Geração de ouro

25 anos depois: Magic Paula conta a história de como a dupla com Hortência virou ícone do basquete mundial

Demétrio Vecchioli e Fernanda Schimidt Do UOL, em São Paulo
Marcus Steinmeyer/UOL

Foi Hortência quem tomou a iniciativa do encontro nas duas vezes. Na primeira, pegou Paula de surpresa. Faltavam 42 segundos para o fim do jogo e o Brasil vencia por oito pontos. A Magic girou sobre a marcadora e não coube à chinesa outra alternativa senão a falta. O abraço veio perto da linha do lance livre, pela cintura. Concentrada, Paula não sorriu. Reagiu com dois arremessos certeiros.

Dezoito segundos de jogo depois, Hortência tentou de novo. Desta vez havia sido ela a receber a falta. Acertou o primeiro lance livre, abriu um sorriso de orelha a orelha, a Rainha virou-se para trás. Procurava sua companheira de seleção há mais de 15 anos.

Ergueu os dois braços e caminhou em direção a Paula. Bateu primeiro uma mão na outra, depois, as suas na da amiga. Não era só a comemoração de um ponto. Era, enfim, a ainda discreta comemoração de uma vitória que Paula só iria celebrar no instante em que o cronometro zerou e o placar apontou Brasil 96, China 87.

O sol havia nascido há pouco naquele domingo quando as imagens transmitidas diretamente de Sydney (Austrália) chegaram às televisões brasileiras. No dia dos namorados de 1994, vinte e cinco anos atrás, as duas melhores jogadoras de basquete que o Brasil já amou levavam o país ao seu primeiro - e por enquanto único - título mundial no basquete feminino.

Magic Paula relembra, em entrevista ao UOL Esporte, o trajeto até o ouro, da forma reativa como o grupo recebeu a nova comissão técnica liderada por Miguel Ângelo da Luz ao retorno ao Brasil com a consagração da maior seleção que o basquete feminino já viu.

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL

Foi um dia antes, 11 de junho de 1994, na semifinal, que a seleção deu o maior e mais importante passo rumo àquela conquista inédita. Os Estados Unidos não tinham uma equipe imbatível, vinham do bronze em Barcelona-1992, mas tinham participado das últimas quatro finais Mundiais. Com Lisa Leslie, Sheryl Swoopes e Dawn Staley, era o time a ser batido.

"Claro que o último jogo não valeria nada se a gente não ganhasse da China, mas a lógica ali era os Estados Unidos ir para a final. Para mim, aquele foi o grande jogo. A responsabilidade a gente jogou pro time americano. Isso tirou o peso da gente também. Se perder dos Estados Unidos vai ser uma coisa normal, se ganhar vai ser anormal", disse Paula, hoje com 57 anos.

Nunca um Mundial Feminino viu um jogo como aquele. Pela primeira (e até agora única) vez em uma grande competição, duas seleções passaram de 100 pontos. O Brasil fez 110. Os Estados Unidos, 107.

"Foi um jogo técnico, de precisão. E no final os Estados Unidos e nós usamos os mesmos venenos. A gente não podia deixar elas arremessarem de três. Naquela época, no lance livre, se acertasse o primeiro continuava o arremesso. Se errasse, a bola já estava em jogo. A estratégia era fazer falta e rezar para que errassem o lance livre."

Só Paula bateu 18 lances livres. Acertou 15. Na última volta do cronômetro foram seis arremessos, todos certeiros, pressionada por um time norte-americano que vendia caro a derrota, com uma bola de três atrás da outra. Quem assiste hoje ao VT da partida, não imagina o peso simbólico que cada arremesso tinha para o basquete nacional. E Paula tampouco esboçava traços de tensão.

"Se você não está preparada para ir lá e acertar o lance livre, de herói vira vilão. Está com medo, não está confiante? Não fica com a bola na mão. Eu, como armadora, recebia a bola e saía, e aí elas já vinham. Eu podia passar a bola se não quisesse arremessar lance livre, mas a confiança estava grande."

Se a confiança já estava alta antes da semifinal, após a partida ela foi às alturas. "O jogo contra os Estados Unidos deu uma puta moral para a gente, tipo 'pô, a gente ganhou dos Estados Unidos vamos ter medo de jogar com a China?'."

