"Você está com depressão"

Cristiane Rozeira fala pela primeira vez sobre a barra que enfrentou até descobrir que a cabeça não ia bem

Cristiane Rozeira Especial para o UOL, de São Paulo
Simon Plestenjak/UOL

Eu não sei explicar o que uma pessoa com depressão sente. Não tem palavra que descreva. É um vazio. Não dá vontade de comer, de dormir, não dá vontade de fazer nada. Só chorar, chorar, chorar. Eu chorava 24 horas por dia, sozinha, afundada no sofá. Com certeza aquele sofá ficou com a marca do meu corpo de tanto que eu ficava deitada ali.

Nessa época, eu estava na França. Logo depois da Olimpíada do Rio eu fui me apresentar no Paris Saint-Germain. Imagina, era um sonho jogar no PSG. Mas eu nem ligava. Eu não pensava na minha carreira, no meu início no futebol, em nada. Para mim eu nunca mais ia chutar uma bola. Eu queria voltar para Osasco e esquecer tudo.

Saí direto daquela derrota no Rio para Paris. Eu não descansei, nem tive tempo de afogar as mágoas com minha mãe e meu pai. Foi só uma semana com a minha família, nem isso.

Não era culpa do PSG, eu sei que o problema era comigo. Eu fiquei uma temporada toda só focada em trabalho, só pensava na Olimpíada no Brasil, que a medalha tinha que vir, que perder não era uma opção. Quando a derrota no Rio aconteceu, do jeito que aconteceu, foi uma merda.

Perdemos a Olimpíada em casa, terminei um relacionamento longo, perdi minha avó. 2016 foi um ano para jogar na privada e dar a descarga.

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Nos últimos 4 anos, eu só pensava em uma medalha olímpica no Brasil. Eu criei uma expectativa enorme em cima daquilo, em cima de mim mesma.

Só que estalou o dedo e foi embora. Tudo acabou praticamente em dois jogos por causa da lesão na coxa direita que tive no segundo jogo. Se machucar em competição assim é péssimo, porque é tiro curto e é muito difícil se recuperar para voltar a tempo.

Eu fazia fisioterapia de madrugada, à tarde, em qualquer horário que você possa imaginar. Eu dormia tarde, porque eu queria voltar logo.

Mas, lá no fundo, você sabe que não vai dar para voltar, que não vai dar tempo. Mas você é tão teimosa e acredita tanto que aquilo vai dar certo, que cria uma expectativa. Eu fiquei de fora o tempo todo acompanhando e ao mesmo tempo com esperança de 'eu vou conseguir'.

Eu voltei da lesão no jogo contra a Suécia, já na semifinal. Mas não estava 100%. Eu tinha perdido todo o condicionamento que tinha ganhado, estava cansada.

O professor fez a lista para bater pênalti e eu levantei a mão porque queria ajudar. Eu sempre quero ajudar, fazer. Talvez não fosse o momento para participar daquilo.

O estádio estava lotado, o Brasil inteiro estava apoiando, esperando que você fizesse aquilo e aí quando eu errei só senti um negócio assim... O que eu fiz?

A gente poderia ter sido eliminada por causa do meu pênalti, mas em seguida a Bárbara conseguiu pegar o outro. Quando a Andressinha perdeu e veio o apito final, é quando você tem noção. Acabou.

Eu já desanimei ali. Quando foi para a disputa de terceiro e quarto lugar, eu não estava bem. E perdemos de novo. Imagina como fica a sua cabeça?!

Sabe? Você criou expectativa para aquilo, você se lesionou e ainda perdeu. Eu perdi um pênalti e nós perdemos a semifinal.

Ninguém pensa que jogadora de futebol é gente normal. Ninguém fica o tempo todo pensando em bola e gol. Se eu não tenho compromissos profissionais, aproveito cada momento livre da forma mais normal possível. Acho que é como todo mundo gosta, né?! Com a família e amigos.

Eu não preciso de muito para me divertir. Final de semana é curtir com os amigos, minha família, sair para um bar, fazer uma festa. Eu sempre gostei de música alta e de falar com todo mundo, então se tem algo errado comigo, as pessoas vão perceber.

Só que eu sou de Osasco, minha família toda mora lá e jogadora de futebol não consegue levar todo mundo junto quando se transfere para a Europa, como acontece no masculino. Não é a mesma coisa de você poder levar a vizinha, o papagaio, todo mundo com você.

