Futebol feminino em xeque

Ícone da seleção pré-Marta, Sissi do Amor analisa o atual momento do Brasil e diz: "o preço pode ser alto"

Ana Carolina Silva Do UOL, em São Paulo
Doug Pensinger /Allsport

Hoje em dia, pensar em seleção feminina de futebol é pensar em Marta. Mas, antes da atual melhor jogadora do mundo ter a chance de se tornar o rosto do futebol brasileiro, Sissi do Amor foi craque e teve de escancarar portas emperradas. Cada chute dado na bola ou nas cabeças de suas bonecas era um ato de revolução em um país que já havia proibido a modalidade para as mulheres.

A partir de 7 de junho, o Brasil acompanhará pela TV Globo os jogos da Copa do Mundo, com a seleção feminina em rede nacional, em uma realidade bastante diferente daquela vivenciada por Sissi. Ela e outras atletas tiveram muito trabalho até abrir esse caminho para as novas gerações.

Mas não se engane: embora faça questão de proteger as jogadoras, que carinhosamente trata como "meninas", a ex-jogadora está apreensiva.

O desempenho do time comandado por Vadão não tem sido bom. Às vésperas da estreia no Mundial da França contra a Jamaica, no dia 9, a seleção brasileira carrega o peso de nove derrotas consecutivas. A lista de últimos rivais incluiu equipes fortes, como Estados Unidos (1º no ranking), Inglaterra (3º), França (4º) e Canadá (5º), mas faz muita gente temer por uma campanha fraca na Copa.

Sissi conversou com o UOL Esporte para dar seu panorama sobre a atual equipe canarinho, possíveis problemas da atual gestão e, principalmente, quais seriam as consequências de uma Copa do Mundo mal-sucedida.

As respostas de Sissi são pontuadas por expressões de torcida, como "oh, meu Deus, tomara", e um sonoro "pelo amor de Deus", que exclamou após contar que tinha de "ficar calada" sobre o que a incomodava em seus tempos de seleção. Antes de ser a craque que se dividiu entre o silêncio e o orgulho quando vestiu a camisa 10 do Brasil, ela é torcedora.

Sissi, que completará 52 anos uma semana antes do primeiro jogo das brasileiras na França, compartilha abaixo suas dúvidas e revela esperança, pautada principalmente pela forte empatia que sente pelas colegas de camisa.

As críticas ao grupo

A seleção feminina vai estrear na Copa com uma sequência de nove derrotas nas costas. Você está preocupada?

É claro que é preocupante, mas acho que as pessoas procuram sempre só comentar a respeito do que não está dando certo. Eu, por outro lado, procuro ver os dois lados. Mas as derrotas servem para que a gente aprenda. É claro que a gente procura consertar o que está errado, e é por isso que o Vadão está à frente da seleção. Eu espero que as derrotas tenham servido como lição e que eles possam consertar o que está errado. Não é fácil sair com aquele pensamento de 'ninguém está acreditando porque a gente perdeu nove jogos'. É claro que, como brasileira, eu estou torcendo. Não tem como. Mas será que dá tempo de arrumar? Será que tiveram tempo de consertar o que está errado? Eu vejo mais pelo lado das meninas, porque acho que ninguém entra em campo para perder. As pessoas têm de ser mais sensíveis em relação a isso. Não será bom para o futebol feminino se a seleção não fizer um bom trabalho na Copa.

As críticas à comissão técnica são injustas?

Não é questão de ser injustiça, porque quem entende de futebol sabe que tem algo que não está dando certo. Mas aí, veja bem, as pessoas criticam as meninas! O grupo todo sofre muito. Eu já vivenciei isso de estar em um grupo criticado. É por isso que falo que vejo os dois lados. Eu não queria estar na pele do Vadão, sem dúvida. Não é fácil, mas a gente sabe que tem algo que não está clicando. O que é? Eu não sei se sou a pessoa certa para dizer o que não está funcionando. Eu vejo o lado das meninas porque a crítica está sendo bem pesada. A gente tem de respeitar as atletas, elas são pessoas. O brasileiro vive de resultados, ninguém fica satisfeito de ficar em segundo lugar ou perder nove jogos seguidos.

Se a seleção masculina tivesse perdido nove jogos seguidos, não sei se o treinador teria ficado no cargo.

David Cannon /Allsport David Cannon /Allsport

"Não podem começar o Mundial derrotadas"

Você fala bastante sobre a sua preocupação com as meninas. Pensando como treinadora, como você trabalharia o emocional delas agora, quando as nove derrotas já aconteceram e o país está desconfiado?

