O peso da mentira

Há 6 anos, Jorge Henrique mentiu sobre a saúde do filho para o técnico Tite. E deixou o Corinthians por isso

Diego Salgado, Gabriel Carneiro e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo
Daniel Augusto Jr

Eram quatro anos e meio de Corinthians, 216 partidas, 30 gols e seis títulos conquistados. SEIS. Jorge Henrique era ídolo da torcida e vivia o auge da carreira. Teve participação em todas as conquistas de um dos períodos mais vitoriosos da história do clube. Aos 31 anos, era uma unanimidade. Mas ninguém podia imaginar que essa história terminaria tão mal. E mais: que fosse render assunto até hoje, quase seis anos depois.

A novidade é que Jorge Henrique decidiu desabafar. Em longa entrevista ao UOL Esporte, o jogador, ainda em atividade aos 36 anos, conta que ter mentido para o técnico Tite e, com isso, provocado sua saída do Corinthians em maio de 2013 é o único arrependimento de sua vida. Ele admite que passou dos limites, quebrou a confiança do atual treinador da seleção brasileira ao dizer que acompanhava o filho no hospital enquanto, na verdade, curtia uma festa, e que por isso não merecia uma segunda chance. Ou terceira, quarta...

"Queimando o restinho da lenha" no Náutico, que disputa a Série C do Campeonato Brasileiro em 2019, Jorge Henrique chegou a se acertar com Tite no passado, mas a relação nunca mais voltou a ser igual. E com o Corinthians? Será que dá para voltar, mesmo que seja em um simples jogo de despedida? Ele acha que sim.

Almeida Rocha/Folhapress Almeida Rocha/Folhapress

Sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Corinthians tinha perdido por 1 a 0 na quarta-feira, para o Boca Juniors, no jogo de ida das oitavas de final da Copa Libertadores. Era um escorregão na caminhada pelo bicampeonato da América. Jorge Henrique entrou no segundo tempo daquele jogo, na vaga de Danilo. O elenco teve folga no dia seguinte e voltou aos treinos na sexta-feira para atividades leves. O treino para valer seria no sábado, véspera de um clássico contra o São Paulo pela semifinal do Campeonato Paulista. Jogo único. Uma semana com a tensão nas alturas.

O treino de sexta rolou normalmente, ainda sem indicação de time titular. Tite foi para sua sala no CT Joaquim Grava conversar com auxiliares, médicos, preparadores e seguir a preparação para o clássico. Quando encerrou as atividades, por volta de 20h, se deparou com Jorge Henrique ainda no CT. Todo mundo já tinha ido embora. O jogador justificou dizendo que tinha ido ao restaurante do clube comer e já iria embora. Tite entendeu e se despediu. Só estranhou quando passou pelo restaurante e estava fechado. Até então, tudo bem.

Rodrigo Coca Rodrigo Coca

Sábado, 4 de maio de 2013

O treino de sábado de manhã costumava ser o mais importante da semana de trabalho de Tite no Corinthians. Era a definição do time titular e o treino tático chamado "fantasma", em que o técnico trabalhava só com quem seria titular no domingo e afinava todo o necessário. Jorge Henrique entrou no gramado mais tarde que o restante dos companheiros. Era uma movimentação diferente, mas podia ser explicada por uma atividade a mais na academia ou uma orientação tática extra. Mas o treino não foi normal em campo. Ele não fez o mesmo que os outros e saiu rápido para a parte interna do CT.

Após o treino, Tite questionou Jorge Henrique. A explicação era que seu filho ficou doente, teve que ser levado ao hospital por suspeita de dengue e ele acabou dormindo pouco após chegar em casa. Não estava bem para treinar. O técnico entendeu. E mais: à tarde, na palestra à frente do elenco, disse que gostaria de pedir desculpas aos jogadores por ter desconfiado de um deles na noite anterior. Não era certo suspeitar de alguém sem saber a realidade. Então, mesmo sem treinar bem, Jorge seria opção no clássico.

