Eu não sou Ronaldo

Fábio Júnior conta como comparações com Fenômeno atrapalharam carreira: "Queriam que fizesse igual. Não dava"

Luiza Oliveira Do UOL, em Belo Horizonte
Eduardo Knapp/Folhapress

Ele era careca, atacante e goleador. Surgiu na base do Cruzeiro e estourou para o futebol jovem. Suas fortes arrancadas e finalizações certeiras chamaram a atenção e logo foi vendido à Europa. A descrição é perfeita para Ronaldo Fenômeno, mas estamos falando de Fábio Júnior.

Quase cinco anos depois da venda do Fenômeno para o PSV-HOL, o Cruzeiro parecia ter acertado na loteria de novo. O novo atacante fazia tantos gols que as comparações com Ronaldo foram inevitáveis. E o prejudicaram.

Fábio Júnior não teve o sucesso do Fenômeno. Diferentemente do melhor do mundo e herói do penta, não deslanchou na Europa, voltou ao Brasil e não conseguiu sequência em clubes grandes. Mas quem, em todo o planeta, igualou os feitos de Ronaldo? E quem disse que Fábio era o cara para isso?

Muitos podem achar que ele foi menos do que poderia ter sido. Para o próprio Fábio, foi o contrário. O menino que saiu do Democrata de Governador Valadares acha que sua carreira foi mais longe do que ele mesmo previa. Defendeu clubes gigantes do país, conquistou títulos e realizou o sonho de vestir a camisa da seleção brasileira. Hoje, aos 41 anos, ainda lida com a dor da aposentaria, no ano passado, mas afirma: é muito realizado.

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O peso de ser o 'novo Ronaldo'

Em sua estreia como profissional, Fábio Júnior marcou três gols na final do estadual contra o Atlético-MG e levantou a taça. No mesmo ano, ganhou a Bola de Prata da revista Placar como um dos melhores atacantes do Campeonato Brasileiro. A temporada quase perfeita fez o apelido pegar.

Você é comparado ao Fenômeno, então o que as pessoas esperam de você? Que você faça igual ao Fenômeno. E Fenômeno só tem um".

"Eu sempre fiz o meu melhor, mas nunca faria o que o Ronaldo chegou a fazer. Tanto que nós estamos aí até hoje eu não vejo ninguém do nível dele", analisa. Em 1999, Fábio foi vendido à Roma. Os italianos esperavam a chegada do 'novo Ronaldo'. "Na época, o Ronaldo já era o melhor do mundo. As pessoas esperavam que eu fizesse a mesma coisa. O que você faz se torna pouco perto da expectativa que as pessoas criaram. E isso atrapalha por causa da exigência e da cobrança".

Fábio só teve contato com Ronaldo quando foi convocado para a seleção brasileira. Ele se sentia honrado com as semelhanças, mas rejeitou o rótulo. "Sempre tentei me afastar da comparação e fugir ao máximo disso porque eu sabia que o Ronaldo Fenômeno estava em outro patamar. Mas era quase inevitável pelo momento. A cada jogo que eu fazia gols, as pessoas voltavam a falar. Demorou um pouco paras as pessoas notarem que eu não era o Fenômeno, que eu era só o Fábio Júnior".

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O galã do Cruzeiro

Artilheiro e comparado ao maior jogador do momento, Fábio Júnior viu sua vida mudar em menos de um ano. E não só em campo. Fora dele, virou celebridade. "Eu já não podia fazer coisas básicas como ir ao mercado, ao shopping, passear na rua. Tomou uma proporção gigante. Elas (fãs) ficavam horas na porta da minha casa, iam ao aeroporto com cartazes, mandavam aqueles carros de mensagem. Ganhei muito ursinho, recebia muita carta. Teve uma que tinha mais de 100 m. Loucura mesmo".

O amor das fãs gerou até situações constrangedoras. "Tinham algumas meninas que passavam um pouquinho do limite. Elas fechavam meu carro. Eu lembro de uma vez que a menina foi me dar um beijo no rosto e ao invés de ser do lado foi no meio. Isso me deixava até um pouco constrangido".

Mas ele guarda com muito carinho as lembranças da época e diz que o assédio nunca afetou seu trabalho. "Não esperava ter esse reconhecimento gigantesco. Mas eu sempre fui muito acessível e não tinha frescura, então meus fãs sempre tiveram muito contato comigo. Eu sabia que as pessoas me admiravam, mas ao mesmo tempo eu sabia como conduzir isso de uma maneira bem respeitosa".

