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Dudu abre o coração, minimiza o peso da "obsessão" palmeirense e diz que, se sair, cumpriu seu dever

Danilo Lavieri e Leandro Miranda Do UOL, em São Paulo
Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação

Obsessão de quem?

"A taça Libertadores, obsessão", diz uma das músicas mais famosas cantadas pela torcida do Palmeiras. Mas, para o craque do time, a importância dada ao principal torneio de clubes da América do Sul é exagerada.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Dudu se abriu sobre esse e outros assuntos. Mostrou-se consciente da própria importância para mudar a história recente do clube, disse que todos no Brasil torcem contra o alviverde e falou o que pensa sobre o pouco espaço que recebeu de Tite até aqui na seleção.

Se fica ou vai embora? Nem ele sabe ainda. Dudu reconhece o carinho que recebe da torcida, especialmente o tratamento dado à sua família. Mas deixa claro: precisa pensar no lado financeiro e, se deixar o Palmeiras, sai com a sensação de missão cumprida.

Vídeo: "Nunca imaginava que ia jogar no Palmeiras"

ALEJANDRO PAGNI / AFP ALEJANDRO PAGNI / AFP

"O Brasileiro é mais importante que a Libertadores"

A opinião é polêmica, mas é assim que Dudu vê o peso da Libertadores, o principal objetivo do Palmeiras em 2018. O time bateu na trave, parando no Boca Juniors na semifinal. "O pessoal sonha muito com Libertadores só porque dá a vaga no Mundial. Para mim, ganhar o Brasileiro é mais importante que a Libertadores, porque tem todos os times do Brasil. Quando começa o campeonato, tem 10 ou 12 times que podem ganhar", avalia.

A derrota no jogo de ida por 2 a 0 na Bombonera, com dois gols sofridos nos minutos finais, foi determinante. "A gente jogou com um grande time, que ganhou muitas vezes a competição, e, em sete minutos, deixou escapar esse título lá no estádio deles. Mas passou, a gente focou no Brasileiro e ano que vem vai ter outra Libertadores. Tenho certeza de que o time vai estar mais preparado ainda para a disputa".

E a confusão na final, que será disputada na Espanha após o ataque de torcedores do River Plate ao ônibus do Boca? "Acho que foi feio. Feio para o país deles, por estarem esperando um grande espetáculo. E não tinha condição nenhuma de jogar naquele dia. Mas isso é um problema deles, deixa que eles resolvem lá".

Marcello Zambrana/AGIF Marcello Zambrana/AGIF

"Todos torcem contra o Palmeiras"

Dudu já jogou em outros grandes do Brasil. Começou no Cruzeiro e, antes de ser comprado pelo Palmeiras em um dos "chapéus" mais famosos do futebol, se destacou no Grêmio. Mas vestir a camisa do Verdão é diferente de tudo o que já viveu. Por um motivo: ele sente que está no time mais visado do país.

"Aqui no Palmeiras tudo é mais. Não tem jeito: quando você não faz as coisas legais como eles [os torcedores] acham que tinha que ter feito, vão te cornetar muito mais. Porque você joga em um time que a imprensa... todos, não é a imprensa, mas todos torcem contra o Palmeiras. Todos os times da primeira divisão torcem contra o Palmeiras, eu acho, não tem como", diz.

"Mas a gente sabe disso. Sabe, também, que quando ganha aqui é mais. Tudo é mais. É bom, é gostoso ganhar aqui pelo Palmeiras".

Alexandre Schneider/Getty Images Alexandre Schneider/Getty Images

Dudu tem sua seleção: o Palmeiras

Seleção brasileira é um tema que faz Dudu sonhar. Ele quer disputar (e vencer) uma Copa do Mundo pelo Brasil, mas tem tido pouca atenção do treinador responsável pelas convocações, Tite, mesmo sendo protagonista do Palmeiras há quatro anos. Tanto que prefere nem assistir às convocações ao vivo. A última vez em que foi lembrado, aliás, foi em março de 2017, para jogos contra Paraguai e Uruguai. Dudu não entrou em campo.

Ele sabe que a concorrência em sua posição é pesada, com nomes como Neymar, Coutinho, Douglas Costa e Willian, mas não se vê em condição inferior. "Eu jogo em um dos grandes clubes do mundo também. Muitos que são convocados jogam na Europa e são reservas no clube. A gente sabe que eles têm uma história na seleção, mas eu jogo em um grande clube, tenho me destacado desde 2015 aqui".

Apesar disso, Dudu se diz "tranquilo" sobre seleção. "Tenho que fazer história aqui no clube. É legal ir para a seleção, vestir a camisa, mas tenho que ficar preocupado só aqui no Palmeiras. Venho ajudando, contribuindo da melhor maneira possível. E aqui é o mais importante".

