Homem certo, hora errada

Júlio Baptista brilhou na única final da seleção contra Messi, mas não chegou ao topo da carreira por detalhes

Gabriel Carneiro e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo
Jon Buckle

Que carreira incrível teve Júlio Baptista! Você ousa discordar?

O meia foi "o cara" da única final da seleção contra Messi, no último título do Brasil em Copa América. Ainda jovem, ele rendeu aos cofres do São Paulo praticamente a mesma quantia do negócio de Kaká com o Milan: R$ 8 milhões.

O centroavante, que virou volante e depois se firmou como meia também jogou Champions League e vestiu camisas pesadas do futebol: Sevilla, Real Madrid, Arsenal e Roma. No Brasil, além do São Paulo, usou o azul do Cruzeiro.

Mas, em momentos importantes, ficou a sensação de "homem certo na hora errada". Foi assim no São Paulo, numa fase de constantes trocas de treinadores. Já no Real pegou a fase de desmantelamento dos "galácticos", sem troféus e com crise.

Na seleção foram três Copas das Confederações e duas Copas Américas. Mas todo esse currículo só bastou para um jogo (incompleto) em um Mundial.

Apesar de não ter alcançado esse ponto que separa os craques das lendas, Júlio tem histórias de vida que merecem respeito. E aqui, ao UOL, ele revisita as fases da vida: o esforço da mãe para que ele fosse treinar no São Paulo, o início de carreira ao lado de Kaká, glória e frustração na seleção, os últimos desafios da carreira de jogador (que não acabou) e os estudos para ser técnico ou dirigente no futuro.

Vóctor Lerena/EFE Vóctor Lerena/EFE

Chegada ao Real Madrid bem no fim da era galáctica

Os quase 50 gols marcados em apenas duas temporadas pelo Sevilla fizeram o Real Madrid desembolsar 20 milhões de euros para contratar Julio Baptista em julho de 2005. O time já contava com Roberto Carlos e Ronaldo, estava prestes a tirar Robinho do Santos e Cicinho do São Paulo e era comandado por Vanderlei Luxemburgo. Uma constelação brasileira ao lado de estrelas como Beckham, Zidane, Raúl e Owen. Era o período final da era "galáctica" do clube.

Camisa 8, Júlio estreou em um amistoso em agosto. Foi titular na estreia da Liga dos Campeões - derrota por 3 a 0 para o Lyon em 13 de setembro. Perdeu a vaga durante a competição. Nas oitavas, em fevereiro e março de 2006, ele já não estava entre os 11 iniciais. E nem Luxemburgo era mais o treinador.

O time foi eliminado nas oitavas de final da Liga dos Campeões pela segunda vez consecutiva (Juventus, em 2004/05, e Arsenal, em 2005/06), não venceu a Copa do Rei em nenhuma das temporadas e nem alcançou o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho e Eto'o no Espanhol. Enfim, era um momento terrível. Tanto é que Florentino Pérez, então presidente do clube, renunciou.

Foi diante desse cenário caótico que Baptista passou pelo maior time do planeta. O homem certo, mas talvez na hora errada. Virou moeda de troca, emprestado ao Arsenal em agosto depois de 45 jogos. Ele ainda retornou depois de uma boa temporada na Inglaterra e atuou mais 32 vezes no Madrid. Não triunfou. Foi vendido em 2008, à Roma, por menos da metade do valor pago pelos espanhóis.

Quando cheguei era uma pressão tremenda, porque era o que chamavam de galácticos, com Salgado, Roberto Carlos, Beckham, Raul, Ronaldo... Todos esses jogadores experientes e nós éramos jovens, estávamos embarcando no time em um ano complicado. O Florentino substituiu o Luxemburgo, perdemos a Liga, o próprio Florentino renunciou e ficou uma situação ruim. A nova diretoria queria outros

Júlio Baptista

Júlio Baptista, sobre a passagem pelo Real

Pesou também que naquele ano o Barcelona e o Ronaldinho estavam voando, ganharam tudo. Foi um ano de muita pressão para nós. E a gente sabe: quando o vizinho ganha te colocam uma pressão maior do que já é. Aí o Luxemburgo não conhecia a língua e, por mais que fosse um técnico experiente, era uma liga diferente do Brasil. E quando as coisas não caminham bem fica mais difícil

