"Eu não sabia de nada"

Ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter fala ao UOL sobre corrupção, Ricardo Teixeira e problemas da Copa-2014

Jamil Chade Colaboração para o UOL em Zurique (Suíça)
Jamil Chade/UOL

Sua voz está mais frágil e a agilidade com a qual responde a seus críticos não parece a mesma. Seus dois joelhos limitam os movimentos e os 83 anos não disfarçam seu impacto. Mas o ex-presidente da Fifa, um dos personagens de maior influência no esporte mundial por décadas, continua acompanhando com atenção todos os acontecimentos do futebol.

Joseph Blatter recebeu a reportagem do UOL em Zurique. Sorridente, lembrou que tem a mesma idade que o Papa Francisco e garante que seu "tempo não acabou".

Epicentro do maior escândalo da história do futebol, ele colocou seu cargo à disposição em 2015, depois das prisões dos demais cartolas, em maio daquele ano em Zurique. Mas, meses depois, foi suspenso do futebol, numa pena que termina apenas em 2021. Por um pagamento milionário a Michel Platini, ele foi acusado de "abuso de posição, gestão desleal e conflito de interesse".

Segundo ele, porém, não houve corrupção. "Podem procurar. Nunca vai aparecer. Nunca. Eu não estou na corrupção", disse. Também insiste que "não sabia" o que acontecia entre os mais de dez cartolas indiciados nos EUA. Muitos deles eram seus amigos pessoais e outros eram vice-presidentes da Fifa. No total, a Justiça americana acredita que o esquema desviou do futebol mais de US$ 200 milhões, inclusive para cartolas brasileiros.

Blatter prefere ver a trama como uma disputa pelo poder. Ele lamenta ter sido um "tolo" ao não ver que um grupo dentro a entidade queria tomar-lhe o poder. Em maio, as prisões dos dirigentes da Fifa completam quatro anos. Os processos sequer foram concluídos ainda nos EUA.

O ex-presidente ainda fez revelações sobre a Copa de 2014, rebateu os projetos da Fifa de ampliar o Mundial, falou de Neymar, alertou para o poder dos europeus e garantiu: o Palmeiras é campeão mundial "e ponto final".

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"Não sabia o que eles estavam fazendo"

O sr. acha que a Fifa virou a página de sua crise depois da chegada de Gianni Infantino, como ele mesmo alega?

Eu sou um missionário, mas não sou um profeta. Se eu criei um monstro, então o que é hoje? Vender competições? Não dá para fazer isso. Você pode convidar parceiros, como patrocinadores. Mas os direitos precisam ficar aqui.

Olhando para trás, o sr. lamenta algo de toda a crise de 2015?

Eu não renunciei. Eu coloquei meu mandato à disposição. Mas, depois, fui suspenso. Por que coloquei meu cargo à disposição? Nos EUA, nos disseram que éramos uma organização criminosa. Assim que eu coloquei meu mandato à disposição, fomos considerados vítimas. Depois, em outubro de 2015, eu fui suspenso. Eu aceitei, mas não deveria ter aceitado. Um comitê não pode suspender um presidente que foi eleito pela assembleia.

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O sr. acha que deveria ter sido mais duro com os velhos cartolas que acabaram presos?

Eu não sabia o que eles estavam fazendo. Eu não era responsável pelo que fizeram. Eu posso ser responsável por não ter visto que havia um grupo dentro da Fifa que queria tomar a presidência. Fui tolo de não ter sentido isso.

O nome do sr. não apareceu nos processos nos EUA.

Podem procurar. Nunca vai aparecer. Nunca. Eu não estou na corrupção.

Diante de todas essas respostas, o sr. parece preocupado com o futebol. É isso mesmo?

Quem marcou a nova era do futebol? Começou com Havelange e depois eu cheguei. Quando eu assumi, ainda estávamos no vermelho. Os contratos não eram bons. Começamos uma nova Fifa, organizando o futebol no mundo. Chegou a uma situação em que a política chegou no futebol. Hoje, o futebol quer ser o diretor do show da política. E isso é o risco. Há muito dinheiro.

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Domínio europeu "não vai mudar"

Blatter faz uma previsão sombria para o futebol de clubes sul-americanos: o domínio dos europeus não vai acabar e, de fato, a criação do novo Mundial de Clubes com 24 times apenas irá reforçar a disparidade com o restante do mundo.

A Europa está dominando o futebol mundial, com seleções ganhando as últimas quatro Copas e os clubes repetindo anos após ano a conquista do Mundial. O que ocorreu com o futebol sul-americano?

