"Neymar, se joga"

Responsável pela carreira do maior craque do país mostra lado coruja: "Vou mimar meu filho. Tenho meu direito"

Pedro Lopes, Ricardo Perrone e Vinícius Mesquita Do UOL, em São Paulo
Lucas Lima/UOL

Sem arrependimentos

No ano em que Neymar completa uma década como jogador profissional, Neymar da Silva Santos, o pai, recebeu pela primeira vez o UOL Esporte para falar sobre a carreira e sua relação com o filho. A poucos metros da mesa de sinuca na qual afirma (e mostra com vídeos) ser praticamente imbatível, Neymar pai falou sobre os pontos altos, os baixos, defendeu a gestão profissional e de imagem do craque e avisou que sua família não se arrepende das escolhas que fez.

De uma fatia de picanha em uma churrascaria a um saboroso pedaço de bolo no apartamento em área nobre de São Paulo, foram mais de seis horas de conversa com o pai e empresário do maior jogador brasileiro da atualidade. O entrevistado não poupou críticas à incessante cobertura da imprensa, com direito a compartilhar uma lista de reportagens condenáveis, segundo sua opinião -- cada frase dura vinha acompanhada de um semi-sorriso maroto. Neymar pai faz questão de deixar clara a insatisfação sobre os holofotes que acompanham todos os aspectos da vida de Neymar Jr., dentro e fora dos gramados.

O lado combativo foi desarmado na hora de contar detalhes sobre a relação com o filho, segurando com orgulho uma coletânea de fotos e documentos dos dez anos de carreira. Antes de se despedir, fez questão de mostrar um vídeo com recado do jogador ao pai. Não conteve o choro nessa hora.

Orgulhoso da trajetória da família, Neymar pai admite que, às vezes, comete erros, mas nega arrependimentos. "A gente não sabe se vai acertar ou se vai errar, mas a gente é uma família, a gente precisa escolher caminhos. Nem sempre esses caminhos que nós escolhemos são os certos. Eu sei disso, mas é o que a gente escolheu e a gente não pode se arrepender pelas nossas escolhas. A gente escolheu viver assim".

Eu falei assim: 'Ah, Neymar, se joga, se joga'. Eu, particularmente, eu acho que o Neymar não podia entrar em dividida em certos momentos, porque ele não iria ganhar. Quando eu explico isso, falam: 'Então, você pediu pro Neymar ficar pulando? Então, você é o responsável por ele estar pulando?'. Não, eu não sou o responsável por ele estar pulando. Eu sou responsável por defendê-lo

Neymar pai

Caio Guatelli/Folhapress Caio Guatelli/Folhapress

Filé de borboleta

A saga "Neymar cai-cai" ganhou o mundo em 2018, quando a imprensa internacional começou a atacar o brasileiro em larga escala e reprisou à exaustão trechos dos jogos no Mundial. Mas a relação de Neymar com as entradas dos zagueiros é um tema antigo na carreira. Desde os primeiros passos como profissional, seu pai defende o ato de se atirar no ar como um recurso para evitar lesões decorrentes das faltas que recebe.

"Quem viu a estreia do Neymar poderia entender que o Neymar era muito franzino pra estar numa equipe profissional. Volta ao passado um pouquinho, assiste ele entrando em campo e você vai ver. A camisa enorme, ele muito magrinho. O Luxemburgo falou uma coisa e foi até condenado por isso. 'O Neymar é um filé de borboleta'. Ele sabia".

O tempo passou, e Neymar adquiriu a potência muscular. Segundo o pai, por causa das constantes críticas, o atacante decidiu tentar permanecer em pé após levar pancadas. Em janeiro deste ano, contra o Strasbourg, o brasileiro deu três dribles consecutivos no mesmo lance, levando três chegadas duras do marcador. Não houve queda ou marcação de falta, e Neymar sofreu a segunda fratura no quinto metatarso do pé direito.

O pai costuma usar a analogia do graveto para justificar sua posição a favor de um Neymar horizontal. No ar, o graveto não se quebra mesmo após um choque violento. Fincado ao chão, ele se rompe com um simples peteleco.