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Fama na Europa durou pouco

A chance de ouro na carreira foi a negociação com a Roma por US$ 15 milhões aos 21 anos. Era janeiro de 1999. Mas Fábio Júnior não deslanchou na Itália. A Roma tinha comprado não só ele, mas o também centroavante Montella, pagando, para tirar o italiano da Sampdoria, o dobro que tinha gastado no brasileiro. E faltou paciência para a revelação entender que, na Europa, não se entra em toda partida.

"Na Europa, os jogadores atuam de acordo com o esquema tático do time no dia e com o adversário. O jogador que é titular vai para o banco e na partida seguinte volta. Eu não estava acostumado a isso. Meu negócio aqui no Brasil era ser titular... Jogava, jogava, jogava, jogava. Eu poderia ter tido um pouco mais de paciência, relevado algumas coisas. Eu não tenho dúvidas que eu poderia ter prolongado muito mais tempo meu na Europa porque eu tinha condições para isso".

Além disso, ele teve uma desavença com o técnico da equipe Fabio Capello, que o deixou ainda mais longe da titularidade absoluta buscada. Com o clima ruim na Roma, o atacante preferiu voltar ao Brasil, apesar de ter sido procurado por clubes da Espanha e de outros centros. "São coisas que a gente para e fala: 'se eu tivesse feito diferente, será que teria ficado dez anos na Europa? Teria encerrado a carreira lá?'. Poderia. Mas se eu ficar pensando nisso eu vou viver eternamente lamentando".

E em nenhum momento ele se arrepende de ter saído do país tão jovem. "Tenho certeza que foi a melhor escolha. Foi uma oportunidade muito boa. O Campeonato Italiano era um dos maiores do mundo na época, enchia os olhos e todo mundo tinha vontade de ir para lá".

A briga com Fabio Capello

Hoje, você faz cinco, dez gols e já vai vendido por não sei quantos milhões. Aí a pessoa comenta: 'Fábio, mas na sua época você foi vendido por tantos milhões'. É, mas na minha época nós fizemos 80 jogos e eu tive que fazer quase 50 gols. Não foi brincadeira, não. Eu tive que fazer muito gol pra ser vendido naquela época

Fábio Júnior

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O corte na véspera das Olimpíadas

Uma das maiores alegrias de Fábio Júnior na carreira foi defender a seleção brasileira. Mas a seleção também é motivo de uma grande frustração: ser cortado das Olimpíadas de 2000. Ele fez parte de toda a preparação e até marcou um gol na final do Pré-Olímpico, que deu o título ao Brasil. Mas o mau momento na Roma tirou sua chance de ir a Sydney.

"Foi ruim na época, bem frustrante mesmo. Após o Pré-Olímpico, eu voltei para Roma, mas não joguei mais. Enquanto isso, os outros jogadores estavam voando aqui no Brasil. Na lista final, fiquei fora. Foi ruim porque eu tinha participado de toda a preparação. Eu tinha sido campeão com a equipe, eu tinha feito gol. Eu estava confiante de que poderia ir e acabei não indo".

Ele se lembra até hoje de como foi assistir ao anúncio da convocação. "Tristeza demais. É muito ruim quando você está vendo uma convocação que você tem a expectativa de ser chamado e não é. É diferente de um amistoso. Era o meu sonho participar daquela Olimpíada".

"Fiquei em casa vendo meus companheiros que estavam comigo no Pré-Olímpico, acompanhei os jogos através de fotos, lembrei da alegria e do ambiente até a eliminação. Você fica imaginando que você poderia estar ali. Mas o Luxemburgo optou por convocar outros e a gente tem que respeitar".

Em Sydney-2000, a seleção do Brasil comandada por Vanderlei Luxemburgo tinha nomes como Ronaldinho Gaúcho, Lúcio e Alex, mas perdeu nas quartas de final para Camarões.

Fábio Júnior tirou do São Paulo o único título que Rogério Ceni não tem

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Vira-casaca?

"Minha passagem foi muito boa e fiz muitos gols pelo Atlético-MG. Os atleticanos reconhecem até hoje. Alguns críticos na época analisaram de uma maneira diferente, mas a gente tem que diferenciar uma análise destrutiva de uma construtiva. Muitas pessoas falavam coisas que não aconteciam, não davam o valor exato para o que eu tinha feito. Às vezes, colocavam muito peso no jogo em que eu não tinha jogado bem e pouco peso no que eu tinha ido bem. Uma maneira de induzir os torcedores a cobrar mais, a te criticar. Passei por isso".

