"Eu gosto de fazer gols"

Lúcio começou a carreira como atacante e se transformou em um zagueiro apaixonado pelas subidas ao ataque

Brunno Carvalho e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo
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"Aquela semana foi tensa pra mim. Eu ficava pensando: 'Deus, tem 32 times e a final tinha que ser justo contra o Bayern?'.

Enfrentar o meu ex-time na final era especial. Não por causa do Van Gaal, o técnico que me dispensou de lá. Minha carreira diz tudo e não preciso dessas coisas. Mas eu estava com sangue nos olhos para aquele jogo. Os meus companheiros da Inter de Milão falavam: 'Lúcio, é nossa hora de dar o troco'. Eu queria conquistar uma Liga dos Campeões, quem não quer?

No vestiário, o Mourinho me chamou e falou: 'Lúcio, a gente sabe o que aconteceu com você lá. Então, por favor, não se empolga. Não vai querer achar que vai resolver o jogo sozinho'. Aquela não foi a primeira conversa dele comigo. Eu tinha muito entusiasmo para arrancar e disparar para o ataque. O Mourinho, às vezes, me chamava em particular assim: 'Quem arma as jogadas é o meia. Quem tem de fazer gols é o atacante'.

E naquele jogo deu tudo certo. Ajudei a tirar a Inter de uma fila de 46 anos sem o título da Liga dos Campeões. Foi um presentão de Deus na minha vida. Lembro que, depois que acabou a partida, eu peguei minha filha no colo e a torcida do Bayern começou a gritar meu nome. Fui até eles, peguei o cachecol e dei um beijo. Aquilo foi muito importante para mim. Uma prova de que eu estou na história dos dois clubes."

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O relato que você acabou de ler é de um Lúcio sereno. Um homem que, mesmo quando se vê em situações de extrema tensão, se mantém calmo. Esqueça o estereótipo que você deve ter criado a respeito dele, de jogador violento ou atleta desequilibrado. O Lúcio que recebeu o UOL Esporte e conversou por quase três horas é sério e calmo.

Por trás do rosto de zagueiro clássico - sem sorrisinho - está uma pessoa tímida, um homem que deixou de ser Lucimar porque era difícil receber instruções dentro de campo e precisou de uns puxões de orelha da mãe para abrir mais a boca e não perder a titularidade na Copa do Mundo de 2002.

Lúcio tem tantos títulos quanto histórias para contar. Na entrevista, falou sobre os momentos que fizeram o atacante afoito de Planaltina, em Brasília, se transformar no zagueiro campeão mundial e ídolo na Europa, que tinha uma marca registrada: subir ao ataque.

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Ele vai pra cima

"Desde quando era criança, tinha aquele desejo de marcar um gol. E quando você tem isso, tenta ser atacante, não tem jeito... Eu comecei a carreira na base de número sete, aquele ponta-direita que corre, que vai pro ataque. Mas, no decorrer dessa caminhada, a minha altura e a minha força física foram chamando atenção. E meu técnico na época me mandou jogar na defesa. Eu entendi muito rápido que o meu lugar era ali atrás, mesmo. Mas um resquício daquele desejo pelo gol que o atacante tem ainda ficou em mim. E isso virou uma das minhas características: sair de trás com a bola dominada e partir pro ataque. Ainda bem que isso aconteceu. Acho que se eu tivesse continuado como atacante, nem de Brasília teria saído. Graças a Deus virei zagueiro e consegui fazer uma história bem legal."

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Instinto ofensivo o levou à Europa

O resquício de atacante que sobrou em Lúcio o fez chegar à Europa. Titular e capitão do Internacional aos 22 anos, ele se destacou em uma partida contra o Corinthians, pela Copa João Havelange de 2000. "O jogo estava muito disputado e teve um momento em que consegui dar uma das minhas arrancadas pro ataque".

A tal arrancada foi digna de atacante de ofício. Lúcio arrancou do meio-campo, driblou um, tabelou com outro, passou por mais um adversário e soltou uma bomba de fora da área. A bola morreu no fundo das redes corintianas. Golaço.

A jogada acabou com qualquer dúvida que os olheiros do Bayer Leverkusen, da Alemanha, poderiam ter sobre o zagueiro. Presentes no estádio naquele jogo, os representantes deram aval para que o clube pagasse US$ 8 milhões para contratar Lúcio ao fim daquele ano.

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"Eu não sou violento"

Lúcio sabe que as críticas por subir ao ataque são comuns e não o atingem tanto. Mas o zagueiro não consegue lidar do mesmo jeito quando o alvo é seu jeito de se comportar na marcação.

Com cara de sério e um estilo firme de desarmar seus adversários, ganhou fama de violento, o que ele jura que não é.

"Eu não me lembro de uma única expulsão por ter brigado ou dado uma entrada violenta em alguém. Em 2006, eu bati o recorde de jogador com mais tempo sem fazer falta", lembra.

Como isso seria possível se eu fosse violento?"