"A gente pediu tanto pra ele ficar de pé que ele ficou de pé. Por uma, por duas, por três. E o árbitro não dá falta. Ele tá pedindo: 'Pô, se você não der a falta, não vai dar'. A arbitragem não parou, não coibiu, não deu nada. Aí o que você pode falar disso? Foi até provocar a lesão. Provocou o desequilíbrio. Se você ver a imagem, provoca o desequilíbrio e ele tem uma nova entorse".

Aí, poxa, se o Neymar fica em pé, ele é lesionado. Se ele cai, ele é cai-cai. Então, é melhor o Neymar continuar sendo o Neymar".

Um conselho que eu dou pro meu filho é que ele não perca a alegria de jogar futebol. Que ele continue jogando da forma que achar que é certo, independentemente do resultado. Claro que ele joga pra ganhar, mas tem que jogar com alegria

Neymar pai

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Pai é escudo contra imprensa

O mesmo instinto protetor que o faz incentivar o filho a preservar sua integridade física também faz Neymar pai defender o camisa 10 da seleção do que considera mentiras propagadas pela imprensa. O constante holofote sobre a vida privada de Neymar, as críticas exageradas e as informações de bastidores veiculadas no mundo inteiro geram incômodo.

"A imprensa é responsável por muita coisa que acontece, porque ela tem poder nisso. Ela tem poder, porque ela que leva a informação. Às vezes, você levar uma informação apenas para ser o primeiro [a divulgar] não é bom. Ela precisa ser uma informação verdadeira. De vez em quando, a imprensa ajuda essas redes sociais a fazer com que as coisas cheguem primeiro sem a totalidade da verdade."

As críticas à imprensa, para ele, são sustentadas pela certeza de que "a imprensa não conhece o Neymar". E, aqui, Neymar pai aproveita também para se implicar na equação. "Eu acredito que a imprensa não o conhece. Eu acho que é normal, da mesma forma que a gente também não conhece a imprensa. Você tem que se enxergar, se olhar, e o Neymar faz isso diariamente. Não tem como você conhecer totalmente o Neymar, porque ele tem uma vida privada também."

A disseminação de informação, até pouco tempo atrás restrita ao trabalho da imprensa, tem hoje outra válvula de escape, muito mais dinâmica e abrangente: as redes sociais. Para o pai, quem tem esse grande potencial de alcance precisa ser cuidadoso, em especial ao opinar sobre a vida alheia. "A gente poderia usar as redes sociais de uma forma positiva, mas é impossível isso. Porque sempre tem um fantasma lá ou alguém que, realmente, quer só criar dano e entra numa rede social pra criticar", afirma. "O Neymar, como pessoa pública, ele é alvo. Ele é alvo de qualquer discussão. Ele entende isso, mas quando as pessoas também públicas querem falar sobre algo, elas precisam ter cuidados."

É difícil ser Neymar?

Eu não vejo ele mimado dentro de campo. Não vejo ninguém protegendo o Neymar dentro de campo. Ninguém passando a mão na cabeça dele. O que é ser mimado desportivamente? O Neymar é um jogador mimado? Não. O Neymar é um filho mimado. E se ele é mimado pelos pais, amém. Eu vou mimar o meu filho. Tenho meu direito. Você, como pai ou como mãe, eu tenho certeza, vai mimar seu filho. Eu vou mimar o meu

Neymar pai

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Uma vida de privações

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Por que o Neymar pode ir para o Carnaval?

A presença de Neymar no Brasil durante o último Carnaval, em meio à recuperação de lesão, enlouqueceu as redes sociais e virou notícia em jornais e sites pelo mundo. O pai não só assegura que a folia não prejudicou o tratamento do metatarso, como diz que ela fez parte de uma estratégia para aliviar a pressão de quem leva uma vida de cobranças. "Acho que eu, às vezes, proporciono fugas para ele, porque mentalmente esses caras, nesse nível, os caras choram, viu, os caras sofrem, os caras sentem. Você precisa dar... não uma fuga, mas uma estrutura pra eles, pra que eles possam, realmente, suportar toda essa carga de trabalho, de distância, de amigos."

