As vozes de Marcelo Adnet

Imitações de Galvão Bueno e outros medalhões esportivos transformaram o humorista em destaque na Globo

Marcelo Tieppo Colaboração para o UOL, de São Paulo
Divulgação/ TV Globo

Um dos principais nomes do humor da TV Globo, Marcelo Adnet foi alçado a destaque da emissora com o término da Copa América. Se o torneio ficou devendo dentro de campo, as imitações de Galvão Bueno, Milton Leite, Luiz Carlos Jr e tantos outros fizeram de Adnet quase uma unanimidade fora das quatro linhas. Quase, porque além das críticas normais a qualquer tipo de trabalho, o ator, roteirista e apresentador ganhou desde as eleições do ano passado uma perseguição pelas redes sociais. "É muito estranho e acaba que qualquer coisa que eu faça tem a galera desse grupo que vem pedir explicações sobre o meu trabalho e vai lá me xingar e tal. Então acaba que são meus fãs, que me acompanham. Aonde eu vou, nem que seja pra me xingar, estão ali."

Apesar de chamar ironicamente os perseguidores de fãs, Adnet recebeu ameaças de morte após imitar Jair Bolsonaro durante a campanha dos presidenciáveis, no tutorial dos candidatos, lançado pelo jornal O Globo, e teve que abrir um processo. "Isso é claro que é uma minoria dos eleitores do cara. É um grupo, esse tipo de coisa é chatíssimo. Mas bola pra frente. Eu não vou deixar de fazer o que eu faço, muito pelo contrário."

Em entrevista para o UOL Esporte, ele fala ainda da paixão pelo Botafogo, do fanatismo pelo futebol, de como começou a fazer teatro por acaso, do início das imitações aos 7 anos de idade, do prazer de ter podido acompanhar a Copa América e dos planos futuros, que inclui um novo projeto, envolvendo as Olimpíadas de Tóquio, no ano que vem.

Estevam Avellar/Globo Estevam Avellar/Globo

Botafogo, Botafogo, campeão desde 1910

Marcelo Adnet nasceu em uma família de botafoguenses e não perde um jogo do time do coração. Mas por causa do excesso de trabalho e da fama, não vai ao estádio desde o ano passado. "Quando eu tenho um tempo livre, chego em casa e quero dar uma descansada. Também ficou mais difícil porque o estádio tem milhares de pessoas. E como eu acabo tirando foto com muita gente fica mais demorado. Então é melhor ver o jogo em casa, mais fácil."

O amor pelo Botafogo, no entanto, vai além da família. O humorista foi criado no bairro de Humaitá, que fica na zona Sul do Rio de Janeiro, e que tem segundo ele um número muito grande de torcedores do time da Estrela Solitária. "O cara do bar da esquina é botafoguense, do restaurante também. É um lugar que tem uma torcidinha do Botafogo legal. Humaitá é um bairro nobre, mas ele não é dos mais ricos, dos mais badalados, não tem o metro quadrado mais caro. Ele é um bairro mais antigo, pequeno, ao lado de Botafogo e tem a ver com o clube também."

Adnet cita o primeiro campo do Botafogo, onde hoje é a Cobal do Humaitá, ponto badalado na zona sul carioca, para mostrar a relação de carinho entre clube e bairro. "É um lugar que eu sempre frequentei, andei, fui criado. Então tudo isso tem a ver. Tem a ver também o título de 89. Quando eu tinha 7 anos de idade, foi o título talvez mais importante da história moderna do Botafogo. Fui pra General Severiano comemorar naquele mesmo dia."

"O maior ídolo que eu não vi jogar é o Garrincha, embora tenha vários outros. Um que não vi jogar e que é ídolo é o Zagallo. Dos que eu vi jogar, eu vi Túlio Maravilha, vi Jefferson, vi Seedorf, vi jogar El Loco Abreu. O maior foi o Túlio mesmo, mas esses três têm também um lugar especial."

Paixão pelos esportes

Apesar de gostar de todos os esportes, o fanatismo pelo futebol é tanto que sobra pouco espaço para a concorrência, ao ponto de precisar se policiar.
"Qualquer jogo que esteja passando, eu vejo. Eu tento segurar um pouquinho, porque são muitas horas de futebol por semana. Tem todo dia, toda hora, é complicado, então eu tento selecionar um pouquinho. Do Botafogo, eu vejo sempre."

