Fórmula do futuro?

Fórmula E, a categoria do automobilismo com carros elétricos, quer mostrar que você ainda vai ter um deles

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo

O automobilismo tem várias modalidades e categorias, mas, hoje em dia, só a Fórmula 1 que atinge, mesmo, o grande público no Brasil - com pitadas de Stock Car ou Fórmula Indy. Neste sábado (15), com uma corrida na Arábia Saudita, começa a temporada 2018/2019 da Fórmula E, a grande aposta em uma mudança nesse cenário.

Pode ser que você nem saiba o que é essa nova categoria. E tudo bem! É só a quinta temporada. Então, vamos à explicação das enciclopédias: "Fórmula E é uma categoria de automobilismo organizada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) com carros movidos exclusivamente a energia elétrica." Prefere a explicação da própria modalidade? "Nós estamos aqui para reinventar a corrida com o esporte do século 21."

Como dá para ver, eles são audaciosos. Nesta temporada, entram em cena montadoras como BMW, HWA (afiliada da Mercedes) e Nissan. E ainda chegam pilotos como Stoffel Vandoorne (que correu a temporada 2018 da Fórmula 1 pela McLaren) e o brasileiro Felipe Massa. A prova de estreia será transmitida no Brasil pela Fox Sports, sábado, a partir de 9h30. Há novas regras, novos carros e mais velocidade e tecnologia.

Tudo parte de uma revolução elétrica baseada na defesa do meio ambiente, pensando no fim dos carros movidos a combustíveis fósseis. A indústria automobilística está mudando e a tecnologia das pistas vai acabar nas ruas, como acontecia nas origens da Fórmula 1. Não dá para ignorar o que está rolando.

Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

Entrada de Felipe Massa pode popularizar categoria no Brasil

País já tem dois campeões, Nelsinho Piquet e Lucas di Grassi, considerado o maior da história da categoria

Dois brasileiros já são campeões da Fórmula E: Nelsinho Piquet conquistou o primeiro título, na temporada 2014/2015, e Lucas Di Grassi, vencedor da primeira prova da história do esporte, que conquistou o título em 2016/2017 e considerado por muitos como o maior piloto da história da categoria, pois nunca esteve fora dos três primeiros lugares nas cinco temporadas disputadas. Bruno Senna, sobrinho do tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna, também já correu com carros elétricos. Nenhum deles, porém, tem tanto cartaz quanto a novidade que vai estrear neste sábado: Felipe Massa.

Depois de 15 anos na Fórmula 1, com o currículo recheado por um vice-campeonato mundial em 2008, pela Ferrari, o brasileiro será piloto da Venturi, que tem parceria técnica com a HWA, afiliada da Mercedes. Um dos objetivos da Fórmula E, além da contratação de um piloto em condições de disputar título, é popularizar a modalidade no Brasil, como diz o CEO, Alejandro Agag: "Para a Fórmula E, o Brasil é prioridade. Temos pilotos e parceiros e queremos estar no Brasil".

Divulgação/Venturi Formula E Team Divulgação/Venturi Formula E Team

"Nada do que eu aprendi na F-1 vai me ajudar na Fórmula E"

A estreia de Massa na Fórmula E vem um ano depois de se aposentar da Fórmula 1. Ao UOL Esporte, ele falou das diferenças dos carros e do aprendizado que terá pela frente nessa sua primeira temporada na categoria de carros elétricos.

"Fizemos testes importantes para conhecer o carro, mas ainda tenho muito o que aprender. Não conheço nenhuma das pistas em que vou correr e ainda preciso entender como estamos em relação às outras equipes, pois ainda é difícil ter certeza. Mas estou curtindo. É uma experiência nova para mim. Tomara que eu consiga me divertir e ser competitivo também." A equipe do brasileiro, a Venturi, está na Fórmula E desde o início do campeonato, em 2014, mas até hoje ocupou posições intermediárias. Na última temporada, ficou em sétimo lugar entre 10 equipes.

