Como eu cheguei até aqui?

Felipe Andreoli superou desprezo dos colegas para virar a grande aposta do esporte da Globo em São Paulo

Beatriz Cesarini e Chico Silva Do UOL, no Rio de Janeiro
Ricardo Borges/UOL

A carreira de Felipe Andreoli decolou nos últimos anos. CQC, Encontro, Esporte Espetacular e, agora, Globo Esporte. Mas há 15 anos, as coisas eram bem diferentes. Em 2006, ele era vídeorrepórter da TV Cultura e tinha de operar a câmera, segurar microfone, fazer entrevistas e ainda gravar suas passagens, sem ajuda.

"O Leão chegou a falar que eu roubava emprego de cinegrafista e não respondeu pergunta para mim em coletiva. Cinegrafista batia palma, esbarravam em mim no meio da coletiva", lembra. "Os caras achavam que eu estava roubando o emprego deles. Ali foi onde passei a pior fase".

Segregação, mesmo. Os repórteres não me consideravam repórter. Os cinegrafistas não me consideravam cinegrafista. Era um pária, praticamente".

Em entrevista ao UOL, Andreoli conta como construiu sua carreira desde as tardes com o pai famoso, o início como repórter-abelha e o amadurecimento profissional que o levou à Globo.

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"Como é que eu virei videorrepórter? Cheguei para o Davi Molinari, que era chefe de reportagem na TV Cultura: 'Eu era repórter lá na Record, queria ser repórter aqui, velho'. Era estagiário. O cara me olhou: 'Esse moleque é folgado... Você sabe operar uma câmera?'. Eu falei: 'Que câmera?'. 'Digital, para ser videorrepórter'. 'Sei'. Nunca tinha ligado uma câmera. 'Vou pegar essa câmera, botar tudo no automático e pau na máquina'. E o peso daquela p...?"

Andreoli, sobre seu primeiro emprego em frente às câmeras

Andreoli escolheu o esporte. Jornalismo veio depois

Felipe Andreoli chegou à Globo já com uma carreira consolidada. Tinha sido repórter do CQC e apresentado um programa esportivo na Band. Mas como foi contratado para trabalhar em um programa de variedades (era repórter do "Encontro com Fátima Bernardes"), ele tinha de deixar seu lado boleiro em segundo plano.

A paixão por esportes, porém, era evidente. Até para o diretor da Globo, José Bonifácio Brasil de Oliveira, o Boninho. "Fomos jantar eu, a Fátima, o Boninho e o Maurício Arruda, que era o diretor do Encontro, até então, para ver se rolava a minha vinda para a Globo mesmo... Nessa reunião, a gente bebeu um vinho e uma hora a conversa ficou menos profissional. O Maurício gosta muito de futebol, a Fátima gosta também, e a gente começou a falar de futebol. Depois eles me contaram que o Boninho virou: 'Pô, esse cara só quer falar de futebol, só quer falar de esporte, o que ele vai fazer aqui no Encontro?'".

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Plantões com o pai, Luiz Andreoli

Felipe respirava TV desde criança. Aos fins de semana, acompanhava o pai, o apresentador Luiz Andreoli, nos plantões na redação da TV Globo. Ali nasceu o sonho de virar jornalista e fazer parte daquele mundo. Hoje, ele é apresentador do Globo Esporte, mesma função que o pai ocupou na década de 1980.

"Essas coisas me marcaram muito. Eu comecei a ver meu pai fazendo aquilo, eu não entendia direito o que era, porque eu tinha seis, sete anos... Mas eu falava que queria fazer isso. Era engraçado, era meio um desejo do que todo mundo tem hoje. Eu queria ser famoso porque meu pai aparecia na TV", contou Andreoli.

"É um ciclo muito maluco. Eu sou bem mais fanático por esporte do que o meu pai. A influência de ir até lá, ver aquelas máquinas de escrever... Eu lembro dos profissionais que trabalhavam com ele. Michel Laurence, Zé Maria de Aquino... Coisas que são bem vivas na minha memória afetiva mesmo. Hoje, trabalhando com essas pessoas, estar com o Galvão, chamar o Tino Marcos num link, caras que eu assistia almoçando no colégio...".

Mesmo com uma carreira consolidada, Felipe ainda ouve que só conquistou o sucesso por causa do pai. Ele conta, porém, que o único emprego em que o pai ajudou foi o primeiro, no "Fala que eu te escuto", programa da Igreja Universal do Reino de Deus transmitido nos fins de noite pela Record.

