(Jorge) Jesus salva?

Perrone e Toninho Cecílio discutem Jorge Jesus, a adaptação de técnicos estrangeiros e cobranças de pênaltis

Arte/UOL

Um bate-papo sobre futebol é das atividades favoritas dos brasileiros, antes, durante e depois da rodada. Futebol é um tema infinito. Conversa é a série do UOL Esporte que pretende fazer justamente isso: conversar sobre futebol.

Nesta semana, o Flamengo foi eliminado pelo Athletico Paranaense nas cobranças de pênalti e o ex-zagueiro e técnico de futebol Toninho Cecílio fez uma análise no Twitter que chamou a atenção do blogueiro do UOL Ricardo Perrone:

Esse foi o ponto de partida do Conversa de hoje:

Alexandre Vidal/Flamengo Alexandre Vidal/Flamengo

Ricardo Perrone: Oi, Toninho, tudo bem? Vi no Twitter um comentário seu interessante sobre o gol que o Flamengo levou do Athlético. O que você viu ali com os olhos de treinador?

Toninho Cecílio: Bem, me pareceu que a linha defensiva marcou alto no momento errado. Quando a bola está "descoberta" (o jogador adversário com a posse de bola tendo liberdade, sem pressão, no setor de criação), o mais adequado é a linha recuar dois ou três passos para criar uma margem de controle do ataque um pouco mais confortável e com risco menor.

Toninho: Foi apenas uma observação técnica e muito específica. Longe de ser uma crítica. Aquilo acontece bastante e, com treinamentos, melhora muito. Outro ponto é que o jogador também precisa fazer essa leitura no momento e tudo é muito rápido. Alguns seguidores gostam desse tipo de análise e acho interessante, algumas vezes, postar algo nesse sentido.

Perrone: Sim, é bem interessante. Acho que o Flamengo vai levar um tempo para se adaptar ao estilo de Jorge Jesus. Não por ele ser estrangeiro, mas porque essas mudanças levam tempo. Ou você acha que ele pode ter mais dificuldade por ter que se adaptar ao país?

Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação

Toninho: Sempre terá uma certa necessidade de adaptação. Sempre defendi que treinadores estrangeiros tentem colocar, na sua equipe de apoio, um ex-atleta que conheça as duas formas de trabalhar. Por exemplo: eu teria contratado Sorín para ser o auxiliar do Gareca, no Palmeiras. E o Mozer para trabalhar com Jesus. Pessoas assim. Ajuda muito.

Toninho: No futebol brasileiro eles vão encontrar equipes como a do Athlético-PR, com características específicas que fazem frente a qualquer equipe com maior orçamento. Já foi campeão do Brasileiro e acabou de ser campeão em competição continental. Tem qualidade dentro do campo e excelente gestão fora. No futebol português é muito difícil encontrar o mesmo. Benfica e Porto, por exemplo, tem uma superioridade maior para os demais.

Toninho: Eu gosto muito que treinadores estrangeiros venham trabalhar aqui, mas nem todos tem algo inovador. Já vi alguns trabalhos bem pobres por sinal. Com liderança pífia e agilidade na tomada de decisão muito abaixo do que é esperado. Mas eu gosto muito do Jorge Sampaoli, do Juan Carlos Osório e estou começando a ver mais de perto o professor Jorge Jesus. Posso dizer que algumas coisas já me agradaram, como a intensidade absurda e a tentativa de ser predominante o jogo todo.

Toninho: Agora, Perrone, sem conhecer a personalidade dele de perto é muito difícil tentar adivinhar se ele vai se adaptar rápido. O que posso dizer é que, com a experiência que tem, e sem o problema do idioma, além de estar em um clube com alto poder de investimento, a tendência é fazer um grande trabalho com ajustes pontuais.

Gilvan de Souza/ Flamengo Gilvan de Souza/ Flamengo

Toninho: Trabalhei com Minelli, Telê, Luxemburgo, Muricy, Carlos Alberto Silva, Falcão, Ênio Andrade.... entre outros... e posso dizer que ouvi desses treinadores ideias que se praticam até hoje. Precisamos analisar o treinador, o profissional. E não importa onde ele tenha nascido. Quando vamos para o exterior, gostamos de ser bem recebidos, mas precisamos de suporte local. Temos a obrigação de dar o mesmo aos colegas que vem trabalhar aqui.

Perrone: Interessante essa ideia de colocar algum brasileiro para ajudar. Até porque é preciso saber como jogadores acostumados com o Brasil vão reagir a algumas coisas, como relógio de ponto na entrada. Já tinha visto isso em algum clube?

Toninho: O relógio de ponto eu não acho necessário. Tratamos com profissionais bem remunerados eles têm o dever de cumprir as obrigações. Entender esses comportamentos também faz parte e é por isso que defendo a ideia do auxiliar brasileiro. Além de indicar esses comportamentos típicos do brasileiro, ele sabe como pensa a mídia, quais são as abordagens jornalísticas, como o torcedor entende o jogo, o poder das organizadas. Além disso, sabem como pensam o próprio treinador que chega. O Mozer jogou a vida inteira em Portugal e Sorín foi formado na Argentina. Conhecem as duas pontas.

Alexandre Vidal/Flamengo Alexandre Vidal/Flamengo

Perrone: Sim, faz sentido. Agora, não dá para falar de Flamengo hoje sem falar do pênalti batido pelo Diego. Eu, particularmente, não gosto de cavadinhas. O que você achou?

Toninho: Não gosto de cavadinhas, o risco aumenta muito. No entanto, tenho algumas dúvidas. Achei que ele tentou bater no meio do gol e alto, o que é uma maneira em nada absurda de bater. O próprio Emerson Leão nos dizia que o pior pênalti para o goleiro é no meio e no alto. Para mim, pareceu que ele teve dúvida até o último segundo e, por isso, saiu sem força. Foi uma batida sem aquela "convicção". E é isso, a falta de convicção, que não pode vir de um atleta experiente em um momento desse.

Toninho: No entanto, quero falar sobre a falta de respeito com a qual vi tratarem o fato. O Diego é extremamente profissional e fez uma escolha errada. Não pode ter seu caráter julgado por isso.

Perrone: Claro, não deve ser massacrado por isso. Ele disse que estudou o goleiro e acreditou que pularia antes. E que não bateu forte porque perderia precisão. Você já teve jogador que batia assim? Ou costuma pedir para que não façam isso?

Marcello Zambrana/AGIF Marcello Zambrana/AGIF

Toninho: Não me lembro de algum companheiro que batesse assim e não costumo pedir, não. O que faço é sempre treinar pênaltis com três ou quatro atletas e definir quem bate. Logicamente, se algum desses usa muito a cavadinha, que não é minha preferência, vai acabar saindo dessa relação de batedores.

Perrone: Entendi. Ainda sobre pênaltis, outro que está sendo criticado é o Dudu, que não bateu pelo Palmeiras contra o Inter. Acho que se não se sente bem não tem que bater, mesmo sendo referência. E você?

Toninho: Ninguém tem obrigação de bater. O treinador é quem tem que treinar e escolher. Tem jogador que não tem a confiança ou que perdeu essa confiança. Mas tudo isso tem que ficar sob decisão do técnico. Desse ponto de vista, conclui-se que o treinador aceitou não colocá-lo na relação. Também é responsabilidade dele, não só do atleta.

Perrone: Penso do mesmo jeito. Toninho, valeu pelo papo, foi um prazer.

Toninho: Eu que agradeço Perrone. Foi um prazer voltar a falar com você. Grande Abraço.

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