto por asfalto novamente. Confusão à parte, o emprego do material na descida do Sumaré já vinha sendo estudada pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) como forma de redução de velocidade de carros. 

Em 60 dias o subprefeito volta a ouvir as duas partes para saber se a sugestão de convivência está funcionando. Em caso de fracasso, a ladeira histórica do skate brasileiro passa a correr risco novamente.   

Paralelamente, a secretaria de Esportes trabalha para encontrar um novo local de descida de skate que eventualmente posa redirecionar os praticantes da região. Uma das opções estudadas é a Praça Zilda Natel, a 1,5 km de distância.

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