No fim da tarde de sábado, o elenco já estava concentrado, jogadores em seus quartos e comissão técnica discutindo táticas para a partida. Tite recebeu um contato de Mário Gobbi, presidente do clube. O tema da conversa foi como um soco para o treinador. Um contato no 78º Distrito Policial, no bairro dos Jardins, dizia ter recebido uma mulher que teve o carro batido de madrugada e queria pôr a boca no trombone, ir para a imprensa e tudo mais. Quem bateu no carro dela na saída da balada foi um jogador. Do Corinthians. Era Jorge Henrique.

Flavio Florido/UOL Flavio Florido/UOL

Domingo, 5 de maio de 2013

Tite se sentiu traído. Até conversou com Jorge Henrique, que teria confirmado o caso e pedido desculpas. Mas o técnico ordenou na hora que o jogador fosse sacado da lista de relacionados para a partida contra o São Paulo. A ausência entre os que atuariam foi notada pelos repórteres que acompanhavam o desembarque do elenco no Morumbi, mas a justificativa oficial do clube era que os problemas pessoais que impediram de treinar no sábado também causaram o veto para o clássico. Ele acompanharia o jogo ao lado de dirigentes do clube e pronto. Só que a situação era incontornável. Jorge Henrique não voltaria a jogar pelo Corinthians.

Com gol de Alexandre Pato, o Corinthians eliminou o São Paulo nos pênaltis e avançou às finais do Campeonato Paulista. Quatro dias depois, às vésperas da final contra o Santos, o clube deu a notícia: Jorge Henrique estava afastado do elenco. Até então não havia maiores detalhes sobre o motivo. Nada disso mencionado anteriormente era público naquele momento, foi revelado dias depois pelo jornal "Lance!". Até então Jorge Henrique havia cometido "um ato que não foi legal", segundo Duilio Monteiro Alves, diretor adjunto de futebol do clube.

O ídolo era reincidente em problemas disciplinares. E a exposição de Tite diante do elenco tornou a decisão irrevogável. Era o fim da história.

Norberto Duarte/AFP Norberto Duarte/AFP

"Eu acabei saindo, cheguei atrasado no treino e o Tite não aceitava isso. Eu acabei sendo punido, não tinha o que fazer. O Tite é uma pessoa que deixa muito claras as coisas e eu acabei ultrapassando isso. É uma coisa que eu poderia ter feito diferente. Hoje eu faria diferente. Eu quebrei a confiança dele e depois que passou, tipo, depois de uma semana eu conversei com ele, sentei e conversei com o Tite. Eu pedi desculpas, ele entendeu, nos acertamos, mas eu não tinha como mais ficar ali.

Sei do carinho que a torcida tinha por mim, mas o momento não era de ficar no Corinthians. Depois veio a proposta do Internacional, que também é uma grande equipe, e eu acertei minha saída.

É o maior arrependimento que eu tenho. Errei com uma pessoa que eu não poderia errar e quebrei a confiança. Mas acabei fazendo, acabou acontecendo."

Jorge Henrique, ex-jogador do Corinthians

Estou triste, e não tenho prazer nenhum em fazer isso. A carreira dele está nas mãos dele... A sequência profissional, o rumo que ele vai tomar. A vida do Jorge não depende do Tite, do Corinthians, da direção. Depende dele, fundamentalmente

Tite

Tite, em 10 de maio de 2013

Eu disse a ele: 'nada, Jorge, apaga todo o reconhecimento que tenho por ti, por tudo que a gente construiu. Espero, torço, para que ele tenha aprendido e possa ser melhor ainda. Existem algumas coisas na vida que a gente aprende a valorizar'

Tite

Tite, em junho de 2013

A administração era conduzida com comando. Era lá dentro que se resolvia, no vestiário. Ele (Jorge Henrique) passou dos pontos no número de vezes que aconteceu. Senão, em sã consciência, ninguém gostaria de tê-lo fora

Tite

Tite, em maio de 2017

Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

Será que a história terminou?