...e sobre a "Era Luxemburgo" no clube

EFE/Emilio Naranjo EFE/Emilio Naranjo

"Trabalhar com craque é fácil, craque não dá trabalho. Quem dá trabalho é jogador que pensa que joga muito e não joga nada. No Real Madrid só tinha craque. O motivo da saída do Vanderlei foi, se não me engano, um desentendimento com o presidente. Os jogadores gostavam muito dele e o Vanderlei estava fazendo um trabalho bonito. Foi um trabalho muito interessante que o Vanderlei fez. Só de ter ido para o Real Madrid é uma experiencia única, pouquíssimos brasileiros tiveram essa porta aberta. Disputar uma Champions, em que você tem praticamente os grandes campeões dos países europeus, jogadores de todas as partes do mundo, os grandes craques, é espetacular, sensacional."

Paulo Campos, auxiliar de Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid, durante 2005

Antonio Gauderio/Folhapress Antonio Gauderio/Folhapress

Copa América 2007: o grande momento

Presença frequente nas categorias inferiores da seleção e desde cedo convocado para a equipe principal, Júlio Baptista tem longa trajetória vestindo amarelo. O meia esteve na Copa de 2010, mas seu grande momento defendendo o Brasil foi vivido três anos antes, na Copa América da Venezuela.

Baptista teve grande atuação e anotou o primeiro gol na vitória por 3 a 0 na final contra a Argentina de Messi, Riquelme, Verón, Tevez, Zanetti, Mascherano e companhia. Foi um raro momento em que o camisa 19 do Brasil era o homem certo na hora certa: ele foi convocado só porque Zé Roberto pediu dispensa a Dunga.

"A importância que tem Brasil x Argentina é impressionante. Naquele ano diziam que a Argentina ia nos golear, porque em questão de nomes eles eram superiores. Mas nosso time era muito bem montado, bem trabalhado taticamente. Os jogadores conseguiram se complementar, o time encaixou e foi para frente. Fizemos uma belíssima competição e foi a grande oportunidade que eu tive na seleção. Fico feliz por ter escrito meu nome, sempre que fui chamado eu acabei dando conta.".

Júlio começou a Copa América no banco - o titular era Diego e o reserva era Anderson. Cada um saiu jogando uma vez nas primeiras rodadas, e o meia foi acionado só na terceira partida. Não saiu mais: gols contra o Chile nas quartas, Uruguai na semifinal e diante da Argentina na decisão.

Ao lado de Robinho, foi o grande nome da competição. Na última que o Brasil venceu.

Flávio Florido/UOL Flávio Florido/UOL

Da frustração à realização

Júlio Baptista esteve na Copa América de 2004, na Copa das Confederações de 2005 e em todo o ciclo das Eliminatórias sob o comando de Carlos Alberto Parreira para a Copa de 2006. Só não esteve no Mundial. E se ressente disso.

"Para mim foi triste. Você tem uma expectativa, sabe que tem chance, tem ideia de que possa estar no grupo. Mas aí acabou que não aconteceu."

A redenção veio com Dunga, que assumiu como técnico depois do Mundial. Júlio Baptista já estava na primeira convocação e novamente disputou Copa América, Copa das Confederações e Eliminatórias no ciclo. Mas desta vez, enfim, foi chamado para a Copa. Ele atuou uma única vez, no empate sem gols contra Portugal, na fase de grupos. Jogou até os 37 do segundo tempo e saiu para entrar Ramires.

Caio Guatelli/Folhapress Caio Guatelli/Folhapress

Cinco técnicos em três anos atrapalharam a vida no São Paulo

Júlio Baptista não tinha nem sequer se firmado como titular do São Paulo quando foi convocado pela primeira vez para a seleção. Foi em maio de 2001, pelas mãos do técnico Emerson Leão, quando o volante tinha só 19 anos. Na época ele esteve no balaio que motivou a seguinte manchete da "Folha de São Paulo": "Leão choca o país com convocação de inexpressivos".

A trajetória de Júlio Baptista no São Paulo, aliás, merece um capítulo à parte.

