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Ciclistas fazem corrida no estilo "Velozes e Furiosos". Tem prova até em SP

Verônica Mambrini

DO UOL, em São Paulo

30/04/2014 06h00

Eles largam nas ruas de grandes cidades. A competição é no meio do trânsito. Os veículos são customizados. Quase sempre, a corrida é noturna. E, definitivamente, não é uma prova oficial. Se você acha que está lendo a descrição de algum filme da franquia “Velozes e Furiosos”, errou o chute. Diferentemente da versão motorizada, os alley cats são corridas de rua organizadas por ciclistas, que acontecem no meio do trânsito.

Esqueça o clima organizado e metódico dos pedais noturnos em grupo, em que geralmente tem uma pessoa puxando o grupo e outra fechando, ritmo constante e tranquilo, roteiros pré-determinados e às vezes até uniforme. No alley cat, os competidores chegam no local combinado para a largada e só lá descobrem para onde devem ir. Não existe um percurso pré-determinado, os participantes decidem a própria rota. É obrigatório passar por alguns pontos de checagem, em que um fiscal anota a passagem. Quem chegar primeiro ao último posto vence. É comum ter uma taxa de inscrição simbólica, algo como R$ 10, coletada para formar um prêmio do vencedor, que pode ser também peças de bike, bonés de ciclismo e outros itens cedidos por empresas que apoiam o ciclismo urbano. 

“Precisa saber orientação, ter inteligência de fazer a melhor rota e, principalmente, conhecimento da cidade ou da área onde vai rolar a corrida. Em Londres, onde morei e conheço bem, ganhei. Aqui não, máximo que cheguei foi em terceiro”, diz Wagner Carvalho, dono de um café em São Paulo. Ele foi bike courier em Londres por quatro anos, e participou de alley cats em Londres, Berlim, Dublin e, claro, São Paulo, onde o evento chegou há cerca de 10 anos.

“Essa corridas são organizadas principalmente por bike messengers, para a bike messengers”, conta Wagner. “Tanto que também aqui, quem ganha tudo são eles”, diz o ex-courier, que defende que o risco de uma corrida no tráfego é minimizado pela habilidade dos participantes. “Quando as pessoas vêem os caras correndo no trânsito pensam no perigo, mas não sabem que essa galera sabe o que está fazendo, para eles é fácil. O menor índice de acidentes com ciclistas é entre bike messenges. Pudera: com cinco dias por semana, oito horas por dia e uma média de 500 km rodados por semana, você acaba ficando bom nisso.”

Embora em São Paulo as corridas sejam menos frequentes e no geral, mais tranquilas, em cidades como Nova York, onde são realizados de forma mais extrema, eles chegaram a ser proibidos. “A galera barbariza na rua lá fora. Não entro no mérito de ser contra a lei porque realmente é, pelo menos contra as leis de trânsito”, comenta Wagner.

Em 1992, foi organizado um alleycat dentro da lei, simulando as entregas de um bike messenger. A cada ano, o Cycle Messenger World Championship ocorre numa cidade do mundo. Em 2015, será em Toronto, no Canadá, onde ocorreu o primeiro alleycat, em 30 de outubro de 1989. Mas a regra são mesmo os eventos informais. O primeiro evento do tipo no Brasil aconteceu há 10 anos, com o nome de Atravecity. "Eu e alguns amigos, quando fizemos o primeiro, em 2004, não tínhamos ideia da existência de alleycat, nós 'inventamos' uma corrida urbana, e somente depois de alguns anos é que descobrimos que já existia", diz um dos organizadores do Atravecity. 

Os organizadores se defendem e alegam que não é bagunça. “O que mais me chama a atenção nesse tipo de competição é o caráter político de protesto. Eu vejo o alleycat como contra-cultura, assim como o movimento hippie já foi, ou os beatniks, que subverte as leis de trânsito e promove a reflexão dos deslocamentos na cidade”, diz Filipe Lima Pinheiro, que já participou da organização de algumas corridas no Brasil.

Filipe argumenta que o tráfego na cidade é determinado pelo governo e pela indústria automobilística, hoje priorizando o fluxo de veículos motorizados. “Uma competição de alleycat concilia a autonomia de deslocamento do ciclista com a subversão dessas imposição de fluxo. Os ciclistas, durante a competição, não se pautam pelas leis de trânsito, e sim pelo caminho mais rápido e pela sua sobrevivência que, por desdobramento lógico, implica em não atropelar ninguém, já que se um ciclista atropelar alguém, corre mais risco de morrer do que num carro”, afirma. “Chamo de competição-protesto porque nem todo mundo ali tem a intenção de protestar, mas está subvertendo o costume social consagrado – no caso, a forma de deslocamento na cidade - para se propor algum tipo de reflexão.

Não dá para deixar de lado o caráter lúdico do evento. O arquiteto de informação Alexander Blagus já participou de vários alley cats e sente que, apesar da adrenalina e velocidade, a colaboração fica acima da competição. “Eu cheguei em terceiro em um que participei em 2010. Não teria conseguido chegar lá sem a ajuda dos demais amigos competidores, que me ajudaram a decifrar os enigmas encontrados no caminho. E, é claro, tem a emoção. Muita emoção. Mas lugar no pódio é a última coisa da lista. Fazer algo radical dentro da cidade e no epílogo uma cervejada com os amigos é o grande barato”, conta. 

Um dos alleycats de que Wagner ganhou em Londres era o de Dia das Bruxas. “Os checkpoints eram lugares como onde Jack o Estripador fez a primeira vítima, ou a rua da onde era a entrada dos calabouços da cidade. Muitas corridas têm charadas, tem que pensar, precisa saber história.” 

Como com os outros participantes, o medo passa longe. “O medo maior é de causar problema a terceiros, como atropelar um pedestre ou um carro. Mas já caiu avião na cabeça de quem estava em casa vendo TV. O desafio da corrida não é apenas chegar em primeiro, é cruzar a linha de chegada com todos os dentes e não ter aleijado ninguém no caminho”, diz Alexander. E se arrepia com a possibilidade de “domesticar” uma prova como essa, em um espaço como um velódromo ou circuito. “A essência do alley cat [que quer dizer gato de rua, em inglês], como o nome sugere, é a malandragem das ruas. Sem isso, sobra só doping para chegar em primeiro lugar.” 

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