A gente conquistou o mundo do basquete feminino. Até então era só a antiga União Soviética e os Estados Unidos que ganhavam. Aí chegam lá umas tupiniquins que ninguém esperava e ganham o Mundial... Ali, a gente ganhou o respeito de todo o mundo

Magic Paula

Marcos Issa/Agência O Globo Marcos Issa/Agência O Globo
Rick Rycroft/AP Photo Rick Rycroft/AP Photo

Começo ruim não abalou o grupo

Do outro lado do mundo, a conquista foi acompanhada por apenas dois repórteres brasileiros. Hortência e Paula já eram duas das atletas mais importantes do nosso esporte, seguidas de perto pela imprensa, mas naquele momento a desconfiança sobre a seleção falava mais alto. O nono lugar no Mundial de 1990 e o sétimo na Olimpíada de 1992 haviam caído como uma ducha de água fria.

Além disso, o país ainda estava de luto pela morte de um de seus maiores ídolos, Ayrton Senna, ocorrida um mês antes, e se preparava para afogar suas mágoas no futebol com a aproximação da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.

Na Austrália, depois de cumprir com a obrigação de vencer Taiwan na estreia, o Brasil perdeu na segunda rodada para a Eslovênia. Parecia mais do mesmo. "Perder o jogo, e começar a jogar mal sempre foi normal para a gente em Mundiais. Então, isso não abalou tanto. A gente já tinha ido com aquela coisa de: 'ah, vamos ficar entre oitavo e décimo mesmo'", lembra Paula.

Se quanto maior o sonho, maior o tombo, também vale a máxima de quanto menor a meta, menor a frustração. "A gente teve essa frieza de dar tempo ao tempo, de não se desesperar." No terceiro jogo da fase de grupos, a vitória contra a Polônia classificou o Brasil para a etapa seguinte, num grupo contra Espanha, China e Cuba.

Nada daria mais confiança do que estrear contra Cuba, rival em diversos amistosos e jogos-treinos durante a fase de preparação, no Brasil. "A gente foi aprendendo jogando contra elas. A gente via que elas tinham dificuldade de se equilibrar quando estavam atrás. A intenção era chegar matando a pau para elas não terem oportunidade depois."

Depois de vencer Cuba e perder para a China, só restava ao Brasil vencer a Espanha. Exibido pela Band, que enfim entrava na cobertura do Mundial, o jogo foi todo em espanhol. A seleção só conseguiu pular à frente do placar quando faltavam 21 segundos, graças a uma decisão polêmica da arbitragem, que viu falta intencional sobre Janeth. Na época, isso significava dois lances livres, mais a posse de bola.

"O banco da Espanha chiou e tudo, mas... é assim: a arbitragem é boa quando ninguém liga para ela, né? A Espanha, claro, naquele momento achou que foi exagerada a falta intencional, como a gente acharia também", recorda Paula.

A Espanha até fez uma reclamação formal, que não foi aceita. Com 24 pontos de Janeth, seis deles anotados nesses 21 segundos finais, o Brasil avançou para a semifinal.

Uma mão de Senna na Austrália

Ralou 18 anos na seleção até conquistar o mundo

"A Janeth fez um belíssimo campeonato, a Leila jogou muito, a Alessandra jogou muito, a Ruth jogou muito. Acho que houve uma distribuição maior de responsabilidade. Duas andorinhas não fazem verão em uma Olimpíada ou em um Mundial. A gente ia ser uma geração que ia passar e acabou." É difícil imaginar qual seria a memória da modalidade no país se um desses jogos tivesse dado errado naquele mês de junho.

Então com 32 anos, Paula já havia perdido as contas das vezes em que questionou o futuro de sua carreira no basquete. "Se me perguntar, 'teve momentos e vontade de desistir?'. Várias vezes." A armadora estava na seleção adulta há 18 anos e tinha passado por quatro duros ciclos olímpicos.

Nos clubes, a rivalidade com Hortência ajudou a profissionalizar o basquete feminino brasileiro e elevá-lo a um novo patamar. Mas, na seleção, esse processo foi longo e doloroso.

A disputa era alimentada pela imprensa e, principalmente, pela rivalidade entre seus clubes. O ápice aconteceu quando Paula jogava pela UNIMEP, de Piracicaba, e Hortência, pelo Minercal, de Sorocaba.