Entre sua estreia, em 2000, e a venda ao Sevilla por R$ 8 milhões, em 2003, foram 138 partidas e 22 gols marcados. Venceu uma Copa São Paulo de Juniores em 2000, além do Paulista no mesmo ano e do Rio-São Paulo da temporada seguinte. Júlio era da geração de Kaká e defendeu o time do coração desde 12 anos. Subiu para os profissionais com Levir Culpi e ainda foi dirigido por Vadão, Nelsinho Baptista, Oswaldo de Oliveira e Roberto Rojas.

"O São Paulo estava em uma tremenda inconstância. Eu lembro que a gente não conseguia enquadrar uma sequência de títulos, de jogos ganhando. Começou a ficar muito complicado, porque em seis meses já mudava de treinador. Chegava outro com uma ideia nova, aí você jogava pouco, aí vinha outro e mudava tudo. Eu acabava quase tendo mais protagonismo na seleção do que no São Paulo.

Aí o Juan Figer (empresário) conversou comigo: 'olha, Júlio, está bem complicado para você no São Paulo, você não está tendo a oportunidade que você precisa para evoluir e crescer'. Pensei um dia e falei: 'vamos embora'."

O São Paulo não consegue obter uma sequência de campeonatos bons, de estar próximo de ganhar. Isso causa uma instabilidade no clube. Um trabalho você não consegue medir por seis meses ou até mesmo um ano quando o time vem de muito tempo sem ganhar nada

Júlio Baptista

Júlio Baptista, sobre a fase do São Paulo

Talvez um trabalho a médio e longo prazo traga mais êxito. Eu acompanho o São Paulo, espero que haja uma reviravolta e ele possa estar brigando por títulos e demonstrando como é forte o nome que tem. O São Paulo foi e sempre será um clube grandíssimo

...e o carinho pelo clube do coração

Fernando Santos/Folhapress Fernando Santos/Folhapress

Quando Júlio estava no lugar errado. Literalmente

"Eu era atacante, centroavante, sempre fui. Só que chegou um momento na base do São Paulo em que a concorrência era muito forte. Estava complicado até para ficar no banco. Até que um dia o Pita, meu técnico, chegou e conversou com a minha mãe que se eu não melhorasse não ia ter jeito, tinha que me mandar embora. Depois ele me falou que eu não teria chance de jogar. Mas que eu poderia usar uma condição que nenhum dos outros tinha, que é a parte física. 'Se você trocar a sua posição talvez você consiga desenvolver alguma coisa melhor', ele disse. Eu fiquei meio receoso, mas não tinha muita escolha. Ou eu fazia isso ou poderia ser mandado embora. Aceitei mudar de posição e a minha vida se transformou."

Júlio Baptista, sobre como virou volante

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Alex Menendez/Getty Images Alex Menendez/Getty Images

EUA e Romênia: desafios recentes são sinuosos

Orlando City e Cluj foram os últimos clubes em que Júlio Baptista jogou. E não foram projetos bem-aventurados. Nos EUA, o brasileiro chegou para atuar novamente ao lado de Kaká depois de 13 anos, mas a parceria durou só oito meses e uma edição da MLS, em 2016. O time não se classificou, mas pelo menos o meia foi eleito como um dos melhores reservas do campeonato (seis gols e dado três assistências).

"Foi um ano bom de início, mas depois tivemos complicações, nosso treinador acabou indo embora, chegou outro com outras ideias e acabou mudando um pouquinho o projeto. Eu acabei indo embora, o Kaká ficou, mas foi uma passagem legal. A gente pôde se reencontrar e viver mais um ano juntos na nossa carreira."

Júlio Baptista saiu do Orlando City em novembro de 2016. Em agosto de 2018, quase dois anos depois, foi anunciado pelo Cluj, da Romênia. A ideia era voltar a jogar em bom nível em um clube que queria voltar a disputar a Liga dos Campeões. Não deu certo. O vínculo foi rescindido no começo do mês, depois de três partidas.

Quando foi a hora certa

Javier Hurtado/AFP Javier Hurtado/AFP

Sevilla

A primeira experiência na Europa durou entre 2003 e 2005. Foram 73 partidas e 43 gols marcados. Foi quando ganhou o apelido "La Bestia" (A Fera, em português), voltou a ser convocado para a seleção e se firmou como grande nome do país lá fora. Chegou como segundo volante e é grato ao técnico Joaquín Caparrós por ter se tornado um meia "chegador".

