Um soco e um juiz

Atacante do Corinthians nos anos 70, Lance ficou um ano afastado do futebol como punição por algo que não fez

Luis Augusto Símon do Blog do Menon, em São Paulo
Fernando Moraes/UOL

"Eu não soquei ninguém. Nunca. Até poderia ter acontecido porque estava muito nervoso, mas não aconteceu.

Além de ser expulso, eu podia ser preso. Era sábado de Carnaval e tinha uma portaria da secretaria de segurança pública do Rio. Quem se metesse em confusão, ficaria preso até quarta-feira de Cinzas. E o [juiz José Roberto] Wright relatou uma agressão minha.

No intervalo, o chefe de policiamento foi no vestiário e explicou a situação. Falou que se eu pedisse desculpas, ele poderia me liberar, e eu voltaria para São Paulo. Não seria preso. Como estava muito revoltado, disse que não ia fazer nada e que ia acertar as contas com o juiz. Imagina, ia me dar mal. O cara era faixa preta de karatê.

O chefe do policiamento falou uma frase que nunca esqueci. 'Bronca é arma de otário'.

Fui lá, pedi desculpas e vim para São Paulo. Uns advogados ajudaram, e a ideia foi sumir com as imagens do 'videotape' do jogo. Não teria prova de nada. Nada disso... Peguei um ano e dois jogos. Recorri e tiraram os dois jogos."

Aos 70 anos, o ex-atacante do Corinthians Ernesto Luís Lance fala sem mágoas sobre aquele 8 de fevereiro de 1975, quando foi expulso por um soco que não deu em José Roberto Wright. O veterano conversou com o UOL Esporte entre placas, troféus e chaveiros que ele mesmo fabrica e vende em Santo André, região metropolitana de São Paulo, na joalheria que leva o sobrenome que o alçou à fama no futebol.

As lembranças daquela época estão nítidas, mesmo que os registros em vídeo tenham "desaparecido" -- na internet, é possível achar os gols deste amistoso que o Corinthians perdeu de 4 a 1 para o Fluminense, mas não a discussão com o juiz. Lance recorda os detalhes como se fosse hoje.

A história, ele conta, começou muito tempo antes, em agosto do ano anterior, e teve como personagem central um ídolo nacional: Roberto Rivelino.

"Começamos muito bem o Paulista. Fomos campeões do primeiro turno. Se a gente ganhasse também o segundo, não ia ter decisão e acabava a história do tabu de que o Corinthians não ganhava o Paulista desde 1954.

O time estava muito animado. Mas quando começou o segundo turno, tudo passou a dar errado.

Perdemos para o Botafogo e para o Juventus. O Pirilo, nosso treinador, achou que não dava mais. Começou a mudar o time, e eu fiquei de fora. Experimentava um, experimentava outro, e eu não jogava. Mas fomos para a final contra o Palmeiras. No primeiro jogo, eles saíram na frente com um minuto e eu empatei com três minutos. No segundo jogo, todo mundo sabe o que aconteceu. Mais de 120 mil a nosso favor e eles ganharam com gol do Ronaldo.

A torcida culpou o Rivellino. Que culpa ele poderia ter? De ser só um, de ser o único craque do time?

O Corinthians vendeu o Rivellino para o Fluminense. Um montão de dinheiro e ainda dois amistosos, um no Rio e o outro em São Paulo. Eu estava contundido e tinha certeza que não iria para o Rio jogar. Era solteiro e queria passar o Carnaval em Casa Branca [cidade natal de Lance]. Mas o Pirillo me mandou para o jogo.

Fomos de ônibus. Oito horas de viagem. E uma recomendação: viajar com a poltrona em 90 graus. Chegamos no Rio cheios de dores.

Quando começou o jogo, eu estava irritado com o treinador e com a viagem. E o Rivellino logo fez dois gols. Eu diminuí em seguida. Então, teve uma bola esticada para o Daércio, nosso ponta esquerda. Ele saiu em velocidade e nós fechamos pelo meio. Ia ser gol.

O Wright deu impedimento. Só que ele estava de costas para o gol e não viu que o Marco Antonio dava condição de jogo para o Daércio.

A revolta foi muito grande. Todo mundo fechou no Wright, e ele me expulsou. Disse que eu tinha dado um murro nele, por baixo."

Os jornais da época noticiaram amplamente não só a estreia de Rivelino com goleada do Fluminense como o incidente entre Lance e o árbitro.