Em relação ao carro da Fórmula 1, Massa diz que o Fórmula E é completamente diferente, a não ser por um detalhe: "Tem muito botão também! E muita coisa a ser feita". Mas as semelhanças param por aí. "Você tem que pensar na bateria, tem muita coisa para administrar do lado elétrico, e o jeito de guiar também é diferente da F-1. No carro, tudo é diferente: não tem tanta carga aerodinâmica, o pneu é radial. É tudo diferente." Por conta dessas diferenças, até mesmo o aprendizado de Massa nos quatro anos em que correu com motores híbridos na Fórmula 1, com parte da potência vinda da recuperação de energia, não lhe ajuda muito na nova categoria.

Tudo o que eu aprendi na F-1 não me ajuda em nada. Nem a maneira de frear para recarregar bateria, nada. É tudo diferente mesmo!"

Apesar de animado pela estreia na categoria elétrica, Massa ainda não é um "convertido" às energias limpas. Perguntado se continua usando, em seu dia a dia, carros com motor a combustão, o piloto ponderou. "Por enquanto, sim. Mas estou começando a pensar nessa mudança."

Belo Horizonte pode receber prova em 2020

A Fórmula E já teve duas provas anunciadas para o Brasil, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nenhuma delas aconteceu, por questões burocráticas. O circuito paulista já estava até traçado, no entorno do Parque do Ibirapuera, mas não saiu do papel. Outra alternativa era o Anhembi, mas as evidentes complicações de trânsito, porque uma faixa da Marginal Tietê seria fechada, e a indefinição no projeto de privatização do sambódromo atrapalharam os planos. 

Cabe pontuar que a Fórmula E tem provas realizadas em circuitos de rua por razões específicas: reforçar a ideia de energia limpa e preocupação com as cidades e popularizar a modalidade. A ideia é trazer as corridas para perto das pessoas, porque dificilmente as pessoas pagariam ingressos caros e se deslocariam em massa para assistir um esporte sem nenhuma tradição.

Nesta fase de indefinições, ganhou força a possibilidade de ser realizada uma etapa brasileira da Fórmula E em Belo Horizonte. Aconteceria na temporada 2019/2020 ou 2020/2021. Há incentivo do poder público e também da iniciativa privada, pois a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), sediada em Araxá, é líder mundial na produção e fornecimento de produtos de Nióbio (elemento químico que, associado a outros metais, aumenta a eficiência energética de veículos) e tem interesse na proximidade do evento. 

"Grandes construtores de automóveis querem que estejamos no Brasil e nós queremos estar no Brasil. Creio que seja somente uma questão de tempo para que a Fórmula E consiga ter uma corrida no Brasil", diz, ao UOL Esporte, Alejandro Agag.

Nesta temporada serão 13 corridas em 12 cidades nos cinco continentes.

Etapas da temporada 2018/2019

  • 15/12/2018 - Ad Diriyah (Arábia Saudita)
  • 12/1/2019 - Marrakesh (Marrocos)
  • 26/1/2019 - Santiago (Chile)
  • 16/2/2019 - Cidade do México 
  • 10/3/2019 - Hong Kong 
  • 23/3/2019 - Sanya (China)
  • 13/4/2019 - Roma (Itália)
  • 27/4/2019 - Paris (França)
  • 11/5/2019 - Monaco
  • 25/5/2019 - Berlim (Alemanha)
  • 9/6/2019 - Berna (Suíça)
  • 13/7/2019 - Nova York (Estados Unidos)
  • 14/7/2019 - Nova York (Estados Unidos)
Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

Há transmissão no Brasil, sabia?

Apesar de ser uma modalidade ainda pouco conhecida no Brasil, a Fórmula E terá todas as suas provas transmitidas pelos canais Fox Sports ao vivo nesta temporada. O canal ainda tem o programa "Fox Nitro", que aborda o esporte e é conduzido pelo jornalista Flavio Gomes. Especializado em automobilismo, o apresentador aposta em uma transmissão para facilitar a compreensão do esporte.