Ricardo Stuckert/CBF Ricardo Stuckert/CBF

Brincadeira com Tite

Na comemoração do deca do Brasileirão, a torcida do Palmeiras mandou um recado direto para Tite: "Dudu é seleção". Tem até quem ache que o passado corintiano do técnico do Brasil pesa para o craque do Palmeiras não ser chamado. O jogador, que elogiou a convivência com o treinador e o trabalho dele à frente da equipe nacional, se diverte com a brincadeira.

"Acho que vale. Todo mundo fica falando que, às vezes, se eu estivesse jogando em outro time, ele tinha convocado. Não vem ao caso a gente falar o nome do time (risos)".

Diego Padgurschi /Folhapress Diego Padgurschi /Folhapress

"Se tiver que sair, cumpri meu dever"

O futuro de Dudu é uma incógnita. Ele tem contrato até 2022, mas já ficou muito perto de sair no meio deste ano, quando o Palmeiras recusou propostas pesadas do futebol chinês. Ficou a contragosto, mas fez um segundo semestre espetacular e foi o craque do Brasileirão. Agora, porém, ganhar dinheiro fora do país volta a ser uma possibilidade atrativa.

"É uma decisão difícil que a gente tem que tomar, mas acho que tem que pensar também na parte financeira. A gente é jogador de futebol e acaba a carreira muito cedo. E quando acaba, a gente não fez praticamente nada, né? Não terminou o estudo. A gente vai trabalhar só até 35, 36 anos. Então, tem que pensar também na parte financeira", pondera.

E ficar por uma década no Palmeiras, onde já ganha bem, e virar uma lenda do time como Marcos (ou como Rogério Ceni fez no rival São Paulo)? Não vale a pena? Dudu gosta da ideia, mas prefere ser realista.

"O fato é que no Brasil é muito difícil um jogador ficar esse tanto de tempo. Você falou em Marcos e Rogério Ceni, mas são goleiros, é difícil ter uma transferência, uma troca de clube. Espero continuar fazendo meu trabalho aqui, mas se tiver que ir, também tenho certeza de que cumpri meu dever aqui, que era levantar um clube que tinha brigado contra o rebaixamento, que, em 2015, estava se reconstruindo".

Dudu fala de...

Alê Cabral/AGIF Alê Cabral/AGIF

Felipe Melo

"Às vezes, tudo que ele fala toma uma proporção muito grande. Mas ele é um cara bacana, legal, amigo de todo mundo. Tem a personalidade dele, né? Como todos têm a sua personalidade. É diferente um do outro, mas ele está sempre se divertindo com a gente, brincando. A gente fica feliz que ele tenha vindo para o Palmeiras, por estar jogando bem agora. Quando começou, também vinha bem, mas, às vezes, as pessoas falam coisas que não são verdade".

Ale Cabral/AGIF Ale Cabral/AGIF

Deyverson

"É um cara legal. Passou grandes dificuldades, não jogou aqui no Brasil em grandes clubes e chega no primeiro clube grande, que é o Palmeiras. No começo, não estavam muito legais as coisas, a torcida não gostava muito. Agora, já virou o xodó da torcida. É assim mesmo: no Brasil você vai ser reconhecido por aquilo que você faz. Tem que fazer da melhor maneira e não pode deixar pegar um rótulo na gente, porque, depois, para desfazer é muito difícil".

Agência Palmeiras Agência Palmeiras

Alexandre Mattos

"Gosto muito do Alexandre. É um cara que me ajudou na vinda para cá, me apresentou um projeto. É um cara que fala a verdade, não mente. O que ele falar, você pode acreditar. Isso é muito importante no futebol: um cara que olhe no olho do jogador, fale a verdade, não extrapole nas mentiras. É um cara sensacional. De seis anos para cá, ganhou quatro Brasileiros. A gente sabe da importância dele para o clube e a gente ajuda bastante ele aqui também".

Ricardo Nogueira/Folhapress Ricardo Nogueira/Folhapress

Um novo Dudu

Dudu teve um começo difícil no Palmeiras. Disputado por Corinthians e São Paulo, foi protagonista da maior reviravolta do mercado da bola no começo de 2015, quando o Palmeiras entrou de última hora na negociação e atravessou os dois rivais. Com os holofotes sobre si, foi acusado de "chorão" e "cai-cai", perdendo um pênalti e sendo expulso nas finais do Paulistão contra o Santos. Mas, no fim daquele mesmo ano, veio a volta por cima, com atuação decisiva na final da Copa do Brasil, na revanche sobre os santistas.