Sobre os Clubes, é verdade que, enquanto houve jogos de ida e volta entre os sul-americanos e europeus, a vantagem era da América do Sul. Mas depois que criamos um Mundial de Clubes, praticamente não houve mais um vencedor sul-americano. Nem falar dos clubes da Concacaf. É fácil de entender. Os melhores jogadores da América do Sul estão na Europa. Portanto, para os clubes, é óbvio que não estão no mesmo nível dos europeus. E isso não vai mudar.

Inclusive se a ideia do Mundial de Clubes com 24 times for realizado?

Será pior.

Acervo Folhapress Acervo Folhapress

"Palmeiras é campeão mundial e ponto final".

No meio da entrevista, a conversa tomou um rumo surpreendente: "Falando em Mundial de Clubes, o sr. reconheceu o Palmeiras como campeão mundial de 1951", perguntou a reportagem. "Sim, nós concordamos em reconhecer o Palmeiras".

Até hoje, a torcida palmeirense é atormentada por rivais por "não ter mundial". A diretoria do clube tem um fax da Fifa dizendo que a Taça Rio foi o primeiro torneio mundial de clubes reconhecido pela Fifa e, antes da Copa de 2014, Blatter de fato reconheceu o clube paulista como campeão mundial.

Depois que Blatter saiu, a entidade promoveu uma reviravolta e passou a considerar apenas como torneios oficiais os disputados a partir de 1960. Por isso, Blatter foi questionado sobre o motivo da mudança de postura. "Acho que foi porque eu reconheci", disse, rindo. "Devemos reconhecer que o Palmeiras foi o primeiro campeão mundial de clubes e ponto final. Foi o primeiro."

Lars Baron/Fifa via Getty Images Lars Baron/Fifa via Getty Images

E no caso das seleções?

É um pouco diferente. A última vez que um sul-americano ganhou uma Copa foi em 2002, com o Brasil. Depois tivemos Itália, Espanha, Alemanha e França. São quatro seleções diferentes da Europa. Não foi uma só. Hoje, na América do Sul, temos duas federações com um futebol excepcional, que são Brasil e Argentina. O Uruguai também teve essa posição no passado. Mas onde estão os demais? Peru, Colômbia? Deviam estar presentes, mas não estão. A realidade é que, entre as seleções, existem apenas duas. E, claro, tem a matemática. O número de europeus na Copa é maior. Além disso, eu diria que, para os europeus, ter seus jogadores atuando em casa ajuda muito. Não acho que há um declínio do futebol sul-americano. Mas com a exceção do Brasil e Argentina, o restante está dormindo. Eles estão dormindo.

Mas, às vezes, temos a impressão de que o Brasil está dormindo.

O Brasil tem uma situação específica. O país é um continente e tem milhares de bons jogadores. O Brasil não teve sorte na Copa de 2018.

Nos clubes, certamente [esse controle vai continuar]. Num Mundial com 24 times, eles irão com verdadeiras seleções mundiais

Sobre o domínio europeu sobre os sul-americanos no futebol de clubes

Suhaib Salem/Reuters Suhaib Salem/Reuters
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Faltou liderança na CBF

Questionado sobre a ausência de títulos sul-americanos desde 2002 em Copas do Mundo, Blatter deixou claro que os resultados de uma seleção são reflexos de sua direção. "Para dar força e presença para uma seleção, é importante ter uma liderança. E, no futebol, a liderança do futebol brasileiro e argentino não foi a melhor", disse. "Para trazer de volta esses dois países para além das quartas de finais da Copa é preciso uma liderança na federação", insistiu. "Vocês têm jogadores suficientes. Mas é necessário que a federação tenha uma liderança".

O suíço lembra que o caso dos sul-americanos não é o único em que se vê resultados fracos em campo diante de problemas na direção. "Se olharmos como a seleção da Alemanha está ruim, basta ver que eles tiveram três presidentes da federação que não cumpriram seus primeiros mandatos. Uma seleção é a expressão de uma federação. Alemanha, Brasil e Argentina são exemplos disso", disse.

Questionado sobre Ricardo Teixeira, ele insinuou que seu controle era excessivo. Mas deixou claro que o cartola defendia a seleção. "A última vez que o Brasil ganhou uma Copa foi sob sua presidência em 2002. Mas, em todos os negócios e no futebol, não se pode ser um ditador", atacou. "Isso não é bom. Na política, em alguns países, você precisa de um ditador. Mas, aqui, no futebol, o exemplo da Alemanha é ainda mais relevante que os casos do Brasil e Argentina", disse.