"Como é uma categoria relativamente nova, indo para sua quinta temporada, é sempre importante algum didatismo na hora de explicar o funcionamento de tudo. É bom detalhar o evento, o regulamento esportivo, o regulamento técnico, o funcionamento dos carros. As pessoas não estão muito acostumadas ainda a verem carros de corrida com essa característica especifica da propulsão elétrica. As pessoas entendem, mesmo que não sejam conhecedoras de mecânica, o funcionamento de um carro porque normalmente possuem carro em casa. A diferença para o carro elétrico é que o motor não existe, a propulsão é outra, de outra natureza. Então é sempre importante reforçar essas explicações técnicas com uma linguagem que seja compreensiva a todos", explica o jornalista, que também espera a popularização da Fórmula E pela presença de Felipe Massa no grid.

"O Nelsinho e o Di Grassi não chegaram a fazer história na Fórmula 1, diferentemente do Felipe. Eu acho que é possível, sim, que haja um aumento da popularidade, mais gente prestando atenção, e isso pode ser bastante positivo para quem acompanha e transmite a Fórmula E. O Felipe Massa é um cara popular e foi durante os últimos anos o representante único do Brasil na Fórmula 1. Isso está muito fresco na memória do fã de automobilismo."

Como funciona a Fórmula E?

Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

Fim da troca de carro

Nas quatro primeiras temporadas, a Fórmula E tinha um problema muito grande: a capacidade de bateria dos carros. Tanto é que o pit stop das provas não servia para ajustes: o piloto simplesmente descia de um carro e embarcava em outro, carregado. Em 2018/2019 isso mudou. As provas serão mais curtas, de 45 minutos e mais uma volta, permitindo que o mesmo carro inicie e feche o circuito. Isso faz as pessoas entenderem melhor a dinâmica da corrida.

Divulgação/ABB Fórmula E Divulgação/ABB Fórmula E

Potência com ajudinha

Os carros estão melhores nesta nova temporada. A potência máxima anterior, que era de 200 kW, agora é mínima. Os carros podem chegar a 280 km/h com ganhos extras de potência: 25 kW em zonas de ativação (seu número e duração será determinado por circuito) e 25 kW em fanboost (votação pelas redes sociais que escolhe um piloto para ganhar mais potência). A ideia é que as corridas fiquem mais competitivas e imprevisíveis.

Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

Equipes e pilotos

BMW, HWA (afiliada da Mercedes, em parceria técnica com a Venturi) e Nissan (no lugar da Renault, empresa do mesmo grupo) são as novas fabricantes na Fórmula E. Para a temporada 2019/2020 são esperadas Mercedes e Porsche. Também há novos pilotos, além de Felipe Massa. Um exemplo é o belga Stoffel Vandoorne, que pilotou pela McLaren na Fórmula 1 da temporada 2018. Ele terminou em 16º lugar, com 12 pontos somados.

Divulgação/MotoE Divulgação/MotoE

Mais inovação

Já há discussões sobre uma série de possíveis inovações para as próximas temporadas. Uma das propostas é que a comunicação entre pilotos e equipe seja abolida. Sem ordem de cima, o piloto decidiria sua estratégia e o desafio aumentaria na pista. Outra proposta, já aprovada, é a realização da FIM Enel MotoE World Cup, o mundial de motos elétricas. Esse torneio estará no calendário em 2019. O brasileiro Eric Granado estreará na MotoE.

Quem corre?

Divulgação Divulgação

Brasileiros

Felipe Massa é o estreante após 15 temporadas na Fórmula 1. Além dele há Lucas Di Grassi, campeão mundial da Fórmula E em 2016/2017, vice-campeão em 2017/2018 e 2015/2016 e terceiro colocado em 2014/2015 - ele é considerado o melhor da história da modalidade por alguns especialistas; e Nelsinho Piquet, que pilotou dois anos na Fórmula 1 e foi o primeiro campeão da Fórmula E, em 2014/2015. Na temporada 2016/2017, ele foi 11º.

Divulgação Divulgação

Ex-Fórmula 1

Além dos três brasileiros, há mais seis que passaram pela Fórmula 1: José Maria Lopez (ARG), Renault-2006 e hoje na Dragon; Jerome D'Ambrosio (BEL), Marussia Virgin-2011 e Lotus-2012 e hoje na Mahindra; Jean-Éric Vergne (FRA), Toro Rosso entre 2012 e 2014 e atual campeão mundial pela Techeetah; André Lotterer (ALE), Caterham-2014 e hoje na Techeetah; Sebastien Buemi (SUI), Toro Rosso entre 2009 e 2011 hoje na Nissan e.dams; e Vandoorne.

