O domingo era dele

Elia Jr. conta como Show do Esporte da Band moldou o esporte na TV antes do surgimento dos canais fechados

Gabriel Carneiro e Napoleão de Almeida Do UOL, em São Paulo
Arquivo Pessoal

Eram 11 horas, às vezes 12 horas de programação ininterrupta. Não era fácil.

Anos antes da criação dos canais fechados, o Show do Esporte da Bandeirantes monopolizava a paixão do brasileiro por futebol e outras modalidades, sem concorrência na TV aberta. O time de Luciano do Valle era o dono do domingo. E o apresentador Elia Júnior era um rosto onipresente, da manhã até a noite. 

O mega programa dominical revolucionou o jeito de transmitir esporte na TV do país nos anos 80 e 90. O Show do Esporte ensinou o brasileiro a torcer por vôlei. Com Elia Júnior no comando, a atração ainda resgatou a idolatria por Emerson Fittipaldi e criou ídolos improváveis, como Maguila no boxe e Rui Chapéu na sinuca.

Elia sofreu quando a Band preteriu o esporte e viveu momentos duros fora da emissora no começo dos anos 2000. Hoje, o veterano de quase 40 anos de carreira experimenta a fase madura no BandSports. A pedido do UOL, o antigo parceiro de Luciano do Valle revisita esta fase romântica da TV, relembra transmissões (até sem camisa) e diz não entender por que a relação com o ex-colega Silvio Luiz esfriou.

"Eu era o suprassumo"

Foi muito difícil porque, na verdade, você é impelido a sair. Você não sai porque quer. Você sai porque as condições estão mudando

Elia Jr, sobre sua saída da Band em 1999

Sai Luciano, entra Hawilla

A chegada do, então, novo milênio trazia uma série de expectativas de mudança e vontade de modernização. Segundo Elia, esse espírito afetou também a televisão brasileira: a começar pelos direitos de transmissão, que ficaram mais caros.

Em 1999, a Band cedeu a produção do Show do Esporte à empresa Traffic, então de propriedade do jornalista J. Hawilla. Os novos responsáveis tinham como intenção brigar pela audiência dominical, que na época passava por uma batalha entre Faustão (Globo) e Gugu Liberato (SBT). 

A chegada de Hawilla representou um ponto crítico. O programa mudou radicalmente, usando elementos de entretenimento, games e até dicas fitness. Uma orientação que ia contra o que o Show de Esporte havia construído até aquele momento e o que Elia Jr. acreditava ser o melhor caminho para um programa esportivo.

"Eles tinham uma ideia de que o Galvão fosse o melhor narrador no momento, que o Fernando Vannucci talvez fosse o melhor apresentador, e eles tinham essa ideia. E eu respeito. Respeitei, mas não concordava", disse. 

"Eu, me conhecendo, saberia que não ficaria feliz e você fazer uma coisa infeliz não dá certo." E, então, Elia Jr se despediu do canal e da vida que levava até então.

Curiosamente, não haveria Elia Jr. não fosse Hawilla. Os dois se conheciam de longa data, quando um jovem José Elia Júnior chegou à rede Globo. Foi o veterano quem forçou a troca para o nome que o consagrou. "Tem que ser dois nomes só. Elia Júnior", dissera à época. "Foi interessante, porque o cara que me deu o nome, foi o cara que quando chegou aqui na Band em 1999 pra 2000 acabou ocasionando a minha saída".

Reprodução/Twitter Reprodução/Twitter

Período de ostracismo

"Foi muito trabalhoso entender que eu não trabalharia mais na Bandeirantes. Pra você ter uma ideia, a Bandeirantes era canal 13. Na minha casa, as minhas filhas colocavam pai ao invés do 13", resumiu Elia Júnior.

Era a vida após o Show do Esporte.

Quando a Traffic assumiu o comando do departamento de esporte da Band, em 1999, aos poucos as coisas foram mudando. Elia respeitou os novos tempos, mas decidiu sair. 

Quem estava acostumado ao ver o apresentador todo domingo na TV estranhou. Elia foi para Venezuela trabalhar um tempo na DirecTV. Depois teve uma passagem breve pelo SBT, onde o chefe Silvio Santos não costuma valorizar muito o esporte. Quatro anos de distância, até que os caminhos do jornalista voltaram à Band em 2004.

