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Jean Mota encarou desemprego, morou de favor e duvidou da carreira antes de brilhar no Santos de Sampaoli

Eder Traskini e Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo
Ale Cabral/Agif

Jean Mota precisou de ajuda para carregar os prêmios que ganhou na festa do Campeonato Paulista. Foi o melhor meio-campista, artilheiro, com sete gols, e craque da competição. O semestre do jogador de 25 anos tem sido surpreendente para o torcedor do Santos, que já não esperava muito dele, para a diretoria, que tinha decidido emprestá-lo ao Bahia meses antes, e, não é exagero, dizer até para ele mesmo.

Há quatro anos, Jean jogava num time de várzea da Vila Curuçá, zona leste de São Paulo, não tinha emprego, ignorava conselhos para definir um curso para se matricular na faculdade e acumulava dúvidas de uma carreira que teimava em não decolar no futebol. No total, foram quatro meses sem emprego entre a saída da Portuguesa e a contratação pelo Fortaleza - em que aceitou receber como um juvenil nos primeiros meses. Nessa época, morou de favor na casa de um lateral do time.

Eu achei que iria acabar meu sonho. As portas se fecharam. Muita gente ainda não me conhecia, eu era uma aposta. Isso tornava ainda mais difícil ainda dos clubes quererem".

Depois, apareceu uma nova chance. E em seguida veio o Santos, seu time do coração. Mas nem mesmo aí ele teve vida fácil. A reviravolta que o UOL Esporte conta agora aconteceu em 2019 e provou uma coisa: o sonho não acabou.

Divulgação/EC Tiradentes Divulgação/EC Tiradentes

"Filho, se você quiser estudar eu pago a sua faculdade"

Robinho fez estrago na sexta rodada do Paulistão de 2015. Deu pedaladas como há muito não se via, fez dois gols, deu assistência para mais um (tudo no primeiro tempo) e conduziu o Santos a uma vitória por 3 a 1 sobre a Portuguesa. Foi Jean Mota quem fez o gol de honra da Lusa naquele dia.

O Santos foi campeão paulista, a Portuguesa foi rebaixada e o contrato de Jean Mota terminou logo depois do Paulistão, em maio. Foi aí que começou o calvário.

"Eu não quis renovar por conta de salários atrasados. Chegaram propostas, mas fiquei inseguro porque não eram boas. Decidi esperar um pouco, mas as portas foram se fechando. Começou o Brasileirão e as portas se fecharam de vez. Você pensa: 'poxa, demorei tanto para chegar aqui, sofri tanto, e agora não tem nenhum clube querendo?'. Você vê que é um sonho que está se perdendo. Só vivia futebol desde os nove anos, não sabia o que fazer", relembra o meia.

Foram quatro meses parado em 2015. Desempregado mesmo. A única renda provinha dos jogos do Esporte Clube Tiradentes da Vila Curuçá, na várzea, aos fins de semana. Fora isso, dúvidas, treinos para manter a forma, desilusão e conselhos. "Um dia, meu pai chegou em mim e falou: 'Filho, se você quiser estudar eu pago sua faculdade. Você pode seguir sua vida'. A gente teve essa conversa, mas eu não tinha ideia do que faria. Não tinha uma vocação".

Julia Chequer/Folhapress Julia Chequer/Folhapress

Indisciplina e afastamento atrapalharam trajetória na Lusa

Jean Mota virou profissional na Portuguesa bem antes da conversa com o pai. Morador da zona leste de São Paulo, chegou a passar um mês nas categorias inferiores do Corinthians antes de chegar, aos 13 anos, ao clube em que fez toda a base. Ele foi lançado pelo técnico Jorginho, mas passou longe de ter uma trajetória sólida no clube. Acha que foi sabotado e cita uma "situação que não gostaram" para deteriorar a relação.

O caso foi o seguinte: em 2013, Jean já tinha jogado a Série A como profissional, mas acabou "emprestado" ao sub-20 para o Brasileirão. A Lusa começou bem o torneio disputado no Rio Grande do Sul e venceu as duas primeiras partidas, contra Internacional e Palmeiras. A diretoria deu o dia de folga para o elenco, com reapresentação marcada para 22h. Jean chegou ao hotel 0h e não gostou da bronca. Revoltado, decidiu retornar para São Paulo. Ele diz que, na verdade, foi expulso da delegação após o atraso. Ou seja, não foi uma decisão dele. E a Portuguesa, que dependia de um empate para se classificar, perdeu os outros dois jogos e acabou eliminada.

Na volta para São Paulo o ato de indisciplina não foi perdoado e Jean Mota passou um bom tempo afastado do elenco. Foi uma época de turbulência.