A sua autoestima fica lá embaixo, querendo ou não. Ainda mais porque a gente perdeu para seleções de quem a gente nunca perdeu antes. Elas estão sabendo que tem muuuuuita gente não acreditando. Não se apaga nove derrotas de uma hora para outra. Não adianta tentar fingir que não aconteceu. O que vai ser fundamental é elas se unirem, a união vai ser o fator principal.

A gente não pode questionar a qualidade que esse grupo tem, mas agora vai depender de cada uma se unir. Não é a Marta que vai ganhar o Mundial sozinha, não é a Formiga. Mais do que nunca, vai depender da união delas. Cada uma vai ter de confiar na outra. Mas o grupo já vai para o Mundial com a autoestima abalada, é a comissão sendo questionada. Agora, mais do que nunca, vai depender do que elas vão fazer dentro de campo. Não é esquema tático que vai ganhar os jogos.

Já perdi para times que você fala, 'nossa!', e já perdi por 10 a 0. E no outro a gente vai lá e ganha desse time. É consertar os erros, procurar o que aprendeu nessas derrotas para que elas não se sintam derrotadas já no primeiro jogo, contra a Jamaica. Não podem começar o Mundial derrotadas.

Mesmo de longe, seu olhar de jogadora e treinadora deve ajudar a identificar alguns problemas na seleção atual.

Eu assisto aos jogos, e é claro que hoje vejo com outros olhos. Vejo como jogadora e como treinadora. Eu sei o que rola, dá para perceber, mas não vou ficar metendo pau. Não quero ser mais uma pessoa a meter o pau. Eu deixo para os torcedores, metam o pau vocês! Eu comento com meus amigos, a gente discute, a gente comenta, mas prefiro não expor o que penso.

Eu me preocupo com as meninas. Eu quero respeitar a pessoa do Vadão, o profissional que ele é. Mas é ele que vai ter de se explicar se a seleção não for bem. Não vou ser eu.

O que vai ser fundamental é elas se unirem, a união vai ser o fator principal

Sissi, sobre o atual elenco da seleção

Concorrência com o masculino

Na Rio 2016, os erros da seleção masculina nos primeiros jogos fizeram o povo projetar muita expectativa no time feminino, e, quando a equipe caiu diante da Suécia, a frustração foi potencializada. Ter a Copa América masculina ocorrendo simultaneamente é ruim?

Vão começar as comparações, vão comparar a jogadora com o jogador. É uma coisa que a gente tem de estar preparada para enfrentar. Se a seleção feminina for bem, vão começar a criticar o masculino e projetar essa expectativa para cima delas. Não sei se é o momento ideal para ter a Copa América no mesmo período que o Mundial. Caramba, finalmente vamos ter a TV aberta mostrando os jogos, e agora a gente tem a Copa América ao mesmo tempo?

É uma situação delicada, mas as meninas têm de estar preparadas. A Marta é Marta, o Neymar é Neymar. Comparar homens e mulheres é uma coisa absurda, algo que não acontece aqui nos EUA. Claro que comparam em relação à igualdade de direitos, mas não quando o assunto é talento ou desempenho. Por que a Copa América tem de ser no mesmo período que o Mundial? Meu Deus, as comparações, as cobranças? Se o Brasil se der bem, oh meu Deus, tomara... mesmo assim a Copa América pode atrapalhar. Parece que não tem jeito de ganhar: mesmo se a seleção feminina for campeã, e o masculino estiver em crise ou for campeão, a conquista das meninas pode ser ofuscada.

Doug Pensinger /Allsport Doug Pensinger /Allsport
Gareth Cattermole - FIFA/FIFA via Getty Images Gareth Cattermole - FIFA/FIFA via Getty Images

Sissi no Brasil é uma possibilidade?

Depois de brilhar em São Paulo, Palmeiras e Vasco no fim dos anos 1990, Sissi seguiu para os Estados Unidos em 2001 e por lá ficou. Ela começou a trabalhar como assistente técnica quando ainda jogava pelo Sacramento Storm, da Califórnia. Hoje, está estabelecida como treinadora do clube Walnut Creek, onde trabalha com meninas nascidas em 2007, e da faculdade Solano College.

"O fundamental é trabalhar estas categorias de base menores, porque quando chega nas maiores você trabalha menos a parte técnica, que já foi desenvolvida lá atrás, e mais a parte tática. Trabalhar com estas meninas foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Ser treinadora é como ser professora", contou. "Elas ficam encantadas e comentam que viram a Marta fazendo tal coisa, então pedem para eu ensiná-las. Elas adoram o futebol brasileiro, adoram a ginga, a criatividade."