Fábio Júnior, sobre o período que defendeu o Atlético após ser identificado com o Cruzeiro

O pênalti perdido contra o Cruzeiro

Faltou um empresário forte

Fábio Júnior tinha faro de gols e uma qualidade indiscutível como atacante. Até por isso, criou-se uma expectativa de que ele atuaria em times grandes durante toda sua carreira. Mas, após defender o Atlético-MG em 2005, ele saiu do país para atuar em centros menores, como Israel e Emirados Árabes, e perdeu espaço. Ele acredita que foi prejudicado por não ter empresários que fizessem boas negociações.

"O futebol hoje virou um mercado. Quando eu voltei em 2008, fiquei durante uns quatro meses buscando. Tinham pessoas que trabalhavam comigo como empresários. E eu sempre cobrava bastante para estarem divulgando, mostrando. Não acontecia nada na época e eu acabei largando os empresários por causa disso. Eu fiquei sozinho. A dificuldade era ainda maior".

Fábio também acredita que a alta rotatividade de clubes o atrapalhou. Quando pertencia à Roma, foi emprestado ao Palmeiras, ao Vitória de Guimarães-POR e duas vezes ao Cruzeiro. Em 2003, acertou com o Atlético-MG e passou por sete clubes até chegar ao América-MG, em 2010.

"Eu tive uma sequência de quatro anos só no América-MG. No Cruzeiro, eu joguei quatro anos, mas em três passagens. Nos outros clubes, eu ficava dois anos, aí aparecia uma oportunidade boa e eu sempre tinha propostas. A cada temporada aparecia algo e a gente optava por sair. Isso atrapalhou porque você acaba não tendo uma sequência grande dentro do clube, coisa que eu gostaria de ter tido".

Gilberto Marques/Gazeta Press Gilberto Marques/Gazeta Press

Muitos gols no Palmeiras. Só faltou o título

Fábio Júnior balançou as redes muitas vezes contra o Palmeiras. Mudou de lado em 2001. Seguiu marcando gols importantes, mas acredita que faltaram títulos para marcar sua passagem no Alviverde.

"Individualmente, para mim, foi muito bom. Eu consegui fazer gols. Fiz gols no Paulistão, no Brasileiro, nos dois jogos contra o Boca Juniors na Libertadores. A torcida sabe disso e reconhece. Eu sempre fiz o que eu me propus a fazer. Mas o que te marca em um clube é o que você conquista. Por não ter conseguido títulos, surge uma situação de desconfiança, de não ter conseguido fazer tudo aquilo que você fez nos outros clubes por onde passou. Faltou só o título".

Para Fábio, a eliminação na Libertadores para o Boca Juniors prejudicou muito a temporada. O Palmeiras caiu na semifinal em uma disputa de pênaltis no Parque Antártica após o jogo em Buenos Aires ter sido marcado por muitos erros de arbitragem. "Foi frustrante. Foi um jogo que me deixou bastante nervoso. A gente sabia que ia ser difícil, mas tínhamos possibilidade de passar. Se a gente tivesse tido um árbitro um pouco menos parcial, a gente teria classificado e poderíamos ter ganhado a Libertadores".

A passagem pelo Palmeiras foi curta e acabou no fim temporada de 2001, quando terminou o empréstimo com a Roma. Fábio teve que retornar à Itália e não teve uma sequência maior. "Não era vantagem para eles me deixar emprestado no clube por um, dois, três anos e o contrato vencendo lá. Eles tinham pago um valor muito alto e a Roma também queria vender, se fosse o caso".

Giuliano Gomes/Folhapress Giuliano Gomes/Folhapress

"O Fábio já era?"

Eu estava com quase 30 anos e tinha voltado para o Brasil depois de cinco anos fora. Joguei em Israel, nos Emirados Árabes e em um clube médio da Alemanha. Na época, esses centros não eram vistos nem falados, era considerado um futebol de nível baixo. As pessoas não sabiam se eu continuava jogando num nível bom e tinham muita restrição.

"Você vai se arrepender de ter contratado o Fábio".

"O Fábio não vai render o que vocês estão querendo".

"Ele já não é mais o que ele era antes".

"O Fábio já era".

Era sempre em tom de crítica, de um jeito pejorativo. Isso me chateava porque essas pessoas eram formadoras de opinião.

E o América-MG foi o clube que abriu a porta para eu ter esse recomeço (após passar pelo Brasiliense-DF). Isso me deu uma motivação muito grande e, ao mesmo tempo, eu pensava: "Agora eu tenho que me superar. Tenho que mostrar que eu tenho condições".