Eu estava sempre compondo elenco, nunca jogava na minha posição. Eu jogava de lateral, volante, ponta, e o tempo ia passando. Depois de 2013, meu contrato estava acabando e eu falei que não queria renovar porque me deviam dez meses de salário. Fica difícil você, aos 20 anos e querendo ajudar sua família, viver isso. Mas eles não pensavam, sempre me cobravam

Jean Mota

Jean Mota, sobre o início na Portuguesa

Muitas vezes chegavam jogadores que a gente via que não tinha tanta qualidade, mas que, por influência política, tinham que jogar de alguma forma. Então, isso me desanimava também. Depois de dois anos, eu encontrei o Aílton [Silva, ex-técnico da Portuguesa] e ele me falou: 'Poxa, eu queria tanto ter te dado oportunidade naquela época, mas eu não podia'

Jean Mota, sobre papo com ex-treinador

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Santos não quis nem de graça há 4 anos

Jean Mota arrumou um novo empresário depois de sair da Portuguesa em 2015. Diogo Silva ofereceu o futebol de seu novo agenciado ao recém-criado time sub-23 do Santos - que, aliás, nem existe mais. Como o meia estava desempregado, seria uma contratação sem custos para o Peixe.

A diretoria da época analisou o material em vídeo, a projeção de Jean Mota e seu histórico e decidiu que não contrataria. Nem de graça. "Não quiseram, não adiantou. Mas um ano depois pagaram para contratar", diverte-se contando o empresário.

Quem abriu as portas para Jean Mota depois do ostracismo foi o Fortaleza. E o lateral Thallyson também. - mas este literalmente.

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O reinício: salário de juvenil morando de favor

Em meio à disputa da Série C do Brasileiro de 2015, o Fortaleza mostrou interesse em Jean Mota. Era o resgate do sonho quase perdido. O problema é que o orçamento já estava fechado e só daria para tê-lo no ano seguinte. Foi aí que o empresário teve uma ideia: "O Jean estava há muito tempo sem jogar e treinar, eu não poderia deixar mais três meses em São Paulo. Pedi para acelerar. Eu tinha outro cliente lá, pensei de ele receber o Jean em casa durante esse tempo".

Foi assim que o ex-meia da Portuguesa se mudou de mala e cuia para a casa de um lateral-esquerdo do Fortaleza. "No ano anterior eu tinha levado o Thallyson do ASA-AL para o Flamengo. Vamos dizer que ele me devia um favor, né?", brinca Diogo Silva. Em busca do sonho no futebol, Jean Mota morou de favor e passou a receber uma espécie de ajuda do custo do Fortaleza. Salário de jogador da base, só para despesas vitais.

"Mesmo sem clube eu trabalhava na academia e fazia treinamentos. Não queria chegar em um novo clube mais ou menos para falarem que não ficariam comigo e aí sim acabar meu sonho. Eu cheguei bem, me destaquei nos treinamentos e até fui para alguns jogos, mas não cheguei a jogar pelo profissional. Acabou o ano e em 2016 eu já estava integrado".

Acervo pessoal Acervo pessoal

Craque aos 22

Acho que Deus já tinha tudo preparado. Foi um momento de reflexão para que eu pudesse dar valor quando chegasse a hora".

Jean Mota foi titular do Fortaleza campeão cearense em maio de 2016. E mais: ele foi eleito o melhor jogador da competição. Tinha 22 anos.

"Acho que a confiança no meu trabalho, em me dar uma sequência para mostrar aquilo que eu tinha de melhor, foi o que fez a diferença. Tinha grandes jogadores experientes também que estavam sempre me ajudando, como o Dudu Cearense e o Corrêa", conta o meia, que logo depois do Estadual despertou interesse do Santos e realizou um sonho de família.

Pedro Vale/Agif Pedro Vale/Agif

Torcida de avô para neto

A geração de Robinho e Diego, do Santos de 2002, foi importante para Jean Mota. Com pai e avô santistas, foi durante as brilhantes exibições dos Meninos da Vila que o atual meia do Santos se tornou torcedor também. "As crianças, mesmo aquelas que não torciam para o Santos, gostavam de ver o Santos", lembra Jean.

Em 2015, quando passou pelo momento mais difícil da carreira e chegou a ficar sem clube, Jean via o Santos pela TV e chegou a dizer para o avô, de quem sempre foi muito próximo, que seria um grande feito defender o time deles. Como resposta, Jean ouviu que "seria um sonho realizado".

Um ano depois, Jean realizou o sonho do avô, mas também ganhou um crítico ferrenho. Pastor, o "Seu Mota" costuma ir aos jogos quando não coincidem com eventos da Igreja e acompanha de perto o futebol do neto. "Meio treinador", o avô é o primeiro a dizer o que Jean tem que melhorar quando ele não vai bem nas partidas.

