Sonho de verão adiado

Farra de Neymar, treta com esposas e mal-estar na comissão: os bastidores da seleção um ano após a Copa

Danilo Lavieri, João Henrique Marques, Pedro Ivo Almeida, Pedro Lopes e Ricardo Perrone Do UOL, em São Paulo e no Rio de Janeiro
AFP PHOTO / SAEED KHAN

O Brasil chegou à Rússia como favorito e com extremo apoio popular. Havia até quem pedisse o técnico Tite como presidente do país nas eleições de 2018. Mas a participação canarinho na Copa do Mundo terminou de forma frustrante com a derrota por 2 a 1 para a Bélgica nas quartas de final, em 6 de julho de 2018.

Foi uma noite que mudou os rumos da seleção e que hoje completa um ano. Os jogadores passaram a ser tratados com frieza pelo público e Tite se tornou vilão para muita gente. Amanhã (7), eles tentam mudar esse cenário com a final da Copa América em casa, no Maracanã, para voltar aos braços do povo.

Mas por que esse casamento não foi selado há um ano? O UOL Esporte revisita a preparação, capítulos polêmicos e os dramas da seleção brasileira no verão russo de Sochi. Foram ouvidas dezenas de pessoas envolvidas no processo, dentro e fora da seleção e no entorno dos atletas. O resultado dessa viagem no tempo e nos bastidores para contar o sonho adiado está aqui.

Jean Catuffe/Getty Images Jean Catuffe/Getty Images

Farra com o chefe

Os bastidores da seleção brasileira se mostravam agitados antes mesmo da chegada à Rússia. Em 4 de junho, uma segunda-feira após a vitória por 2 a 0 sobre a Croácia, Neymar aproveitou a folga após o duelo em Liverpool para se encontrar com o então novo técnico do Paris Saint-Germain, Thomas Tuchel.

O local escolhido foi uma discreta casa próxima ao centro de Londres. Na programação, um jantar de aproximação. O papo animado, no entanto, fez a noite ser estendida.

O simples jantar virou uma festa com direito a presença de amigos - e amigas -posteriormente convidados. Com bebida à vontade e muita música, a farra secreta fez valer uma das raras folgas no período pré-Copa. O retorno ao CT do Tottenham, onde a delegação se concentrava antes do Mundial, só aconteceu na madrugada.

Como sempre, Neymar era um dos mais animados. O abatimento e a preocupação por conta da lesão que ameaçava sua participação no Mundial pareciam ter ficado para trás.

Lucas Figueiredo/MoWA Press Lucas Figueiredo/MoWA Press

Um presidente isolado no luxo

A passagem da seleção brasileira pela Rússia contou com uma força-tarefa montada pela CBF para tentar conter seu próprio presidente à época, Coronel Nunes. Um estafe de dirigentes e funcionários se mobilizou para tentar tirar o cartola dos holofotes, evitar que ele se envolvesse em novas polêmicas e fazer-lhe companhia.

Depois de se meter em várias saias justas, como votar diferentemente do combinado com a Conmebol na escolha da sede da Copa de 2026, ele passou a ficar a maior parte do tempo num nababesco hotel em Moscou. De lá, pouco saía para passeios, raros compromissos oficiais e acompanhar aos jogos da seleção. Almoços sem pressa na companhia de familiares e da entourage da CBF o ajudavam a passar o tempo conversando amenidades.

Esporadicamente Walter Feldman, secretário-geral da confederação, e constantemente Jorge Pagura, como presidente da Comissão Nacional de Médicos do Futebol, estavam entre os que conviviam com o coronel. Pagura o examinava frequentemente e ficou ainda mais próximo depois que Gilberto Barbosa, assessor do presidente, voltou ao Brasil após causar cortes com um copo na cabeça de um homem que teria ofendido o dirigente. As peripécias de Nunes fizeram Rogério Caboclo, hoje presidente da CBF, se dividir nas funções de chefe da delegação da seleção e "bombeiro".