Quando eu fui para o PSG, eu fui sozinha. O clube coloca as meninas para morar próximas umas das outras, mas é diferente. Você fica muito sozinha e sem a família.

Eu não tive problema de adaptação no sentido da língua. Praticamente todo mundo fala inglês e é estrangeiro, então foi bem tranquilo em relação a isso. Mas férias fazem falta, viu?! Tem gente que acha que é frescura, mas não é.

Eu também tinha que encarar as pessoas de fora. Andar na rua era horrível. Você quer mandar a pessoa para aquele lugar e ao mesmo tempo sabe que não vale a pena. A pessoa te aborda falando que você é ruim, perna de pau, que não sabe bater pênalti. O teu mundo já desabou, e você ainda tem que olhar para a cara da pessoa e fingir que nada aconteceu.

As pessoas não sabem o que acontece, estão assistindo ao jogo porque está passando na TV naquele momento. Cria-se a expectativa: os meninos estão mal e vamos torcer para as meninas. Só que a gente nunca gostou dessa comparação, porque a gente sabia que em algum momento, quando desse algo errado, alguém ia vir e cuspir tudo na nossa cara. E foi exatamente o que aconteceu.

Só porrada nas redes sociais, o pessoal descascando, "pipoqueiras como sempre", coisa toda. Larguei mão porque nessa hora ninguém vai te falar coisa positiva.

Depois que cheguei ao PSG, a minha avó materna morreu. Foi de repente, ela teve um infarto. Eu, na França, quase não consegui chegar a tempo para o velório.

O PSG me liberou, mesmo sendo na véspera de um jogo grande. Foi uma correria, uma loucura. Minha família por parte de mãe mora em Campinas. Quase deu errado para pegar o velório dela. Eles tiveram que esperar um tempão até eu chegar.

Eu fui praticamente do aeroporto para o velório e de lá de volta para o aeroporto. Cheguei, acompanhei tudo, me despedi da minha avó, mas não contei para ninguém o que estava acontecendo comigo. Nem para a minha mãe.

Eu não queria falar, porque ela sempre teve problema. Um problema de saúde aqui, outro ali, e agora a minha avó... Imagina jogar uma bomba dessa no colo dela? Eu preferi ficar mais quieta, ficar mais perto dela, sem falar o que realmente estava acontecendo.

Mas mãe sabe, né.

Tanto sabe que quando ela me viu no velório, levou um susto. Minha aparência era outra. Eu perdi 5kg naqueles meses e dava para perceber que eu estava bem mais magra que o normal. Mas ela não falou nada na hora. Depois que fiquei melhorzinha foi que ela disse: "Eu sei que você já teve problema, né?!"

Eu só falei: "É, tá bom".

Mesmo assim eu não contei. Disse que estava tudo bem. Eu não ia contar.

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Eu me esforcei tanto para jogar a disputa do terceiro lugar na Olimpíada que minha lesão abriu 4cm e eu só soube quando cheguei no PSG. Foi horrível.

Fiquei mais de um mês parada e treinando separada do resto do time por isso. Tudo isso na sua cabeça e você ainda descobre que piorou algo que já estava ruim. Não deu uma semana e eu já queria ir embora.

Só contei como eu estava de verdade para o clube. Eu tive uma conversa bem franca sobre o que estava acontecendo comigo com o técnico do PSG, o Patrice Lair.

"Quero parar. Não quero ficar aqui, não quero jogar na seleção. Eu quero ir para casa".

Ele levou um susto: "Como assim? Você não vai embora, porque você é muito importante. Nós precisamos de você. Você é uma jogadora com muita experiência. Não vai sair".

Eu não esperava que a reação dele fosse ser essa de me ajudar. Naquele momento eles me abraçaram. Por isso que até hoje eu tenho um carinho muito grande pelo PSG.

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Chorei muito nessa conversa com o treinador. Eu demorei para entender que aquilo que eu estava passando era um quadro de depressão. Eu ia dormir muito tarde, quase 6 horas da manhã para acordar às 8h e ir para o treino.

Eu também não comia direito. Só me alimentava de pão, pão e mais pão. Por causa disso, eu passei mal em um jogo. Não comi, fui jogar e quase tive um piripaque. Era um jogo do Campeonato Francês, eu estava voltando de lesão e estavam me colocando aos poucos para jogar. No segundo tempo, eu quase caí dura. Foi bem preocupante.

