Pioneira

Glenda Kozlowski fala da chegada à TV após brilhar como atleta, de depressão pós-parto e críticas na Rio 2016

Beatriz Cesarini e Chico Silva Do UOL, no Rio de Janeiro
Lucas Landau/UOL

"Olha, deixa eu te explicar, está tudo bem". Quando voltou ao SporTV após 23 anos de carreira na tela da Globo, Glenda Kozlowski não imaginou que teria que dizer essa frase ao público. Assim que fez sua estreia no Tá na Área, a apresentadora checou as redes sociais e se assustou com as notícias. Algumas manchetes diziam que ela estava sem prestígio e por isso teria sido "rebaixada" ao canal da TV a cabo.

Nas ruas, os fãs de Glenda a abordavam para se solidarizar com sua atual situação. Sem acreditar, a ex-surfista fez questão de esclarecer que não deixou a Globo e mostrou que estava muito contente com a nova função.

"Acabei de fazer uma Copa do Mundo, fiz 'Matrioskas' em horário nobre. Carácoles, não estou acreditando que estão olhando dessa maneira. Criou-se um movimento tão grande que as pessoas me paravam na rua e falavam 'Poxa, não vai embora da Globo'. Gente, eu não fui embora", diz.

Em entrevista ao UOL Esporte, Glenda explica como abriu caminho para outros ex-atletas no jornalismo esportivo, fala sobre depressão pós-parto e conta como enfrentou comentários pesados quando a Globo a transformou na primeira narradora de sua história, nos Jogos Olímpicos de 2016.

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"Tirei minha credencial, coloquei na mesa e fui embora"

Primeira narradora do Grupo Globo, Glenda enfrentou duras críticas quando comandou a transmissão da ginástica artística nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016. Os comentários negativos, principalmente sobre a animação com a qual narrava as provas, espalharam-se pelas redes sociais e minaram a apresentadora de tal forma que ela quase deixou a cobertura antes do encerramento.

"Se eu te falar: narração! Vai vir uma voz masculina [na sua cabeça], duvido que vá vir a minha voz ou de qualquer outra mulher." Antes da estreia, Glenda teve de aprender a modular melhor a voz, então as críticas acabaram pesando. "Tive que fazer muita fono para mudar a minha voz. Para quem queria trabalhar com televisão, não dava, era insuportável. Tive que trabalhar muita coisa para estar aqui. Eu sou muito dedicada", justifica.

"Não só quase pensei em largar [a cobertura], eu falei: 'eu não vou fazer mais'. Tirei minha credencial, coloquei na mesa e fui embora. Pensei: 'Não quero mais passar por isso, não preciso mais passar por isso'. O meu diretor, o Renato Ribeiro, e a minha editora-chefe do Esporte Espetacular na época, Rosane Araújo: 'Você não pode fazer isso'. 'Eu não vou fazer, não preciso passar por isso, eu me dedico muito a tudo o que eu faço, vou virar pirada agora? Eu não, eu sou muito séria com as minhas coisas, me deixa apresentando o Esporte Espetacular, eu sou repórter, essa é minha quarta Olimpíada'".

Sou funcionária do grupo Globo, eu já fiz de tudo aqui dentro dessa empresa, são 27 anos. Fiz entretenimento, Carnaval, grandes coberturas... Então, falar que 'Glenda é rebaixada para o Sportv' é de uma grosseria e uma falta de respeito.

Glenda Kozlowski

Não aceitou narrar futebol

Na Copa do Mundo feminina deste ano, Glenda teve a chance de retornar aos microfones para narrar. Mas ela nem cogitou. A apresentadora acredita que não tem habilidade o suficiente para guiar a transmissão de um jogo de futebol e ainda acrescentou que a experiência traumatizante da Olímpiada não tem relação com a autocrítica.

"Eu não sei narrar futebol. Existe uma técnica. Senão, não estariam aí Galvão, Luis Roberto, Luiz Carlos Jr.. Vou ter que treinar uns cinco anos para isso. Eu sei o que quero, e não quero narrar futebol. Eu adoro cobrir futebol, mas para narrar você tem que estar preparado para aquilo. Isso significa que outras mulheres não possam fazer? Já tem mulheres fazendo isso e eu acho incrível", diz.