Giampietro Sposito/Reuters Giampietro Sposito/Reuters

Roma

Júlio foi comprado do Sevilla pelo Real. Em 3 anos viveu um empréstimo ao Arsenal, com bom rendimento: dez gols em 35 partidas na temporada 2006/2007. Depois foi vendido à Roma. É uma fase que considera entre suas melhores: 77 jogos, 15 gols e seis assistências divididos ao longo de três temporadas. Sem títulos, mas com respeito da torcida.

Washington Alves/Light Press Washington Alves/Light Press

Cruzeiro

Depois da Roma, atuou no Málaga, em uma fase de investidores no clube. Saiu em 2013 para voltar ao Brasil após dez anos. Assinou com o Cruzeiro. E, por mais que não tenha sido titular, participou do bicampeonato brasileiro de 2013 e 2014 e marcou 17 gols em 62 partidas. Apresentado em um carro forte como "joia rara". Saiu após lesão em 2015.

Reprodução/Facebook Reprodução/Facebook

"Minha mãe é uma guerreira"

Toda essa história começou aos 5 anos, na escolinha de futebol do Pequeninos do Jockey, na capital paulista. Depois de alguns anos, com ajuda financeira de um tio, o menino ganhou da mãe um título de sócio do São Paulo Futebol Clube. O clube era perto da casa da família e um modo de passar mais tempo jogando bola.

Rapidamente Júlio foi captado pelo futebol de salão tricolor. Depois foi para o campo. E daí passou por todas as categorias de base até se profissionalizar no próprio Tricolor. Esse é um resumo simples da história.

Mas há detalhes pouco conhecidos. E Wilma Baptista, mãe do jogador, é a protagonista. "A minha mãe é uma guerreira. Me teve solteira, eu praticamente não conheci meu pai. Vivíamos eu, minha mãe e meus avós. Minha mãe trabalhava quase em período integral. Ela só apoiou meu sonho. Mesmo sabendo que era difícil ela nunca falou para eu desistir", relembra.

Enfermeira no Hospital das Clínicas, Wilma entregava ao menino os passes de ônibus que recebia, mas os bilhetes não davam para o mês inteiro.

"Eu ficava com vergonha de pedir mais para minha mãe, então em determinado momento eu comecei a passar por baixo da roleta do ônibus. Acabei fazendo amizade com os motoristas, eles perguntavam o que eu fazia e eu disse que jogava no São Paulo. Aí eles falavam para eu entrar e descer pela frente mesmo. Foi assim durante um bom tempo, até eu ir para o júnior. Quando recebi um dinheirinho no profissional a primeira coisa foi comprar um apartamento para minha mãe", conta.

Casado há mais de uma década com Silvia, Júlio Baptista é pai de dois filhos: Isabella, de 7 anos, e Guillermo, de 2.

Alexander Hassenstein/Fifa via Getty Images Alexander Hassenstein/Fifa via Getty Images

Futuro como técnico ou diretor

Júlio Baptista ainda não encerrou a carreira. Sem time desde o início do mês, ele estuda os próximos passos em meio a sondagens e especulações, no Brasil e fora. Já declarou que gostaria de fechar esse capítulo com a camisa do São Paulo, mas não há nenhuma conversa nesse sentido.

Na verdade, Júlio só não parou de vez porque queria dar a Guillermo um pouco da experiência do futebol, indo aos estádios e entrando em campo ao lado do pai. Na Romênia não deu muito certo. E agora?

Mesmo que não siga como jogador, o brasileiro já está preparado para o futuro: decidiu que se tornará treinador ou diretor esportivo de clubes. Ele tem as licenças B e A (só falta a Pró) dos cursos da Uefa. Esse aprendizado permitirá que o ex-jogador da seleção seja técnico de qualquer time em qualquer divisão do mundo. Agora a meta é se graduar na parte administrativa para ter opções no pós-carreira.

"É o que eu fiz na vida inteira. Não dá para tentar agora, depois de quase 40 anos, começar uma outra profissão. Tem que ser algo vinculado ao futebol, porque é o que gosto de fazer. O mais importante é fazer algo que te dê prazer."

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