É hoje! E amanhã e sempre

Jogadora Ludmila relata escolhas que fez para não entrar no mundo das drogas e sobreviver ao abandono da mãe

Ludmila Silva Especial para o UOL Esporte
Julien Mattia/NurPhoto via Getty Images

Eu tinha três anos quando saí do orfanato. Não lembro de muita coisa. Só lembro da minha infância a partir dos oito anos. Eu ia para a escola sozinha, mas às vezes via a mãe da coleguinha por ali, e batia aquele sentimento. A gente sempre pensa em ter a nossa mãe.

A minha mãe me contou que meu pai batia muito na gente, ele chegava bêbado, batia nela... Eu sei por partes, mas não sei se é verdade. Dizem que ela decidiu colocar a gente em um orfanato para nos tirar daquele ambiente. A minha família fez o que podia fazer por mim e pelos meus irmãos: colocou na melhor escola, e onde a gente morava tinha pessoas boas.

Foi uma infância boa, mas triste.

Para quem foi abandonada, é bem difícil dar carinho. Hoje em dia, eu tenho contato com a minha mãe. Tento o máximo possível dar carinho para ela, mas é difícil. Não sei o que aconteceu ali, eu não tenho lembrança de nada. Então, não vou julgar.

Eu já perguntei para a minha mãe sobre o passado, perguntei por que eles fizeram isso. Mas ela não é muito ligada nessas coisas. Ela bebe, então ainda tem esses problemas. Eu também evito. O que eu tenho de fazer é tentar ajudá-la, dar um abraço, só isso. Não tento fazer mais nada, sabe? Eu não teria coragem de perguntar se ela sente orgulho de mim. Não tenho coragem.

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Outro caminho

Desviar para um caminho ruim teria sido fácil. A gente, que mora na favela, tem esse caminho em todo canto, a todo momento. Até indo para o trabalho.

Eu tinha amigas que usavam drogas. A minha melhor amiga morreu por conta de drogas. Eu tinha 21 anos, e ela também. A Thábata jogava muito. Ela poderia ter chegado muito longe. E não digo isso porque é minha amiga. Se ela tivesse tido mais força de vontade, ela teria chegado lá.

Eu era uma menina rebelde e bagunçava na escola. Eu tinha várias opções e poderia ter escolhido um caminho ruim. Um mês depois da Thábata, morreu a minha irmã mais velha. Também por causa de drogas.

Eu era muito próxima dela. Eu e minha irmã éramos muito coladas, igual chiclete. A gente só foi se separar um pouco quando ela começou a usar drogas. Aí, a gente começou a se dar mal. Ela era uma pessoa má e uma pessoa do bem, ficava mudando entre uma coisa e outra por causa das drogas. Era difícil lidar com isso. Foi por causa de droga que a gente começou a se separar, e foi por causa de droga que ela morreu.

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Brigas e gratidão

A minha tia tinha os sete filhos dela, e tinha também eu, minha irmã e meu irmão. Os nossos primos queriam o carinho da mãe deles, então a gente brigava muito.

Se fosse para dizer algo para a minha tia, eu diria 'muito obrigado'. Se eu estou aqui, é por conta dela. Se ela não me ensinasse os caminhos certos, as pessoas em quem eu tinha de confiar, acho que eu não estaria aqui. Eu dei muito, muito trabalho para ela. Às vezes, quando vou para casa, eu nem fico muito perto dela, já vou para a rua.

Muita gente falava mal da minha tia por minha causa e da minha irmã. Por ela não ter sido minha mãe. Eu não sei explicar, mas é diferente. Tudo que ela fez por mim foi importante. Mas eu vou, dou um abraço nela e vou embora. Não é aquela coisa de ficar 24 horas junto.

Quando eu fui convocada para a Copa, ela só me desejou boa viagem, me deu um abraço... É assim a nossa convivência, a gente não conversa muito. A minha tia é um pouquinho tímida, ela é bem na dela. Eu sei que ela tem orgulho de onde cheguei.

Tenho vergonha por tudo que fiz a minha tia passar. Eu fico com vergonha mesmo, sabe? Eu aprontava muito, e as pessoas achavam que ela não me dava educação. Assim como eu tenho vergonha por ela, é possível que a minha mãe tenha vergonha pelo que fez com os filhos.