"Pelo Brasil, ele foi positivo. Ele defendeu o futebol brasileiro. Certamente. [O que ele representou] para o mundo? Eu não sou um juiz", completou. Teixeira foi indiciado nos EUA por corrupção e é investigado na Suíça, Andorra e Espanha.

EFE EFE

Copa 2014: "A Fifa foi sequestrada. A Fifa foi vítima"

Blatter não deixa dúvidas de que viveu momentos "terríveis" com os protestos de 2013 no Brasil. Mas acusa os políticos brasileiros de terem instrumentalizado a Copa e a entidade máxima do futebol. Segundo ele, foi a "megalomania" no Brasil que levou o país a disputar o torneio em 12 estádios.

Qual a avaliação que o sr. faz, hoje, dos protestos na Copa das Confederações em 2013?

Foi terrível. Foi terrível. Eles protestaram por motivos sociais, contra a Copa, contra o futebol. Foi terrível ver aquilo no Brasil. No Brasil, o país do futebol. Mas não tive medo.

O sr. teve a sensação de que o torneio foi usado politicamente?

Sim. Certamente.

Hoje, muitos dos políticos estão condenados por corrupção.

A Fifa foi sequestrada. Fifa foi a vítima. Devo dizer que fizeram isso de forma inteligente. Tínhamos a impressão de que a Fifa era a responsável por tudo. Mas, assim que a Copa começou, tudo ficou calmo. Claro, até a famosa semi-final entre Brasil e Alemanha.

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Bomba no Maracanã

13 de julho de 2014. Eram 7 da manhã no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. O telefone do quarto de Blatter toca e, do outro lado, uma voz alerta que uma bomba explodiria no Maracanã naquela noite, durante a final da Copa do Mundo entre Argentina e Alemanha. A ameaça foi transmitida às autoridades, que trataram rapidamente de achar o autor da ligação. Blatter foi instruído a não dizer a ninguém. A polícia acabou encontrando a origem da ameaça.

O suíço viveu aquele dia com o pressentimento de que algo poderia ocorrer. Sua segurança pessoal foi reforçada, inclusive no trajeto ao Maracanã. No café da manhã, sua filha o perguntou porque ele estava em silêncio.

Para ele, nem os protestos em 2013 e nem o caos da preparação foram motivos que o levassem a acreditar que o Mundial poder ser cancelado. "Nunca temi esse cancelamento. Mas, no dia da final da Copa, fiquei nervoso até o apito final. Pela manhã, eu havia recebido uma ameaça de bomba no estádio, que não se confirmou. Eu não poderia dizer nada. Não podia mostrar".

Mas hoje está claro que os estádios foram usados como instrumentos para enriquecer pessoas. O sr. não tentou impedir que tantos estádios fossem erguidos?

Eu disse que poderíamos fazer com nove estádios. Mas eles nos apresentaram um projeto com 17 estádios.

Quem sugeriu isso?

A CBF. O Comitê Organizador, que era a mesma coisa. Dissemos que poderíamos fazer com dez. Mas vieram com o argumento de que não estamos num país, mas num continente e, portanto, deixe-nos jogar em todo o continente. Acabou que fechamos com doze estádios.

Mas agora metade deles tem problemas.

Isso pode ocorrer em outros lugares também, como na Cidade do Cabo. Lá, os times de rúgbi não querem jogar onde estão os negros. No caso do Brasil, tivemos uma discussão sobre Manaus. E eles disseram que, depois, seria usado para festivais de música. Esse é o risco de megalomania, quando você quer ser maior que de fato você é.

Leo Correa/AP Leo Correa/AP

Isso também ocorreu nas Olimpíadas de 2016.

Nas Olimpíadas é ainda pior.

E o que ocorreu finalmente com o Morumbi na Copa?

Eu não sei. Não é para mim que vocês precisam perguntar. Eu não estava envolvido na construção e, na decisão final de se construir ou não um estádio, isso cabe ao Comitê Organizador. Se eles dizem que é uma necessidade, não vamos dizer que não.

Mas a CBF disse que era a Fifa que não aceitava?

Não, não. Um dia, João Havelange me disse: 'Sepp, você criou um monstro'. E o que ocorreu lá foi parte desse monstro. Não foi a Fifa. Foi o que ocorre ao redor do futebol. Não havia mais limites no futebol em todo o mundo. Era tão popular, em todas as partes do mundo, os salários. É incrível o que ocorreu. É um monstro.

