O técnico-engenheiro

Mano Menezes analisa carreira e conta como reconstruiu Grêmio, Corinthians, Cruzeiro e até seleção brasileira

Luiza Oliveira e Vanderlei Lima Do UOL, em Belo Horizonte (MG)
Alexandre Schneider/Getty Images

Eu era o filho do presidente de um clube de várzea. A maior lembrança que tenho é do amor que a gente tinha pelo futebol em si. Cuidávamos de tudo que envolvia o jogo no domingo: arrumávamos a copa em que as bebidas eram vendidas, reservávamos a pessoa que fazia os pastéis, cortávamos a grama do campo para jogar. Aquilo, para nós, era a coisa mais importante que existia.

Nós morávamos num vilarejo. Todo mundo participava desse clube. Era a coisa mais importante que a gente tinha. Isso desenvolveu um respeito muito grande pelo futebol, um amor que a gente carrega para o resto da vida.

Faz você se interessar pelas coisas e também saber dar uma opinião importante. Quando eu comecei como técnico do juniores do Guarani de Venâncio Aires, só tinham duas bolas para fazer treinamento. Hoje, quando eu ouço alguém reclamar: 'Não dá pra treinar', eu digo: 'Espera um pouquinho...Sempre dá pra treinar'.

A trajetória foi nos preparando para poder ser enfático no momento de dar uma opinião, de mostrar para os jogadores que existe sempre um caminho para solucionar. Não dá para sentar na cadeira e chorar. Não adianta chorar. O adversário não está nem aí para o seu choro quando você for enfrentá-lo. Então você tem que arrumar soluções.

Pedro Vilela/Getty Images Pedro Vilela/Getty Images

O que é um técnico-engenheiro?

Mano Menezes se define como um técnico-engenheiro. Não só pelas reformulações de elenco que fez nos vários clubes em que trabalhou. O gaúcho de 56 anos pensa em cada passo do futebol e se esforça para ter uma visão além do campo-bola. Esse olhar macro envolve tudo. Desde perceber que derrubar uma parede na Fazendinha, onde o Corinthians treinava quando chegou a São Paulo, poderia fazer a diferença no desempenho dos atletas, até a visão crítica sobre o trabalho da imprensa esportiva no Brasil.

O jeito bravo que muitas vezes esconde um Mano Menezes brincalhão para os mais próximos também é uma estratégia para fazer o time andar.

Não poderia ser diferente na gestão da própria carreira. Veja o momento em que trocou o Grêmio pelo Corinthians em 2008. Ele preferiu um time que iria jogar a segunda divisão a outro que disputaria a Libertadores, o Cruzeiro. Naquele momento, enxergava que seria mais propício para a ascensão da sua carreira. E é com essa dedicação minuciosa que ele se tornou um dos técnicos mais respeitados do país.

Em quase duas horas de conversa com o UOL Esporte, ele explicou o que pensa sobre a própria carreira, o futebol e seus trabalhos.

Buda Mendes/Getty Images Buda Mendes/Getty Images

Fui convidado várias vezes para fazer reformulação. Acho que eu sou um engenheiro. Técnico-engenheiro, que reconstrói".

Sobre uma marca de sua carreira

Assista: A vida de Mano não cabe em uma Fiorino

Não existe tranquilidade para técnico de futebol. Essa é uma ilusão e você não pode conviver com ela. O futebol pode ser um lugar onde tudo está absolutamente tranquilo quando o dia termina, vou para a minha casa e quando chego aqui, no outro dia, tem um problema novo

Sobre como vê a função

Isso nunca te deixa acomodado. Você precisa cuidar de tudo. Durante a estada na sua casa, você usa o telefone para resolver um problema, para traçar planos para o dia seguinte no treinamento. No futebol não existe tranquilidade. A tranquilidade é a vitória

Divagando sobre a pressão

Quem quer vencer na carreira, como a gente quer, e assume a responsabilidade de dirigir grandes clubes, vive o futebol intensamente. Você não dirige só quando você está aqui. Você dirige o tempo inteiro. É necessário que seja assim

Analisando as necessidades do trabalho

"Nunca fui demitido no Brasil"

Mano Menezes conquistou um feito quase impossível entre treinadores no futebol brasileiro. Nunca foi demitido de um clube nacional. Sua carreira é marcada por trabalhos de longa duração e ele atribui isso à forma clara e objetiva como lida com todos os assuntos nos clubes.