Questionada sobre a possibilidade de um dia retornar ao Brasil como treinadora, Sissi demonstra sentimentos conflitantes. É grande sua vontade de ajudar a desenvolver o futebol feminino por aqui, mas também a preocupação com o tratamento recebido pela modalidade.

"Ai, ai. Depende, boa pergunta. Para eu sair daqui, teria de ser algo bem tentador. O americano é bem organizado, eles valorizam muito isso. Você tem um planejamento completo e sabe para onde seu time vai o ano inteiro. Não dá para largar isso. Imagina começar um trabalho no Brasil e no ano seguinte um presidente novo decidir reduzir o investimento? Eles investem pesado aqui. A vida é assim: trabalho de segunda a domingo, tenho mais ou menos um dia de folga. Mas não tenho do que reclamar."

Lutz Bongarts/Bongarts/Getty Images Lutz Bongarts/Bongarts/Getty Images

A Marta é a Marta

Diante da possibilidade de Marta se aposentar sem um Mundial, você se incomoda quando a comparam com o Messi?

Para você ser uma jogadora fora de série, precisa ganhar o Mundial? As pessoas podem até falar que o Messi não ganhou a Copa, mas reconhecem que o Messi é o Messi tendo ou não ganhado algo com a Argentina. É um absurdo quando as pessoas querem ficar comparando. Mas todo mundo acha que você só pode ser o melhor se ganhar o Mundial. Eu discordo completamente.

A gente tem de deixar de comparar. A Marta é a Marta, o Messi é o Messi, o Pelé foi o Pelé. Do mesmo jeito que ela não é o 'Pelé de saias', também não será igual ao Messi se não ganhar uma Copa. Se a Marta se aposentar sem um Mundial, será uma pena. Aqui [nos EUA] as pessoas respeitam a Marta. Questionam como a Marta não tem o mesmo reconhecimento que os homens no Brasil. Se a Marta tivesse nascido aqui nos EUA, tudo seria bem diferente. É claro que tem gente no Brasil que valoriza e respeita o que a Marta já fez e conquistou com a seleção, mas tem sempre aquelas cobranças. Você nunca vai satisfazer a maioria, infelizmente.

E ouvir a Sissi falando sobre a Marta com tanta reverência é ainda mais significativo.

Aqui nos EUA, quando você pergunta 'de quem você gosta?', elas e eles falam da Marta. Elas conhecem a Marta, respeitam a Marta. Eu falo por experiência própria, ouço isso direto aqui. Se a Marta não conseguir algo pelo Brasil, ninguém pode não respeitar o que ela já fez. O futebol feminino cresceu muito no mundo inteiro graças a ela.

Tentam muito comparar as gerações. Eu fiz o que fiz pela seleção, e isso faz parte da história. Mas não gosto que façam comparações. Ontem foi a minha geração, hoje é a geração da Marta, e amanhã pode ser outra pessoa, mas a gente é bem diferente. O povo gosta de criar uma rivalidade, não tem nada disso! Nunca fui e não quero ser rival da Marta. Respeito a Marta e a admiro como profissional. Infelizmente, eu não tive a felicidade de jogar com ela.

As pessoas têm de respeitar a nossa geração, porque foi uma geração que sofreu para caramba e não teve o mesmo reconhecimento. Mas não vou ficar torcendo contra, de jeito nenhum! Se o futebol feminino perder, todas perdemos. Se a seleção for bem, vai ser bom para o futebol feminino em geral. Não é que vai ser bom para a Marta, para a Formiga, para essa comissão técnica, para A ou para B. Vai coroar essa geração, mas vai ser bom para o futebol feminino de modo geral. Se for mal, o preço pode ser alto.

Se o futebol feminino perder, todas perdemos. Se a seleção for bem, vai ser bom para o futebol feminino em geral

Sissi avalia o impacto que o Mundial pode ter para o futebol feminino

Trabalho de base é essencial

Esse preço alto pode afetar o desenvolvimento do feminino no Brasil justo no momento em que os clubes estão dando alguns passos com a obrigatoriedade?

Eu espero, do fundo do coração, que a gente não volte ao zero. Para quem investe nisso, é questão de retorno. Eles pensam: o que é que o futebol feminino vai oferecer? O que eles têm a ganhar dando suporte para o feminino? Espero que os clubes que agora resolveram apoiar o futebol feminino não voltem ao desinteresse. Querendo ou não, a continuação disso vai depender do sucesso da seleção brasileira. Tomara! Tomara que isso não aconteça.

O futuro da seleção brasileira depende deste trabalho dos clubes?