Um antigo empresário me deu o toque sem muito rodeio: "Cris, você está com depressão".

Foram 4 meses assim.

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Foi depois do velório da minha avó que eu comecei a colocar minha cabeça novamente no lugar.

O PSG me dispensou de um jogo superimportante para eu ir me despedir dela, valia vaga para a Champions e tomamos três gols na primeira partida. Voltei do Brasil tentando me reerguer.

No segundo jogo, a gente precisava ganhar de três gols de diferença. Eu parecia outra pessoa aquele dia. Eu renasci.

Eu já estava fazendo tratamento com uma psicóloga na época, mas me recuperei mesmo jogando bola. Eu fiz três gols naquela partida, vencemos nos pênaltis, eu fiz o meu e nos classificamos.

Depois daquele jogo eu não precisei mais de acompanhamento. Comecei a ter amor novamente pelo futebol.

A gente acha que depressão nunca vai acontecer com a gente. Que quando é com o outro, ele criou aquilo ou sabe sair sozinho. Não é assim. Tem que ter ajuda, tem que conversar.

Talvez as pessoas estejam passando pela mesma situação que eu e não se sintam encorajadas a falar sobre esse tema. Então, eu acho importante falar. Eu já tive meninas mandando mensagem em rede social falando:"caramba, Cris, você me inspira. Ver você jogar futebol mudou minha vida".

É por isso que não tenho dificuldade para falar.

Às vezes uma menina está passando por isso e talvez se identifique. É bom para ela ver que eu também passei por isso e estou na seleção.

Cris sobre como seu relato pode ajudar outras pessoas

Eu só tive mais um momento na minha vida em que pensei: "preciso parar para não voltar a ter depressão". E isso aconteceu na primeira vez que realmente ganhei dinheiro com o futebol, na China.

A proposta da China veio graças à boa temporada na França. Financeiramente me ajudou muito, fisicamente, zero. Minha mãe estava desempregada, eu dei dinheiro para meus pais o tempo inteiro.

Mas por causa daquele tempo na China, até hoje tenho problemas com lesão. Lá, eu tive lesões que nunca tive na carreira: panturrilha, joelho. Na cabeça deles só dinheiro vale a pena. Não tinha preparador físico e não tinha fisioterapeuta. Então você vai fazer o quê? Milagre?

Eu perdi muito no lado profissional. Fiquei um ano na China lesionada, perdi vários jogos com a seleção. Na verdade eu mal joguei com a seleção, porque eu me lesionava e não tinha tratamento adequado por lá.

Para ter ideia, a gente ia ter férias no final do ano, quando o campeonato parava por 40 dias. Eu estava lesionada e o médico da seleção mandou parar por 30 dias. Mas no clube, depois de 10 dias, já me obrigaram a voltar, sem tratamento.

Voltei e me lesionei de novo. O diretor ficou bravo com isso e não me deixou sair de férias. Fiquei de castigo com uma pessoa da comissão fazendo trabalho físico. Ele tinha o poder e acabei ficando 6 meses sem férias.

Eu estava perdendo o prazer de jogar de novo. Eu não queria só ver o dinheiro cair na minha conta. Eu queria trabalhar. Pelo que passei, eu prefiro ganhar menos, estar feliz, tendo o tratamento que preciso, estar perto da minha família, me alimentar direito...

Quando eu voltei para o Brasil, primeiro me dei um tempo. Tirei férias mesmo com propostas de clubes grandes da Europa: City, Barcelona e Lyon, que são top. Mas eu não ia cair nessa de novo.

Resolvi ficar quieta aqui, porque quando eu cheguei, vi que minha mãe estava com problemas de saúde, de coração, e não tinha me contado. Agora ela já está melhor.

Escolhi o São Paulo porque foi o clube que me apresentou uma oportunidade de trabalhar com uma grande estrutura e ao mesmo tempo estar perto da família. O ano de Copa do Mundo é um dos mais importantes para mim e poder fazer essa preparação bem feita também pesou.

É um dos melhores momentos do futebol feminino. Tem clube, tem incentivo, estrutura no Brasil. A gente esperou tanto isso acontecer. Quando eu tinha 21 anos não aconteceu, e é até engraçado dizer que eu vejo isso agora, com 33 anos.

As outras gerações terão mais oportunidades que eu não tive. São elas que vão tocar o barco daqui para frente e é importante dar continuidade, se posicionando o máximo possível. Vamos precisar continuar tendo voz.

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