"Eu nunca fui demitido de um clube no Brasil. Isso é algo realmente raríssimo. Vamos falar até baixo que é para não dar azar. Mas talvez seja porque eu me relaciono de maneira clara com as pessoas com quem vou trabalhar. Quando eu vou assumir um time de futebol, a coisa que eu menos discuto é o salário. Eu discuto a filosofia, a metodologia, como nós vamos conduzir, discuto com quem eu tenho que trabalhar: 'É fulano de tal que vai cuidar do futebol? É com ele que eu vou tratar o futebol'. Eu não quero ver anarquia, eu respeito aquilo que está estabelecido dentro do clube".

Um dos maiores segredos é a sinceridade com os dirigentes. "O trabalho do dia a dia nem sempre produz vitórias porque, às vezes, é impossível. O que você tem na mão para dirigir pode não ser capaz de te dar um título. Então, eu também mostro isso para as pessoas com quem eu estou trabalhando. Olho o investimento do outro lado, olho os jogadores que eles têm e aviso: 'Ainda não temos um time para ser campeão. Mas, se seguirmos esse trabalho e, no ano que vem, melhorarmos mais um pouco, certamente teremos um time para ser campeão'. É assim".

Ricardo Matsukawa / UOL Ricardo Matsukawa / UOL

Como planeja a carreira

Mano percebeu cedo que deveria planejar a sua carreira. No fim de 2007, depois de passar pela Batalha dos Aflitos e levar o Grêmio ao bicampeonato gaúcho e ao vice da Libertadores, viu que era hora de dar um passo à frente. Recebeu propostas do Cruzeiro, que disputaria a Libertadores, e do Corinthians, que seria rebaixado. E tomou a decisão de assumir o Timão.

"Eu já me preocupava muito com a gestão da carreira, dos passos que a gente deve tomar, do cuidado com o segundo trabalho, principalmente, porque eu julgo o segundo trabalho como extremamente difícil. O primeiro trabalho às vezes traz circunstâncias muito peculiares: você já está no clube ou se dá muito bem com o grupo, consegue ter um rendimento muito bom. Mas o segundo é o trabalho da afirmação. Ou você segue a carreira e aí já é taxado com um técnico de primeiro escalão, de clube de ponta, ou você retrocede".

"Por isso eu escolhi o Corinthians. Porque o Cruzeiro tinha se classificado para a Libertadores e, se viesse, a exigência era ser campeão. O Cruzeiro já era bicampeão da Libertadores. E no Corinthians, qual era o grande objetivo? Voltar para a primeira divisão. Dificilmente isso não aconteceria, a menos que fosse um ano muito acidentado. A possibilidade de retomada seria muito mais viável".

Vinnicius Silva/Cruzeiro Vinnicius Silva/Cruzeiro

O falso-bravo

"Só pareço bravo... Eu me faço de bravo para enganar as pessoas. A vida, a convivência, a relação na beirada do campo, é muito dura. Então, você não pode fazer cobranças sorrindo. Ninguém vai dar bola nenhuma. Às vezes, a cara mais fechada é estratégica".

Sobre a imagem que ele passa ao público

Futebol exige cobrança

Essa cara brava estratégica combina com outra característica do técnico: ele é exigente ao extremo. O técnico diz ter relacionamento fácil com os comandados, mas faz questão ser rigoroso e defende a distância hierárquica entre atletas e comissão técnica.

"Entre o treinador e seus jogadores é necessário que haja uma distância 'regulamentar'. Para eles não chegarem a todo momento para fazer reivindicações que não têm sentido e para que o treinador seja a última instância da consulta técnica. A última instância de um clube é o presidente. O presidente não pode estar toda hora no meio dos jogadores ou vão fazer cobranças que não têm o direito de fazer. O técnico também. Existem conversas que os jogadores têm com os assistentes, com o preparador físico, e não com o técnico. As questões são assim", disse. "Mas eu sou uma pessoa de relacionamento fácil no dia a dia. Os jogadores que trabalharam comigo, em sua imensa maioria, sempre se deram muito bem comigo".