O sr. teria feito algo diferente nas outras Copas do Mundo com base no que ocorreu com o Brasil?

Quando a Copa em 2014 foi disputada, já estava decidida a sede de 2018 e 2022. Mas, para o Catar, dissemos que eles não poderiam ter mais de oito estádios.

Foi uma lição do Brasil?

Sim, sim. Depois daquilo, dissemos que precisamos que a construção dos estádios seja limitada. Na Rússia, quando eles vieram apresentar o primeiro plano, eu os disse que não aceitaria. Reclamaram. Mas aceitaram.

AFP AFP

Em Copa com 48 seleções, qualidade vai cair

O ex-presidente da Fifa não deixa dúvidas: a expansão da Copa do Mundo de 32 para 48 seleções vai afetar a qualidade do torneio. Segundo ele, o formato de disputa também corre o risco de criar situações delicadas e resultados combinados já na primeira fase.

Qual a avaliação do sr. sobre a expansão da Copa para 48 seleções?

Desde o começo, eu disse que não vejo isso como uma boa solução. O que é ainda pior é tentar, de todas as formas, que isso já seja a realidade no Qatar em 2022. De todas as formas, não se pode jogar com 48 seleções no Catar. O que foi dado ao Qatar foi um Mundial de 32. Portanto, temos de ter um pouco de diplomacia. Deixe jogar com 32 times e depois se passa aos 48.

Por qual motivo o sr. não considera como uma boa solução? Seria pela queda da qualidade?

Existem dois motivos. O primeiro deles é mesmo a qualidade. Teremos praticamente um a cada cinco times do mundo na Copa. Isso é demais. Mas o outro problema é a forma pela qual foi proposto, com grupos iniciais de três seleções. Isso significa que o último jogo se abra a possibilidade de alguma coisa estranha. Não se pode jogar em grupos de três. Outro problema é que teremos quatro jogos por dia. Eu falo com muitos presidentes de federações africanas e eles estão felizes. Dizem que vão ter mais seleções. Mas não pensam na qualidade da Copa.

Erica Dezonne/FramePhoto/FOLHAPRESS Erica Dezonne/FramePhoto/FOLHAPRESS

Ele não é um líder. Ele é um jogador excepcional. Mas não tem o carisma de um líder, como foi Ronaldo".

Sobre Neymar, o melhor jogador brasileiro da atualidade

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Essa expansão pode matar a galinha dos ovos de ouro do futebol, que é a Copa?

O problema é que, ao jogar com 48 seleções, 24 clubes num Mundial, ter as ligas regionais, o que vai ocorrer é uma sobrecarga do calendário internacional. Se há futebol demais, se há jogos demais, o interesse pelo futebol cai. A qualidade cai. Além disso, para as pessoas e os torcedores, o acesso aos jogos é cada vez mais difícil. Os direitos estão sendo vendidos para televisões privadas, que estão cobrando caro para que o torcedor possa ver os jogos. Nem todos podem pagar. Mesmo na Suíça, exibe-se apenas um jogo da Liga dos Campeões por semana na TV pública. Para o restante, você precisa pagar. Vai chegar um momento em que as pessoas vão dizer basta. No caso da Copa com 48 seleções, vai durar muito tempo até a final.

Além da expansão, a Fifa debate a entrada de fundos privados na compra de torneios. Qual sua avaliação?

Gostei de um artigo em dois jornais europeus. Diziam que o futebol estava perdendo sua alma. Na verdade, não só perdendo. Mas vendendo sua alma. Ainda não ocorreu. Mas vai acontecer. Vão aprovar. Isso é o mercantilismo no futebol. Quando montamos o calendário internacional do futebol, deixamos um espaço para férias. Férias no futebol. Isso acabou. O problema é que, nos grandes torneios, sempre vemos os mesmos jogadores. Os clubes mais ricos, então, montam duas equipes. Alguns tem 30 jogadores que podem entrar a qualquer momento.

Quando vamos ao Brasil hoje, vemos crianças dizendo que torcem para times europeus. O que vai acontecer com o futebol local da América do Sul ou da África?

É uma mudança de era. Os grandes clubes na África não querem jogar com outros times africanos. Querem jogar contra o Real Madrid. Algo se perdeu.

FABRICE COFFRINI/AFP FABRICE COFFRINI/AFP

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