Desde então, amadureceu. Como atleta e como pessoa. Hoje, com 26 anos, se vê diferente de quando chegou. "Teve aquele lance [a expulsão], um problema por ter um pouco de excesso de vontade, de ter pecado no primeiro jogo aqui contra o Santos, que errei o pênalti. Foi muita vontade de conquistar o título naquele Paulista, e eu fiz aquele episódio, mas acho que foi só aquilo. Tomava alguns cartões que não precisava, mas dali para frente não tive mais nada de indisciplina".

Dudu também reforça que nunca deu problema para o Palmeiras fora de campo, sempre foi pontual e se dedicou nos treinos. Mas reconhece que tem reforçado cada vez mais os cuidados com o corpo para render mais em campo. "Tem que procurar melhorar a cada ano. Neste ano, melhorei ainda mais a parte física, a alimentação, foi ao nutrólogo, fiz o trabalho que tem que fazer aqui no Palmeiras. Quem me acompanha no dia a adia sabe que, sempre, 13h30, 14h no máximo, estou chegando para fazer meu trabalho".

O "chapéu" que conquistou os palmeirenses

A torcida sempre gostou de mim, desde o primeiro dia. Acho que só de ter trocado Corinthians e São Paulo para vir jogar no Palmeiras já bastou para conquistar o carinho da torcida. Aí vou, consigo títulos, faço grandes jogos, viro o principal jogador, artilheiro, principal que dá assistência... Fico feliz por isso, por ter conquistado todo esse carinho, ser esse símbolo que todo mundo fala dentro de campo, de ter correspondido às expectativas

Dudu

Dudu, lembrando o "chapéu" em cima de Corinthians e São Paulo em 2015

Só tenho que continuar fazendo isso dentro de campo. E agradecer o carinho que sempre recebo deles [torcedores], que têm carinho pelos meus filhos, pela minha esposa. Onde eles vão, tratam muito bem. Às vezes, tratam eles melhor que eu [risos]. Mas fico feliz por isso, por esse carinho. Eles também sabem o carinho, a vontade que tenho de estar participando desse clube, de jogar no Palmeiras, isso pode ter certeza de que nunca vai faltar

Dudu

Dudu, sobre a relação da torcida do Palmeiras com sua família

LEONARDO BENASSATTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO LEONARDO BENASSATTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Ser capitão? Não, obrigado

No meio de 2018, Dudu tomou uma decisão pouco comum no futebol: pediu para deixar de ser capitão do Palmeiras. Ele, que havia recebido a faixa de Cuca em 2016, achou que estava na hora de sair um pouco de cena e colocar outros atletas sob o holofote em um momento delicado da temporada.

"Alguns outros jogadores tinham de pegar um pouco de responsabilidade aqui dentro do time. Não era só eu que tinha que carregar tudo. Eu decidi e acho que fiz o correto. Conversei com todo mundo que tomava conta da minha carreira, minha família, minha esposa, expliquei para ela tudo certinho. Fomos dividindo isso ao longo do ano e chegou ao fim e conseguimos conquistar o Brasileiro. Acho que foi uma atitude correta naquele momento", explica.

Apesar de não usar mais a faixa, Dudu tem em campo o mesmo comportamento de quando era capitão. Ele sabe que é um dos jogadores mais respeitados do elenco e tem liberdade para cobrar os companheiros.

"Mas procuro falar bem pouco. A gente sempre tem que escutar mais do que ficar falando muito. Falo com os companheiros, mas você não me vê gritando com ninguém, falando coisas que não tenho que falar. Procuro falar, respeitar todo mundo para ser respeitado. Isso é muito importante na vida não só do jogador, mas do ser humano, de todo mundo que vive e convive em sociedade".

Reprodução/Globo Reprodução/Globo

O craque noveleiro

O passatempo preferido de Dudu fora dos gramados é uma das paixões nacionais e já causou até discussão com a mulher. "A Mallu até briga comigo porque eu vejo muita novela. A gente até deixa de sair para ver novela", ri o jogador, que gostou da última trama das 21h da Globo, Segundo Sol - principalmente da personagem Laureta, interpretada por Adriana Esteves, lembrada por ele como aquela "mulher meio brava".

E se a TV não está ligada na novela, certamente está sintonizada em algum jogo de futebol. Ao contrário de outros jogadores, como Neymar e Ronaldinho, Dudu gosta de acompanhar tudo o que pode. "Até jogo da base eu vejo. Qualquer campeonato. Gosto muito. Quando vou lá em Goiânia com meus amigos, vou ver os jogos do campeonato de terrão. É minha vida, o que sei fazer".

E quem é o jogador preferido? Pode ser uma surpresa para muitos. "Gosto muito do Ribéry [atacante francês do Bayern de Munique], por achar que é um pouco parecido o estilo de jogo, pela posição". Queria jogar com ele? "Queria jogar no lugar dele", ri Dudu.

Jogo rápido

A decepção, o sonho, o melhor com quem jogou...

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