Na visão de Mano, a cobrança é fundamental para o próprio atleta prosperar. "Se você não cobrar, se não houver disciplina no trabalho, [o time] não vai a lugar nenhum. Talento todo mundo tem. Grandes jogadores todos os clubes têm. A diferença é a maneira como você organiza isso tudo. O jogador gosta de cobrança, mas de cobrança justa. Quando as coisas ficam muito soltas, nós não vamos a lugar nenhum. E eles vão ser os maiores perdedores. Porque eles precisam vencer. É a vitória que traz os grandes ganhos de carreira".

Friedemann Vogel/Getty Images Friedemann Vogel/Getty Images

O Mano esquentado

O torcedor que acompanha futebol pode ter a impressão que Mano Menezes é um cara esquentado. Ele já bateu boca com técnicos adversários na beira do campo e cutucou rivais em entrevistas. Mas Mano minimiza os episódios.

"São coisas do jogo e isso existe no mundo todo. Essa semana eu vi um documentário do Manchester City sob o comando do Guardiola e lá estão todos os problemas com os quais nós convivemos como técnicos aqui. Tem uma discussão entre o Guardiola e o Wenger, que é um cara que você não imagina que discute na vida, do mais baixo nível de beira de campo. De 'fuck you' pra cima. É que, lá, a televisão não fica mostrando. E aqui a nossa televisão gosta de mostrar essas coisas. É só não mostrar que ninguém dá importância. Isso não é importante, faz parte da discussão do jogo. Quando termina o jogo, nós sabemos que terminou".

Recentemente, um episódio ganhou repercussão quando Renato Gaúcho reclamou da postura defensiva do Cruzeiro e Mano retrucou. "Você tem que respeitar o trabalho das outras pessoas. Você não pode interferir, querer julgar, avaliar o que o outro faz. Não cabe a mim fazer avaliação sobre o trabalho do outro técnico. Então é assim: quando alguém pisa nos calos da gente, a gente grita", disse. "Sempre que um treinador faz um comentário sobre o meu time, me incomoda. Tem que fazer comentário sobre o time dele. Você escolhe o jeito como seu time joga e eu escolho o jeito que meu time joga. E, no final do jogo, vamos ver quem venceu, quem executou melhor".

Mano lembra grosseria com Milton Cruz: "Pedi desculpas no dia seguinte"

Vanderlei Almeida/AFP Vanderlei Almeida/AFP

Imprensa e rótulos

Mano Menezes acredita que a necessidade de ser veloz e a pressão pela audiência a qualquer custo provoca ruídos na relação com a imprensa. Um exemplo aconteceu recentemente: em uma entrevista, ele elogiou o meia Arrascaeta e explicou por que o uruguaio havia voltado bem da Copa do Mundo.

"Eu disse que, quando você participa de uma Copa entre os melhores do mundo, você se sente mais forte e mais confiante quando volta. Aí saiu uma reportagem e tinha uma frase assim: 'Mano Menezes considera Arrascaeta um dos melhores do mundo'. Não foi isso que eu falei. Fica parecendo que você é um babaca".

"Isso, para a gente, é muito ruim. Ninguém quer conceder mais [entrevistas] porque, no dia seguinte, está lá uma coisa que vai te causar um prejuízo tão grande que você passa duas semanas desmentindo o que você não falou. Eu estou concedendo uma entrevista aqui para vocês e tem um jogo e um churrasco me esperando. Se eu olhar o resultado dela [entrevista] dois dias depois e encontrar um monte de coisas que não é o que conversamos, a gente não faz mais. Eu vou jogar pelada e comer churrasco".

O "retranqueiro"

Outra crítica é a necessidade que a imprensa parece ter de criar rótulos. "Vão surgindo: Muralha é 'frangueiro', Mano é 'retranqueiro', aquele outro é 'mais simpático' ou é 'turrão'. Existem pessoas que gostam mais de falar o que as pessoas gostam de ouvir. Existem pessoas, como eu, que se sentem responsáveis pelo que falam. E eu não vou ficar enganando os torcedores de futebol só para agradar e falar tudo o que todo mundo quer ouvir", disse.

