Repórter vida louca

Nome histórico da Band de Luciano do Valle relata sequestro violento, drogas, façanhas na TV e veto no Faustão

Augusto Zaupa e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo

Gilson Ribeiro era uma das caras da equipe que moldou a forma como se faz esportes na televisão brasileira. De frente para a câmera, foi um dos símbolos do time de Luciano do Valle na Bandeirantes, no ar com o histórico Show do Esporte. Dono de um texto sofisticado, quase poético, o repórter brilhou cobrindo futebol e outras modalidades nos anos 80 e 90.

Longe das câmeras, no entanto, Gilson teve sua fase "vida louca", levando uma rotina de excessos. O repórter bom de texto faltou a eventos e quase foi demitido pelo chefe Luciano. Tudo em razão de festas e drogas. "Era barra pesadíssima", diz.

Na conversa com o UOL Esporte, o veterano relembra essas dificuldades e proezas como repórter, desde os tempos em que salvou uma edição do Globo Esporte. Mais do que isso, Gilson Ribeiro oferece abaixo um relato impressionante sobre um sequestro sofrido em São Paulo. O jornalista foi capturado por bandidos após sair para uma gravação, teve o rosto desfigurado e chegou como indigente no hospital.

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Sequestrado ao sair para gravar matéria

Era para ser mais um dia habitual. Ir até às aproximações da Praça Panamericana, no bairro de Pinheiros (zona oeste da capital paulista), para pegar um táxi rumo a mais uma pauta. Mas a rotina foi interrompida por três homens armados, às 7h30 da manhã. No fim de agosto de 2001, Gilson Ribeiro foi obrigado a entrar em um carro para passar dois dias angustiantes. Durante 48 horas, o ex-repórter de Globo e Band foi espancado e ameaçado de morte inúmeras vezes.

"Eu estava de terno e gravata e com uma malinha chiquérrima na mão. Eles ficaram comigo quase dois dias assaltando padarias e me levando para bancos. Tirei todo o dinheiro que era possível. Eles me levaram para quebrada e me deixavam em cativeiro. Só depois viram que eu era um repórter e ficaram na ameaça de me matarem ou não", descreveu o repórter.

"Eu fiz xixi na calça, eu não me caguei não sei porquê, mas me deu vontade e eu pensava: 'me mata logo'. Foi então que eles decidiram me dar uma paulada na cabeça. Eu apaguei e só acordei dentro da ambulância, com a boca toda machucada e não conseguia falar", recordou.

O drama só se encerrou quando os sequestradores passaram por uma viatura da Rota na Marginal Pinheiros. O trio então decidiu liberar Gilson próximo do Morro do Querosene, bairro próximo ao Instituto Butantan (zona oeste de São Paulo). Antes, no entanto, o jornalista voltou a sofrer golpes na cabeça.

Os caras estavam cheirando muito, passavam nas biqueiras e eu dentro do carro. Era uma cena cinematográfica de terror e pavor. Depois que decidiram me soltar, eles deram várias pauladas na minha cabeça, no meu rosto e pelo resto do corpo. Sofri derrames e fiquei também com hérnia de disco

Gilson Ribeiro, sobre as horas de sequestro em São Paulo

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Chegou ao hospital como indigente

Sem documentos e com o rosto desfigurado devido às agressões, Gilson Ribeiro deu entrada no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas como indigente. Só foi reconhecido horas depois. Por ainda estar de gravata, chamou a atenção dos funcionários do local e acabou reconhecido pelos médicos Joaquim Grava e Osmar de Oliveira, que faleceu em julho de 2014. A alta só viria em 11 de setembro de 2001, dia dos atentados em Nova York.

"Fui eu mesmo que o identifiquei no Hospital das Clínicas. O rosto dele estava todo irreconhecível, bem magro. Foi uma judiação. Ele teve problemas de pânico por um bom tempo. Depois, começou a ter torcicolos frequentes por causa do medo e eu o tratei. Foi uma coisa complicada para ele", lembrou o médico Joaquim Grava, ex-Corinthians.

