O começo do fim

Copa América começa hoje para fechar o ciclo de grandes eventos no país e uma fase da história do torneio

Bruno Grossi, Danilo Lavieri, Marcel Rizzo e Pedro Lopes Do UOL, em São Paulo
Fernando Torres/CBF

Há 100 anos, Friedenreich, o Pelé dos primórdios do futebol no Brasil, fez o gol do título sul-americano da seleção brasileira na primeira Copa América realizada no país. Aquele torneio teve quatro participantes, Brasil, Uruguai, Argentina e Chile, e apenas um estádio usado, o de Laranjeiras, no Rio.

Anos terminados em 9 acompanham o histórico da Copa América realizada no Brasil. Houve o torneio de 1949 e o de 1989 (antes, o de 1922), e sempre o Brasil ganhou. A expectativa, portanto, cresce para o time de Tite que no ano de 2019 estreia nesta sexta-feira, contra a Bolívia, no Morumbi, às 21h30.

O Brasil volta a receber uma competição importante e fecha um ciclo que começou em 2007, com o Pan-Americano do Rio. O auge foi entre 2014 e 2016, quando foi sede da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. No torneio desse ano, usará parte do legado de equipamentos construídos ou reformados nessas competições.

Vidal Cavalcante/Folhapress Vidal Cavalcante/Folhapress

Legado da Copa e elefantes brancos

Dos seis estádios que serão usados nesta Copa América, quatro receberam partidas da Copa do Mundo (Arena Corinthians, Fonte Nova. Mineirão e Maracanã). A Arena do Grêmio, uma das mais modernas do país hoje, e o Morumbi (abaixo), reformado pelo São Paulo, completam as sedes.

Em 1989, na última vez que o país recebeu o torneio, foram quatro cidades (Goiânia, Recife, Salvador e Rio de Janeiro. O Brasil comandado por Sebastião Lazaroni foi campeão (ao lado, Valdo levanta o troféu), mas sofreu com críticas na primeira fase, jogando em um território em que, atualmente, a seleção navega em águas calmas: o Nordeste.

Hoje, 30 anos depois, Salvador também receberá a seleção na primeira fase. Dessa vez, o terreno hostil será São Paulo, onde o time de Tite fará dois jogos logo no início do torneio, em testes de fogo para a popularidade da seleção.

A organização da Copa América decidiu centralizar a competição em estados do sul e sudeste, com exceção de Salvador, para deslocamentos mais curtos. Inviabilizou, portanto, usar estádios da Copa-2014 que estão subutilizados, como as arenas de Manaus e Cuiabá. O Mané Garrincha, em Brasília, o mais caro do Mundial (R$ 1,4 bi), também ficou fora da Copa América, mas ganhou um amistoso pré-torneio, contra o Qatar, no dia 5 de junho. A estrutura, porém, deixou a desejar, mostrando as deficiências de uma arena que é pouco utilizada.

Luis Moura / WPP Luis Moura / WPP

Torneio não empolga o público

Por enquanto, a Copa América, em sua 46ª edição, não empolgou os brasileiros. Há jogos, como mostrou o UOL Esporte, com menos de 5 mil ingressos vendidos. É o caso de Japão x Equador e Bolívia x Venezuela, ambos em Belo Horizonte. Para a Conmebol, a tradição pode falar mais alto.

Temos o mais antigo torneio de seleções, um dos mais disputados e que pode levar nossas seleções de volta a grandes disputas no mundo. Acredito que teremos a melhor Copa América da história"

Alejandro Dominguez, presidente da Conmebol

Divulgação/Mowa Press Divulgação/Mowa Press

Um torneio em extinção

A Copa América de 2019, na verdade, é a última dos tempos sombrios da entidade, com contratos que renderam prisões por recebimento de subornos por parte de dirigentes. Três dos últimos quatro presidentes da Conmebol foram presos, e até um ex-presidente da CBF, José Maria Marin (foto), foi condenado nos Estados Unidos por receber dinheiro ilegalmente para vender os direitos comerciais dos torneios no continente - ele ainda nega as acusações.

A partir de 2020, a Copa América mudará de formato. Terá os mesmo 12 participantes, mas com mais jogos disputados. E um ajuste no calendário: será a cada quatro anos, somente em anos pares (adeus novo torneio em ano 9 no Brasil). Foi, em parte, pedido dos clubes, já que o torneio ocorrerá no mesmo ano que a Eurocopa, com liberação conjunta para ambos os torneios.