"Tudo tem que ter rótulo, né? Alguém tem que ser escolhido o melhor em campo e geralmente é o cara que fez o gol. Aí o técnico passa duas semanas tentando explicar para os outros que tem que passar a bola para o cara que faz o gol. A gente tem que valorizar o geral porque o geral é o mais importante".

Nós podemos melhorar nisso. Porque é bom para o futebol que seja assim. O nosso convívio vai ser muito melhor. Vocês vão ter mais material para trabalhar. Jogadores e técnicos vão querer atendê-los com mais frequência

Sobre o convívio com a imprensa

Às vezes tem cada pergunta nas entrevistas coletivas que é de chorar. Então, pra não ser grosso, a gente é um pouco irônico. Os que são inteligentes entendem ironia. Os que não são, paciência. A vida é dos competentes

Sobre entrevistas coletivas

A superação na Batalha dos Aflitos: Era fácil desistir e tentar o tapetão

Moacyr Lopes Junior/Folhapress Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Derrubou paredes para reconstruir Corinthians

Mano chegou ao Parque São Jorge no início de 2008: "No primeiro momento foi muito difícil. Terra arrasada, fundo do poço, segunda divisão... Uma condição muito ruim de gramado, de vestiário. Começamos a transformação dentro da própria Fazendinha: abrimos paredes, fizemos academia nova, vestiários novos. Idealizamos algumas transformações que melhoraram o ambiente de trabalho do dia a dia, que era muito ruim quando a gente chegou".

Para ele, a reconstrução do Corinthians começou ali, com uma parede derrubada. "O ambiente de trabalho é uma coisa importante. Você se sentir bem onde está aumenta sua capacidade de produzir. E o jogador depende disso. O jogador é um artista. Se estiver mal, não sai nada. Se estiver bem, temos boas chances de que saiam coisas boas. Foi o primeiro de grandes passos".

Em 2009, o time já começou a treinar no CT atual, no Parque Ecológico, na zona leste de São Paulo, mas a realidade era bem diferente. "Tínhamos dois campos de futebol e contêineres improvisados como vestiários onde nós trocávamos de material. Eram cinco chuveiros para todos os jogadores. E um para o técnico. Quando os cinco dos jogadores eram ligados, não tinha água para o do técnico".

Mano fez parte da reforma do CT: "Nós discutimos a construção do CT, como foi feito, juntamente com o doutor Joaquim Grava. Fizemos vinte reuniões para decidir a estrutura, buscamos informações em outros lugares, trazíamos a nossa experiência de outros clubes, discutimos 'ah, isso fica melhor dessa maneira, isso não, isso tira'".

Montamos um bom time para a série B em 2008. Melhoramos em 2009. E foi nesse ano que veio o título da Copa do Brasil, ganhamos o Campeonato Paulista invicto, veio a classificação para a Libertadores de 2010. Foi uma evolução que, depois, teve sequência com o Tite

Mano Menezes

Politicamente, os times têm fases mais ou menos conturbadas. Mas, profissionalmente, o Corinthians passou por uma transformação gigantesca. E, na minha opinião, é essa estrutura profissional que dá a sustentação para o sucesso que veio daí pra frente

Mano Menezes

Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

A chegada de Ronaldo

"A chegada do Ronaldo também influenciou muito nessa mudança de patamar. O Corinthians tinha 30 milhões de patrocínio na época. Total. Com a chegada do Ronaldo, passou pra 120 milhões em um ano. Só isso já dá uma ideia de transformação. Na época, isso era uma transformação significativa. Isso começou a gerar uma transformação bastante grande".

Sobre o impacto do Fenômeno

Alexandre Schneider/Getty Images Alexandre Schneider/Getty Images

A volta ao Corinthians

No fim de 2013, Mano Menezes voltou ao Corinthians. Novamente a missão era reformular o time, mas em uma situação totalmente diferente da anterior. O clube vinha do ciclo mais vencedor da sua história, com as conquistas da Libertadores e do Mundial de Clubes, e precisava seguir em frente.

"O mais difícil nessa hora é quebrar o sentimento de gratidão que existe com os jogadores que viraram ídolos, campeões, vencedores. Com o técnico que conseguiu isso é mais difícil ainda. O técnico que chega é um cara mais antipático, que vai querer falar outras coisas que a gente não estava ouvindo".