Uma dessas situações foi criada na mais popular festa brasileira. "O Carnaval é uma fuga. Ele treinou de manhã, treinou de tarde, aí fomos lá. A gente tem estrutura suficiente pra levar ele, colocar no melhor lugar, trazer da melhor forma possível e sem causar dano nenhum. Por que a gente não vai fazer? Poxa, todo mundo acha que o Neymar foi pro Carnaval e ficou uma hora andando de escola de samba. Ele estava em um dos melhores camarotes, com toda assistência possível, com sofá se precisasse sentar, com bebida se quisesse beber, com toda situação possível".

A estrutura mencionada pelo pai do jogador do PSG inclui avião particular, se for necessário um deslocamento mais rápido e menos desgastante, além da permanência exclusiva em áreas VIP, sempre preenchidas pela "entourage" de amigos. No Rio, por exemplo, para assistir ao show da cantora Ludmilla, um cercadinho na pista foi providenciado exclusivamente para o grupo, com localização estratégica: de frente ao palco e ao lado de uma saída secreta. Ele acredita que muitos comentários foram feitos por quem não conhecia a realidade.

"Essas coisas talvez aborreçam o Neymar: 'como o cara tá falando da minha vida? O cara não sabe, não me conhece. Se eu responder alguma coisa da forma: 'cara, eu só tô falando que o Neymar tinha estrutura suficiente pra tá no Carnaval da Bahia sem causar dano nenhum'. O cara fala: 'ah, mas e um pisãozinho?'. Meu filho, não tinha como ninguém tocar no pé do Neymar. Porque só tinham pessoas conhecidas dentro do camarote dele. Foi tudo estruturado, elaborado pro Neymar chegar e voltar. E com a permissão, viu? O clube sabia."

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Juventude sacrificada e boquinha na casa de Robinho

Festinhas com amigos perdidas e ausência em reuniões de família. Quando fala da adolescência de Neymar, seu pai lembra das privações pelas quais o filho passou em busca do sonho de virar astro do futebol mundial. Por ser um talento precoce, desde cedo, o jogador da seleção brasileira teve de deixar de lado os prazeres comuns aos meninos de sua idade para se dedicar ao esporte. Muitas vezes, coube ao pai cortar a onda do futuro jogador e dizer que ele não poderia sair com a galera.

Em meio às lembranças sobre infância e adolescência de Neymar Júnior, Neyzão, como é chamado por alguns amigos, sorri contando uma passagem com menino Ney ainda pequeno em Madrid, onde estavam para uma avaliação no Real. Brasileiros acostumados ao tradicional PF de arroz e feijão, pai e filho torceram o nariz para a oferta gastronômica local.

"A gente já estava havia vários dias lá, e na Espanha não tinha esse negócio de arroz e feijão. Falei: 'cara, que dificuldade'. E a gente já não conseguia comer muito as coisas que estavam lá. A comida do hotel era sempre as mesmas coisas: jamón. Hoje a gente se acostuma com isso, mas naquele momento a gente sentiu muito a falta de arroz e feijão. Eu vi o Neymar cada vez mais debilitado. O cara não comia.", lembra o pai do craque.

Foi então que o empresário Wagner Ribeiro anunciou que levaria a dupla à casa de Robinho para conhecer o atacante do Real Madrid e, enfim, comer arroz e feijão. "Eu fiquei até envergonhado, porque eu tava com muita fome, o Neymar também. Ficamos felizes, aí fomos brincar de sinuca. Só que o Wagner só levou a gente na casa do Robinho aquele dia. Poxa, mas que raiva. Esse foi um dos motivos pelo qual a gente não ficou lá [em Madrid]. Eu falava: 'meu Deus do céu, a gente não vai aguentar isso aqui, não'. Foi divertido o negócio. Mas a vergonha que nós ficamos de ficar aquele 'poxa, meu, queria comer mais'. Foi engraçado", diverte-se o Neymar mais velho.