"Me chamaram para fazer a Olimpíada de Atenas. O BandSports estava no começo. Eles precisavam de um âncora que pudesse ficar, assim, quatro horas no ar, sem nenhum tipo de roteiro e com a Olimpíada rolando para fazer um grande programa de quatro horas", relembrou o jornalista, que hoje apresenta programas no BandSports e comanda atrações na Rádio Bandeirantes e Rádio Trânsito.

Acervo pessoal Acervo pessoal

Os donos do domingo

Com sinal verde da direção da Bandeirantes, Luciano do Valle criou ao longo dos anos 80 um novo conceito de transmissão de esporte na TV. Muito antes do "nascimento" de SporTV, ESPN Brasil e outros canais similares, o narrador preencheu a grade de domingo com futebol e outras modalidades.

O Show do Esporte é a referência de programa de esportes na televisão brasileira, mudou a trajetória da televisão e do esporte no Brasil. O Luciano era um sonhador. Sonhava em chegar à lua. A gente podia não conseguir, mas ele tentava e fazia a gente tentar"

Elia Júnior, ex-apresentador do Show do Esporte

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Audiência nas alturas

"A audiência normal era cinco, seis pontos, na abertura, às 10h. Depois, ia para o Italiano, já dando sete, oito pontos. O aspirantes dava 12, 13. O compacto das 18h dava 17, 18 pontos. Uma luta do Maguila dava 22 pontos."

UOL UOL

Substituindo Juarez

"Fui com o Luciano ao Mundial de basquete (1986). Aí aconteceu um problema em São Paulo. Quem apresentava era o Juarez Soares. O Luciano falou: 'moleque, volta pra lá para apresentar'. Era para ficar um mês e acabou ficando."

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Via pouco os filhos

"Tenho uma netinha, cuido muito. Aproveito os finais de semana, feriados, sou muito família agora, coisa que eu não era. Conversando com uma filha, ela falou: 'pai, você foi me reconhecer quando eu tinha 9 anos'. E é uma verdade."

Kelly Fuzaro/Band Kelly Fuzaro/Band

Para ele, Band errou ao "ressuscitar" Show do Esporte

Em 2018 a Band tirou a marca "Show do Esporte" da gaveta para apostar numa nova atração, mesclando esporte e entretenimento, com Milton Neves. Após um começo difícil em audiência, a emissora optou por se concentrar só no futebol e melhorou os números. Mesmo assim, o programa foi cancelado após alguns meses.

Hoje, ocupando outro espaço dentro do Grupo Bandeirantes, no canal fechado BandSports, Elia Júnior diz ter entendido a iniciativa como um erro:

"Cada um tem o direito de fazer o que quiser. O nome é da Band. O Show do Esporte não era meu, não era do Luciano. Era da Band. Eles puderam usar. Acho que usaram mal. Mas esse carro um dia foi campeão do mundo, esse carro maravilhoso, agora você vai colocar pra correr ali na rua? Mas é teu carro. Faz dele o que achar melhor."

Jornalismo e esporte

Não gosto de ser saudosista, mas acho que o repórter deixou de ser tão investigativo. O repórter antigo, até pela falta de ferramenta, como a internet, não tinha tantas condições como hoje

Elia Júnior

Elia Júnior, sobre a atuação do repórter da época do Show do Esporte e o de hoje

Hoje em dia, o jogador de futebol quase não fala de política. Hoje, parece que o jogador é proibido de falar de política, até porque, infelizmente, a maioria absoluta é muito despreparada

Elia Júnior

Elia Júnior, sobre o posicionamento de atletas sobre temas fora do esporte

Nesse contexto, Elia analisa a Copa do Mundo da Rússia e a cobertura da imprensa brasileira sobre Tite, Neymar e a performance do Brasil no torneio. Desde que iniciou na profissão, foi apenas o segundo Mundial que não cobriu in loco - o outro foi o de 2002, quando estava longe da TV.

"Acompanhei de forma distante e fiquei impressionado com o que estava acontecendo na Rússia", lembrou. "Não gosto de julgar quando não estou fazendo parte do processo, mas pelo que ouvi, as perguntas eram sempre mais do mesmo. Não eram de questionamento, em nenhum momento colocavam o treinador da Seleção Brasileira em xeque para explicar por que, por exemplo, o Neymar não estava explicando por que caía tanto".