Mano precisou renovar o elenco, o que não foi fácil. "É muito necessário esse momento. Em alguns casos, é traumático. Você tem que abrir mão de jogadores campeões do mundo, mostrar que eles devem seguir a vida em outros lugares, trazer novos jogadores famintos que querem vencer e fazer uma trajetória semelhante àqueles que estão saindo. É um processo de novo de renovação, que tem desgaste bastante grande porque existe uma reação muito mais forte das pessoas de modo geral".

Mano relembra que encontrou o Corinthians com outra mentalidade. "O Corinthians estava saindo do ciclo mais vencedor da história do clube. E as pessoas estão diferentes. O Mancha, que trabalhava na lancheria, se sentia campeão do mundo. Então todos no clube eram campeões do mundo. E as pessoas já não aceitavam mais as mesmas coisas que você dizia antes, da maneira como você dizia. Elas também têm outras opiniões. O clube tem outra exigência, o torcedor tem outra exigência porque antes era sair da segunda divisão. Agora é ser de novo campeão da Libertadores, do mundo...essas coisas que são naturais. Então você também tem que entender que o momento é diferente".

Alexandre Vidal/Divulgação Flamengo Alexandre Vidal/Divulgação Flamengo

A falta de paciência no Flamengo

Um trabalho fora da curva na carreira de Mano Menezes foi o Flamengo. O técnico assumiu o rubro-negro em junho de 2013 e ficou apenas três meses no cargo. Ele pediu demissão. O erro, para ele, foi ter aceitado o desafio pouco tempo depois de sair da seleção brasileira.

"Nos primeiros seis meses, eu disse que não ia trabalhar. Exatamente para recuperar a condição, a autoestima que você precisa ter. Essa autoconfiança no trabalho. Afinal, você vai parar na frente de 40 pessoas e vai dizer como a banda vai tocar. Se você não confia naquilo, como é que você vai convencer os outros? Tem que recuperar. Técnico sofre muito isso. Acho que voltei cedo demais ao Flamengo, com menos paciência do que deveria ter. E essa falta de paciência para lidar com várias coisas me fez tomar essa decisão de sair".

Alguns jogadores mais próximos de Mano, como Elias e Chicão, com quem ele tinha trabalhado no Corinthians e estavam no Flamengo à época, tentaram impedir o técnico de pedir demissão. Mas hoje ele vê que foi a decisão certa. "Foi essencial para o momento. Tem coisas que tem que ser feitas e eu paguei um preço muito caro. Porque as pessoas não entendem, não aceitam que o técnico peça para sair. Muito mais em um clube do tamanho do Flamengo. Mas eu fiz o melhor para o Flamengo naquela época. Eu tenho certeza absoluta".

Pedro Vilela/Getty Images Pedro Vilela/Getty Images

O resultado que dá confiança no Cruzeiro

Mano Menezes vive um momento vitorioso no Cruzeiro. O técnico, que está em sua segunda passagem pelo clube, foi campeão mineiro e bicampeão da Copa do Brasil contra Corinthians e Flamengo.

"Essas conquistas vão dando uma boa condição de continuidade. Não só na intenção do clube para com o técnico, mas do técnico para com o clube. Eu penso muito sobre isso: à medida em que o resultado não vem, a teoria do técnico vai se desgastando. A defesa dessa teoria vai ficando mais frágil. A confiança nessa teoria por parte dos jogadores também vai diminuindo. E aí não tem como você tocar um trabalho muito mais a longo prazo. O contrário também é verdadeiro. Quando o resultado vem, aumenta [a confiança na teoria]. Por isso a continuidade aqui".

O início não foi fácil. Nas duas vezes em que assumiu o time, em setembro de 2015 e em julho de 2016, após rápida passagem pela China, o time lutava para não cair. "O Cruzeiro é um clube muito bom para se trabalhar, mas vivia dois momentos de extrema dificuldade quando eu cheguei. Na primeira vez, estava em 17º lugar no Brasileiro. Fizemos uma reação, quase conquistamos a vaga para a Libertadores. Faltou também um pontinho".