Divulgação Divulgação

De última hora

O tailandês Alexander Albon, de 22 anos, já estava confirmado na atual temporada da Fórmula E pela Nissan e.dams, mas de última hora deixou a lista de pilotos e rescindiu contrato com a equipe. Ele assinou com a Toro Rosso para a temporada de 2019 da Fórmula 1, em que correrá ao lado do russo Daniil Kvyat. A vaga de Albon ficou com o britânico Oliver Rowland, de 26 anos. Ele foi terceiro colocado na Fórmula 2 em 2017 e neste ano foi piloto júnior da Williams Racing.

Pegada de Carbono

É o índice que mede o impacto de uma atividade humana no ambiente

Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

Fórmula E: pegada 12

Apesar do elevado gasto energético, a modalidade diminui a pegada de carbono a cada temporada e trabalha com metas auditadas pela Ernst Young: estímulo entre 60 e 80 milhões de veículos elétricos ao longo de 25 anos, 900 milhões de toneladas de CO2 evitadas e R$ 110 bilhões economizados em saúde e produtividade com menos poluição

REUTERS/Ricardo Moraes REUTERS/Ricardo Moraes

Fórmula 1: pegada 180

Com emissão média elevada, a modalidade tem quatro principais fontes de aumento da pegada de carbono: a logística de transporte das equipe de uma corrida para outra, o gasto energético dos túneis de vento usados para testes, a parte de suprimentos, como peças e parte dos carros e também a iluminação em circuitos noturnos

AFP AFP

Fórmula 1 pode ser a nova "propaganda de cigarro"?

O combate às alterações climáticas e a preocupação com o desenvolvimento sustentável são conceitos que estão mudando o mundo. Já se sabe que o maior causador de poluição é a indústria do petróleo, então países e cidades estão adotando estratégias para lidar com essa realidade. Na Espanha, por exemplo, a circulação de veículos movidos a combustíveis fósseis será proibida em até 22 anos. A Dinamarca pensa em fazer o mesmo ainda mais cedo, a partir de 2030. A União Europeia marcou para 2050 o fim da "era da combustão". Tecnologias sujas serão combatidas. Energias renováveis serão estimuladas.

Entre os esportes mais populares do mundo, a Fórmula 1 está no centro dessa discussão: como realizar e promover, no futuro, uma competição de carros movidos a combustão se esse tipo de carro será proibido nas ruas e não poderá ser vendido em concessionárias? O piloto brasileiro Lucas Di Grassi, que passou pela Fórmula 1 em 2010 e está na modalidade elétrica desde sua criação, usa uma metáfora severa sobre o assunto: "Hoje, você não vê propaganda de cigarro na televisão porque faz mal. Vai ser parecido com o carro movido a combustão. Acho muito improvável que, no futuro, governos e montadoras financiem corrida de carro a combustão."

"Ou a Fórmula 1 se adapta aos tempos modernos ou vai acabar deixando de existir. Vai ser comprada pela Fórmula E ou vai ser uma modalidade de nicho. Tipo: 'ah, eu gosto de corrida de cavalo, vou lá ver'. Há menos pessoas fissuradas em carro, o automobilismo de modo geral ficará cada vez menos relevante como esporte", prevê Di Grassi. É nesse contexto de mudança no conceito de mobilidade e com discurso favorável à sustentabilidade que a Fórmula E quer se mostrar relevante. Ou, como diz, se consolidar como "o esporte do século 21."

Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

"Creio que o movimento de alguns países de proibir os carros movidos a combustíveis fósseis é um passo muito importante para o futuro da mobilidade a nível mundial. O primeiro passo é proibir esses carros nas cidades, onde é mais perigosa a contaminação, e o passo seguinte é proibir de modo geral. E há países que já anunciaram essas medidas, alguns para um prazo muito curto. Creio que é o caminho do futuro. Mas para poder proibir os carros com combustíveis fósseis não se pode simplesmente proibir, tem que dar uma alternativa. E essa alternativa tem que ser competitiva, tecnológica e ecológica. É para isso que existe a Fórmula E".