Jorge Henrique ainda tinha um ano e meio de contrato com o Corinthians quando seu empresário foi autorizado a procurar outro clube. Ele teve negociação avançada com o Atlético-MG, mas acertou com o Internacional, então dirigido por Dunga, um mês depois do afastamento. Em 2015, rescindiu e assinou com o Vasco. Em 2017, deixou o Vasco e fechou com o Figueirense. Em 2019, acertou a saída do Figueirense e passou a fazer parte do elenco do Náutico. "Estou com 36 anos e estou queimando o restinho da lenha. Não tem muito, não, só o restinho", brinca.

Apesar da consciência da proximidade do fim da carreira, o atacante multicampeão sonha em vestir novamente a camisa do Corinthians, onde conquistou os maiores títulos da carreira. "Se Deus quiser eu espero ter oportunidade de voltar. Por tudo o que eu conquistei ali dentro, poder ter a minha festa e encerrar a carreira ali no Corinthians. O meu desejo é encerrar a carreira no Corinthians. É um clube que me abraçou muito bem, é um clube em que eu conquistei vários títulos. Se eu tiver a oportunidade, claro que vou ficar muito feliz", diz o jogador. Mas e se não rolar?

"Eu também sou muito feliz pelo que eu fiz na minha carreira e onde eu estou hoje, que é uma grande equipe. O Náutico me abraçou", elogia.

Daniel Augusto Jr Daniel Augusto Jr

Formado por Muricy Ramalho e Cuca

Jorge Henrique rodou até chegar ao Corinthians. Nascido em Resende, no Rio de Janeiro, treinava em uma escolinha do Vasco até ser aprovado em uma peneira que levaria jogadores para o Nordeste. Deixou a família aos 17 anos, viajou, treinou uma semana no Sport e depois se firmou no Náutico. Foi revelado por lá e estreou profissionalmente pelas mãos de Muricy Ramalho. Foram cinco anos no clube até ser vendido ao Athletico Paranaense. Foi emprestado ao Ceará e ao Santa Cruz e depois comprado pelo Botafogo. Deslanchou sob o comando de Cuca.

"Depois que o Cuca chegou no Botafogo, ele armou um esquema com três zagueiros e me colocou para fazer o lado direito, por eu saber atacar e ajudar a marcar. O Cuca acabou optando e deu certo, fiquei marcado assim", diz. Destaque na temporada de 2008 pelo Botafogo, o atacante foi contratado pelo Corinthians no ano seguinte e começou a história que todos conhecem. O que poucos sabem é que ele chegou ao clube no dia da apresentação de Ronaldo Fenômeno.

Só isso (risos). Eu cheguei e já conheci logo o homem. O Ronaldo é querido por todos, é uma pessoa muito simples, é um cara que, onde passa, deixa alegria no ambiente. Para quem só via pela televisão, ficava meio assustado, mas ele deixava todo mundo bastante à vontade

Jorge Henrique

Jorge Henrique, sobre o convívio com Ronaldo no Corinthians de 2009

Acredito que, depois do Pelé, ele é o cara. Era até engraçado que ele era o melhor do mundo, mas tomava banho num contêiner cheio de fio solto. Capaz de tomar um choque do meu lado. Mas se ele toma um choque, agarra um monte de gente nele para tomar choque junto

Jorge Henrique

Jorge Henrique, lembrando do ex-companheiro

Léo Lemos Léo Lemos

Marrento, eu?

"Eu sou pequeno, tenho 1,69m, e os zagueiros são todos altos. Na época, eu era fraquinho, magrelinho. Aí eu pensei: 'Pô, se eu ficar rindo para todo mundo, os caras vão me jogar fora de campo toda hora. Não vão me respeitar'. Se ficar rindo não tem respeito, né? Os caras já não respeitam os pequenos... Meu jeito é fechando a cara, dando aquela corridinha e provocando. Mas depois que o jogador me conhece, vê que não é nada daquilo que vê no campo. Fora de campo, eu sou totalmente diferente. Eu gosto de brincar, dar risada, mas dentro de campo foi a forma que eu achei de me impor".

Jorge Henrique, eleito por jogadores como "o mais irritante do Brasil" em 2012

Léo Lemos Léo Lemos

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