Morte da mãe foi o maior "caldo" da vida

Glenda tomou muitos caldos durante a carreira no bodyboarding. Mas o pior deles não foi no mar. Aos 20 anos e grávida do primeiro filho, a ex-surfista perdeu a mãe Anamaria após um câncer agressivo.

"A vida passa muito rápido. Hoje você está aqui, amanhã não está mais. A gente está vivendo um mundo muito de filtros, aparências, eu não lido com isso, sabe? Eu ainda tenho aquela menina que está de biquíni na praia pegando onda, que gosta do sol, da natureza. Eu vi minha mãe definhar e ela era minha referência. Ela era forte, era incrível, e ela definhou em seis meses. Estava saudável e seis meses depois ela ficou um palito, careca, em uma cama de hospital, entrou em coma e morreu".

Após o luto, veio uma nova vida. E ela desabou

Meses depois da morte de sua mãe, Glenda deu à luz o primeiro filho, Gabriel, hoje com 23 anos de idade. Lidar com alegria e tristeza ao mesmo tempo foi complicado, e a jornalista desabou. Teve depressão pós-parto e teve dificuldades para cuidar do bebê.

"Eu tive uma depressão muito severa, parei de amamentar porque tive que tomar remédios. Não lidei bem com o início da maternidade, eu não conseguia fazer aquilo, eu sentia muita falta da minha mãe. Foi um processo de um ano muito difícil", conta Glenda.

Gabriel foi crescendo e Glenda fazia o máximo para ser presente, inclusive incluindo o filho em sua rotina de hotéis, aeroportos e mudanças constantes. O jovem vivia a vida da mãe e acabou sofrendo.

"Ele não tinha mãe, né? Eu estava nos Estados Unidos, então o Gabriel é americano. Quando voltei e fui contratada pela Globo, ele tinha três meses. E aí como é que faz? Eu trabalhava 20 horas por dia. A infância do Gabriel foi muito turbulenta. E isso é difícil. Fui mãe com 20 anos de idade. Se parar para pensar, dos 0 aos 10 anos dele, eu saí de 20 para 30 anos. Continuava sendo nova. O Gabriel sentiu muito. Ele chegou a ir morar com o pai, queria uma estrutura, uma base. Antes dele ir embora para Portugal fazer faculdade, ele falou: 'mãe, eu sofri bastante com a sua ausência, mas hoje entendo tudo o que você fez por mim, então eu quero te agradecer muito tudo'", lembra.

Terapia com mães dos craques

Antes do início da Copa do Mundo de 2018, Glenda comandou "As Matrioskas", uma viagem pela Rússia com Nadine, Vera e Ane, mães de Neymar, Gabriel Jesus e Fernandinho, respectivamente. Durante a experiência, foi inevitável para a repórter não se lembrar da própria mãe. Em muitos momentos, ela se viu com dificuldade para lidar com as lembranças, mas ao mesmo tempo se sentiu abraçada por aquelas mulheres.

"O programa foi uma grande terapia de quatro mulheres, porque ali cada uma trazia a história, se identificava e dava um conselho para a outra, então quando uma estava mais emotiva a outra vinha e dava colo. Alguma vez você já passou por aquilo que elas passaram, talvez não na dificuldade financeira, mas na dificuldade emocional. Hoje em dia, a gente tem muita mulher que é divorciada, que cria sozinha os filhos, que não tem ajuda de ninguém. Vários momentos as três vinham e me abraçavam: 'está tudo bem, Glenda, vai passar'".

Queria jogar vôlei, mas foi rejeitada por Fla e Flu

O bodyboarding não era o plano inicial de Glenda. Na infância, a ex-surfista sonhava em ser jogadora de vôlei, conquistar títulos e subir ao lugar mais alto do pódio para ouvir o hino nacional brasileiro. Com apoio da mãe, ela fez testes em clubes como Flamengo e Fluminense, mas foi rejeitada. É uma decepção que carrega até hoje.