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Um incômodo chamado Sochi

A praia privativa em Sochi era como um paraíso para os jogadores no início, aceitação geral. O hotel luxuoso colado ao campo de treino também foi visto como ideal. Só que aos poucos, a concentração no resort foi parecendo desgastante.

As temperaturas giravam em torno dos 35 graus, ar seco, e treinamentos constantemente com horários modificados para o mais tarde possível. A distância para as cidades capitais da Copa também impressionou o elenco. O retorno à base após os jogos era considerado exaustivo. Assim, Sochi colecionou diversas críticas no grupo da seleção.

Na visão da comissão técnica, a base escolhida foi excelente. As ressalvas feitas foram justamente essas questionadas pelos jogadores.

Os problemas do quartel-general canarinho

Lucas Figueiredo/CBF Lucas Figueiredo/CBF

Academia inacabada

Apesar das visitas de planejamento com antecedência e do acordo com o hotel por um espaço dedicado à academia, os equipamentos encomendados chegaram com atraso e fizeram a delegação improvisar alguns tipos de exercícios. Em outras cidades, como Rostov-on-Don, os atletas precisavam procurar um local com condições de treino para alto rendimento. No acordo da seleção com o resort em Sochi, suítes presidenciais viraram centro de fisioterapia.

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Curtindo adoidado

Neymar aproveitou os momentos de folga em Sochi para curtir a praia, de fácil acesso, logo na frente do resort que servia como base para a seleção. Hóspedes do Swissotel viram o jogador se divertindo bastante, de forma efusiva e com certos exageros depois da vitória diante do México, pelas oitavas de final da Copa. Amigos do camisa 10 chegaram a alertá-lo. Sem sucesso. Longe dos torcedores, a curtição só aumentava - junto de parças, família e parte do estafe.

David Ramos - FIFA/FIFA via Getty Images David Ramos - FIFA/FIFA via Getty Images

Balcão de negócios

Além das famílias, a concentração em Sochi estava aberta para empresários. Entre o fim da fase de grupos e o início do mata-mata, o goleiro Alisson recebeu seu agente para um café. Ali, discutiram os últimos detalhes da transferência da Roma para o Liverpool. Outros também tiveram a liberdade de discutir o futuro nas horas vagas. O volante Fred, por exemplo, acertou a ida do Shakhtar Donetsk para o Manchester United durante o período de treinos na Inglaterra, antes da Copa.

Instagram/Reprodução Instagram/Reprodução

Férias frustradas

Enquanto Neymar caminhava nos corredores do hotel em busca dos familiares e a então namorada Bruna Marquezine, os demais jogadores utilizavam o celular para o contato. Não havia nenhum parente de outro atleta hospedado com a seleção. O acordo com a CBF foi de facilitação com um serviço de logística que funcionou para colocar os familiares em hotel próximo.

As queixas com o processo giraram basicamente pelo preço, sem nenhuma ajuda por parte da CBF, e por um problema com a lotação do local que impediu que várias reservas fossem efetuadas. Foram vários familiares que tiveram que, já no andamento da Copa, mudar de hotel - para um complexo ao lado, apenas com a necessidade dar alguns passos.

O caso de maior desespero foi relatado pela família de Douglas Costa. A ex-mulher, Louise Ramos, encontrou vaga no hotel da seleção brasileira e logo se mudou acompanhada do cachorro. Pouco depois ainda vieram o pai, a mãe e a irmã do jogador. Era um efeito "família Neymar" no hotel que quebrou a ideia inicial do elenco de ter pouco contato com os parentes no local.

Relembre lances da partida contra a Bélgica

Lucas Figueiredo/CBF Lucas Figueiredo/CBF

A folga misteriosa que (só) Neymar aproveitou

Noite de 3 de julho de 2018 em Sochi. A televisão no lobby do resort em que a seleção brasileira estava hospedada mostra Inglaterra x Colômbia. Era o dia seguinte à vitória brasileira sobre o México. A Bélgica seria a próxima adversária. De repente, sentado no sofá, discreto, com traje de passeio, está Neymar. Após poucos minutos, ele levanta e deixa o hotel. Não havia folga anunciada pela CBF, o que deixou em suspense a equipe do UOL Esporte no saguão.