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Uma privilegiada

Quando chego no lugar onde eu moro, que é o City Jaraguá, mais conhecido como Arábia, me sinto privilegiada. Eu tenho um amigo que também é jogador, o Luan, e às vezes a gente conversa sobre como é triste ver as crianças querendo jogar bola e não ter oportunidade.

As crianças do meu bairro vêm me dar parabéns. Elas acham que sou um espelho para elas, sabe? Para não desistirem tão rápido. Eu sou bem privilegiada. Eu fui escolhida no meu bairro para mostrar um caminho certo para a criançada. A minha tia nem queria que eu jogasse bola, queria só que eu estudasse. Ela sabia que seria muito difícil, ainda mais para nós, que somos mulheres.

Nada foi fácil. O meu irmão já era mais velho, já era trabalhador. Ele já era bem... como posso dizer? Estruturado. Ele jogava muito futebol. E depois que eu comecei a jogar bola, falava para o meu irmão: 'Driblei o menino e fiz o gol assim'. Ele não acreditava: 'Ah, mentira, você nem sabe jogar bola'.

Quando eu fui fazer meu primeiro teste, ele ficou muito, muito, muito feliz. Ficou todo chorão, bobão. Disse que nem sabia o que falar porque estava chorando.

Eu não tinha dinheiro para ir para o clube, mas também não pedia para a minha tia. Então quem me ajudava era o meu irmão. É graças a ele que eu estou aqui. Era ele que pagava a minha condução. Ele me ajudou demais.

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Aprendendo a depender dos outros

Vocês acham que eu sou independente? Vocês estão certos. Eu sempre tentei fazer as coisas sozinha. Eu sabia que tinha a minha tia ali, mas sempre fui sozinha. Tudo mudou quando eu fiz meu primeiro teste no futebol, no Juventus. Foi aí que a Emily Lima entrou na minha vida.

Foi ela que me descobriu como atacante, me colocou no alojamento. Depois que eu fui para lá, conheci muitas meninas que me levavam para a escola.

A Emily era uma mãe para mim. Eu contava tudo para ela. Quando eu aprontava na escola, ela falava: 'Não faça isso, você vai ficar sem jogar bola'.

Foi aí que eu comecei a depender um pouco mais das pessoas. É até engraçado, porque antes eu era novinha e não dependia de ninguém. Mas quando eu fui jogar fora do Brasil, foi muito difícil. Senti muita falta de ter com quem contar, para quem pedir ajuda.

Sonho muito em voltar a ser treinada por ela! Eu sonho em vê-la trabalhando fora do Brasil. Ela é muito europeia, a cabeça que ela tem, sabe? Ela passava muitos estudos sobre os times de fora, tem um estilo de futebol europeu.

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A certeza da felicidade

Acho que mesmo sem o esporte eu não teria ido para um caminho errado. Eu tive muita chance e não fui. Eu sabia que essas coisas não eram para mim.

Mas, como eu fazia muito esporte, alguma coisa ia ter de dar certo. Eu fazia capoeira, então poderia virar professora. Fazia atletismo, então poderia ser velocista. Ou poderia também trabalhar em outras profissões. Seria uma vida diferente, porque eu poderia ir para o trabalho, depois para a balada, comer um lanche?

Não é que faça falta. A parte do lanche eu como, mas depois tenho de correr o dobro. Hahaha.

Eu já fui muitas vezes para a balada, e eu sempre me perguntava o que estava fazendo ali. A minha tia me ensinou a não gostar. Eu levava muita bronca, mas queria ir lá ver o que era, queria entender por que as pessoas falavam tanto de ir para a balada. Aí matei a curiosidade e vi que não era para mim. Eu não curto muito.

O pessoal me compara bastante com a cantora Ludmilla, né? Esse negócio de 'É hoje' é bom, porque eu sou fã dela. Brinco que para mim, 'é hoje, amanhã e sempre'. Eu gosto disso. Seria bom se o futebol desse certo todos os dias, mas não é assim. Tem fases boas e ruins. Nem sempre 'é hoje', e eu sei bem disso.

Emmanuel Foudrot/Reuters Emmanuel Foudrot/Reuters

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