Escanteadas

O futebol brasileiro tem somente cinco mulheres em cargos de chefia

Bernardo Gentile, Felipe Pereira e Olga Bagatini Do UOL, em São Paulo e Rio de Janeiro

No mercado de trabalho, mulher em cargo executivo é minoria. No futebol, é raridade. Nos clubes que disputaram as séries A, B e C em 2017, somente cinco mulheres exerciam funções de chefia. A discrepância foi verificada na tese de mestrado "A trajetória das mulheres gestoras nas organizações futebolísticas brasileiras", de Monique Torga.

No documento, defendido junto ao Curso de Educação Física da Universidade de Juiz de Fora, ela compilou o organograma das 60 equipes inscritas nas três principais divisões do Campeonato Brasileiro daquela temporada. Monique pesquisou quem estava nos cargos de presidente, vice-presidente de futebol, supervisor de futebol, diretor-geral e diretor de futebol.

O critério foi escolher os cargos que dão poder de decisão. Existe somente uma mulher presidente de um time no Brasil - Myrian Fortura, comandante do Tupi (MG). Casos de desrespeito existem aos montes. Dirigente do Cabofriense, Flávia Seifert assina os contratos e nestas ocasiões já ouviu mais de uma vez uma frase que engloba todo o preconceito do futebol brasileiro: Eu quero falar com um homem.

A exceção: presidente faz time subir duas divisões

Quando a nutricionista Myrian Fortuna venceu a primeira eleição para presidente do Tupi (MG), em novembro de 2013, houve patrocinadores que desistiram da parceria com o time. O movimento não podia ser mais errado. A nova comandante recebeu a equipe na Série D, montou um elenco vitorioso e, dois anos mais tarde, conseguiu subir para a Série B do Campeonato Brasileiro. Os dois acessos calaram inclusive parentes.

"Pessoas da família acharam loucura. Uns diziam que não era meu lugar, outros tinham medo de eu ser discriminada e sofrer", conta.

Houve até gente com medo de o Tupi acabar por ser presidido por uma mulher".

Se havia desconfiança em casa, Myrian conta que a situação era tranquila com a comissão técnica e jogadores. Ela diz que nunca sofreu preconceito por parte deles. O mesmo ocorre com dirigentes de outros clubes e cartolas da Federação Mineira de Futebol e da CBF.

Mas com uma mulher na presidência, a máxima "futebol é resultado" é ainda mais apropriada. Nos anos em que o clube escalava as divisões do Campeonato Brasileiro, a relação era de amor. Mas a boa fase passou e o clube está, atualmente, na Série D e na lanterna do Campeonato Mineiro. O amor acabou.

"Quando o futebol vai bem, a gente é a melhor do Brasil. Quando não apresenta resultados, a gente é da pior espécie. Já fui ameaçada. De alguém ligar para o meu celular e dizer que sabe onde moro. Falam que mulher não entende nada, que não sabem o que estou fazendo aqui, que sou testa de ferro de alguém".

Myrian registrou dois BOs

Por causa destas ameaças, Myrian já foi duas vezes à Polícia Civil registrar boletins de ocorrência. Foi uma exigência da família, que deu um ultimato dizendo que ia parar de apoiá-la se não houvesse resposta a um comportamento com tamanho potencial de risco. 

A presidente reclama, pois nunca viu o trabalho de uma pessoa ser contestado por ser homem. Ela não entende porque a gestão seria pior apenas pelo clube ser comandado por uma mulher. Mas prova de que ela é uma exceção é que em 2017, ano da pesquisa do mestrado, Myrian era a única mulher presidente de um clube brasileiro. "A situação continua a mesma".

Mesmo que falem que é um cargo só para homens, se a mulher se acha capaz, tem que buscar. Se for por amor, por paixão, você ficará muito feliz. Me sinto muito orgulhosa de ser presidente do Tupi por dois mandatos. Meu avô e meu irmão foram presidente. Aquele prazer que eles tinham, eu também vivi

Myrian Fortuna, presidente do Tupi

Rafael Ribeiro / Vasco.com.br Rafael Ribeiro / Vasco.com.br

Preparadas e engajadas

Além de fazer o levantamento de quantas mulheres ocupam cargos executivos no futebol brasileiro, Monique Torga examinou o perfil dessas dirigentes. Percebeu que são pessoas bastante envolvidas com o clube e o futebol. 