O primeiro contato com os responsáveis da seleção só aumentou as dúvidas. A informação foi de que, de fato, o time não estava de folga. Os jogadores já tinham jantado com a presença de familiares no hotel. Estava instalado o mistério, mas, pouco depois, a CBF informou que parte do estafe da seleção não tinha sido avisado sobre uma folga "surpresa" decretada pela comissão técnica. Em seguida, Cássio, que tinha passado a noite com a família, também deixou o local.

A essa altura, o time do UOL no quartel-general da seleção já tinha montado uma operação de guerra com direito a plantão nas entradas para acompanhar o retorno de Neymar. Menos de uma hora após sair, o jogador do PSG retornou. Diferentemente do que costumava fazer, não passou pelo lobby. Pediu para o carro entrar na área restrita em que ficava o ônibus da seleção. O episódio compôs o cenário de uma concentração "aberta", receptiva a convidados dos integrantes da delegação e com horários de folgas incomuns comparados a padrões rígidos de outros tempos, como quando Dunga estava no comando, por exemplo.

Neymar em quatro atos

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Juan Carlos Osorio

Juan Carlos Osorio, colombiano, técnico da seleção mexicana na Copa de 2018

Pedro Martins / MoWA Press Pedro Martins / MoWA Press

Desgastes físicos e na comissão técnica

Os problemas não estavam apenas no entorno da seleção. Internamente, mais especificamente na comissão técnica, o mal-estar se instalou durante a Copa. Se Tite e seus auxiliares se entendiam bem na hora de montar time, avaliar situações táticas e estudar adversários, a mesma harmonia não acontecia em outras áreas.

Os departamentos de fisioterapia e preparação física discordavam inúmeras vezes. Enquanto o primeiro lado defendia cautela no tratamento, o outro tentava acelerar o retorno aos trabalhos em campo diante de um torneio de "tiro curto". Os processos de recuperação das lesões de Renato Augusto e Douglas Costa racharam de vez as partes. Não era raro ver um lado criticando o outro nos bastidores por conta de carga e metodologia de trabalho.

Pivô da discussão, Fábio Mahseredjian contava com o respaldo de Tite - prestígio mantido até os dias atuais. A moral do preparador físico, no entanto, se abalou em outros setores. O profissional, inclusive, teve sua renovação questionada pela diretoria após o torneio na Rússia. O condicionamento do grupo e os seguidos problemas físicos foram temas de debates no retorno do Mundial.

Lucas Figueiredo/CBF Lucas Figueiredo/CBF

Caboclo x Edu: o início do fim

"Será bom para todo mundo. Melhor assim", definiu uma figura da alta cúpula da CBF, nos últimos dias, ao comentar a saída de Edu Gaspar após a Copa América. O adeus do ainda coordenador de seleções é o ponto final de uma relação desgastada há tempos e que teve o auge de sua crise na Copa do Mundo de 2018.

Em baixa com o núcleo duro da Confederação após "largar" - termo utilizada nos corredores da sede da Barra da Tijuca - as categorias de base, Edu cruzou o Atlântico na mira dos chefes. A ideia de ter os familiares por perto era arriscada. Tudo precisava ocorrer da melhor maneira, impactando minimamente o ambiente dos jogadores. Nada feito. A presença de Neymar Pai dentro do resort que servia de concentração até hoje não foi bem digerida pela CBF. Num hotel próximo, familiares encaravam problemas na hora de deixar Sochi rumo às cidades russas que recebiam os jogos da seleção.

Em certa partida, jogadores recebiam mensagens em seus celulares minutos antes de a bola rolar, ainda no vestiário, com relatos de familiares sobre a confusão para chegar ao estádio. Alguns até sem ingressos. Outros entrando já com a bola rolando. O caso incomodou.

Presidente eleito e então CEO da CBF, Rogério Caboclo acompanhava tudo de longe. Discreto, pouco falava. Mas seus pares sabiam que a ideia de Edu já era considerada um fracasso. Na época da renovação de Tite, Gaspar era carta fora do baralho para a diretoria. Pesou a vontade do treinador e amigo do coordenador. A distância do segundo andar (diretoria de seleções) para o quarto (presidência) só aumentava. A proposta do Arsenal agradou a todos. Perder o coordenador deixou de ser preocupação e virou uma espécie de alívio.