"Fui à China. Voltei. E estava um pouquinho pior, em 19º. Foi mais difícil a retomada porque, na primeira vez, a equipe era treinada pelo Vanderlei (Luxemburgo), por pessoas acostumadas ao futebol brasileiro, um tipo de preparação muito semelhante ao nosso. A segunda vez, era treinada por uma comissão técnica portuguesa, pelo Paulo Bento, uma outra metodologia, com outros critérios. Nós tivemos que fazer uma retomada com mais dificuldade no segundo momento".

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Fábio e a seleção

"O Fábio sempre foi um goleiro de seleção. Eu o levei para a seleção. Mas, se tem uma posição que cresceu muito, é a de goleiro. Evoluiu assustadoramente com o surgimento dos treinadores de goleiro. Hoje, nós temos muitos grandes goleiros. E são escolhas difíceis. Rogério Ceni viveu algo semelhante. É extraordinário, mas tinha Marcos, Dida, outros grandes goleiros, que foram os escolhidos. Para o Fábio, talvez seja mais difícil aceitar as coisas. Você se vê bem, faz grandes defesas, defende pênaltis, é decisivo em quase todos os momentos. Então, espera ser você o escolhido. Mas eu sempre respeito".

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A fé de Dedé

"O Dedé é um caso extraordinário de recuperação. Esteve muito próximo de parar de jogar, mas o departamento médico do Cruzeiro acreditou muito. E ele acreditou muito, porque a fé do jogador é imprescindível após um período tão longo de inatividade. Nós esperávamos que ele voltasse a jogar a partir de um determinado momento, mas o nível em que ele voltou surpreendeu a todos. Tem a ver com o time que ele encontrou, bem montado, que sustentou esse retorno. Mas tem a ver com o talento dele, porque o Dedé, quando machucou, era um zagueiro de seleção brasileira. Ele recuperou essa condição".

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A reformulação e as dificuldades na seleção

Os bons trabalhos o credenciaram a chegar à seleção brasileira em 2010. Após a Copa do Mundo da África do Sul, saiu Dunga, entrou Mano Menezes. Mais uma vez, a missão era reformular uma equipe. Mas o desafio dessa vez seria bem maior.

"Reformulações sempre são difíceis e trazem oscilações. Na seleção brasileira, mais ainda. Porque foi uma reformulação de 80%. Nos primeiros momentos, você traz muita gente nova, tem que conhecer, trazer de novo, conversar, ver como reagem às orientações. Ver como um jogador que está acostumado a jogar no clube se comporta vestindo a camisa da seleção brasileira. E isso se encontrando só uma vez a cada dois meses. Muda o tipo de relação, diminui a intimidade".

"A cobrança também é muito maior. Na seleção é a maior de todas. Você está vestindo a camisa que os maiores craques do mundo todo vestiram. Então isso traz algumas coisas que mudam o comportamento dos jogadores quando chegam lá".

Mas Mano acredita que o trabalho foi bem feito dentro do possível. "A gente foi fazendo aquilo que se propôs a fazer, sem medo, sem limites, sem nenhum tipo de retaliação, que essa é a condição que um técnico de ponta exige quando vai fazer um trabalho. Acho que as coisas andaram bem até um certo ponto, algumas nem tanto".

Steve Jordan/AFP Steve Jordan/AFP

"Não tem nada igual ao aprendizado que tive [na seleção brasileira]. Nós fomos jogar contra o Gabão e fomos muito criticados por isso. Alguém falou: "Ah, mas vai jogar contra o Gabão? Não tem jogador importante no Gabão". Você sabe quem era o atacante do Gabão? Aubameyang. É um dos grandes jogadores do mundo e estava lá. Na primeira bola do jogo, o ponta do Gabão pegou a bola e passou correndo pela defesa brasileira, mas correndo assim ó, com vantagem. Você aprende muito jogando contra essa gente. Exige muito como profissional e você tem que se preparar melhor".

Mano, sobre o aprendizado à frente da seleção

Ana Carolina Fernandes/Reuters Ana Carolina Fernandes/Reuters

Mano sobre saída da seleção: "Claro que o torcedor iria apoiar mais o Felipão"

Mano Menezes deixou o cargo de técnico da seleção brasileira de futebol no dia 23 de novembro de 2012. José Maria Marin e Marco Polo Del Nero assumiram a cúpula da CBF no lugar de Ricardo Teixeira e optaram pela troca. Para Mano, a escolha mais 'segura' e popular por um campeão do mundo foi o grande motivo de sua saída.

