O que eles querem?

Qatar chega como time aventureiro e quer aprender com sul-americanos para ser competitivo na Copa de 2022

José Edgar de Matos Do UOL, em São Paulo (SP)
Suhaib Salem/Reuters

O Qatar surge como grande aventureiro da Copa América de 2019. Seleção sede da próxima Copa do Mundo, a equipe aceitou o convite da Conmebol e vai se testar diante dos times sul-americanos, algo inédito para praticamente todos os 23 convocados pelo técnico espanhol Félix Sánchez Bas.

O desempenho nos gramados brasileiros servirá como base de análise para o trabalho iniciado na metade da década passada. O Qatar parou de comprar e importar para criar a própria escola de futebol.

Com a base toda de atletas que atuam no país, o time se encontra sob o maior holofote da história. Com a Copa de 2022 na mira, os qatarianos irão encarar James Rodríguez, Messi e terão um real teste depois de conquistar a Copa da Ásia no início do ano.

Diuseppe Cacace/AFP Diuseppe Cacace/AFP

Craque a gente faz em casa

O Qatar decidiu criar a própria escola de futebol. Nasceu em 2005 a Aspire Academy, um centro de excelência de última tecnologia com o simples objetivo de formar atletas do mais alto nível no próprio país. Ao invés de importar competidores, o lema qatariano há mais de uma década é criar esportistas de elite. Para isso, a estrutura surge como fator principal nessa reestruturação.

País de dimensões geográficas minúsculas - 11 mil km² (apenas o 160º do mundo em extensão territorial) -, o Qatar concentra todo o desenvolvimento esportivo na Aspire. São pelo menos 50 milhões de dólares por ano (R$ 192 mi) na manutenção e formação de atletas. O futebol está incluso como uma das prioridades.

O espaço recebe a seleção do Qatar, as divisões de base e tem o estádio Khalifa como atração principal, uma arena de 50 mil pessoas, já pronta para a Copa do Mundo de 2022 (adequado ao padrão Fifa) e tratada com um respeito digno de Maracanã. Ali nasce, cresce e amadurece o futebol qatariano.

A escola de futebol do Qatar

Nassem Zeitoon/Reuters Nassem Zeitoon/Reuters

Vacas e jogadores agora são "caseiros"

No torneio da Conmebol, o milionário país terá uma ideia do nível em que se encontra após mudar todo o processo de futebol interno. Saíram os naturalizados para se produzir os próprios nomes, em sua maioria treinados na Aspire Academy.

A experiência deu certo e transcendeu o esporte para ser aplicada no dia a dia de outras áreas importantes do governo do país. Na pecuária, leites e derivados agora são produzidos dentro do solo qatariano. Ao invés de queijos e iogurtes, comprou-se vacas, que são cuidadas em uma estrutura de última tecnologia para criar uma cultura de produção própria.

"Não tinha leite, era tudo importado. Criaram uma espécie de spa para as vacas ordenharem e produzir o próprio leite no país. A partir daí, se produz os derivados. Eles pensam: 'temos dinheiro para investir, então vamos investir'. Foi assim no futebol, cansaram de naturalizar jogador, querem criar o próprio", contou Patrícia Lopes, jornalista da BeIN Sports e que esteve há menos de um mês no país mais "misterioso" da Copa América.

EVARISTO SA / AFP EVARISTO SA / AFP
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Craque "a gente" também recebe

Todo o investimento em ciência do esporte atrai os maiores nomes do esporte. Dentro do mesmo complexo se localiza o hospital Aspetar. Nele, Simone Biles, dona de quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, passou por um rápido tratamento para expelir uma pedra no rim, horas antes de participar do Campeonato Mundial em Doha.

Neymar foi outra grande estrela a usar a estrutura recentemente. O craque brasileiro desembarcou em março no complexo para realizar exames mais específicos, ainda durante a recuperação da última lesão no pé direito. A visita contou com anuência do Paris Saint-Germain e extrema divulgação, tanto por parte do hospital quanto do principal nome do time francês.

Família Neymar

Esta visita ao hospital serve para ilustrar a boa relação construída entre Neymar e as autoridades esportivas do Qatar. O Paris Saint-Germain é administrado desde 2011 pelo grupo Qatar Sports Investments (QSI), fundo de investimentos diretamente vinculado ao governo do país. Foi este suporte financeiro o responsável por levar o atacante brasileiro para a capital francesa, em transferência que ultrapassou os R$ 800 milhões.

Neymar se tornou a joia máxima do grupo e de Nasser Al-Khelaifi, CEO do QSI e presidente do PSG. A relação entre o dirigente e a família do craque ultrapassou a relação de patrão e empregado nestes dois anos de convivência. O brasileiro é a grande aquisição da história no clube e o tratamento diferenciado ratifica este status.

Nasser Al-Khelaifi visitou Neymar em Mangaratiba, enquanto o craque se recuperava para disputar a Copa do Mundo do ano passado. O presidente do clube parisiense ainda esteve na Praia Grande para visitar o instituto do jogador, com o pai do atacante exercendo a função de guia-turístico.

Na Copa de 2018, Al-Khelaifi assistiu ao jogo Brasil x Sérvia, válido pela fase de grupos, ao lado da família da sua grande joia. As conversas entre o mandatário e Neymar pai chegam, em algumas semanas, a ser diárias. A admiração do cartola reflete em cada declaração sobre o próprio camisa 10.

"Neymar representa o sonho para eles e esperança. Neymar é tudo para eles. Eles sonham em ser como ele um dia, falar com ele e isso é incrível. O que a família do Neymar está fazendo é incrível, porque eles estão fazendo algo para a comunidade e eu nunca vi nada como isso na minha vida, no mundo, é algo que me deixa muito orgulhoso", disse após a vista ao instituto, em março de 2018.

