"Não somos um canal"

Facebook estreia nas transmissões da Libertadores dizendo não ter a pretensão de virar um canal de esporte

Brunno Carvalho e Leandro Carneiro Do UOL, em São Paulo
Arte/UOL

A Copa Libertadores entrou definitivamente na era do streaming. Como os fanáticos por séries já se acostumaram a abrir o computador para assistir às produções da Netflix, agora todo torcedor de futebol que quiser assistir aos jogos de seu time no torneio sul-americano terá de acessar o Facebook.

Isso mesmo, o Facebook. A gigante das redes sociais comprou os direitos de TV aberta da Libertadores e terá exclusividade em TODOS os jogos transmitidos às quintas-feiras. Terças e quartas seguem com FOX Sports e SporTV, no cabo, e Globo, na TV aberta.

A dinâmica é simples: o torcedor acessará o Facebook normalmente, abrirá a aba Facebook Watch e digitará "Libertadores". Basta clicar no jogo em questão e a transmissão começa, em parceria com a FOX Sports, que também terá a transmissão disponibilizada em sua página na rede social.

É o caminho já visto com o serviço (esse, sim, de streaming) Dazn para fazer concorrência às emissoras tradicionais. Mas a estratégia do Facebook tem uma diferença: não existe, segundo os dirigentes da empresa, a pretensão de se transformar em um canal de esporte.

"A gente não é um canal, nós somos uma plataforma", afirma Leo Cesar, responsável pela área de esportes do Facebook na América Latina, durante uma conversa de quase duas horas com o UOL Esporte.

A rede social aposta na parceria com o FOX Sports, um canal de esporte propriamente dito, para a nova jornada que terá início nesta quinta-feira (7) com o jogo entre Huracán (ARG) e Cruzeiro.

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"Não vamos comprar todos os direitos"

A entrada do Facebook no mercado de transmissões esportivas se baseia em uma mudança de comportamento do público, de acordo com Leo Cesar. O fato de 98,2% da população brasileira possuir um celular, segundo dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), deixa o ramo mais convidativo para uma plataforma que aposta suas fichas na transmissão mobile.

"A mudança de comportamento das pessoas e a tradição de se consumir conteúdo de esporte determinaram nosso movimento. Mas isso não quer dizer que vamos sair comprando todos os direitos. Somos uma plataforma que não precisa disso. O mundo ideal para nós é permitir que quem tenha os direitos do conteúdo possa usar a plataforma e ter um modelo sustentável para rentabilização".

O movimento faz com que os direitos futuros do Campeonato Brasileiro não estejam no radar da rede social, algo diferente do que foi visto no Esporte Interativo, que comprou briga com a Globo e acertou com alguns clubes a transmissão para TV a cabo a partir deste ano. "Estamos felizes com os direitos que temos, principalmente para o mercado sul-americano. É difícil falarmos sobre o que vamos fazer lá na frente, mas não vejo um movimento nosso para esse sentido", completa Léo.

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Transmissões são parceria com FOX Sports

A Libertadores é a grande entrada do Facebook no mercado brasileiro de streaming. A rede social já transmite jogos da MLB (beisebol) para os Estados Unidos, Liga dos Campeões aqui mesmo no Brasil, mas nunca tinha apostado em algo que afetasse diretamente os torcedores brasileiros. Agora, Athletico, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio e Palmeiras já têm jogos garantidos com exclusividade na plataforma.

Sem a citada pretensão em virar um canal de esporte, o Facebook fechou uma parceria com o FOX Sports para os jogos da Libertadores, algo semelhante com o que acontece com o Esporte Interativo e a Liga dos Campeões. Basicamente, os canais tradicionais usam toda sua estrutura (câmeras, narradores, comentaristas, repórteres) e a rede social transmite no Facebook Watch, sua recém-lançada plataforma de vídeos.

"A principal motivação que nos fez comprar os direitos foi o desenvolvimento do Facebook Watch. Nós não somos um canal, nós somos uma plataforma. Não existe uma página 'Facebook Esportes'. Quando compramos os direitos, fazemos duas perguntas: quem vai produzir o conteúdo e onde vamos colocar esses jogos. Normalmente, temos ido no caminho dos detentores dos direitos nos meios tradicionais", explica Leo Cesar.