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A felicidade de Neymar

A felicidade do jogador é tema quase onipresente nas falas de Neymar. A preocupação, inerente a corujices paternas, ganha contornos especialmente mais fortes quando o pai é o responsável não só pelo ombro e afagos em momentos de crise, como pelo sucesso dos negócios e a garantia de que o império construído nos últimos dez anos mantenha-se de pé muito após a aposentadoria do craque.

"Estamos lutando pra mais dez anos, pra gente pelo menos manter a história ou terminar ela da forma como nós estamos hoje, felizes. Nós estamos felizes com a carreira do Neymar até esse momento", afirmou.

A palavra "feliz" é mencionada dezenas de vezes ao longo da entrevista, enquanto seu antônimo surge pontualmente, dando indício das inseguranças que povoam a mente do pai, furando ainda que inconscientemente a imagem do homem forte e orgulhoso de seu trabalho.

"O Neymar não pode terminar sua carreira sendo infeliz. Ter feito aquilo que os outros achavam que ele deveria fazer e ele deixar de fazer aquilo que ele achava que ele tinha que fazer. O Neymar tem que fazer aquilo que ele acha que é certo pra ele."

Pai quer garantir o pós-carreira, sem mudar essência de Neymar

Passados dez anos da estreia profissional de Neymar, o pai já projeta os próximos dez. Para chegar ao posto de maior jogador brasileiro da atualidade, seu filho leva uma vida dedicada quase que completamente ao futebol. Sem tempo para se preparar para o depois, Juninho, como é chamado pela família, conta com o planejamento do pai empresário para quando cansar de calçar as chuteiras.

"É o meu trabalho como gestor fazer uma programação e um planejamento de carreira pra ele. Eu já falei várias vezes que o jogador de futebol a carreira é muito curta. O Neymar não teve tempo de estudar pra ser médico, advogado, jornalista. Ele se dedicou a ser um profissional de futebol e disso ele tem que viver o seu pós-carreira. O nosso grande desafio é fazer um planejamento de carreira pra que ele quando parar de jogar futebol ele tenha tranquilidade pra ele poder seguir a sua da mesma forma".

A aposentaria de Neymar ainda está longe. Até lá, virão gols, pelo menos mais uma Copa do Mundo e prováveis polêmicas. É quase inevitável que o próximo Carnaval, a próxima namorada ou a próxima grande transferência do atacante brasileiro se tornem pautas nacionais e internacionais. Ao longo desse processo, o pai tem uma garantia: Neymar não irá mudar seu jeito de ser para agradar ninguém.

"O Neymar não pode mudar sua essência, do que ele é feito, do que ele se formou, do jogador que ele é. Ele não pode ser moldado, ele não pode ser o que a mídia espera dele. Ele tem que ser o que ele realmente é, ele tem que ser natural. O Neymar é o Neymar. Amanhã, você vai estar comparando que tipo de jogadores seriam comparados com o Neymar. Da mesma forma que Pelé inspirou alguns jogadores, Zico, Romário, Ronaldinho, Ronaldo inspiraram outros jogadores, o Neymar vai inspirar outros jogadores".

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Neymar pai projeta permanência no PSG

É impossível sentar frente a frente com Neymar pai sem questioná-lo sobre a possibilidade de uma transferência milionária para outro grande clube da Europa. A bola da vez é o Real Madrid, que já há mais de um ano tem interesse no camisa 10 da seleção brasileira. O pai e gestor da carreira do craque, entretanto, projeta a permanência no PSG e ainda vai além: já existem conversas por renovação.

"As pessoas falam: 'poxa, o Neymar está sempre em todas as janelas de transferências especulado por algum grande clube'. Isso significa que é uma boa gestão de carreira. Ele está sempre entre os nomes. Se for alguma contratação importante, o Neymar está envolvido. Graças a Deus! Mas isso não significa que ele vai para um clube ou para outro", avisa.

"O nome dele é especulado desde os seus 17 anos, desde quando ele estreou no profissional. O Neymar tem duas transferências na vida, mas estamos há dez anos no especulativo. A probabilidade dele não sair é muito grande. Ele está no seu segundo ano de contrato. Então, tem mais três anos ao findar esse primeiro contrato, e nós estamos partindo já pra uma renovação com o Paris Saint-Germain".