"Sempre fui a mais alta da sala. Com nove anos de idade, eu calçava 39, me sentia um E.T.. Sempre a grandona. E aí eu queria jogar vôlei de qualquer jeito, porque eu olhava as meninas, na época a Isabel e Jaqueline, que jogavam pelo Flamengo, na Olimpíada de 80, e me imaginava: 'tudo certo, vou ser jogadora de vôlei, vou jogar pela seleção brasileira e vou ser campeã olímpica e vou escutar o hino nacional'."

"Com 10 anos eu fui para a escolinha do Flamengo para tentar passar pela peneira. Fui negada, não fiquei nem 20 minutos. Eu devia ser realmente muito ruim. Pensei: 'tudo bem, vou para o Fluminense e lá eu vou entrar'. Fiz a peneira toda e no final também não fiquei. Foi uma tristeza muito grande, porque na minha cabeça o roteiro estava todo feito. Falei 'cara, e agora?'. Eu tenho esse sentimento comigo até hoje, essa frustração", relembra.

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A brincadeira de condomínio ficou séria

Após ser rejeitada pelo vôlei, Glenda entrou na onda do bodyboarding. Tudo começou com uma brincadeira entre o grupo de amigas do condomínio em que morava no início dos anos 1980. Ela começou a tomar gosto pela coisa e a diversão ficou séria.

"Na época, teve uma competiçãozinha, que todo mundo entrou, todo mundo brincou e eu fiquei em segundo. Já achei incrível, porque ganhei prancha, pé de pato, comecei a ganhar biquíni. Imagina, quando você tem 11 anos de idade acha isso o máximo. Aí eu participei do lançamento do tênis da Redley, comecei a ser patrocinada. Nessa idade, com a adolescência ou pré-adolescência chegando, você se acha incrível", conta.

"Esse condomínio foi um condomínio abençoado, porque a gente fez parte de uma geração, trouxe o esporte radical para os jornais. Eu lembro que fiz capa da 'Folha', do 'Estadão'. Levando nosso esporte, trazendo um novo movimento, um novo jeito de ser e o jeito de lidar com a vida."

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E, finalmente, ouviu o hino nacional

Com 13 anos de idade, Glenda foi campeã mundial pela primeira vez no bodyboarding, em um campeonato realizado no Havaí. O sonho que ela tinha quando criança, de ouvir o hino nacional e ver a bandeira do Brasil sendo hasteada, foi então realizado.

"Fui campeã brasileira em 86 e fui convidada para participar desse primeiro campeonato mundial no Havaí, e fui campeã. Quando cheguei no Havaí, as pessoas não sabiam onde era o Brasil, perguntavam para mim se tinha macaco. As portas se abriram, eu comecei a ter patrocínio de verdade, comecei a ganhar dinheiro com o esporte. E aí eu comecei a ver que aquilo era a minha profissão", recorda Glenda.

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Queria ser atriz, caiu no jornalismo por acaso

Após o precoce e impressionante sucesso nas ondas, com direito a tetracampeonato mundial, Glenda decidiu que era a hora de mudar de cenário. Trocou a praia pelo palco. E começou em grande estilo. Em 1991, fez um filme dos Trapalhões chamado "Os Trapalhões e a Árvore da Juventude". Após um teste, foi aprovada para um papel em uma minissérie da Globo. Mas a empolgação pela estreia na telinha não durou muito.

"Eu fiz minissérie na Manchete, fiz filme dos Trapalhões, fiz 'Manobra Radical', um filme de surfe que fez muito sucesso na época. Aí chegou um convite para fazer 'Sex Appeal', uma minissérie do Ricardo Waddington, que lançou a Luana Piovani, e outro para apresentar um programa de esporte chamado 360 graus, no Top Sport [atual SporTV]. Só que a personagem que eu iria fazer tinha umas cenas de nu e eu era menor de idade. Precisava da autorização da minha mãe. Quando fui pedir, ela falou: 'Minha filha pelada na TV Globo não vai rolar!'. Aí argumentei. 'Mãe, mas eu sou atriz.' Eu já me achava atriz. 'Meu amorzinho, você é atriz com 18 anos. Hoje você tem 17. Não vai ficar pelada na TV Globo!'."