A cada jogo, eu ia me superando e consegui me destacar de novo. Mostrei para as pessoas que eu estava em plenas em condições, conseguia render em alto nível. Elas estavam erradas. Ouvi muita gente falar: "Pô, Fábio, você calou a minha boca. Eu tive que engolir sapo. Eu tive que ficar quieto".

Foram quatro anos e consegui ser artilheiro do estadual e do clube na Série B. Estive entre os dez maiores artilheiros do clube de todos os tempos, me tornei ídolo em um clube centenário. Eu tenho muita gratidão pelo América-MG.

Ormuzd Alves/Folhapress Ormuzd Alves/Folhapress

O camisa 9 não pode acabar

Fábio Júnior foi um camisa 9 clássico. A função que já foi tão nobre está cada vez mais rara no futebol. Na Europa, técnicos têm priorizado jogar sem um homem fixo na frente, preferindo atletas com mais mobilidade. Ele é contra essa tendência.

"Eu acho que você nunca pode abrir mão de um centroavante, um artilheiro. A função dele é fundamental. É quem está ali mais próximo do gol. É abrir mão da alegria do torcedor".

Tão tentando acabar com o centroavante, mas não vão conseguir não".

Fábio concorda que hoje em dia não dá mais para o atacante atuar como um "cone". No entanto, se tiver movimentação, pode ser muito útil para o time. Ele vê cada vez menos atletas com essas características e cita poucos nomes como Fred, Ricardo Oliveira e Leandro Damião.

"Tem muito velocista que é rápido, mas que na hora que chega na frente do gol não tem tanta precisão para finalizar. Coisa que o centroavante tem. Se você for um centroavante que consegue se movimentar pelos lados, abrir espaço e ao mesmo tempo chegar à área e fazer gols, toda equipe quer".

ALEXANDRE GUZANSHE/FOTO ARENA/AE ALEXANDRE GUZANSHE/FOTO ARENA/AE

É muito difícil parar

Fábio Júnior dedicou a vida inteira ao futebol e sempre buscou uma carreira longeva. Jogou até perto dos 40 anos e ainda queria mais. Tomou a decisão de se aposentar no ano passado, mas admite que é muito difícil. "Você tem que ter essa consciência que vai chegar um certo ponto e que precisa parar. É uma profissão que não tem volta. Não é igual a profissão de médico ou empresário que você tem para o resto da vida. Às vezes, até evito ver jogos porque dá saudades mesmo".

"Eu vou ser bem sincero: é ruim parar. Além de ser um esporte fantástico, em que todos estão voltados para ele, você quebra uma rotina que durou 20 anos. De uma hora para outra, não tem mais. Antes, você levantava de manhã e ia para o treino, agora acabou. Você levanta de manhã e vai fazer o quê? Você tem que se preparar bem para isso não te abalar até psicologicamente".

Fábio Júnior procurou o Cruzeiro para se despedir. Sua ideia era disputar o campeonato estadual de 2017 como ato final da carreira. Mas o clube não aceitou. "Ficaram de analisar e não tive retorno. Fiquei um pouco chateado porque eu achava que a recepção seria um pouco melhor. [Faltou um reconhecimento] porque poderiam ter falado que não daria e isso não ia nutrir nenhum tipo de esperança. O duro é falar 'vamos ver' e não darem o retorno. É ruim, aí fica chato".

Jonathan Junio/UOL Jonathan Junio/UOL

Pai de 5 filhos e pleno com a carreira

Fábio Júnior se candidatou a vereador após se aposentar, mas se decepcionou com a política. Agora, tem se dedicado à esposa Fernanda e aos cinco filhos, sendo a mais nova de apenas um mês. Ele ainda quer trabalhar com futebol, talvez como empresário. O mais importante é que está feliz. É muito realizado com a carreira que construiu.

"Eu me sinto muito realizado com a minha carreira. Eu não tenho que reclamar de nada. Só agradecimentos em todos os sentidos. É lógico que tem coisas que você fez que poderia ter repensado um pouquinho. Uma situação ou outra que você deixou de fazer e que hoje você para e pensa: 'poxa vida, eu poderia ter seguido por esse caminho'".

"Mas eu saí do interior. Na minha cidade, o único que conseguiu esse destaque fui eu. Todo mundo lá imaginava: 'o Fábio está no Democrata, mas vai ficar no Democrata'. Eu consegui jogar nos grandes clubes do meu estado, num grande clube da Europa, cheguei à seleção brasileira, fui artilheiro de campeonatos importantes no meu país, conquistei títulos importantes, fui ídolo de clubes que acompanhava desde criança. Eu sou muito satisfeito, muito realizado. A minha carreira toda foi muito bem conduzida. Eu consegui ir até além do que imaginava".

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