Mas há também a questão financeira: novos contratos foram assinados e um torneio em conjunto entre dois países, Argentina e Colômbia, pode render mais dinheiro e patrocinadores. A Copa América 2019, por exemplo, fechou apenas quatro cotas de patrocínio (GOL, TCL, Mastercard e Ambev), bem menos do que em edições anteriores.

"Estamos confiantes de estar no caminho certo para transformar o futebol sul-americano", disse Dominguez. A ver como vai se desenrolar o torneio.

Buda Mendes/Getty Images Buda Mendes/Getty Images

Uma Copa América sem sua maior estrela

Em um momento raro de desfalque, a seleção brasileira - e a Copa América - não terão Neymar. Uma das maiores estrelas sul-americanas do futebol Mundial, o brasileiro acabou envolvido em um turbilhão de polêmicas ao ser acusado de estupro por Najila Trindade no dia 1º de junho, enquanto se preparava com o elenco brasileiro em Teresópolis.

Em meio a visitas policiais à concentração do Brasil e a formação de uma tempestade midiática em torno do caso, o camisa 10 da seleção brasileira foi a campo no amistoso diante do Qatar no dia 5, com o apoio de Tite e dos demais jogadores. Foram apenas 17 minutos até que deixasse o gramado chorando, carregado.

O que tirou Neymar da Copa América não foi o escândalo, mas uma lesão. O atacante sofreu uma entorse no tornozelo direito, o mesmo lesionado em 2018, às vésperas da Copa Mundo. Com pelo menos um mês de recuperação previsto, foi cortado e deu lugar a Willian, do Chelsea.

Sem o craque do PSG, a Copa América ainda tem em Messi o seu maior expoente. Nos gramados brasileiros, o argentino terá a companhia dos uruguaios Cavani e Suárez e do brasileiro Coutinho dando sinais de recuperar sua melhor forma.

Marcelo Endelli/Getty Images Marcelo Endelli/Getty Images

Argentina

Depois da conturbada Copa do Mundo sob o comando de Jorge Sampaoli, foi preciso até puxar Lionel Messi de volta da aposentadoria da seleção. Os argentinos tiveram um período de entressafra que enfraqueceu o elenco e apostam em jovens promissores para fazer companhia às estrelas que não prosperaram com a seleção principal, como Agüero e Di María. Lautaro Martínez é o grande símbolo dessa renovação.

Stuart Franklin/Fifa/Getty Images Stuart Franklin/Fifa/Getty Images

Chile

Atual bicampeão do torneio, o Chile já não tem mais a mesma força dos últimos anos. Não à toa ficou fora da última Copa do Mundo. Seus principais astros já estão em queda, pela idade ou pelo rendimento, como Alexis Sánchez e Arturo Vidal. Quem está no comando da seleção chilena é o colombiano Reinaldo Rueda, que recentemente treinou o Flamengo e chegou a ser vice-campeão da Copa Sul-Americana.

CRIS BOURONCLE / AFP CRIS BOURONCLE / AFP

Colômbia

A dinastia do argentino José Pekerman terminou e o escolhido para manter a Colômbia em alta no futebol mundial foi o português Carlos Queiroz. Os colombianos são apontados por treinadores rivais como um adversário de peso e têm deixado os torcedores do país animados. James Rodríguez e Falcao García são os líderes de um time que tem conhecidos dos brasileiros: Cuéllar, do Flamengo, e Mina, ex-Palmeiras.

Pablo PORCIUNCULA BRUNE / AFP Pablo PORCIUNCULA BRUNE / AFP

Uruguai

Outra seleção que chega com status de favorita. O técnico segue sendo o histórico Óscar Tabárez, mas o Uruguai não se resume mais a suor e raça. O meio de campo tem jovens para municiar a estelar dupla de ataque formada por Luis Suárez e Edinson Cavani: Valverde, do Real Madrid, Vecino, da Inter de Milão, Bentancur, da Juventus, e Torreira, do Arsenal. Arrascaeta, mais um do Flamengo, pode ganhar mais espaço.

Renato Pezzotti/UOL Renato Pezzotti/UOL

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