"Vira e mexe chega um desavisado: 'Esse aí só está onde está porque o papai não sei o quê'. Eu olho e dou risada, não dou a mínima credibilidade. Eu sei o que eu fiz para chegar até onde cheguei. Acho que a partir da época que eu fiz o CQC a galera parou de relacionar. 'Ah, o Luiz Andreoli é o seu pai?'. Muita gente nem sabia disso".

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Premonição de Tiago Leifert

Felipe Andreoli chegou na Globo em 2015 para fazer o "Encontro com Fátima Bernardes", mas um dos primeiros lugares que o jornalista visitou foi a redação de esporte da emissora em São Paulo. Ele, então, encontrou Tiago Leifert, editor-chefe e apresentador do Globo Esporte na época.

"Muita gente falava que queria muito que eu fosse pra Globo. Eu já tinha tido outros convites e sempre falava com o Tiago. A gente se encontrou muitas vezes, ele como repórter ainda, eu pelo CQC. Aí, no dia em que eu cheguei na redação, o Tiago veio na minha direção e botou o crachá dele em mim, meio que passando o bastão. No primeiro dia, primeiro, primeiro, primeiro", contou Felipe.

Quatro anos se passaram e hoje Felipe Andreoli é apresentador do Globo Esporte São Paulo. "Na época foi uma brincadeira. A gente deu risada. Mas quando soube que ia apresentar o GE, mandei uma mensagem para o Tiago: 'Pô, queria um dia conversar com você, bater um papo'. 'O que foi? Alguma coisa?'. 'Não, nada. Te falo pessoalmente'. Aí, saiu o comunicado oficial na emissora e ele já mandou umas carinhas, comemorando".

Agora, que chegou ao Globo Esporte, Felipe pretende levar um pouco da influência do parceiro, que marcou a nova cara ao programa diário. "O Tiago falou uma coisa que eu guardei e é muito legal: 'Cada matéria é um filme'. Às vezes, por exemplo, um jogo que aconteceu ontem pode ter sido um filme de terror ou de comédia. Eu não vou querer aquela matéria que o cara fala assim: 'Então, Jorginho foi à linha de fundo e cabeceou. A bola passou com perigo'. Isso já foi. O cara já viu os melhores momentos, já viu os gols. No Globo Esporte, ele quer ver o além do jogo".

Enchentes no Rio foram "alerta" para retorno a SP

Nos primeiros meses de 2019, fortes chuvas causaram enchentes e mortes no Rio de Janeiro. Os incidentes serviram de alerta para que Felipe e a esposa Rafa Brites decidissem voltar para São Paulo com o filho Rocco. A ideia inicial era seguir apresentando o Esporte Espetacular, viajando semanalmente ao Rio de Janeiro. O Globo Esporte veio de surpresa, no início de maio deste ano.

"A gente estava com a nossa casa de São Paulo praticamente vendida. As enchentes, para a Rafa, foram um sinal. Ela falou: 'A gente tem que voltar'. Na Globo, eu falei: 'Gente, eu preciso voltar para São Paulo'. Os caras falaram: 'Você não acabou de comprar o título no clube?'. Então, para todo mundo foi meio um impacto. A Rafa colocou isso: 'Precisa ser rápido'. Para a gente era importante ser rápido mesmo. Os chefes falaram: 'Tá. Dá um tempo aqui para gente'. Em uma semana, dez dias eles vieram com essa contraproposta [de apresentar o Globo Esporte]. O que eu tinha imaginado: "Venho no sábado, durmo no sábado aqui para não ter nenhum risco, faço o Esporte Espetacular domingo e volto", contou.

"Eu falei: 'Gente, só preciso voltar pra São Paulo. Vamos arranjar uma logística para continuar indo e voltando'. Como é que vou virar para o meu chefe e falar: 'Quero apresentar o Globo Esporte, agora, tá bom?'. Não tenho esse poder. Não foi uma decisão minha apresentar o Globo Esporte. Foi uma proposta dos meus chefes. 'Tá, você quer voltar pra São Paulo. O que você acha disso?'. 'Vamos embora, legal, vamos fazer'", esclareceu Felipe.

"Topo, mas eu quero botar a mão na massa"

Felipe chegou ao Globo Esporte e substituiu Ivan Moré, que decidiu deixar a emissora ao saber que não apresentaria mais o programa esportivo. Assim que a notícia circulou pela empresa, Andreoli recebeu um email do agora antigo comandante da atração e se sentiu até desconcertado.

"O Ivan me mandou um email supergentil. Eu fiquei desconcertado. Lógico que eu entendo, uma troca assim não é fácil e ele foi superquerido. Ele falou: 'Olha, agora é sua vez, boa sorte. É sua hora de brilhar, conta comigo no que você precisar'. Eu liguei para o pessoal da Globo de São Paulo, pedi o telefone dele, mandei uma mensagem para ele, a gente conversou pelo WhatsApp", contou Felipe.