Matthias Hangst/Getty Images Matthias Hangst/Getty Images

Briga entre famílias

Baseado na formação pré-Copa do Mundo, a titularidade de Marquinhos ao lado de Miranda era algo certo. No entanto, Tite surpreendeu a todos ao eleger Thiago Silva para o posto. A notícia não foi bem aceita pelo entorno de defensor.

Enquanto o jogador se mantinha discreto, familiares do jogador reclamavam da postura do técnico que havia prejudicado a evolução do zagueiro no Corinthians anos antes. O bom convívio com Thiago Silva fez o clima de descontentamento não atingir os vestiários da seleção, mas o mesmo não pode ser dito entre as famílias dos envolvidos.

No fim da Copa, o irmão de Marquinhos, Luan Corrêa expressou a revolta com Tite e ainda cutucou a esposa de Thiago Silva por abusar em postagens de comentários sobre o time: "a frança foi campeã, parabéns, time unido e treinador justo. Sem mulheres de jogadores falando m...". O bastidor conturbado se tornara público.

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Camisas para todos

Com familiares, amigos mais próximos e outros parças presente em todos os jogos do Brasil, Neymar resolveu retribuir o carinho de cada um que o cercava em solo russo. O craque comprou camisas oficiais da seleção para todos. E de um jeito pouco usual: pagando do próprio bolso, em decisão surpresa que até seu pai desconhecia.

Todos andavam para cima e para baixo com as camisas personalizadas. Acima do número 10, o nome de cada um dos presenteados. Até Neymar Pai ganhou a sua, mas optou por não utilizar. Na visão dele, poderia se tornar um alvo fácil em ruas e estádios, algo que não queria.

Mas a camisa não ficou guardada. Braço direito, assessor pessoal e espécie de "sombra" de Neymar Pai, o CEO das empresas do Instituto Neymar, Altamiro Bezerra, desfilava a camisa 10 com o nome do chefe por onde passava (foto).

Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images

Neymar pai libera ataques a Galvão

No hotel distante da concentração estavam os "Toiss, o grupo de melhores amigos de Neymar. Mas foi pelas redes sociais que a postura da turma agitou os bastidores da seleção. Após a vitória por 2 a 0 contra a Costa Rica, eles publicaram várias ofensas ao narrador Galvão Bueno.

As mensagens de irritação por conta das críticas do locutor ao camisa 10 foram apoiadas por Neymar da Silva Santos, o pai do jogador, considerado como chefe pelos "toiss". Nos dias seguintes ao episódio, Neymar pai aceitou a aproximação de representantes da Globo, e passou a ideia de que foi contra a atitude dos "parças".

Informalmente, exibia mensagens enviadas aos amigos de Neymar com o pedido de união e paz durante a Copa. Galvão Bueno, no entanto, se sentia pressionado pelo entorno do craque, mas não mudou o tom crítico da cobertura.

Michael Regan - FIFA/FIFA via Getty Images Michael Regan - FIFA/FIFA via Getty Images

Silêncio no fim

Os problemas fora de campo culminaram com a eliminação dentro dele. A queda diante da Bélgica nas quartas de final derrubou uma equipe que vinha confiante após uma incrível arrancada nas Eliminatórias. O vestiário, como não poderia ser diferente, revelou a tristeza de uma equipe que chegara à Rússia com a certeza que poderia ir mais longe. O silêncio dominou o ambiente.

Houve choro de jogadores, de pessoas da comissão e até mesmo de pessoas do comando da seleção brasileira. O que servia de consolo no momento foi o excelente segundo tempo disputado pelo time.

Pessoas que estiveram presentes nas duas últimas eliminações do Brasil na Copa relataram ao UOL Esporte que o tamanho do vexame em 2014, no 7 a 1, fez o clima em 2018, após a queda contra a Bélgica, ser considerado até leve.

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