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Família é escudo contra "besteiras"

"O comentarista de um jogo não pode deixar a emoção tomar conta. Ele precisa manter um olho profissional e se segurar para não falar algo que não é verdade. Ele não pode falar que o atleta quis fazer algo que ele não quis", diz Lúcio.

O zagueiro nunca se indispôs publicamente com a imprensa, mas, dentro de casa, encontrou um método para não se entristecer com o que era publicado em sites e jornais - ou falado nas mesas redondas e transmissões esportivas.

A mulher Dione e os três filhos começaram a filtrar as análises que chegavam a ele. Especulações ou críticas acima do tom eram todas barradas pela equipe particular que Lúcio tinha dentro de casa.

"Eles começaram a fazer isso para tirar de perto o que poderia atrapalhar. Eu estava começando a ficar triste com o que era dito. Acabou que foi muito bom pra me preservar, pra não ficar ouvindo besteiras".

Mesmo com o rígido crivo da família, algumas coisas chegam ao ouvido de Lúcio - principalmente quando se trata de algo para fazê-lo evoluir. "Quando é algo construtivo, com fundamento, você faz sua autocrítica. Às vezes, não é algo que você gosta de ouvir, mas é necessário para crescer".

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Globo queria exclusividade em 2010

Lúcio passou por diferentes fases da seleção brasileira: a "Família Scolari" em 2002, o clima de festa em 2006 e a concentração rígida em 2010. Capitão da equipe que acabou eliminada para a Holanda na África do Sul, o zagueiro viu Dunga, então técnico daquela equipe, travar uma batalha contra a Rede Globo.

Adepto do clima de "nós contra eles", o treinador fechou o elenco e controlou as entrevistas que eram dadas durante a Copa de 2010. A atitude resultou em um embate com a emissora carioca, que chegou ao seu ápice na fatídica entrevista coletiva em que o treinador chamou o repórter Alex Escobar de "cagalhão".

"Ele teve esse desentendimento com a Globo porque a intenção era tratar todo mundo igual, o que é correto. Se todo mundo puder entrar na sala de imprensa, todo mundo vai fazer entrevista com o Dunga. Eles queriam exclusividade, entrar onde não podia, fazer reportagens ao vivo dentro do hotel. E isso acabou gerando atrito".

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Felipão pediu, e mãe puxou a orelha

Lúcio sempre aparenta um jeito introvertido e de poucas palavras, seja nas entrevistas ou dentro de campo. O estilo quietão do zagueiro fez com que Felipão precisasse apelar para dona Maria, a mãe do jogador. Aconteceu durante uma partida das Eliminatórias para a Copa do Mundo e o destino da seleção estava em jogo.

"Eu fiquei com a maior vergonha nesse dia. Tava eu e minha mãe no saguão quando o Felipão chegou: 'Oi, tudo bem? Você é a mãe do Lúcio? A senhora tem que falar para ele abrir a boca. Ele não fala. Ele é o meu defensor, tem que falar, tem que comandar, tem que gritar".

Felipão não precisou de muito mais que isso para ganhar uma aliada. "Imagina, o sonho de qualquer mãe de jogador é o filho na seleção, e daí eu vou sair só porque não falo? Ela disse: 'pode deixar que a partir de agora ele vai falar'. E deu certo".

Lúcio entendeu que era preciso mudar seu estilo. "Foi uma crítica boa pra mim. Eu comecei a falar mais, me comunicar dentro de campo".

Os times de Lúcio na Europa

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Bayer Leverkusen

"Foi um clube que me acolheu com muito carinho. Era um clube desacreditado que foi passando de fase na Liga dos Campeões, mas o Real tinha um elenco muito superior e perdemos a final por 2 a 1. Mas foi gratificante. Se pudesse voltar atrás, escolheria o Leverkusen de novo".

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Bayern

"A ida pro Bayern acabou sendo boa para mim, apesar de gostar muito do Leverkusen. Logo na primeira temporada, a gente ganhou a Copa da Alemanha e o Campeonato Alemão. Foi um clube onde eu pude fazer história e até hoje, quando vou à Alemanha, aproveito para rever meus companheiros".

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Inter de Milão

"Eu não queria sair do Bayern, mas graças a Deus fui muito bem recebido na Inter. Tinham uma expectativa muito grande com a minha contratação e consegui responder à altura. Nós fomos o único time italiano a ganhar a 'tripleta': o Italiano, a Copa da Itália e a Liga dos Campeões".

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Juventus

"Eu me transferi pra Juventus em agosto de 2012, mas fiquei lá só até a metade da temporada. Fiz apenas quatro jogos. Eu saí de lá porque eu queria jogar, queria sair para um grande clube e ser mais utilizado, o que não vinha acontecendo. Foi quando eu me transferi pro São Paulo".