Acervo pessoal Acervo pessoal

"As perguntas não checavam, por exemplo, aquilo que estava acontecendo com a Seleção Brasileira e aquilo que poderia vir a acontecer. Inclusive o que aconteceu, que foi a desclassificação da Seleção Brasileira pra Bélgica. Ou seja: achei que a gente deixou muito a desejar nos questionamentos. E quando eu digo a gente, somos todos jornalistas, todos deixamos muito a desejar".

"Antes era mais fácil. Você pegava o jogador no campo. Hoje tem sala de entrevista e só aquele jogador é destinado para a coletiva. Mas eu acho que não é porque é mais complicado hoje que a gente deva também sentar-se em berço esplêndido e ficar com confortável com a ideia de que: 'ah, tá bom uma entrevista coletiva por dia. Dá pra tapar o buraco aí da programação e vamos em frente'", falou, ressaltando que, em seu programa diário na rádio Bandeirantes, uma das suas missões é ter sempre um convidado ao vivo. "Dá trabalho, demanda encheção, ficar falando com assessor, pressionar, às vezes, até o próprio presidente".

Eu acho que a gente tem uma missão, que é agradar ao telespectador na televisão, ao ouvinte no rádio, ao leitor no site ou nos veículos impressos. Tem que ser uma boa companhia pro seu telespectador. A gente não tem de agradar o entrevistado, a instituição, o veículo. Nossa missão é informar, nossa missão é entreter quem está do outro lado

Elia Júnior

Elia Júnior, analisando a profissão

As "crias" do Show do Esporte

Glamour e perrengue nos tempos de repórter

Acervo pessoal Acervo pessoal

Entrevistando Pelé na piscina

"Essa entrevista com o Pelé foi bem legal, em 1986. O Pelé foi nosso comentarista na Copa do Mundo e depois a gente ficou muito íntimo, próximos. Por conta disso, a gente acabou fazendo essa entrevista. Foi na casa dele, batendo pênalti, nadando, jogando tênis..."

Getty Images Getty Images

Transmitiu ouro sem camisa

"A primeira grande emoção esportiva foi a medalha de ouro do Joaquim Cruz em 1984, em Los Angeles. Eu estava com o Álvaro José, nós estávamos no Estádio Olímpico sem camisa porque na época não tinha câmera na cabine. Estava um calor danado."

Juliana Flister/VIPCOMM Juliana Flister/VIPCOMM

Redes sociais: Verdade x Fake news

Um veterano como Elia Júnior também desembarcou na era das mídias sociais, usadas por muitos jornalistas como forma de complemento do trabalho. No entanto, a cultura de ódio das interações na web desanimou o apresentador após um furo que não se concretizou.

"Eu era mais ativo no Twitter há alguns anos. Dava informação em primeira mão, acertava 90%. Mas aí veio uma informação que eu tive, não poderia ter sido fonte mais segura, de que o Montillo iria pro Corinthians [em 2012]. Ele já tinha visto escola, tem um filho com problema. A fonte era seguríssima. E o Montillo acabou não vindo. Acertou lá e ficou em Minas. Porque o futebol é mutante. Até hoje os caras retuítam aquilo que escrevi. É um absurdo."

No ar: sem gracinhas e sem esconder o time

Eu acho que a gente tem que ser leve quando pode ser leve e tem que ser duro quando tem que ser duro. Eu acho que a pior coisa do mundo é o cara tentar ser engraçado [no jornalismo]. Rapaz, eu sofro com cara que tenta ser engraçado por obrigação

Elia Júnior

Elia Júnior, sobre a onda do jornalismo "engraçadinho" na TV brasileira

Eu posso não conseguir, mas eu procuro ser verdadeiro. E eu achava, quando não falava que era palmeirense, que era uma forma não honesta de apresentar o meu trabalho. Isso muito lá atrás, com 25, 26, 27, 28, 29 anos. Até eu decidir: 'olha, isso não tem cabimento'

Elia Júnior

Elia Júnior, sobre ter tornado o time do coração público aos espectadores

Segue ou bloqueia: "Silvio Luiz foi próximo, mas acabou por decisão dele"

UOL

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