Jesus é amor

Após seca de gols, camisa 9 buscou evolução e filtrou críticas para se reerguer e brilhar na Copa América

Bruno Grossi e José Edgar de Matos Do UOL, em São Paulo (SP)
Guilherme Hahn/AGIF

O amor como resposta a tudo e todos. Gabriel Jesus procura levar a vida assim há 22 anos. O jovem centroavante da seleção brasileira conviveu com críticas na Copa do Mundo e se fechou no núcleo familiar e de amigos para se reerguer. Um ano depois, tendo colocado em prática os ensinamentos da mãe Vera de não guardar rancor, terminou a Copa América como destaque na campanha pelo título, anotando gols na semifinal diante da Argentina e na decisão contra o Peru.

O próprio Gabriel Jesus tentou explicar em entrevista exclusiva ao UOL Esporte sobre as mudanças pelas quais passou neste período de um ano e que ajudaram a apresentá-lo como um jogador mais maduro, versátil e decisivo em uma seleção sem Neymar. Não há ódio, nem rancor. Apenas o pensamento constante de evoluir, evoluir e evoluir.

Evolução foi uma palavra repetida pelo centroavante de Tite e do Manchester City diversas vezes ao longo da conversa, em um hotel na cidade de São Paulo. Jesus se diz maduro o suficiente para reconhecer as falhas no Mundial e usá-las para crescer como jogador de futebol, aproveitando o que aprendeu em casa e as lições que a vida o deu. Ele evita acompanhar as críticas feitas ao seu trabalho como camisa 9, e procura colocar sobre si próprio a exigência de virar a referência da seleção.

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Um gol muda tudo

A insegurança pela falta de gols durante a Copa do Mundo está enterrada. Um ano depois da passagem discreta pelos gramados russos, Gabriel Jesus exala confiança. A experiência em seu primeiro Mundial e o fantasma dos 600 minutos sem marcar pela seleção acabaram se tornando "um período ruim no trabalho" e, segundo ele, digerido e superado. O menino do Jardim Peri não remói o jejum e deixa críticas, lembranças e memórias no passado.

"Se fizesse um gol, mudaria tudo. Acredito que, mesmo a gente tendo sido eliminado, se fizesse um gol no primeiro ou no quinto jogo, mudaria toda a visão sobre a minha Copa. É isso que tiro, essa crítica: se fizesse um gol mudaria tudo. Acho que quer dizer que não fui tão mal, não é?", questiona o camisa 9. "Se não estivesse preparado lá, nem iria para a Rússia. Foi uma coisa que aconteceu, simples."

Por outro lado, entende a pressão e a frustração do público. "O peso do gol me complicou e eu aceito isso, aceito essa visão. Como torcedor, também não iria gostar nada de um camisa 9 de seleção brasileira, de tantos craques e referências para a gente, não fazer gol. Não é o fim do mundo. Não tive um bom momento no meu trabalho, isso acontece com todo mundo."

"Ficou pesado"

Embora reitere a naturalidade com a qual encara as análises críticas sobre o seu desempenho como centroavante da seleção, Gabriel Jesus se mostrou incomodado. Até a análise feita sobre o futebol no Brasil é questionada pelo atacante do Manchester City, artilheiro da Era Tite com 18 gols.

"Eu já li e já acompanhei mais. Confesso que agora não tenho acompanhado tanto as críticas que fazem sobre mim, porque ficou muito pesado. Ficou muito...cara, hoje as pessoas acabam criticando com peso, até o elogio tem peso. Hoje tem gente que elogia uma pessoa que fez um ou dois jogos bons, falando que é craque. Outras criticam uma pessoa que fez um ou dois jogos ruins, falando 'por que joga futebol?", reclama.

"Muitas críticas não vêm para te jogar para cima. É tão pesado às vezes ver pessoas criticando, sejam elas famosas ou jornalistas; ou até mesmo fãs ou amigos. Às vezes, parece que não querem ver a pessoa evoluindo pessoalmente e profissionalmente, sabe?", reflete.

Marcello Zambrana/AGIF Marcello Zambrana/AGIF

Tenho 22 anos e preciso evoluir mais, e tenho ainda muito tempo para evoluir cada vez mais. Aconteceu [falta de gols na Copa do Mundo]. Bola para frente, eu superei isso. Aceitei a verdade e segui trabalhando

sobre a seca de gols

Às vezes, o gol apaga uma má atuação. Você não fazendo gol, às vezes esconde uma boa atuação. Então, o gol tem muito peso. Sempre teve. Mas futebol tem o gol que serve para você ganhar. Quando o jogo termina 0 a 0, pesa mais para um ou para o outro, não para todos. Então, sempre estou me cobrando para fazer gols.