Família Conmebol

Qatar e Conmebol têm um relacionamento positivo fora das quatro linhas. O convite à seleção árabe vem carregado por acordos de patrocínio nas competições organizadas pela entidade sul-americana.

A Qatar Airways, empresa de bandeira do país, é a companhia aérea oficial da Libertadores, Sul-Americana e Recopa. O acordo começou a valer nesta temporada e vai até 2022.

A princípio, as partes possuem parceria apenas para os serviços aéreos para a competição. Não é descartado, no entanto, o aumento desta parceria em um futuro próximo.

Reprodução Reprodução

Neymar, Bolsonaro e Israel

Qatar, como país árabe, chega para a Copa América diante de um impasse diplomático. Desde a posse de Jair Bolsonaro, o Brasil se aproximou de Israel, país que, publicamente, não tem relações com os qatarianos em virtude da causa Palestina. Esta abertura com a nação sionista já atingiu Neymar.

Pago pelos qatarianos via PSG e próximo de Al-Khelaifi, o jogador brasileiro gravou um vídeo prometendo uma viagem a Israel. A mensagem foi direcionada ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que ao lado de Bolsonaro havia feito uma gravação convidando o craque e o surfista Gabriel Medina a visitar o país. O vídeo serve como promoção desta aproximação entre os dois países, ocorrida desde o dia 1º de janeiro deste ano, quando Bolsonaro se tornou o 38º presidente do Brasil.

"Será um evento de grande visibilidade, isso sim pode gerar uma onda de críticas que parem no PSG e até façam o Qatar tentar vetar a viagem. (...) Se eventualmente, o Neymar for para o Israel e usar o fato de ser jogador do PSG para isso, talvez a viagem tenha uma repercussão negativa grande", afirmou ao UOL Esporte José Antônio Lima, jornalista especialista no Oriente Médio e doutorando em Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP).

Ueslei Marcelino/Reuters Ueslei Marcelino/Reuters

Há uma discrepância, entretanto, ao se comparar a política externa pública e a dos bastidores. Se há divergências e relação vetada nos discursos oficiais, em virtude da defesa dos árabes em relação à cobrança do território palestino, nos bastidores Qatar e Israel possuem interesses em comum - e até trabalham unidos em algumas destas questões.

"No momento atual é importante para o Qatar ter Israel como aliado. O Qatar sabe que para manter boas relações com os Estados Unidos, que de alguma forma garante a segurança do Qatar, precisa ter boas relações com Israel", afirma o estudioso da região, que vê colaboração dupla nesta questão, o que impediu até agora, por exemplo, uma cobrança do grupo responsável por controlar o PSG pela diplomacia de Neymar para com Netanyahu.

"Para Israel, o Qatar é visto como um ator útil, porque, através do dinheiro enviado pelo Qatar ao Hamas, Israel tem a certeza que o Hamas vai continuar controlando a Faixa de Gaza. O papel do Hamas é importante para Israel, porque grupos menores são muito mais radicais do que o Hamas. Israel precisa da permanência do Hamas e quem financia isso é o Qatar", relata José Antônio Lima, que vê forte interesse de Israel na ida de Neymar ao país.

"Esse convite feito pelo Jair Bolsonaro e pelo Benjamin Netanyahu a dois dos principais esportistas brasileiros [Neymar e Gabriel Medina] está inserido em contexto que Israel está realizando uma campanha de relações públicas. Importante lembrar que Israel, de alguma forma, é quase uma pária internacional, porque mantém uma ocupação ilegal na Cisjordânia e mantém um bloqueio extremamente rígido na Faixa de Gaza, os territórios palestinos", encerra.

Ahmed Jadallah/Reuters Ahmed Jadallah/Reuters

Dinheiro traz felicidade?

Todo este investimento mira o Mundial de 2022, obviamente. Porém, prestes a se desafiar com as seleções da América do Sul, o Qatar já reúne resultados satisfatórios às vésperas da sua Copa do Mundo.

O auge do futebol do país ocorreu em fevereiro. No dia 1º, o Qatar venceu o Japão pelo placar de 3 a 1 e conquistou pela primeira vez a Copa da Ásia, principal torneio do continente entre seleções.

O troféu coroou basicamente o trabalho realizado na Aspire Academy, alicerce de todo o trabalho da seleção. A Família Real do Qatar não poupa investimento no local e começa a recolher os resultados esportivos.

A ver o nível da equipe diante de testes mais duros, como estas partidas contra os times da Conmebol na Copa América.

Pedro Martins / MoWA Press Pedro Martins / MoWA Press

Mas, afinal, o que querem na Copa América?

O Qatar ocupa a 55ª posição do ranking e traça um objetivo principal para a Copa América: acumular experiência. Todos os atletas convocados jogam no país e encaram pela primeira vez uma escola de futebol diferente a da asiática.

No início do mês, por exemplo, a seleção do país do Oriente Médio encarou pela primeira vez o Brasil, em amistoso pré-torneio. Em solo nacional, querem avaliar o próprio nível de competitividade diante de um estilo de jogo bem diferente.

"Eles estão pensando na Copa do Mundo de 2022 e querem é ganhar experiência. Sabem que o nível de competitividade das seleções sul-americanas é completamente diferente ao enfrentado até aqui", relatou Patrícia Lopes, jornalista da emissora com sede no Qatar.

A seleção árabe estreia hoje contra o Paraguai, no Maracanã. Na primeira fase, mais dois rivais dos mais tradicionais: a Colômbia, dia 19 (Morumbi), e a Argentina, dia 23 (Arena do Grêmio).

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