Alejandro Agag, CEO da Fórmula E

Divulgação Divulgação

Tecnologias das ruas serão aquelas aprimoradas na Fórmula E

Um dos principais conceitos da Fórmula E é ser uma plataforma de demonstração da tecnologia que está sendo desenvolvida para melhorar os carros elétricos. Serão dez equipes na temporada 2018/2019, com empresas do porte de Renault, Jaguar, Venturi, Virgin, Audi, Andretti, Dragon, Mahindra, Nio e Techeetah.

Como comparação, a nova categoria tem mais montadoras trabalhando do que a própria Fórmula 1 - que hoje tem apenas três (Mercedes, Ferrari e Renault) como donas de equipe e quatro (somando a Honda) fornecendo motores. De acordo com especialistas, isso ocorre por conta da liberdade de desenvolvimento de tecnologia e também por se tratar de uma inovação, uma inteligência que será convertida em algo mais relevante.

Está claro na indústria automotiva que é preciso fugir do petróleo e poluentes e explorar a tecnologia dos carros elétricos. A Fórmula E é mais barata que a Fórmula 1 e foi criada justamente para isso - as inovações que vão para os carros de rua estão sendo testadas na nova modalidade de automobilismo. Ganham destaque nesse sentido os "crash tests", testes de impacto para avaliação de segurança dos veículos, e o desenvolvimento de tecnologias de mobilidade, como baterias e cargas.

"A Fórmula E pretende quebrar alguns paradigmas. Na Fórmula 1, gostam do barulho dos motores, mas na Fórmula E isso é controlado. Serão novos costumes, aperfeiçoamento de produtos e busca de soluções", diz Ricardo Guggisberg, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico. 

Renato S. Cerqueira/Futura Press/Estadão Conteúdo Renato S. Cerqueira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Brasil na era da sustentabilidade

O Brasil ainda não tem um plano concreto, mas algumas políticas públicas recentes já indicam a tendência de que o mesmo caminho seja seguido. Há um projeto de lei em tramitação no Senado Federal que propõe o banimento gradual da venda de carros a combustão no país, começando em 2030 até sua proibição definitiva, 30 anos depois. A Comissão de Meio Ambiente ainda precisa analisar o documento.

O grande problema é que seguir esse caminho europeu terá mais obstáculos no Brasil, um país muito dependente de combustíveis fósseis. No último mês de maio, uma greve de caminhoneiros deixou várias capitais em estado de emergência e causou prejuízo de R$ 16 bilhões para os cofres nacionais, de acordo com o Ministério da Fazenda. Tudo isso porque não temos alternativas na questão da mobilidade. Ou melhor: essas alternativas ainda estão sendo descobertas pelas pessoas.

Uma delas é de carros eletrificados. Desde os híbridos, que funcionam com um motor a combustão e outro elétrico, até aqueles que dependem exclusivamente da energia de uma bateria para funcionar. Há cada vez mais veículos no mercado, postos de abastecimento nas estradas e discussões sobre o assunto. Tem uma revolução elétrica rolando no mundo inteiro e até o Brasil entra nessa onda. 

Brasil elétrico

  • Carros elétricos vendidos

    Número do mercado brasileiro em 2018, até outubro (contra 1,8 milhão a combustão)

  • Elétricos x outros

    É a correspondência do carro elétrico no mercado automotivo brasileiro

  • Futuro

    É a estimativa máxima de crescimento do mercado no prazo de 5 anos

  • Cenário atual

    É o número de modelos elétricos ou híbridos vendidos no país hoje

Reprodução/Linkedin Reprodução/Linkedin

"No mundo, houve um crescimento de 21% em vendas de carros eletrificados no primeiro trimestre de 2018 em relação ao primeiro trimestre de 2017. Essa transformação da indústria automotiva caminha no sentido de termos carros mais eficientes, e o mercado brasileiro acompanha. De 2006 a 2012, batemos recordes ano após ano. Entre 2015 e 2016, no ápice da crise automotiva, os veículos elétricos seguiram tendência diferente. Em 2016, batemos a barreira de mil carros elétricos emplacados e, em 2017, houve um salto para mais de 3.300 unidades. Enfim, estamos discutindo o processo".

