Do luxo ao estádio do povo

Arena Corinthians faz cinco anos em meio a transformações do projeto e busca por sustentabilidade financeira

Arthur Sandes, Diego Salgado e Ricardo Perrone Do UOL, em São Paulo
Ricardo Matsukawa/UOL

Há exatos cinco anos, a Arena Corinthians cumpria um papel que lhe fora concedido em meio a uma série de reviravoltas e polêmicas. No dia 18 de maio de 2014, o estádio erguido no bairro de Itaquera recebia o primeiro jogo oficial, no grande teste para a abertura da Copa do Mundo que ocorreria dali a menos de um mês.

Foi justamente a condição de vedete do Mundial no Brasil que transformou o projeto do estádio em algo audacioso. Concebido para ocupar a vaga do Morumbi como sede de São Paulo na competição, a casa corintiana virou sinônimo de luxo, com mármore por todas as partes, telões de última geração e camarotes espaçosos.

Todo o aparato pensado, porém, precisou ser adequado à medida que a preocupação maior passou a ser a financeira - o valor da construção extrapolou o orçamento e, somado aos juros, tornou a dívida corintiana ingrata e difícil de ser paga. Assim, o mármore virou concreto, os camarotes ganharam elementos a fim de atrair torcedores, e o estádio foi turbinado por empreendimentos na tentativa de obter mais receita.

Na busca de transformar a matemática financeira em algo palpável, o Corinthians também abandonou partes do projeto, mudou parceiros e descartou obras que deixariam o projeto ainda mais caro. Além disso, passou a travar uma batalha velada com a Odebrecht, sob a forte presença de Andrés Sanchez, mesmo quando ele estava fora do quadro de dirigentes do clube.

O cenário de mudanças dos últimos anos, pano de fundo dos resultados em campo, será abordado a partir de agora pelo UOL Esporte, assim como as vitórias e derrotas corintianas no estádio cada vez mais incorporado à atual realidade.

Expectativa x realidade

Arte/UOL
Ricardo Matsukawa/UOL Ricardo Matsukawa/UOL

Falta de grana e busca por receitas impulsionaram metamorfose

A arena Corinthians completa cinco anos com uma cara diferente daquela imaginada por seus idealizadores. Divergências entre Odebrecht e o arquiteto Aníbal Coutinho, estouro orçamentário, necessidade de aumentar as receitas e uma pitada de desejo das torcidas organizadas, que pediram a retirada das cadeiras do setor norte, são os ingredientes dessa metamorfose constante.

Pelas contas da construtora, obras no valor de R$ 38 milhões não foram feitas, após acordo com o clube, por conta do alegado estouro do orçamento. A diferença entre expectativa e realidade gerada por esses cortes o corintiano começa a notar abaixo de seus pés.

Andrés Sanchez havia prometido o mesmo alto padrão na arena inteira. Não deu. O piso de granito dos setores leste e oeste não chegou aos mais populares norte e sul, que ficaram sem acabamento. Faltaram R$ 9.550.000. O elevador que levaria pessoas com dificuldade de locomoção no setor sul para o banheiro foi trocado por sanitário químico no piso superior.


A área externa é uma das mais afetadas. Não foi arborizada, deixou de ganhar um espelho d´água e totens para serem usados por patrocinadores. No papel, seria um local para muitas ativações de parcerias. Hoje, porém, há só a exposição de veículos de uma marca que comprou a ideia.

Uma novidade que chama atenção é Arena Ronaldo, quadra poliesportiva do lado de fora do estádio e que não existia na maquete. Ela foi construída recentemente para ser usada pelo público independentemente de o estádio estar aberto para jogos.
A área destinada para um restaurante com vista para o gramado não atraiu investidores.

Em busca de receitas, ela virou academia da grife Anderson Silva. Um dos camarotes ganhou um ofurô como chamariz para frequentadores. Mais novidades estão sendo idealizadas. Uma delas é um sistema que permitirá a realização de shows sem o uso do gramado. A projeção inicial é de um incremento de R$ 20 milhões na receita anual da arena.

Rodrigo Coca/Ag. Corinthians Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

Geração de receitas frustra expectativa inicial

No fim de 2013, Andrés Sanchez disse em entrevista que em seis ou sete anos o Corinthians pagaria o financiamento de R$ 400 milhões feito junto ao BNDES, via Caixa Econômica, e os juros da operação. Porém, em 4 de fevereiro de 2019, o diretor financeiro do clube, Matias Ávila, afirmou em reunião do Conselho Deliberativo que tinham sido pagos até então R$ 125 milhões do financiamento, restando um saldo devedor de R$ 470 milhões.