Antes do Mundial, Branca, irmã de Paula, teria sido pivô de uma crise na única vez em que Paula e Hortência atuaram juntas em um clube, a Ponte Preta, de Campinas. Um ano antes do Mundial, a Rainha teria tido uma briga feia com Branca e, em defesa da irmã, a Magic chegou a dizer que não jogaria mais com Hortência. Mas, hoje, Paula nega o clima ruima.

Apesar do episódio ser lenda, a rixa entre as duas chegava, sim, dentro de suas famílias, mas de uma maneira hilária, como Magic Paula conta no vídeo abaixo.

Rixa entre Rainha e Magic virava ofensa até dentro de casa

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL

Paula era contra a nova comissão técnica

Miguel Ângelo da Luz parecia ter o perfil mais indesejado possível para assumir a seleção feminina para aquele que prometia ser o último Mundial de Paula e Hortência. Sem experiência no basquete feminino, ele treinava um time juvenil masculino de um clube modesto do Rio, o Grajaú Country Club.

"A gente achou uma falta de consideração com os treinadores do basquete feminino trazer alguém do Rio de Janeiro, que não tinha tradição de basquete feminino, treinador de juvenil masculino. A gente gritou, esperneou, mas dentro da Confederação se falou: 'vai ser ele'. Aí, a partir do momento que entrou, decidimos que íamos ajudar. Venha e mostre para a gente que você é capaz."

Sem experiência, Miguel e seu auxiliar Sergio Maroneze mostraram humildade. "As pessoas que comandam morrem de medo de mostrar as fragilidades. Eles chegaram e falaram: 'Olha, vocês jogaram mais vezes que a gente, vocês têm mais experiência internacional que a gente, vocês estão aqui há mais tempo. A gente não sabe nada disso, quem sabe são vocês, estamos aqui no mesmo barco. Ajudem a gente'."

Com Miguel e Sergio no comando, Paula e Hortência, antes tratadas como "juvenis" pela superprotetora Maria Helena, viraram mais do que líderes em quadra. "Teve um dia que, umas 10 horas da noite, o Miguel liga para mim e para Hortência e chega a gente para ir no quarto deles. Eles estavam lá reunidos e 'oh, a gente joga amanhã, o que vocês acham? A gente está pensando em fazer assim...'. Eles eram superabertos nesse sentido e pegaram a gente num momento muito maduro, sabendo o que a gente queria. Ficou muito mais fácil, mas acho que foi uma construção, tudo tem seu tempo e a gente esperou o tempo certo. Eles não foram os mais competentes, preparados, mas eles foram os mais humildes."

Mesmo assim, a hierarquia era respeitada. Quase sempre. "Contra os Estados Unidos, a Leila estava superbem, aí pediram tempo. Quando a gente volta para a quadra, cadê a Leila? Estava no banco. O Miguel disse 'ela falou que está com dor no pé'. Aí a Hortência 'ah, amanhã ela cura! Volta para a quadra'. Acho que foi a única vez que a gente desrespeitou, mas ia colocar a Alessandra fria faltando um segundo para acabar?"

Não sei se um técnico que estava no feminino ia assumir e a gente ia ter o sucesso que teve. Talvez não. Acho que calou a nossa boca. Olha aí, sou campeã do mundo

Magic Paula

Tim Clayto/Getty Images Tim Clayto/Getty Images

Motivação e treinos customizados fizeram a diferença

O basquete feminino do Brasil não surgiu com Paula e Hortência. Antes de a modalidade ser olímpica para as mulheres, em 1971 a seleção foi terceira colocada no Mundial disputado em São Paulo, num time que liderado por Norminha e Marlene.
Waldir Pagan havia sido o técnico do Brasil no então único pódio em Mundiais. Vinte e três anos depois, ele voltou à seleção para atuar como coordenador. Sua função, porém, ia muito além.

"Quando a gente descia para o café da manhã, na parede, quase próximo ao elevador, tinha lá a programação do dia com frases de motivação. Se a gente tivesse feito algum jogo amistoso tinha as estatísticas. 'Ontem o rebote não foi bom, vamos melhorar no rebote!', tudo com canetinha azul, verde, vermelha, tudo organizadinho. Perdia a jogo, tinha lá: 'Ontem não deu, mas a gente podia melhorar isso...'. Parecia que não era nada, mas era."