Devido ao episódio traumático, o jornalista deixou a capital paulista para morar em São José dos Campos, após passar por diversas cirurgias e colocar próteses dentárias.

"Eu já tinha juntado dinheiro e graças a Deus consegui comprar alguns imóveis. A minha mulher montou uma clínica de estética e hoje eu vivo de renda. Faço às vezes algumas consultorias. Hoje moro a uma hora da praia, uma hora para Campos do Jordão e perto de São Paulo. Você me pergunta se eu não tenho vontade de voltar? Não depende da minha vontade, tem a dos outros também. Mas só se for uma proposta adequada, ainda que as minhas filhas já são crescidas", analisou.

Quando me olhei no espelho, não me reconheci. Fiquei feito um monstro. Meu malar estourou, hoje tenho titânio, perdi nove dentes, fiz próteses. Tenho quase um apartamento na boca, custou uma fortuna. A cara é que ficou pior, não tenho mais olfato porque o meu nariz entortou inteiro

Gilson Ribeiro, sobre as consequências das agressões durante o sequestro

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Zanone Fraissat/Folhapress Zanone Fraissat/Folhapress

Luciano quis bancar tratamento de drogas

A amizade com o narrador Luciano do Valle, que morreu em abril de 2014, teve início nos tempos de Globo. Os laços se estreitaram ainda mais na Band. Mas, no ápice da carreira, Gilson se desvirtuou, viu a sua esposa o abandonar e levar as filhas, além de quase ser demitido por excesso de festas e álcool. Mas o chefe estendeu a mão.

Escalado para cobrir um evento no complexo do Ibirapuera, para mais um domingo de transmissões do Show do Esporte nos anos 80, o repórter não compareceu devido a uma noitada. No dia seguinte, Luciano do Valle ligou para a sua casa e comunicou a sua demissão devido à falta de profissionalismo. O chefe, no entanto, voltou a entrar em contato horas depois para fazer uma outra oferta.

"Ele disse que a equipe havia feito uma rebelião por causa da decisão. Então propôs para eu me internar numa clínica que ele iria pagar o tratamento. Pedi três dias para botar a minha cabeça no lugar. Aí eu voltei e acabei trabalhando com ele em quatro Olimpíadas [Los Angeles-84, Seul-88, Barcelona-92 e Atlanta-96] e em três Copas do Mundo [México-86, Itália-90 e EUA-94]. Você tem a ideia do que eu senti quando o Luciano do Valle morreu? O cara foi um pai para mim", disse, com a voz embargada.

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Como venceu o vício

Apesar da oferta do amigo Luciano do Valle de se tratar em uma clínica de reabilitação com ajuda financeira, Gilson Ribeiro preferiu encarar o problema sozinho. Tanto que voltou a trabalhar poucos dias depois de quase perder o emprego na Band. O repórter então focou na carreira e nas filhas para controlar o uso de drogas.

"Claro que em três dias eu não virei pastor e o Luciano sabia disso. Mas coloquei a minha cabeça no lugar. Liguei para minha mulher e combinei como iria ver minhas filhas e mandar dinheiro para pagar a escola e o resto. Dispensei umas tranqueiras que eu estava levando para casa, que era barra pesadíssima. Dei um tempo para desintoxicar e depois eventualmente parei com isso na vida."

"Fiz o meu trabalho na Band, ganhei prêmios e voltei a ganhar confiabilidade. Não me tornei um caretão, mas eu consegui administrar isso aos poucos e ter autonomia. Fui seguindo a minha vida e hoje estou com 61 anos e com saúde. Dominei a situação sem precisar me internar."