Quadros que Ivan criou, como o 'Fala, Casão', serão mantidos. Mas Felipe quer ir além. Antes mesmo de entrar no ar, ele já tinha inúmeras ideias para contribuir com o programa. Eles falaram: 'Você topa fazer o Globo Esporte?'. Eu falei: 'Topo, mas eu quero botar a mão na massa'. Eu não quero ser só o apresentador. Eu não vim para ler o que está escrito no TP. Eu quero botar meu conteúdo, minhas ideias, os formatos..."

"Quero faz coisas mais curtas. Às vezes sem repórter, por exemplo. Não matérias, mas pequenos quadros... Volta do bloco, não volta comigo chamando, entra uma coisa direto. Vou dar um exemplo simples, uma coisa que eu quero fazer: 'Cinco coisas que você não sabe sobre mim'. E vai entrar o Dudu e falar: 'Fala, galera, eu sou o Dudu, do Palmeiras, e agora você vai saber cinco coisas que você não sabe sobre mim. Olha, eu faço um ótimo bacalhau, eu corto a unha do meu filho toda a semana, minha avó é corintiana e, nossa cara, eu sofro muito de azia com pimentão. Eu sou o Dudu e você acabou de descobrir cinco coisas que você não sabia sobre mim'", exemplificou o jornalista.

"Era muito competidor, hoje eu sou parceiro"

Em uma autoavaliação sobre sua carreira, Felipe Andreoli fala em amadurecimento. O jornalista se considerava uma pessoa mais competitiva no ambiente de trabalho e hoje já vê os colegas como parceiros.

"Quando eu era mais novo, até na época de CQC mesmo, eu via muito os meus colegas, meus camaradas, como competidores: 'Nossa, tem que ficar esperto com esse cara aí'. Eu lembro que no CQC me impactou muito porque eu fui o último a fazer merchan. Todo mundo já tinha feito. 'Pô, por que querem fazer com o Oscar Filho e não comigo? Com o Rafael Cortez, com o Danilo Gentili e não vai fazer comigo?'. Depois, foi natural. Era só uma rotação. Todo mundo fez. Praticamente, equilibradíssima ali a distribuição. Eu era muito competidor. Hoje, eu sou parceiro", analisou Felipe.

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"Padrão globo de qualidade talhou muitos talentos, mas também tolheu"

Não foi só Felipe que mudou. O jornalista também notou uma mudança positiva na emissora em que trabalha atualmente. Para ele, o famoso 'padrão Globo de qualidade' influenciou de maneira positiva na formação de muitos profissionais, mas chegou a 'podar' talentos.

"O 'padrão Globo de qualidade' talhou muitos talentos, mas ele tolheu também. Eu acho que, hoje, a empresa está muito mais moderna. Até se você olhar os nossos chefes: em geral, são caras que topam arriscar, fazer coisas diferentes. Eu nunca me senti engessado, nunca fui tolhido", apontou.

"O Lucas [Gutierrez] estava contando da época em que não o deixavam entrar no ar de barba. Ele sempre quis usar barba. Ele chegava de férias com barba. Não vou falar quem era o chefe, mas ele falava: 'Tira a barba, senão não vai pro ar. Tira a barba'. Foi experiência do Lucas, que falou: 'Poxa, eu não posso ser eu?'"

Ricardo Borges/UOL Ricardo Borges/UOL

"O CQC foi quando eu virei o Felipe Andreoli"

O CQC (Custe o Que Custar) estreou na TV Bandeirantes em 19 de março de 2008 e gerou um boom na televisão brasileira. O programa trouxe notícias cotidianas com mais humor e irreverência. Felipe Andreoli integrou a trupe original da atração.

"O CQC foi uma mudança de vida, quando eu virei o Felipe Andreoli. Virei uma pessoa mesmo. Se eu sair daqui da Globo, eu vou continuar sendo o Felipe Andreoli pela persona que eu criei ali, pelo profissional que foi criado ali. O CQC foi quando eu virei uma pessoa conhecida pelo grande público, foi a grande virada, sem dúvida", avaliou.