Adnet já quis em ser jogador de futebol, mas diz que lhe faltou talento, e hoje procura se manter fisicamente ativo com corrida, hiking, natação e até badminton.
"Eu pensava em ser jogador, mas acabou que eu não jogava muito futebol. Me falta um pouco de talento mesmo, condicionamento físico e qualidade. Ganhamos um campeonatinho na faculdade, e teve uma preliminar em 2010 do jogo entre Botafogo e Corinthians, e um time de artistas jogou a preliminar. Foi bem legal."

Divulgação/TV Globo Divulgação/TV Globo

Soy loco por Copa América

Marcelo Adnet conseguiu unir a paixão pelo futebol com o humor no projeto Soy loco por Copa América. A ideia nasceu depois de uma reunião com Marcius Melhem, que coordena os programas humorísticos na Globo. "A gente sugeriu fazer algo durante a competição e aí fui fazer uma reunião lá no esporte. Foi uma ideia minha com o pessoal do esporte, supervisionada pela Marcius, com dois roteiristas do Tá no Ar, o Marcelo Martinez e o Wagner Pinto."

Adnet, que já fazia Galvão e Luiz Carlos Jr., mergulhou no universo dos futuros personagens e estudou muito para achar a melhor imitação para cada um deles. "Foi um processo de pesquisa parecido com o que fiz na política. Eu fico ouvindo em looping, procurando um padrão, um jargão, prestando atenção na dicção. É um trabalho de ouvido, de pronúncia, de gestual."

"Foi difícil fazer o Luís Roberto que é um excelente narrador, e o Gustavo Villani, que é novo na Globo. Eles não são caricaturáveis. Mas eu sou muito corajoso. Não tem essa de não conseguir. Se eu não tirar uma nota 8 ou 10, vou tirar 5 ou 6. Se a voz não sai perfeitamente, exploro o gestual. Não existe uma imitação 100%. Não somos máquinas", diz ele que se divertiu com a possibilidade de imitar um apresentador numa hora e, na seguinte, estar lado a lado dele como convidado dos programas da casa.

No esporte, minha melhor imitação foi do Luiz Carlos Júnior. Na política, minhas melhores imitações foram do Bolsonaro e do Crivella. A da Marina Silva não é perfeita, mas fica bem engraçado.

sobre sua imitação favorita

O início das imitações

Foi a eleição presidencial de 1989 que despertou em Marcelo Adnet a vontade de fazer imitações. "Eu era um menino muito interessado no mundo dos adultos e lia muito jornal. Tentava fazer voz de sambista, de puxador, de pagodeiro. E o horário eleitoral eu não perdia, via sempre desde os 7 anos. Lula, Collor Enéas. Eu tentava imitar os adultos e fazia vozes."

A influência familiar também ajudou o humorista a definir a futura profissão. "Meu avô era um baita cartunista. Ele desenhava e fazia vozes para mim. Morreu quando eu tinha de dois para três anos, então talvez isso tenha ficado marcado. E o meu pai é músico e fazia música publicitária em casa. Eu escutava ele criando aquilo e tudo isso acabou colaborando de alguma maneira para que eu imitasse, que tivesse interesse em reproduzir as vozes e os pensamentos das pessoas."

"Aí quando eu cheguei na MTV em 2007/2008 é que comecei com esse repertório de imitações, no programa 15 Minutos. Na peça do Z.É (Zenas Emprovisadas), eu fazia imitações musicais. A plateia dava um tema e um dos atores escolhia algum cantor ou uma banda que eu imitava. Ali foi uma escola, pela surpresa, de não saber o que era."

O humor tem um descompromisso assumido. Ele é leve e às vezes vai tocar lá no fundo da ferida. A brincadeira do humor é toda essa. Já o jornalismo, ainda mais em empresas muito grandes, tem uma responsabilidade bem diferente e um compromisso com a neutralidade.

sobre o papel do humor

Trocou o jornalismo pelo teatro

Formado em Jornalismo pela PUC do Rio, Marcelo Adnet chegou a trabalhar um ano como assessor de imprensa de uma gravadora. Até que apareceu o convite para que ele participasse da peça Z.É, que tinha esquetes de improvisação e caiu nas graças do público carioca desde que estreou em 2003. Além de ter recebido o prêmio Shell de Teatro, em 2004, em uma categoria especial pelo projeto inovador e pela qualidade na proposta de trabalho.
O teatro aconteceu por acaso, a convite de Fernando Caruso, seu colega de faculdade. "Não comecei a fazer curso, subi no palco logo pra fazer a primeira vez. Éramos eu, o Fernando Caruso, o Gregório Duvivier e o Rafael Queiroga. Acabou casando bem, porque os três faziam teatro. E essa onda me levou aqui até hoje."