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Em 1978... o início na Globo

Na hora certa e no lugar certo, coincidência ou sorte? A proposta para trabalhar na TV Globo ocorreu de uma forma inusitada. Em 1978, quando cursava Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Gilson tinha um amigo em comum com Reginaldo Leme. O comentarista da F-1 na emissora era cunhado de um colega de Ribeiro.

Após mais um dia de aulas, o amigo comentou que a Globo buscava dois repórteres. Depois de recusar o convite de Reginaldo Leme, que na época exercia a função de editor do Globo Esporte São Paulo, o amigo indicou Gilson.

"Na Copa de 78, a TV Globo era muito incipiente no esporte de São Paulo. Engatinhava. Só havia dois repórteres: o Juarez Soares e o J. Havilla. Então o Reginaldo Leme ligou para o cunhado dele e disse: 'corre para cá porque a Globo vai contratar dois repórteres para o departamento de esportes'. Eu estava fodido, sem grana, morando na boca do lixo e a minha mãe preocupadíssima em Bauru. Eu falei: 'caguei e andei, eu trabalho para o Roberto Marinho. Eu adoro esportes'."

No dia do teste, Gilson conheceu outra figura que iria se tornar referência no jornalismo brasileiro: o apresentador Roberto Cabrini, que também almejava uma das vagas. Por fim, os dois novatos foram contratados.

O dia em que salvou o Globo Esporte

A experiência de trabalhar pela primeira vez em um grande evento ocorreu após mais um 'lance de sorte'. Em mais um dia de trabalho, chegou a ordem do Rio de Janeiro: acompanhar a luta do boxeador Diógenes Pacheco, que disputaria o título sul-americano dos meio médios. Como os principais repórteres estavam cobrindo outros eventos ou de folga, o novato Gilson Ribeiro foi designando para a missão.

A matéria repercutiu positivamente com os mandachuvas da emissora, e o jovem então foi escolhido para relatar os Jogos Pan-Americanos de Porto Rico, em 1979.

"Nunca tinha ido ao Rio e nunca tinha andado de avião. Eu fui convocado para fazer os Jogos como o único repórter. Foram o Léo Batista, como apresentador; o Luciano do Valle, como locutor; o Toninho Neves como editor; o Ciro José, como comentarista e chefe da equipe; e o Teti Alfonso era o coordenador", recordou.

Logo nos primeiros dias de trabalho na cidade de San Juan, surgiram os percalços tecnológicos. Com todas as reportagens prontas para ir ao ar, a emissora não conseguiu transmitir via satélite o material para o Rio. Gilson, então, tomou a iniciativa de mandar os filmes com o material por avião.

"Fui para o aeroporto com um motorista que tinham contratado e que falava espanhol. No aeroporto, fui até o alto falante e pedi para conversar com alguém que iria para o Rio. Surgiu um maestro porto-riquenho que iria fazer um concerto no Teatro Municipal. Ele pegou um monte de lata com filme e perguntou se não tinha drogas. Eu disse que não e mostrei o meu crachá, a credencial do Pan-Americano. Ele levou o material e alguém da emissora mandou buscar no aeroporto. Revelaram tudo e naquele dia, eu fiz o Globo Esporte inteirinho. Salvei a pátria da Globo."

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Convite irrecusável da Band

Após deixar a Globo e ter uma rápida passagem pela Record, Luciano do Valle resolveu criar na Band, em 1983, um programa revolucionário na TV brasileira: o Show do Esporte. A atração era uma espécie de maratona esportiva, com mais de 10 horas de duração. Todos os domingos, a emissora paulista levava ao ar jogos dos Campeonatos Italiano, Espanhol, Paulista, Carioca e Brasileiro, além da Liga de Futebol de Salão e torneios de sinuca, entre outros.

Para garantir a longa jornada dominical, Luciano do Valle tirou vários profissionais da Globo e de outros veículos da mídia. Entre os escolhidos, estava Gilson Ribeiro, que chegou a recusar aumento salarial para seguir na Globo.