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Da vida humilde ao estrelato

Assim como o filho, Neymar pai foi jogador de futebol, mas não alcançou nos gramados a fortuna. Até 2009, quando o filho fez 17 anos, foi funcionário da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O dia a dia da família Santos era marcado por restrições no orçamento, como acontece na maioria das casas brasileiras. Neymar, Nadine, Rafaella e Júnior chegaram a dividir moradia com outros familiares, o que trazia alguns desafios adicionais.

"As pessoas que têm poder aquisitivo pequeno, baixo, vão entender o que eu tô falando, talvez vocês aqui não. Comprar uma bolacha recheada é muito difícil pra uma criança. Na maioria do tempo você vai chegar lá, você compra água e sal, um pacotinho de bolacha recheada e você tem que: 'ó, hoje come duas recheadas, amanhã você come duas e tem que dividir com a irmã'. Ainda mais numa casa onde nós fomos morar onde tinha as primas e todo mundo. Então, fica mais difícil ainda. Você tenta dar o que é básico pro seu filho. Arroz, feijão, a mistura, que a gente fala, ou é a carne ou é o frango, mas você sabe que aquilo tudo é contado."

Hoje camisa 10 da seleção brasileira, Neymar, o Júnior, veio de berço humilde, mas o estrelato precoce o ajudou a se adaptar à transição para celebridade. "Eu vivi muito tempo sem dinheiro, mas não o Neymar. Ele foi uma criança como outra qualquer, claro, vem de um berço humilde, mas ele começou a adquirir coisas e enxergar coisas que muitas crianças não viram. Com 12 anos, ele já estava no Santos Futebol Clube. Aos 14 anos, já tinha certos rendimentos, mesmo que fosse ajuda de custo. Ele já sabia que poderia ter a possibilidade de ganhar alguma grana".

Junto com o dinheiro e a fama, vem o constante olhar público. Neymar e sua família precisaram aprender a lidar com as vidas sendo observadas todos os dias."O Neymar vive no mundo dele. É o mundo que nós encontramos. Quando a gente percebeu que, realmente, ele ia ser foco dessas atenções, a gente se preparou pra isso. É um aprendizado. A gente aprende todo dia. Todo dia tem uma coisa nova, tem uma situação diferente. O que nós temos que fazer é fazer com que ele entenda isso. Nosso trabalho é esse. O Neymar entende muito. Ele sabe do que ele é feito, pelo que ele foi feito, o futebol traz essa dimensão tão grande de conhecimento, que desperta essa curiosidade".

Conselhos do pai

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"Sou o garupa"

"Preciso apoiá-lo em certas coisas e direcioná-lo em outras. Quem andou de moto aqui? Pode perguntar pra quem anda de moto. A coisa mais difícil é ter um homem na garupa, porque ele segura na traseira e deixa a moto com dois guidões. É perigosíssimo. Os maiores acidentes de moto são com o garupa homem. Você precisa ser um garupa como? Mulher. Você bota sua namorada lá e o que ela faz? Te abraça. Se você virar, ela te acompanha. Sou garupa do meu filho, porque preciso abraçá-lo. Não dá pra segurar atrás, porque ele vai pra um lado e eu vou pro outro. Fico no ouvido".

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Às vezes, é preciso errar

"Eu não consigo pegar toda a experiência que tenho e jogar pro Neymar. O que eu faço com essas experiências? Experiência você adquire. Tem coisas que eu não consigo passar para ele. Ele precisa viver. Por mais que eu fale: 'não faça isso', ele precisa passar por isso. Aí, sim, eu falo: 'tá vendo?'. Aí, a gente consegue a resposta dele e ele fala: 'o senhor tinha razão'. Ele começa a me seguir, porque aí eu consigo antecipar certas coisas. 'Olha, filho, eu acho que aquilo ali não vai ser legal'. Ele fala: 'Realmente, você me avisou daquela vez e não foi. Então, vamos por aqui'".