"O que me marca até hoje é quando eu fiz o teste para o CQC. Foi no último jogo do Brasileirão de 2007, em que o São Paulo foi campeão. Eu estava com o terno e os óculos escuros. Os repórteres que estavam lá já eram acostumados comigo das coberturas esportivas. O Eduardo Affonso, da ESPN, olhou e falou: 'O que você está aprontando hoje?'. Ou seja, eu sempre fiz isso. Eu sempre fazia coisas diferentes. Aparecia com uma bolinha de tênis e pedia para o cara fazer uma embaixadinha, pedia para o cara recitar um poema. Eu sempre tentei buscar essas coisas. Eu fui me ligar disso através de um comentário do meu companheiro: 'Cara, você está de terno e gravata. O que você está aprontando, hoje?'. Aquilo me marcou muito", contou Andreoli.

Band Band

Bolsonaro: entenderam a piada errado

O CQC deu [vitrine para Jair Bolsonaro], mas eu acho que o pessoal entendeu a piada de forma errada. Levou a sério, mas era uma piada. Ele aproveitou uma onda, soube entender muito bem a situação que o país estava passando e soube surfar muito bem essa onda. E foi eleito, né...

Andreoli sobre as entrevistas de Bolsonaro no CQC

Divulgação/Band Divulgação/Band

Os ex-integrantes do CQC

Em todo o período que passou no CQC, Felipe Andreoli trabalhou ao lado de várias personalidades.

Com Marcelo Tas, a relação é de admiração: "É um cara de vanguarda, sempre um passo à frente. Uma coisa que me marcou muito quando ele abriu o Twitter dele. Um dos primeiros caras do Brasil a ter Twitter. 'Que é isso, Tas?'. 'É uma ferramentinha nova, chama rede social'. É engajado nas novas tecnologias, no que vem por aí".

Com Danilo Gentili, é cordial, mesmo discordando das atitudes polêmicas do ex-companheiro de programa. "Se o Danilo passar aqui, cumprimento. Discordo de muitas coisas, mas digo assim: eu não gosto quando a gente estimula o debate através do ódio. Isso acontece dos dois lados. Através do ataque, através da agressividade. Não é o meu estilo. Não é justo, cara. Olha o tamanho de seguidores, de tudo o que ele tem, às vezes, ele vai para cima de pessoas que são anônimas, que, às vezes, não tem nem a condição psicológica de se defender, só porque alguém discordou dele".

Outro apresentador, Rafinha Bastos, é alvo de elogios. "Sou fã. Estou muito feliz de ver o sucesso dele lá nos EUA. Acho que ele errou na história da Wanessa. Ele era muito importante para aquele programa. Não sou amigo do Rafinha. A gente não se fala direto, nada. Temos uma boa relação, mas eu sou fã dele como profissional. Eu acho ele um humorista muito bom. Aprendeu com seus erros", comentou.

Por fim, Andreoli contou que as pessoas ainda confundem ele e Marco Luque. Ambos são tão amigos que se chamam de irmãos. "Uma coisa de alma mesmo. A gente se fala praticamente toda a semana. O Marco, agora, que veio gravar a Escolinha, antes de eu ir embora do Rio, ele dormiu em casa. A gente se dá muito bem, a gente se adora, liga para falar de coisas da vida. Foi o cara que eu fiquei mais próximo".

Reprodução/Instagram/@rafabrites Reprodução/Instagram/@rafabrites

"Beijinho no pai"

Felipe Andreoli e Rafa Brites são casados há sete anos. Em 2016, ficaram grávidos de Rocco. A repórter decidiu fazer uma surpresa especial para o marido quando soube da gestação. E acredite ou não, Cristiano Ronaldo entrou na história.

"Eu tinha acabado de sair de casa, ela me ligou. Falou: 'Meu, volta'. 'O que aconteceu?'. Eu não imaginei que ela pudesse estar grávida. A gente tinha acabado de assistir o documentário do Cristiano Ronaldo. A gente ficou impressionado com o quanto ele era amoroso com o filho dele. E tudo era: 'Beijinho no pai, beijinho no pai'. E o moleque nunca queria dar um beijo no Cristiano Ronaldo. Voltei para casa desesperado, cheguei e já vi que ela estava com o olho cheio d'água. Ela levantou a blusa e estava escrito beijinho no pai na barriga dela".

"É a maior coisa da vida, a coisa que mais dá trabalho na vida. É indescritível. Eu costumo falar de filho, quando eu falo de filho, todos os clichês que colocam em relação a ter filho são verdade. 'Vai ser o maior amor da sua vida. É um coração batendo fora do peito. Você nunca mais vai ser a mesma pessoa. Você nunca mais vai dormir do mesmo jeito'. Não tem como dissociar. Me fez também, de alguma forma, olhar um pouco mais para os meus pais, com os conflitos que eu tive com eles, ser um pouco mais tolerante, até mesmo, às vezes, condescendente com as coisas porque aí você vê o que eles passaram".

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