Mas a frustração durou pouco. Como ela havia sido aprovada no teste para o Top Sport, decidiu ser apresentadora do recém-criado canal da Globosat. Nascia ali a Glenda que conhecemos hoje.

"Eu nem pensava em jornalismo, nem sabia o que era ser repórter. Eu não tinha noção, aquilo não passava na minha cabeça. Eu era entrevistada desde cedo. Agora estaria do outro lado".

Aprendendo a ser repórter com o ídolo

Glenda nunca havia entrevistado ninguém e de cara faria uma reportagem com o craque que fez sua alegria nas tardes de domingo no Maracanã: Zico.

"A proposta do programa era cada semana a gente falar tudo sobre um esporte. Foi muito difícil, porque tinha que entrevistar e eu não sabia entrevistar. Aí me lembro que teve um, logo no início, que era sobre futebol. Eu sou Flamengo por causa do Zico, eu ia no Maracanã para vê-lo e chorava por causa dele. E aí eu fui entrevistar logo quem? Gente, eu juro por Deus, e não tinha coragem de olhar para ele. Aí eu me sentei e não consegui. Travei."

Glenda conseguiu passar por cima das inseguranças pela falta de experiência quando entendeu as vantagens de ser uma atleta que havia virado jornalista. Ela foi pioneira e se tornou uma das primeiras mulheres ex-atletas na função de jornalista e comentarista da TV brasileira.

"Eu lembro que antes das Olimpíadas de Barcelona, em 1992, fui fazer um treino da seleção masculina de vôlei. Foi quando eu conheci o Tande, o Giovane, o Maurício. Pô, eu queria ser jogadora de vôlei, né? Lembro da minha chegada na quadra, vendo aqueles homens enormes que eu assistia pela televisão. Quando entrei, o Tande disse 'Ih, você não é a aquela garota do bodyboarding que é campeã?'. E já foi aquele lance de 'aí, galera, chega aí'. Logo de cara pensei 'que legal, estou no meu ambiente' e me senti acolhida. Assim foi mais fácil de entrevistar, de conversar. Eu queria saber se o que eu sentia, se as minhas alegrias, as minhas derrotas, as minhas frustrações eram a mesma coisa que eles sentiam também."

Essa minha trajetória como atleta ficou marcada, e trago isso para dentro do meu trabalho. Então, quando vou cobrir uma Olimpíada, eu sei o sufoco que é estar ali, quanto é difícil ser atleta nesse país.

Glenda sobre 'atleta jornalista'

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Abriu espaço para atletas na TV

A TV Globo é a emissora que mais tem ex-atletas em seu elenco. No futebol, a maioria dos comentaristas do primeiro time da casa veio dos gramados. As exceções são Alex Escobar e, agora, Ana Thaís Matos. Para a pioneira Glenda, a experiência de quem veio do outro lado do balcão é um diferencial competitivo em relação a um jornalista que não suou a camisa, correu atrás de uma bola, fez um bloqueio ou pegou uma onda.

"Talvez eu tenha mostrado ao mercado que o atleta pode, sim, trazer a bagagem dele e falar com muita propriedade sobre qualquer esporte. Eu acabei não virando uma comentarista. Mas sou uma repórter e uma apresentadora que fala de várias modalidades, não só da minha. A experiência no esporte transcende a modalidade."

Quando entrou na Globo, a emissora ainda tinha no comando José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o temido e respeitado Boni. Ao lado de Walter Clark, o executivo implantou na emissora, ainda nos anos 70, o chamado "Padrão Globo de Qualidade", conjunto de condutas e procedimentos que fez da emissora líder e referência no mercado brasileiro de televisão. Aquela garota bronzeada e ainda com areia e sal do mar no cabelo logo entendeu que precisava entendê-lo e, sobretudo, respeitá-lo.

"A Globo tem um padrão. Eu tinha que entender que padrão era aquele e por que ele existia. As pessoas se preocupam com o todo, com o início, meio e fim. Tem uma equipe enorme ali atrás das câmeras. Isso é uma máquina. Você faz parte dessa máquina e tem que entender as coisas."

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