Thiago Sugahara, vice-presidente da ABVE  (Associação Brasileira do Veículo Elétrico)

Dificuldades do carro elétrico no Brasil

  • Autonomia

    Entre os mais antigos a média é de 150 km, e os mais modernos circulam entre 250 km e 400 km com a mesma carga

    Imagem: Shutterstock
  • Bateria

    Vida útil, a depender de condições específicas, vai de 8 a 10 anos. A troca de bateria chega a custar R$ 50 mil

  • Custo

    A média é inferior a R$ 0,10 por km rodado. Há 167 postos de abastecimento no Brasil, segundo o app Plugshare - a maioria hoje é grátis

  • Lugar

    Há totens em centros de compras e edifícios comerciais, além de iniciativas em áreas urbanas e eletrovias, como a Dutra

  • Tempo

    Entre 20 e 30 minutos para carregar 80% do total. Ou 100% em oito horas quando conectado a uma tomada convencional

  • Estrutura

    Postos de abastecimento geralmente não carregam mais do que dois veículos simultaneamente

  • Valor

    Há 12 modelos de carros híbridos ou elétricos comercializados no Brasil. Nenhum custa menos do que R$ 100 mil

  • Imposto

    Até 2018, o IPI para carros elétricos e híbridos foi de 25%. Nova política governamental prevê de 7% a 20%. Modelos irão baratear

  • Energia

    Avanço da produção de eletricidade é uma questão, mas tecnologias evoluem de forma paralela

  • Reciclagem

    Baterias de íons de lítio, as mais utilizadas em carros, são recicladas quase exclusivamente fora do país

Perguntas para o futuro

"Em um período de cinco a dez anos haverá uma transformação enorme na mobilidade elétrica, sobretudo nas cidades. E em um prazo de 20 anos a mobilidade em geral será massivamente elétrica, inclusive em competições."

A previsão é de Alejandro Agag, CEO da Fórmula E. Evidentemente, ele é uma parte interessada na confirmação deste presságio. Quanto à mobilidade urbana, não parece haver muita dúvida de que a eletricidade, a hibridização e a ainda pouco difundida autonomia (veículos robóticos, sem motorista) são caminhos neste momento de discussão sobre sustentabilidade e impedimentos aos carros movidos a combustão. Mas no esporte ainda há dúvidas. Será que a Fórmula E será mesmo atrativa? Se ela é tão inovadora, por que comete os mesmos erros políticos da F-1, como uma etapa de abertura na Arábia Saudita, país tão criticado pela comunidade internacional?

Um discurso comum entre opositores da modalidade elétrica é que trata-se de um esporte "da geração Z": interessa porque é novo, curioso e diferente, mas quando for compreendido pelo público geral, será abandonado pelos "nativos". Ao mesmo tempo, a força do marketing e a consolidação da Fórmula 1 ao longo das últimas décadas também pesam e não há como prever o futuro da maior categoria de automobilismo do mundo. Elas irão se fundir? A Fórmula E um dia será mais forte? Perguntas sem respostas. Mas há um fato: a categoria elétrica está crescendo, ganhando dinheiro e se posicionando como o esporte do futuro. 

Divulgação/ABB Formula E Divulgação/ABB Formula E

"Saímos do cavalo para o motor a vapor, depois para a combustão interna. A cada 100 anos, praticamente, há uma troca de energia. Nesse momento, é do fóssil para o elétrico. A Fórmula E é muito jovem de modo geral, foram só quatro temporadas. E no Brasil estamos sempre passos atrás em qualquer nova tecnologia. Vemos isso em carro elétrico, patinete elétrico, bike compartilhada... coisas que já existem há dez anos fora do Brasil e agora são novidades aqui. Não podemos ficar amarrados nessa história de pré-sal, Petrobras, soberania nacional do petróleo... isso é conversa dos anos 70, não é tão mais relevante, isso acabou. Precisamos alcançar esse mercado da energia renovável, girar o ecossistema".

Lucas di Grassi, piloto brasileiro da Fórmula E

Curtiu? Compartilhe.

Topo