Ele também foi um "paizão" para meninas como Alessandra, na época com 20 anos, e Cíntia Tuiú e Leila, ambas com 19. Foi Waldir quem cuidou para que a fase de preparação para aquele Mundial fosse diferente de anos anteriores.

"A gente não queria mais ficar duas semanas sem ir para casa. Todo fim de semana a gente tinha alguma folga. Quando você não vai para casa, começa a dar choque, começa a se irritar. Tem que carregar a bateria, senão não rola. O Waldir queria que a gente ficasse em lugar bom, não ficar fazendo escala. Era buscar o melhor mesmo para o time."

Paula também aponta como fundamental o trabalho de preparação física montado por Hermes Balbino desde o início do ano, montando treinos em conjunto com os clubes. Na seleção, dividiu as jogadoras em grupos. "As que precisavam de aeróbico ficavam em um grupo, as que precisavam melhorar a velocidade no outro. Os treinos eram muito específicos para cada um, não tinha isso de todo mundo treinar a mesma coisa."

Também foi Hermes quem propôs um novo treinamento psicológico, de mentalização. "Ele começou a dar exercícios na hora de começar o jogo: fechar os olhos, ficar visualizando você em quadra, fazendo as coisas certas. Um lance livre bem-feito, um passe bem-feito, marcando bem, você vai mandando estímulos positivos para o seu cérebro."

Naquele Mundial, Hortência teve 90% de aproveitamento de lances livres, contra 85% na edição anterior. Janeth subiu de 80% para 88%.

Liderança dentro e fora de quadra

Marcos Issa/Agência O Globo Marcos Issa/Agência O Globo

O samba do Mundial

Foram quatro meses de preparação, quatro meses de relação intensa. Sem celular para se comunicar com o mundo de fora da concentração, a solução para Paula era se adaptar aos interesses de um grupo muito mais jovem do que ela.

"Eram sempre conversas fúteis e brincadeiras e hahaha. Eram poucas que ficavam para bater um papo. Era muito desgastante, porque você acorda cedo e vai treinar, chega 11h30, almoça, descansa um pouco e volta a treinar. Eu sentia falta de um papo mais cabeça, e o que era mais natural é eu entrar na onda de ser mais superficial."

Apesar dos diferentes perfis e gostos pessoais, o grupo tinha, sim, uma diversão coletiva. O que Paula chama de "batucada". Naquele ano, uma música em especial tocou que nem chiclete. O trecho "Me leva que eu vou, sonho meu" virou um clássico carnavalesco quase que instantaneamente, mas com ele a Mangueira teve o segundo pior resultado de sua história, um 11º lugar.

A composição, no entanto, deu sorte à seleção em uma versão basqueteira, escrita pelo assessor de imprensa Sérgio Barros ainda durante a longa fase de preparação em São Roque, interior de São Paulo.

A paródia, criada especialmente para a seleção de Paula e Hortência, serviu de estímulo ao grupo. Na chegada ao Brasil, já como campeãs mundiais, o enredo embalou jogadoras, comissão técnica, torcedores e imprensa.

Puxada por Paula em um microfone e sistema de som improvisado no aeroporto, o samba eternizou uma geração. Vinte e cinco anos, Magic Paula ainda lembra a letra da música. Agora é a vez das novas gerações cantarem junto.

Marcos Issa/Agência O Globo Marcos Issa/Agência O Globo

Miguel da Luz e Sergio Maroneze
Vão cortando um dobrado,
Pra que o Brito não se enfeze

Me diga quem?
Raimundo Nonato
Levando essas feras para o campeonato

Marisa, Hermes,"Doutora Marli",
Zé da Banheira e o grande professor Waldir

Helen, Roseli, Leila
Ruth, Simone, Adriana e Dalila

Lá vem Tuiú!

Alessandra e Cíntia, ô!
Os nossos coqueiros vão brilhar
Vai Janeth, disparando, pronta pra marcar

A rainha mais audaz, é sensação
Show de graça e precisão
Hortência explode coração!

Encanto e magia, chegou!
Faz a finta, arremessa, ponto!
Cada assistência um brilho de esplendor,
Seu nome é Paula (Aplausos)

Aplausos, ao time inteiro,
Tem canguru
Virando brasileiro

(Me leva) Me leva que eu vou, seleção
Tô indo pra Austrália eu quero voltar campeão

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