"Mas eu uso meu curso de jornalismo no trabalho de humorista, fazendo investigação e usando a cultura geral pra embasar a comédia, seja lá qual for o assunto. Por isso que o jornalismo não é uma coisa que eu larguei. Uso todo dia, sempre."

"No tutorial dos candidatos, quando eu fiz os candidatos foi um trabalho jornalístico forte, assim como no esporte. Na redação também, na hora que a gente tem que criar uma piada, às vezes na formulação da frase, às vezes numa respiração, às vezes numa palavra. O trabalho de jornalista está aí também, super presente."

Divulgação Divulgação

Ameaça durante as eleições

Apesar do descompromisso do humor, Marcelo Adnet foi vítima de um ataque virtual de eleitores do então presidenciável Jair Bolsonaro, que se sentiram ofendidos com a imitação que o humorista fez durante o tutorial dos candidatos a presidente para o jornal "O Globo".
"A primeira imitação que foi lançada foi a dele, então talvez as pessoas tenham dito 'olha lá o Adnet sacaneando o Bolsonaro'. Aí teve o segundo vídeo, o terceiro, o quarto. No quarto, o pessoal falou 'quero ver imitar o Haddad' e eu imitei. Foi um desafio muito difícil de fazer, porque ele fala manso, devagar. Aí falaram: 'mas o Boulos, amiguinho dele, ele não vai fazer". Fiz o Boulos. Teve um pessoal muito grosseiro, muito violento."

"Na rede social, vinha escrito com nome e sobrenome: vou te dar um tiro. É assustador, não tem nada a ver comigo, com o meu trabalho. Imitei todo o mundo. Não existe justificativa, não existe argumento. O cara pode dizer que não gosta de mim. Como envolvia a Globo, eu fui no jurídico do jornal e a gente acionou essas pessoas na Justiça. Minha intenção nunca foi processar ninguém."

Além das imitações que desagradaram os eleitores do hoje presidente Jair Bolsonaro, Marcelo Adnet também foi vítima de "fake news". Durante a campanha, foi divulgado um áudio com uma pessoa imitando o presidenciável no hospital, dando a entender que ele estava bem de saúde. Como o humorista havia imitado Bolsonaro, espalharam que ele havia feito a gravação. "Alguém que não fui eu, fez um áudio, que aliás quando eu recebi, eu falei isso aí é fake, é até mal feito. Era um áudio que nitidamente era uma brincadeira de alguém, não era uma denúncia. Era uma brincadeira e virou um escândalo."

"Só que aí apelaram. Alguém produziu uma peça com uma foto minha, um texto dizendo que eu a pedido da Globo teria feito um áudio para incriminar o presidente. Isso se espalhou rapidamente e as pessoas passaram a acreditar nisso e voltaram a me ameaçar com muito mais força, dizendo: 'você tá envolvido no esquema pra prejudicar o Bolsonaro'. Coisas absurdas."

É uma coisa muito violenta, velada. Às vezes, nem tão velada assim, é uma violência declarada mesmo. Da minha boca não há violência, ameaça. Sigo fazendo humor, sigo tranquilo.

sobre as ameaças que sofreu

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Quer continuar no esporte

Para quem lamentou o fim do programa Tá no Ar, Marcelo Adnet adianta que eles já estão trabalhando na criação de um novo programa humorístico para o ano que vem. "Agora preciso dar uma descansada. Mas além do novo programa, eu gostaria de fazer algo para o Olimpíada com o pessoal do esporte. Apesar de ter sido muito bom fazer a Copa América, não dá para fazer algo para o esporte o tempo todo, porque isso me tomaria o ano inteiro."

Antes disso, o humorista vai poder ser visto no cinema. No fim do ano, deve ser lançada uma comédia escrita por Adnet junto com Lusa Silvestre e que conta a história de um cara que troca os bicos pela promissora carreira de pastor, interpretado pelo próprio humorista. "A gente está chamando de 'Pulo do Gato', mas com certeza não vai ser esse o nome. Eu faço par com a Letícia Lima, mas tem uma galera no filme: Tonico Pereira, Otávio Muller, Gregório Duvivier, Bento Ribeiro, Marcos Vera, Eduardo Sterblitch, Fernando Caruso e muitos outros."

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