Há ainda uma dívida com a Odebrecht de cerca de R$ 650 milhões, o que eleva o débito total a R$ 1,1 bilhão. Nesta conta existem pelo menos R$ 120 milhões em CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) para serem negociados e ajudarem no abatimento da dívida.

O ritmo de pagamento mais lento do que o previsto se deve às receitas abaixo do projetado. Também em dezembro de 2013, Andrés Sanchez esperava arrecadar R$ 200 milhões anuais com a Arena. Já em fevereiro, o diretor financeiro informava que a previsão é de um repasse de R$ 54 milhões das receitas geradas pelo estádio em 2019 (bilheteria de R$ 75 milhões descontadas despesas e outras fontes) para o pagamento de dívidas.

O ponto crucial das receitas reduzidas é a não venda dos naming rights. No começo, cartolas corintianos falavam em R$ 40 milhões de arrecadação anual com o nome da Arena, mas um plano de negócios apresentado à Caixa já projetava R$ 25 milhões ao ano. Atualmente, segundo apurou o UOL Esporte, a ideia é vender o nome do estádio por 20 anos pelo preço total de R$ 400 milhões, mas com pagamento sendo feito em uma década.

Outra série de receitas não vingou, como os naming rights de diversas áreas e um sports bar que não havia sido aberto por falta de interessados até o início de 2019 - ele previa receita de R$ 215 mil no primeiro ano. O plano inicial também contava com 42 mil visitas anuais no tour da arena. O projeto é um sucesso e já recebeu mais de 100 mil visitantes, mas demorou até 2017 para ser implantado.

A geração de receitas abaixo da expectativa obrigou o clube se virar. Uma das medidas foi renegociar a forma de pagamento, que agora conta tem prestações mais suaves nos meses em que a Arena tem menos movimento: as parcelas mensais são de R$ 6 milhões de março a outubro, mas caem a R$ 2,5 milhões de novembro a fevereiro. A diretoria alega estar em dia com os pagamentos.

Outra solução foi trocar prestadores de serviços para diminuir custos. Só com a mudança de empresas na manutenção predial o clube calcula economia de 47%. Há ainda uma negociação com a Odebrecht para abater da dívida as obras que o Corinthians julga incompletas. Dirigentes alvinegros avaliam que, se o acordo for feito e a Odebrecht deixar o fundo, ficará mais fácil vender os naming rights.

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Avener Prado/Folhapress Avener Prado/Folhapress

Pizza de R$ 10 vence o padrão Fifa

Às vésperas da abertura da Copa do Mundo de 2014, funcionários da prefeitura corriam para dar os últimos retoques no entorno da arena Corinthians. Quando chegou o grande dia, estava tudo novinho em folha. O ambiente amplo sugeria uma circulação rápida e fácil de torcedores, seguindo o padrão de modernidade das principais novas arenas pelo mundo.

Na rotina corintiana, porém, não tem sido bem assim. O acúmulo de ambulantes na rampa que liga a estação Corinthians do metrô a uma das entradas da arena estrangula a circulação provocando lentidão na locomoção dos torcedores. A mesma rampa dá sinais de degradação. O corrimão que separava os dois lados não está mais lá. Restaram apenas seus suportes.

Os fãs que optam pelo transporte público também enfrentam dificuldades nas saídas dos jogos por ter que disputar espaço com os carros na saída de um dos estacionamentos da arena. O entorno também constantemente convive com mato alto e relatos de falta de segurança quando a maior parte do público já deixou o estádio nos jogos à noite.

Em meio aos problemas, a área em volta da Arena Corinthians impulsionou um hábito de consumo presente hoje não só nos estádios da cidade, mas também nas ruas de diversos bairros: a pizza de R$ 10. Desde o ano passado, os torcedores ganharam do lado de fora do estádio uma praça de alimentação no estilo raiz dos estádios brasileiros, repleta de barracas que vendem sanduíche de pernil. Os frequentadores da arena se esbaldam no cenário, inimaginável no padrão Fifa, presente no nascimento do estádio corintiano.

Os melhores momentos

Arte/UOL

Os "fundadores" da Arena Corinthians

  • Andrés Sanchez

    Presidente do Corinthians entre outubro de 2007 e dezembro de 2011, Andrés Sanchez se empenhou pessoalmente na construção do estádio e acabou faturando politicamente por conseguir realizar o sonho da casa própria para a torcida. Desde então Andrés foi deputado federal por quatro anos e, no Corinthians, manteve-se como figura de maior importância política: elegeu dois presidentes e esteve sempre próximo do centro do poder alvinegro até reassumir a presidência em fevereiro de 2018. Ele tem mandato no clube até 2020.