"O futebol envolve muita coisa. E você não pode chegar numa Copa dentro do seu país com um técnico cambaleando. Você tem que chegar com um técnico firme, que as pessoas apoiam mais. E é claro que o torcedor iria apoiar mais o Felipão, um técnico campeão do mundo, aliás o último campeão do mundo pela seleção brasileira. E foi isso que eles fizeram".

Mano considera que a própria imprensa teve participação. "Escolher um outro profissional é um direito do presidente. Não pense que sobre eles, sobre ele [Marin] e Marco Polo, porque era uma dupla, também não tinha pressão. Pressão da mídia, de muita gente que hoje me defende, que diz que foi uma 'rasteira'. Esses também contribuíram para a rasteira. Não vamos ser ingênuos, né? Porque a crítica, aquela do dia a dia, a pressão, a pesquisa 'Você acha que o técnico deve ser trocado?', tudo isso vai influenciando as pessoas que tomam a decisão".

Mano revela uma conversa com Marin assim que ele assumiu. "Quando trocou o presidente da Confederação, saiu o Ricardo [Teixeira] e entrou o Marin, a primeira coisa que eu fiz foi procurá-lo e dizer: 'Olha, presidente, sinta-se muito à vontade. O técnico é um cargo de confiança do presidente. Se o senhor achar que deve trocar, o senhor faça à hora que bem entender. A única coisa que eu quero, quando decidir fazê-lo, é que o senhor respeite a mim como profissional'".

Apesar de não guardar mágoas de sua saída da seleção, Mano ficou chateado com a maneira como a situação se desenrolou. "A condução poderia ter sido diferente. Poderia ter sido mais elegante. Mas também não é a primeira vez que é má conduzida a demissão de um técnico de futebol. E quando entramos na profissão, já sabíamos como era."

EFE/ Di Marco EFE/ Di Marco

A turma do Shakhtar

"A gente tem que perdoar a ignorância das pessoas. A maioria das críticas ao Fernandinho, ao Willian, ao Jadson têm a ver com a falta de conhecimento de futebol que as pessoas que fizeram a crítica tinham. Então a gente perdoa".

Sobre ser atacado por convocador jogadores que, naquela época, jogavam no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, e hoje são estrelas de Manchester City, Chelsea e Corinthians

"Neymar não foi 100% para a Copa. Era uma lesão de difícil recuperação"

O futebol arrebenta a saúde do técnico

Mano Menezes ama o futebol e o vive intensamente. Mas sabe que vai chegar a hora de parar - e não vai demorar muito. O técnico, que está com 57 anos de idade, revelou recentemente que gostaria de trabalhar por mais alguns anos, sem especificar uma data-limite. A intenção é preservar sua saúde.

"Não é algo matemático, mas é algo que eu vou considerar sim. O futebol arrebenta a saúde do técnico. E eu já vi colegas meus morrerem por isso, como o Telê. Já vi problemas com o Muricy, que teve que escolher parar. O Ricardo Gomes, que teve o AVC. Eu acho que você aprende olhando para o lado. E não tem razão nenhuma de eu chegar a tanto tempo mais".

A ideia de Mano é passar o bastão ao seu auxiliar Sidney Lobo. "Quero abrir espaço para os jovens que estão vindo e quero dar espaço para o Sidnei Lobo, que é meu assistente há bastante tempo. Ele é muito leal, muito capaz, daqui a pouco está na hora de ele assumir a parte dele".

"Eu tenho insistido muito com ele. Eu acho que tem uma hora que você tem que fazer. Estamos junto há 15 anos, 16 anos, ele sabe tudo aquilo que a gente pensa. É um técnico preparado. Assistente você está. Mas ele é um técnico. Então, daqui a pouco, vai chegar a hora dele".

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"É uma felicidade imensa os momentos em que a gente pode conviver com a família. Eu acho que é um lugar que você tem que ter, de forma tranquila. O futebol te dá vitórias e te dá derrotas, mas você ter um lugar para você voltar depois de ambas, é fundamental para se recuperar".

Mano Menezes, sobre a importância da esposa Maria Inês, da filha Camilla e do neto 

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