Acervo pessoal Acervo pessoal

"Era um sábado, eu estava indo para o primeiro jogo da Série C quando meu empresário me ligou. Disse que estava indo resolver a questão da minha renovação em Fortaleza. Mas ele meio que fez uma surpresa, olhou para mim e falou: 'a proposta do Santos está aqui, vamos?'. Eu não pensei duas vezes, pode dar a caneta que eu vou assinar. E aí vim para São Paulo no domingo, cheguei em casa e falei com meus pais primeiro. Começamos a lembrar de tudo que a gente passou para chegar até o Santos e realizar um sonho. Aí no outro dia pude ir na casa do meu avô. Ele ficou muito feliz, muito alegre, e a gente reuniu a família inteira para fazer um churrasco e comemorar. Foi um momento especial para eles e para mim. Ficou guardado na memória"

Jean Mota, sobre sua contratação pelo Santos

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No Santos, da timidez ao limbo

Tímido nos primeiros dias de Santos, mas encantado por atuar ao lado de dois de seus ídolos, Ricardo Oliveira e Victor Ferraz. Estreia rápida, bons treinamentos, com a confiança do técnico Dorival Júnior, mas sem encantar a torcida. Novamente diante de críticas e incerteza. Foram assim os primeiros momentos de Jean Mota após o Santos pagar R$ 800 mil ao Fortaleza por sua contratação.

O meia saiu da Série C direto para um dos principais clubes da Série A. E logo seu time do coração! Não são poucos os exemplos de jogadores que deram esse salto e não tiveram sucesso. A adaptação de Jean não foi fácil. Só conseguiu se soltar quando os líderes do elenco conversaram com ele e disseram para que ficasse tranquilo. Logo no terceiro jogo, com apenas 20 minutos somados em campo, já rolou o primeiro gol.

Mas em três anos de Santos ele alternou atuações boas e ruins e marcou só cinco vezes em 109 partidas até o fim de 2018. O meia estava longe de cair nas graças da torcida. Chegou a jogar como lateral-esquerdo e até segundo volante durante esse tempo e viu a torcida pegar no pé e minar sua confiança. Até o início deste ano era tido como dispensável pelo Peixe. Quase foi emprestado ao Bahia antes da chegada daquele que mudaria tudo: o técnico Jorge Sampaoli.

Ale Cabral/Agif Ale Cabral/Agif

O presidente já tinha liberado [empréstimo ao Bahia em 2019], então eu falei: 'então é porque o Sampaoli não vai contar comigo, não adianta eu ficar aqui'. Eu preferi ir para outro clube, fazer uma boa temporada, mostrar que tenho qualidade e poder voltar para o Santos. Mas foi diferente. Quando ele chegou disse que não ia me liberar, porque queria ver um por um. Foi ali que eu vi uma oportunidade de me mostrar

Jean Mota

Jean Mota, sobre quase ter saído do Santos

A torcida já pegava no meu pé, mas eu sabia que era questão de um jogo, dois jogos e tudo poderia mudar. Então, com a filosofia diferente, o time jogando para frente, as coisas acontecendo, eu sabia que poderia mudar tudo. E foi quando eu retomei a confiança, o Sampaoli me deu essa confiança de volta. Então acho que o principal para eu poder ter esse momento foi a minha confiança

Jean Mota, sobre o sucesso em 2019

Ivan Storti/Santos FC Ivan Storti/Santos FC

"Sampaoli me deu confiança"

A oportunidade dada por Sampaoli veio, mas era preciso encontrar nova atitude para aproveitá-la. Jean sempre treinou bem, mas admite que tinha receio na hora do jogo. "Você sabe que se errar um passe a torcida vai te xingar, vai te vaiar. Então, você fica meio que omisso de fazer uma jogada diferente, porque sabe que a torcida vai te cobrar lá fora".

O meia não conseguia repetir nas partidas o que fazia nos treinamentos e isso diminuía ainda mais seu nível de confiança. Com as mudanças propostas por Sampaoli, Jean sabia que, mesmo com a torcida pegando no pé, ele poderia mudar tudo com algumas boas atuações.

Com dois gols e uma assistência nos primeiros dois jogos e atuações convincentes, o meia se mostrou diferente do que vinha apresentando desde então e ganhou apoio das arquibancadas. Hoje, ele divide a boa fase, 50% para cada lado, com o treinador argentino, sem esquecer do mérito dos companheiros. De desacreditado e dispensável, Jean Mota se tornou artilheiro e líder de assistências do time. A fase foi coroada com o prêmio de craque do Campeonato Paulista e o sonho mais vivo do que nunca.

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