    Imagem: LUIS MOURA/WPP/ESTADÃO CONTEÚDO
  • Luiz Inácio Lula da Silva

    Enquanto presidente da República, Lula tornou-se o grande articulador político para a construção da Arena do seu time do coração. Segundo reuniões internas do Corinthians à época, foi ele quem "ensinou" o clube a ter um estádio de Copa do Mundo. Fez papel de intermediador entre o clube e a construtora Odebrecht, cujo patriarca chegou a dizer em delação premiada que a Arena seria "um presente para Lula". Lula encerrou seu mandato em 1º de janeiro de 2011. Desde 2016 ele virou réu em diversos processos que investigam crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, entre outros. Atualmente Lula está preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

    Imagem: Roberto Setton/UOL
  • O clã Odebrecht

    O estádio corintiano talvez não sairia do papel não fosse a construtora, que acabou convencida a realizar a obra. Emílio Odebrecht compôs uma trinca de "fundadores" do estádio segundo entrevista de Andrés Sanchez à revista Época, de 2011: "Na parte financeira [da Arena] ninguém mexeu, só eu, Lula e Emílio Odebrecht." Na versão de Marcelo Odebrecht, filho de Emílio e ex-presidente do conglomerado, "este assunto nasceu de um pedido de Lula a meu pai, para ajudar o Corinthians". Em delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato, Marcelo revelou que o modelo de negócio foi acertado em um jantar em sua casa, que contou com a presença de políticos, dirigentes do Corinthians e até de Ronaldo Fenômeno. Emílio, patriarca da família e do conglomerado, foi condenado em fevereiro de 2019 a três anos e três meses de prisão em regime semiaberto, mas ainda não cumpre a pena porque tem um acordo firmado com a Procuradoria-Geral da República. Já Marcelo Odebrecht, condenado a 19 anos e quatro meses, atualmente cumpre prisão domiciliar após dois anos e meio em regime fechado.

    Imagem: Caio Guatelli/Folhapress
  • Gilberto Kassab

    Então prefeito da cidade de São Paulo, Kassab se dispôs a impulsionar a construção da Arena com R$ 420 milhões por meio de Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CIDs) - incentivos fiscais cedidos pela Prefeitura com base na valorização da região de Itaquera. O valor era a diferença entre o gasto previsto pelo Corinthians e a quantia necessária para que o estádio recebesse a abertura da Copa do Mundo de 2014, de forma que Kassab foi quem viabilizou financeiramente este plano. Ele chegou a ser denunciado pelo Ministério Público por improbidade administrativa neste caso, mas a ação foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em abril de 2018. Após ocupar dois ministérios em Brasília, atualmente Kassab é secretário estadual da Casa Civil em São Paulo.

    Imagem: Rodrigo Paiva/UOL Esporte
  • Aníbal Coutinho

    O arquiteto já tinha relação com o Corinthians desde 1997, tendo feito projetos de modernização do Parque São Jorge e do Pacaembu para o clube - ideias que acabaram não saindo do papel. Em Itaquera, Coutinho desenhou uma Arena multiuso que servisse tanto como estádio de futebol quanto como centro de convenções, mas sua teoria nunca se traduziu em prática porque a estrutura não foi entregue completa. Os honorários de Aníbal Coutinho viraram um imbróglio depois da obra, sendo a princípio repassados da Odebrecht para o Corinthians. O arquiteto inclusive fez um empréstimo para o clube quitar salários atrasados de jogadores, depois precisou ir à Justiça para receber os R$ 11,1 milhões a que tinha direito.

    Imagem: Divulgação

Eles fazem parte da história da Arena

  • Lúcio Blanco

    "O que mais mudou na Arena desde a inauguração foi uma integração cada vez maior da Arena com a sociedade que está no entorno, como a inauguração de uma quadra esportiva recentemente", diz o ex-superintendente do estádio.

    Imagem: Reprodução
  • Cássio

    "São muitos jogos emblemáticos na Arena: 6 a 1 contra o São Paulo, vitória contra o Palmeiras em 2017... Já estamos identificados. É um estádio moderno e tem uma atmosfera bem corintiana", afirma o ídolo alvinegro.

    Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
  • Chris Lima

    "É muito gratificante para mim, que sou corintiana, dar voz ao estádio do meu clube do coração, da minha família. É quebrar uma barreira: a mulher pode, sim, estar em um ambiente dominado por homens", diz a voz da Arena.

    Imagem: Arquivo pessoal
  • Luís Butti

    "Fazer este tour é gratificante e espero colaborar ainda por muito tempo. Estar aqui é mostrar que, à parte títulos ou ídolos, o Corinthians é maior porque é do povo, é da gente, é humano", diz um dos guias do Tour da Arena.

    Imagem: Acervo pessoal

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