Frequentam estádios desde cedo e eram conselheiras, condição necessária para disputar eleições pelo estatuto da maioria dos clubes. É o caso de Myrian, que passou por outros postos antes de assumir a gestão da equipe.

"Ninguém caiu de paraquedas. Todas já tinham relacionamento com o clube e escolheram o novo desafio de participar da gestão dos times", ressalta Monique.

A pesquisadora acrescenta que todas se prepararam com cursos. Mesmo assim, convivem com os preconceitos que são consequência de quem está quebrando barreiras. "Elas relatam que há resistência à autoridade e foram questionadas sobre ter conhecimento para poder opinar e tomar decisões. Ouviram que não entendem de futebol".

"Quero falar com um homem"

Flávia Seifert está no grupo de mulheres que fez os cursos necessários, incluindo o de gestão em futebol da CBF. A preparação rendeu o cargo de supervisora da Cabofriense e episódios desgostosos.

"Alguns pais de jogadores da base chegam no escritório, dão de cara comigo e pedem para chamar o responsável pelo futebol. Eu digo que sou eu e eles não acreditam de primeira. 'Eu quero falar com um homem'. Aí preciso explicar que na Cabofriense eu sou a responsável. Muitos ficam envergonhados e pedem desculpas. Eu já levo até numa boa".

Nos inícios de temporada, é preciso arranjar times para amistosos e sempre acontece de dirigentes dos clubes procurados perguntarem se Flávia é casada. A supervisora da Cabofriense sabe que é machismo, mas leva numa boa. Conviver com o ambiente hostil faz parte da profissão.

"Quando você fala de uma presença feminina no clube, nos ligam diretamente a psicologia, nutrição ou assessoria. Ser uma diretora e mexer diretamente com o futebol é algo muito raro ainda. E você sente nas conversas que o tratamento é diferente. Há uma desconfiança. Não gosto de ser julgada pelo meu sexo, mas pela minha capacidade".

Mas Flávia tem a fórmula para lidar com este tipo de comportamento. 

Como tudo na vida é questão de postura. Quem não souber se portar, deixa dúvidas. Então meu comportamento é reto e direto".

Corinthians e as síndicas

Favorito, Andrés Sanchez foi o vencedor na última eleição do Corinthians. A chapa ganhadora deveria ter duas mulheres: Edna Murad e Maria de Lourdes Jacob Mattavo. Mas houve pressão dos demais apoiadores de Andrés. Haviam reservas à concessão de duas vagas para mulheres.

A reclamação prevaleceu e Maria de Lourdes foi retirada. Descontente, enviou mensagens a parte daqueles que considerava aliados: "Após certa insistência e pensando no bem do clube, aceitei a proposta com alegria, pois eu via muitas oportunidades de contribuir com algo que faz parte da minha vida há 40 anos. No entanto, no dia de ontem, me foi comunicado que devido a questões de duas Mulheres como vice presidentes em um clube de futebol ser inadmissível, fui cortada da chapa. Confesso que na hora me senti chateada, triste, com o que havia acontecido. De certo modo, fiquei sem chão".

A escolha dela e de Edna pretendia blindar Andrés da desconfianças de sócios preocupados com ele se importar o somente com o futebol. Nas palavras da época, o sócio que ia ao clube para fazer churrasco e frequente a piscina estava com medo do então candidato olhar somente para o time.

Edna e Maria de Lourdes frequentam o Corinhtians há 40 anos e trabalhariam como espécie de síndicas do clube. Cuidariam da infraestrutura e receberiam as comunicações dos sócios. O nome do cargo era pomposo: vice-presidente. Mas era uma função muito mais de zeladoria do clube, afastada do futebol.