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"Fui fritado no São Paulo"

Lúcio chegou com pompas ao São Paulo em 2013. A equipe via nele o reforço ideal para sua obsessão pelo título da Copa Libertadores. Mas a passagem acabou marcada por polêmicas. No jogo contra o Arsenal de Sarandí, na Argentina, foi substituído no início do segundo tempo, seguiu direto para o vestiário e foi fotografado no ônibus do clube antes dos outros jogadores. Na volta ao Brasil, ampliou o mal-estar: "Quando eu saí, estava 0 a 0". O jogo terminou em derrota são-paulina por 2 a 1.

Em outro jogo da Libertadores, contra o Atlético-MG, o time paulista jogava melhor quando o zagueiro deu uma entrada em Bernard e recebeu o segundo cartão amarelo. Lúcio se tornou o vilão da eliminação, que aconteceu no jogo seguinte.

Não demorou para Lúcio ser afastado do elenco são-paulino. Já com Paulo Autuori no comando, ele foi acusado de indisciplina. "Infelizmente, eu não conhecia os bastidores do São Paulo. Quem me contratou foi o Adalberto Baptista (diretor de futebol) e ele saiu meses antes de eu ser barrado. Isso acabou me prejudicando", disse.

Eu me senti fritado no São Paulo, a questão poderia ter sido resolvida de uma forma mais sincera".

Para o zagueiro, Paulo Autuori comprou uma mentira plantada pela diretoria e levou para a imprensa. "Inventaram uma mentira que eu levei personal trainer para o CT. O Paulo Autuori comprou essa mentira e passou para a imprensa. Não sei o motivo, mas ele fez isso. Não foi por isso que me afastaram, me afastaram por política".

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Não devia ter reclamado

A atitude tomada na volta da Argentina após o jogo contra o Arsenal de Sarandí é um dos arrependimentos de Lúcio em sua passagem pelo São Paulo.

Apesar de afirmar não ter dito nenhuma mentira, o zagueiro entende que talvez não tivesse sido o melhor momento para dizer a frase "quando eu saí estava 0 a 0".

"Eu estava chateado por ter sido substituído, foi uma coisa de momento. Não é que eu não possa ser substituído, é uma decisão do treinador, mas na volta fizeram muitas perguntas, acabei ficando exposto. Foi um erro ter falado aquilo, não deveria ter falado".

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Rebaixamento seria uma mancha

Lúcio diz que a relação com o Palmeiras, para onde foi logo depois de sair do Morumbi, foi diferente. O zagueiro ficou no time alviverde durante toda a temporada de 2014 e saiu após a confirmação da permanência na elite do Brasileirão.

"Eu fiquei muito feliz de ter passado pelo Palmeiras. O clube foi sincero comigo e isso foi muito bom. Eles decidiram que não iriam ficar comigo para 2015 e foram honestos. Eu senti prazer de conhecer o clube e a honestidade com que eles trataram a minha chegada e a minha saída".

Antes de sair do Palmeiras, Lúcio passou por uma situação inesperada. O time brigou até a última rodada para não ser rebaixado no Brasileirão. Após empatar com o Athletico dentro de casa, só não caiu porque o Santos venceu o Vitória por 1 a 0.

"A gente começou muito bem o campeonato, mas tivemos dificuldades do meio para o final. A pressão e a tensão naquele jogo foram enormes, mas veio um alívio após a permanência. Graças a Deus não caímos e não fiquei com essa mancha no currículo".

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"Eu sou chato"

Não pense que o estilo de Lúcio dentro de casa é muito diferente do apresentado em campo. O jeito sério se mantém na educação dos filhos e na crença no trabalho, como ele mesmo diz. "Minha personalidade é de acreditar que o que eu vou plantar, vou colher".

A personalidade forte o transformou no chato da casa, uma alcunha dada pela filha mais nova Valentina. "Um dia, pediram para ela me definir em uma palavra e ela respondeu 'chato'. Eu acabo sendo um pouco ranzinza, é a minha personalidade. E a minha personalidade não é fácil".

O jeitão duro faz com que a rotina de casa seja "como no exército". "Eu quero que meus filhos acordem na hora certa, comam na hora certa, durmam na hora certa. O meu dia a dia é esse, sempre tentando manter a disciplina".

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Filha mantém o legado da camisa 3

A mesma filha que acha Lúcio chato é a esperança de manter o legado dentro de campo. Aos 12 anos, Valentina é zagueira e veste a mesma camisa 3 que consagrou o pai pelos gramados do mundo. Mas as semelhanças não param por aí: a menina sobe ao ataque também.

"Ela vai também. Tem vezes que ela me liga e pergunta o que fazer. É bem legal, ela se diverte, a família inteira acaba se envolvendo".

Com a menina entrando na adolescência, Lúcio sabe que o sonho de hoje pode não ser o mesmo amanhã. Por isso, não rola uma pressão por uma carreira no futebol. "Um dia ela fala que quer ser jogadora, no outro quer estudar em Nova York. Toda hora vai mudando, é muito cedo pra decidir".

"Hoje, jogo por amor. Quero devolver o que o futebol me deu"

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