sobre a cobrança por gols

Muitas críticas não são objetivas e não têm tanto valor para mim. Críticas vão existir, e elogios também, mas ninguém rebate elogio, não é? Então procuro não rebater crítica. Procuro pensar e ver se foi uma crítica objetiva, se posso tirar uma experiência e evoluir em cima disso. Muitas delas nem vi, para ser sincero. Muitas, esqueci.

sobre as críticas que recebe

Lucas Figueiredo/CBF Lucas Figueiredo/CBF

Direto e reto com Tite

"Vou chutar mais, professor"

A frase anterior é fictícia. Porém, a ideia central se reproduziu em diálogos entre Gabriel Jesus e Tite. O centroavante está na seleção desde o início da passagem do atual treinador e surgiu como uma aposta certeira nas eliminatórias. A decepção de ambos na Copa causou reflexão, e Jesus tomou a iniciativa de destacar para si o que precisava evoluir.

"Meu futebol sempre foi de ajudar, de correr, de marcar, de trombar. Como disse, o gol não veio e, então, talvez tenha escondido algumas boas partidas que fiz. Conversei bastante com o Tite, e uma das coisas era que eu precisava finalizar mais. Nem foi ele que colocou para mim, eu que foquei mesmo nisso. Não finalizo muito durante o jogo, uma ou duas vezes por jogo, então me apeguei para crescer nisso", destaca.

O camisa 9 da seleção se baseou no próprio dia a dia para enxergar a necessidade de evolução. Buscou inspiração no companheiro de City Sergio Agüero e em referências ofensivas do Campeonato Inglês para se transformar em um Jesus mais agressivo que mira o gol adversário.

"Se pegar os centroavantes da Premier League, a média deles é de uns 200 chutes ou uns 150; é coisa de louco. Preciso focar mais nisso. Até tiro o Agüero [companheiro no Manchester City] como incentivo, que finaliza às vezes 10 ou 11 vezes no gol durante um jogo. Sempre tive uma boa precisão, então quero estar finalizando mais", explica.

Nelson Almeida/AFP Nelson Almeida/AFP

Gabriel driblador não entra na Inglaterra

Referência central do Brasil na Copa do Mundo, Gabriel Jesus atuou como um ponta direita na Copa América. Mais próximo à linha lateral, o camisa 9 teve mais "campo para jogar" e reviveu uma característica ofuscada na Inglaterra: o drible.

A arrancada contra a Argentina na semifinal combinada à assistência para Roberto Firmino e à finta para o primeiro gol brasileiro na final são marcas da campanha brasileira.

Este cenário, pelo City, é raro. Jesus precisou diminuir o ímpeto do drible na Inglaterra para conseguir se adaptar. O processo de evolução tão citado ao longo da conversa com o UOL Esporte começa do outro lado do oceano Atlântico.

"Sempre tive essa qualidade de drible. Óbvio que jogando no meio e na Premier League fica mais difícil. Cheguei tentando isso, mas acabou que não deu. Sofria falta e não era falta, então acabei mudando. Sempre fui para cima e chamei no drible, então acabou aparecendo mais aqui."

Buda Mendes/Getty Images Buda Mendes/Getty Images

Como Jesus é amor

Autocrítico e detalhista na análise da própria evolução com a bola nos pés, Gabriel Jesus também valoriza seu crescimento fora dos gramados, como homem. Após um atrito com o comentarista Walter Casagrande Jr., do Grupo Globo, antes do jogo contra a Argentina, o atacante se posicionou publicamente e reclamou do ex-centroavante do Corinthians. Tal sinceridade à frente das câmeras tem se mostrado escassa entre os boleiros de hoje.

"Não tenho ódio. Essa palavra nem existe no meu vocabulário. Aprendi isso com a minha mãe e vi a vida também me ensinar a ser alegre e querer o bem do próximo. Isso faz a diferença na minha vida", diz Jesus. Ele nega qualquer rancor em relação ao comentarista da Globo, quem reencontrou para uma entrevista no mesmo dia da conversa com o UOL Esporte.

"Não guardo rancor do Casagrande. Eu simplesmente fui sincero, como sempre sou, pois não gostei da brincadeira. Espero que ele entenda e se coloque no meu lugar. (...) Quando falo que as pessoas precisam evoluir, também digo isso no meio do futebol. Precisam torcer mais pelo próximo", afirma ele.

"Não precisa ir contra a pessoa, mesmo se você não gosta dela. Eu sou deste tipo de sempre querer o bem das pessoas, querendo vê-las progredir na vida profissional e pessoal. Se as pessoas tentassem tirar o rancor e o ódio, iriam viver mais felizes, as coisas dariam mais certo. Por isso as coisas na minha vida dão certo."

Pedro Ugarte/AFP Pedro Ugarte/AFP

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