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Conselhos ajudaram na Rio 2016

Na residência dos Neymar, dividem o teto um jogador e um ex-jogador de futebol. Com isso, é inevitável que o assunto passe pelo que acontece dentro das quatro linhas. Neymar pai, nesse assunto, admite que já foi ultrapassado pelo filho. "Converso com o Neymar em todos os jogos. A gente sempre foi assim. Você tenha certeza que não é pra interferir nele dentro de campo. 'Joga assim'. Não posso. Pelo contrário, o Neymar tem coisas pra me ensinar. Eu não tenho nada pra ensinar pro meu filho futebolisticamente."

Isso não significa que o craque não recorra ao pai para falar sobre sua forma de jogar. Em 2016, durante a Olímpiada no Rio de Janeiro, o atacante teve uma ideia de como ajustar seu posicionamento em campo e pediu ao pai conselhos sobre como abordar o assunto com o técnico Rogério Micale. "Os meus conselhos são de tranquilidade, de não desistir. Se aconteceu uma conversa dele e do Micale, é porque ele desabafou comigo, em um momento falou assim: 'pô, vou conversar com ele'. Ele achou que tinha que conversar. E o Micale, humildemente, escutou ele e o Renato Augusto. Eles começaram uma transformação dali. Eu acho que foi mais ou menos isso".

Depois da conversa citada, Neymar passou a jogar mais centralizado, distribuindo o jogo para os companheiros. O inédito ouro olímpico veio semanas depois. Hoje, é essa mesma função "olímpica" que ele desempenha com frequência no Paris Saint-Germain.

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Estrutura inclui empresa e instituto

Além de um estafe, com fisioterapeuta e preparador físico para ajudar a melhorar seu desempenho em campo, o jogador reúne em volta dele uma estrutura formada por empresas, centenas de funcionários e cifras milionárias. "A nossa empresa começa em 2006, como uma empresa simples. Durante esse caminho, fizemos o Instituto Neymar Jr, que hoje está na Praia Grande, com o nosso dinheiro, com o dinheiro da família, com investimento em torno de R$ 25 milhões pra estruturar tudo aquilo, com atendimento que podemos alcançar 3.300 crianças. Totalmente gratuito. Nós temos também vários apoiadores. Nós temos pessoas importantes e temos patrocinadores importantes dentro do Instituto Neymar Jr também. Na NR Sports, NN Consultoria, juntando todas as empresas que nós temos hoje, nós temos mais de 203 funcionários em regime CLT", conta Neymar pai.

Uma das empresas cuida da imagem de Neymar, que hoje é objeto de mais de 46 contratos. Entre 85% e 90% deles foram firmados no exterior. "Todos os rendimentos tributários nós trazemos pra onde? Brasil. Todos os rendimentos nós trazemos e tributamos aqui no Brasil. É uma coisa que as pessoas não entendem, não conhecem, não sabem, mas a gente cresceu muito e hoje temos muito orgulho da empresa que nós nos tornamos".

Tudo começou com o desejo do Santos de segurar Neymar. Pai e filho foram para Madrid, onde o Real avaliou e aprovou a joia santista. "Aí o Santos tem uma sacada. O (ex-presidente) Marcelo Teixeira (disse): 'a gente não tem como segurar esse garoto, mas a gente vai fazer uma proposta pra você". E foi o primeiro dinheiro que nós ganhamos como empresa de marketing. O Santos compra os direitos de imagem da minha família, porque eu e a mãe éramos os únicos representantes legais, mas, com relação a isso, o que o Santos promove? 'Olha, nós somos uma empresa e precisamos comprar os direitos de imagem. Vocês têm que abrir uma empresa e vender essa imagem pra nós'. O clube comprou 100% da imagem e ficou com a garantia de que o menino não trocaria de time.

Em 2010, para parar de pagar pela imagem, o Santos devolveu 50% dos direitos aos pais do jogador e combinou de dividirem, gradativamente, as receitas obtidas em projetos em conjunto. "A gente começou a faturar bastante grana. E o Santos começa a me devolver os direitos de imagem. Me devolve mais 20%, o Santos fica com 30% e nós com 70%, até o seu término de contrato que a gente sai 100% com os direitos de imagem do Neymar".

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