"Estava na Globo como apresentador. Fazia a parte do esporte no jornal da manhã. Então, eu estava bem na fita. Também já havia feito Olimpíadas e Pan-Americanos. Mas o Luciano me ofereceu um salário três vezes maior do que recebia e acabei aceitando o convite. Assinei a minha rescisão com a Globo em maio de 1984", disse.

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10h de esporte com timaço de jornalistas

Uma prévia do que viriam a ser os canais fechados de esporte, o programa de Luciano do Valle na Band contava com forte equipe para acompanhar as dez horas consecutivas de transmissões dominicais de diferentes modalidades, de sinuca a, boxe, passando pelo vôlei e com muito futebol.

A equipe do programa, que tinha cerca de 150 funcionários, contava com repórteres como Gilson Ribeiro, José Luiz Datena, Roberto Cabrini, Flavio Prado, Luiz Ceará, Eli Coimbra e Luiz Andreoli, além dos narradores Silvio Luiz, Jota Júnior e Osmar de Oliveira. Para a função de comentaristas, eram escalados Juarez Soares, Silvio Lancelloti, Rivellino, Mário Sérgio, entre outros.

"Foi um marco na história da televisão brasileira. Era o terror das mulheres, das esposas, porque era esporte o dia inteiro. A maioria das famílias só tinha uma televisão em casa. O marido brigava com a mulher porque queria ver esportes. Tinha que ter dois televisores em casa, senão a mulherada ficava doida. Era um Ibope fodido", exaltou Ribeiro.

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Veto à aparição no Faustão

O casamento de cerca de 16 anos com a Band chegou ao fim em 2000. Gilson Ribeiro deixou a emissora logo após o apresentador e narrador Luciano do Valle decidir montar uma produtora em Miami. Após o desligamento, o repórter teve desavença com a diretoria, que planejava reduzir o seu salário.

Foi então que surgiu a possibilidade de voltar a produzir para a Globo, visto que Gilson aceitou o convite para trabalhar na produtora criada pelo diretor Roberto Talma, que na época era responsável pela direção do Domingão do Faustão.

Gilson quase voltou a aparecer na tela da Globo poucos meses depois de deixar a Band, com matérias especiais para o programa do Faustão. Mas acabou sendo vetado pelo diretor Marco Antônio Rodrigues, que era editor-chefe das edições do SPTV - atualmente, o jornalista atua como comentarista no canal pago SporTV.

"Todos me receberam muito bem. O Tino Marcos e o Mauro Naves, que é um superamigo, comemoraram a minha volta. Mas o Bodão [Marco Antônio] encanou porque que eu apareci por quase 20 anos na Bandeirantes. Para não prejudicar o Talma, eu fiquei na minha e passei a ser pauteiro no departamento de criação do Faustão. Eu fiquei lá um ano, ganhando um bom salário. Mas por três destes meses fiquei em casa só recebendo. Isso fez eu me sentir super mal, não é da minha gênese. Pedi demissão ao Talma e voltei para a luta", desabafou.

Vida pregressa em Bauru

Eu já era meio doidão. Às vezes saia da aula para tomar um rabo de galo. Notei que o Edson Celulari não conversava com ninguém. Ele era muito solitário e meio quietão. Ele tinha um cabelão e usava um agasalho do Corinthians. Convidei ele para fazer teatro. Mas o Edson não tinha interesse nenhum. O pai queria que ele fizesse medicina

Gilson Ribeiro, sobre a amizade com o ator global

O meu pai ficou sumido um tempão por causa da ditadura. Era 'brizolista', amigo do Leonel Brizola, que chegou até ir em casa uma vez. Os dois eram engenheiros. A minha mãe ficou p. da vida quando soube que eu iria fazer jornalismo. Já na época os jovens eram perseguidos. Papai não era jornalista, mas sofria essa perseguição

Gilson Ribeiro, sobre os tempos de repressão

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