Exatamente! O trabalho de base é essencial. Não é só trabalhar com seleções de base, tem de ser trabalho de base nos clubes. Os clubes serão os responsáveis por isso. Por que você acha que a França hoje está dominando? O Japão, a Austrália, a Inglaterra? Porque estão trabalhando com as categorias de base. O Brasil está ficando para trás por causa disso. A seleção americana está sempre se renovando, e as outras também. Por que o Brasil, com a quantidade de talentos que tem, não investe nisso? Quantas Martas a gente não poderia encontrar? Não adianta só querer cobrar resultado, é um trabalho no longo prazo. Tem de começar por baixo, eu vejo o que acontece aqui [nos EUA].

Tony Marshall/EMPICS via Getty Images Tony Marshall/EMPICS via Getty Images

Politicagem também no feminino

Considerando todas as Martas que não estamos revelando, como fica o futuro da seleção quando a Marta parar?

É complicado, porque estamos vendo a Formiga jogar a sétima Copa. A Formiga foi da minha geração! O povo está admirado aqui. Mas o que é que a seleção vai fazer quando elas se aposentarem? Realmente é de se preocupar, mas é o que eu falei: se você olhar bem pelo Brasil, tem jogadoras. Mas aí é o que eu falei antes para você: quem vai ser responsável para desenvolver esse trabalho de não ficar na dependência dessa geração que está agora? Daí vem uma coisa que foi foco quando a Emily [Lima] era treinadora da seleção.

Querendo ou não, a Emily não estava visando os resultados imediatos. A Emily estava visando dar chances para as jogadoras. Agora, se você quer colocar alguém à frente da seleção para conseguir os resultados, sinto muito, mas não vai dar certo. É preocupante, porque você não sabe qual é a nova geração. A seleção precisa de renovação e de experiência andando juntas. Eu não estou dizendo que elas deveriam ter parado. A Formiga joga muito, poxa, eu queria a Formiga no meu time! O que ela joga, caramba... Mas enquanto você se despede da Formiga e aproveita enquanto ela ainda está jogando, você já tem de começar a pensar que a Formiga não vai jogar para sempre.

O americano sempre fala que o brasileiro é diferente. O brasileiro tem aquela técnica que é natural, é imprevisível. Mas eles não entendem por que a gente ainda não chegou ao topo. É por isso que eles falam: 'imagina se a Marta tivesse nascido aqui'. Aqui, o futebol feminino tem seu próprio espaço, não só o espaço que sobrou do masculino. No Brasil, não. Como eles [homens] já ganharam cinco vezes, ficam lá no topo sozinhos. E o futebol masculino nunca foi crime no Brasil, como o feminino foi. Mas é preocupante, quem é que vai ser a próxima Formiga? Sei lá, meu.

Você citou o trabalho da Emily em tom positivo. Desde que a convocação para a Copa foi anunciada, muito se questiona o fato de que o Santos da Emily não teve atletas chamadas pelo Vadão.

Tomara que não tenha nada do tipo, porque eu acho que as jogadoras do Santos não merecem pagar um preço por seja lá qualquer problema pessoal que você tenha. Eu vi e assisti à seleção quando a Emily estava a frente, e deu para entender o que ela estava tentando fazer. Não é fácil, porque tem o fato de ser uma mulher à frente de uma seleção. Quando você não tem apoio total de cima, fica difícil mesmo.

Aí todo mundo fica querendo ver um erro para poder condenar. Ela não teve a chance de perder nove jogos seguidos. O Vadão teve. Caramba! Qual era o problema, então? Eu espero que não seja por isso [que as santistas não foram chamadas], porque, para mim, é questão de ter capacidade. Não é que um treinador homem não possa comandar a seleção feminina, não é isso. Mas se é isso que está rolando hoje, a ideia de que o Santos não tem jogadoras na seleção por causa disso, é uma pena.

Como eu já conheço os bastidores, a gente sabe que há politicagem. Quando eu fazia parte da seleção, você não podia falar. Se falasse, não voltava para a seleção. Tinha de ficar calada e aceitar o que eles diziam para você fazer. A gente tem de engolir muita coisa para fazer parte da seleção. É uma pena. É uma questão de você representar o país, não é só representar o Santos e a Emily. Pelo amor de Deus, né.

Você tinha de "ficar calada" para não sofrer consequências?

Eu não vou falar se é isso que está acontecendo hoje, porque não estou convivendo com elas. Eu vou falar o que aconteceu comigo: a gente teve de deixar muita coisa de lado para poder representar a seleção. Ficar quieta e não comentar muito. Porque você sabia que de repente poderia não voltar. Não sei como é o regime agora. O grupo tem de estar fechado com a seleção que foi escolhida. De repente, as meninas não estão falando nada porque deve estar tudo bem, vai saber. Mas elas devem estar incomodadas, porque ninguém quer perder. Duvido que não estejam incomodadas.

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