O movimento de ampliação do Facebook Watch levanta dúvidas sobre um futuro "Netflix" para a rede social, com conteúdo exclusivo para assinantes, algo que Leo Cesar descarta. "Nosso modelo é essencialmente aberto".

Divulgação/Blue Pub Divulgação/Blue Pub

Transmissão à vontade em bares

A promessa de conteúdo gratuito se estende aos bares. Diferentemente do que acontece com o Premiere FC, sistema de pay-per-view do Campeonato Brasileiro e Estaduais, o Facebook não terá uma espécie de pacote de transmissão para estabelecimentos comerciais. Ou seja, os bares precisarão apenas de um computador para levar os jogos da Libertadores aos clientes.

"Não temos problema nenhum com isso, o sinal está liberado. Claro que vai ter todo um trabalho de educação com as pessoas sobre esse novo modo de transmitir jogos, mas não é algo tão complexo. Basicamente, um cabo resolve o problema".
 

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Internet brasileira vai aguentar?

Um estudo divulgado em junho de 2018 mostrava que boa parte da população brasileira com acesso à internet possuía planos com velocidade abaixo dos 5 Mbps recomendados pela Netflix para assistir a streaming. Em um país com um dos piores resultados de velocidade de internet, como fazer uma transmissão de um time de massa sem enfrentar problemas com a conexão?

Depois de sofrer com isso na primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões, o Facebook diz contar com a parceria de empresas de telecomunicação para entregar a "melhor qualidade possível" para quem acompanhar os jogos da Libertadores.

"Hoje, a banda larga no Brasil atinge 30 milhões de domicílio. É um número bastante expressivo diante da realidade brasileira. A gente acredita que a conexão suporta a transmissão dos jogos. Estamos bem tranquilos em relação a isso".

REUTERS/Massimo Pinca REUTERS/Massimo Pinca

Sucesso da Liga dos Campeões serve de inspiração

O Facebook tenta não comparar as duas competições, mas é na audiência da Liga dos Campeões que vem a base para a Libertadores. Transmitida em parceria com o Esporte Interativo, a competição europeia tem sido um sucesso de audiência na rede social. De acordo com a empresa, quase 9 milhões de pessoas já assistiram ao torneio na América Latina nesta temporada.

"Acho que poderemos comparar melhor quando tivermos os jogos de times brasileiros passando com exclusividade no Brasil. Será mais fácil para comparar a audiência da Libertadores com a Liga dos Campeões", explica Leo Cesar.

A diferença de acesso entre as duas competições tende a ser a plataforma utilizada pelo torcedor. O fato de os jogos da Liga dos Campeões serem à tarde faz com que o celular seja o aparelho favorito. Com os duelos noturnos da Libertadores, a situação deve mudar um pouco.

"A Liga dos Campeões é massivamente acompanhada pelo celular. Ainda não dá para ter certeza no caso da Libertadores, mas acredito que a audiência será mais pelo computador. O mobile acaba dominando porque o consumo dos nossos vídeos é mais de 90% pelo celular de uma forma geral, mas o horário dos jogos deve ter um impacto".

Os jogos brasileiros exclusivos do Facebook

  • 7/3: Huracán (ARG) x Cruzeiro, às 19h

  • 14/3: Athletico x Jorge Wilstermann, às 21h

  • 4/4: Univesidad Católica x Grêmio, às 19h

  • 11/4: Flamengo x San Jose, às 21h

  • 25/4: Melgar x Palmeiras, às 23h

  • 9/5: Boca Juniors x Athletico, às 21h30

Lucas Uebel/Getty Images Lucas Uebel/Getty Images

Como funcionará no mata-mata?

O Facebook entrará em pé de igualdade no mata-mata da Libertadores com as outras detentoras dos direitos de transmissão. Quando a fase de grupos terminar, a Conmebol fará um sorteio para decidir qual jogo das oitavas de final será transmitido em qual dia. E aí tudo pode acontecer.

Se no momento o Facebook já tem garantido cinco jogos de times brasileiros com exclusividade, esse número poderá aumentar caso algum brasileiro seja sorteado para entrar em campo na quinta-feira.

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