Vice-presidente com olhar feminino

Edna Vicente foi a mulher que foi nomeada vice-presidente no Corinthians. Apaixonada pelo time, ficou sem frequentar o estádio em duas ocasiões. Na adolescência, o pai entendia que arquibancada não era lugar de mulheres. Ao casar, teve quatro filhas e a criação delas a afastou dos alambrados.

"Frequentar o estádio de novo, só início do ano 2000, depois que minhas filhas já estavam grandes. Eu ia num grupo de amigas aqui do clube".

A vice-presidente entrou na cena política ao ser eleita três vezes consecutivas como conselheira. Ela diz que foi uma surpresa quando Andrés lançou a chapa com uma mulher incluída. "Não é muito comum mulheres na gestão de futebol".

Desde que assumiu o cargo, afirma que nunca foi desrespeitada. Acrescenta que logo perceberam que ela iria trabalhar bastante, incluindo atender as demandas do clube social. "O olhar feminino tem dado grandes resultados nas ações da responsabilidade social do Corinthians, futebol feminino, na presença feminina no estádio e nas diversas causas humanitárias".

Na Alemanha também acontece

Sandra Schwedler é supervisora do Sankt Pauli, time com ideias progressistas de Hamburgo e que disputa a segunda divisão do Campeonato Alemão. Como ocorre com Myrian e Flávia, também sofre questionamentos por ser mulher e executiva de um clube.

"Acontece muitas vezes de eu ir a evento como dirigente do clube e as pessoas acharem que sou a namorada, a filha de um homem que manda. Ainda há muito a muda na Alemanha também".

Outra situação em que ela vê machismo é ouvir parabéns de outros dirigentes quando está representando o time em eventos. Um homem num cargo executivo seria tratado como algo normal e não viraria atração. A supervisora ainda lembra a estranheza que causou ao ser escolhida para a função.

Ao aparecer pela primeira vez, a reação dos demais dirigentes foi pensar que o Sankt Pauli sempre é diferentão. Sandra afirma que o futebol pode ajudar a mudar a sociedade porque tem muita audiência, por isso, tenta manter o clube na segunda divisão para garantir maior evidência.

"Muitas pessoas dizem que levamos política para o futebol e que estádio não é lugar para isto. Eu acho que não é política, é direitos humanos e lutar pelo que é certo. Não é partido político, mas posição."

AFP PHOTO / GREG BAKER AFP PHOTO / GREG BAKER

Igualdade levará 500 anos

Doutora em Ciências Sociais com a tese "Mulheres executivas: ascensão e obstáculos nas organizações", Regina Martins conta que leu uma notícia de que em Londres as mães pagam os filhos para fazer a lição e tarefas domésticas. Os meninos ganham mais que as meninas. A consequência é aplicar a mesma lógica em cargos executivos.

Por motivos como este, a especialista acredita que a sociedade precisará de cerca de 200 anos para haver igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. O futebol é exceção. Para pior. Regina estima que serão necessários 500 anos.

"O futebol tem muito para evoluir, é pior que a sociedade. Na sociedade, os homens foram para guerra e foi usada a mão de obra disponível, que era feminina. Os paradigmas do futebol ainda são muito masculinos. É agressivo em campo, exige força física. São atributos da virilidade e se reproduz nas estruturas".

Regina vê como um fator positivo haver cinco mulheres executivas nos clubes que disputam as principais sérias do Brasileirão. Justifica que o exemplo é muito importante para promover mudanças. Mas a especialista ressalta que o dinheiro gira em torno das equipes masculinas e assim será por um bom tempo. Esta situação ajuda a manter o status quo. Ou seja, a solução passa pelo fortalecimento do futebol feminino.

É a mesma ideia de Fatma Samoura, secretária-geral da Fifa. "Hoje, o futebol masculino dá dinheiro e o feminino, custos. Mas o futebol feminino também deve dar dinheiro. Só lamento que os dirigentes homens não enxerguem esse tesouro que pede para ser explorado na frente deles", diz a dirigente senegalesa, ressaltando que apenas 1% do dinheiro obtido com direitos televisivos chega ao futebol feminino.

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