Wright queria levar o caso às últimas consequências. "Apesar das pressões, mantenho a acusação e quero ver o jogador detido", disse em entrevista à Folha de S. Paulo após a partida. Um exame médico chegou a ser feito no árbitro, porém não revelou lesões.

Lance visitou o juiz em seu vestiário acompanhado de dois detetives, do chefe do policiamento do Maracanã e de Vicente Mateus, então presidente do Corinthians. O pedido de desculpas pelo soco que Lance não deu foi publicado no Estadão: "Errei, pois estava nervoso. Por isso, vim me explicar. Sou jovem e estou começando. Você também. Assim nós ainda iremos nos encontrar em muitas ocasiões. Vim pedir desculpas, pois errar é humano e perdoar é divino."

A cena surtiu efeito, e a queixa registrada no 18º Distrito Policial do Rio de Janeiro foi arquivada. Lance não foi preso. Mas perdeu um ano de futebol, suspenso pela agressão.

Enfim, outro réu confesso

Anos depois, o Vaguinho confessou que ele havia socado o juiz. Se tivesse o VAR, com tantas câmeras, eu não teria parado por tanto tempo. Ele ia me salvar da suspensão.

Sobre a descoberta do real culpado

Em 1980, Lance estava no Coritiba e foi procurado por um repórter da revista "Placar". Vaguinho havia sido expulso por Wright e abriu a boca. "Ele me expulsou por vingança. Sabe que fui eu que dei o murro nele no dia em que expulsou o Lance".

A surpresa foi grande. Ele não soube o que dizer ao repórter, além de um pequeno desabafo: "Olha, se o assunto for esse, só posso dizer que o Vaguinho é um xarope. Passou tanto tempo para assumir a culpa. Eu paguei por ele".

Lance ainda se encontraria outra vez com Wright. "Ele me disse, como se fosse dono de toda a certeza do mundo, que me expulsou porque eu dei um murro nele. Mesmo depois de o Vaguinho ter confessado. O que eu vou fazer? Seguir em frente, como eu fiz, mas ficou a sensação de ter perdido um tempo na vida".

Quando a suspensão terminou, voltei a jogar. Não estava como antes, mas fiquei até 1977 e fiz parte do time campeão paulista, que acabou com o tabu. Fui campeão com o Corinthians.

sobre a volta ao gramado

Fernando Moraes/UOL Fernando Moraes/UOL

VAR chegou tarde

Ernesto Luís Lance é um dos que lamenta a falta que o VAR fez ao futebol. No caso dele, há pelo menos 44 anos. O atacante do Corinthians entre 1971 e 1977, período em que marcou 38 gols em 207 jogos, afirma que se a tecnologia existisse, sua carreira teria sido ainda maior.

Para ele, as críticas enfrentadas pelo VAR hoje em dia, em especial pela demora em se resolver um lance, são pequenas frente ao potencial de corrigir injustiças.

Um ano sem andar

Lance se envolveu em um grave acidente de carro em 2014 quando ia de São João da Boa Vista para Casa Branca, no interior de São Paulo, e um carro na contramão se chocou contra o dele.

Aos 65 anos, o ex-jogador ficou internado na UTI com as duas pernas, costelas e nariz quebrados. No carro, estavam a irmã de Lance, Silvia, e a sobrinha Ana Gabriela, ambas saíram com ferimentos. O cunhado, Richard Lopes da Cunha, morreu. O processo de recuperação foi longo. Lance ficou um ano sem andar.

"Eu tive três paradas respiratórias e sobrevivi. Vou reclamar da vida? Vou falar que tive azar? Quem teve azar foi meu cunhado."

"Foi muito triste. O Xaxá era de uma família de jogadores lá de Casa Branca. Era um Ademir da Guia, não na bola, é claro. Na simplicidade. Todo mundo gostava dele. Jogava no Palmeirinha e no Guará, dois times de muita rivalidade.

Quando recuperei os sentidos no hospital, o filho dele contou que Xaxá tinha morrido e que minha irmã tinha fraturado o quadril.

Assim que fiquei bom, voltei para a minha empresa. Aqui, sou camisa dez. Tenho de comandar.

Quando tive o acidente, os fornecedores ligavam preocupados. Perguntavam de mim. Diziam que estavam torcendo pela recuperação, era tudo muito sincero. Depois, perguntavam quando eu podia pagar.

Estavam errados? Não. A vida segue."

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