"Laços" até a seleção

A trajetória de Everton Cebolinha pelos olhos de quem o ajudou a brilhar e conquistar o Brasil na Copa América

Bruno Grossi Do UOL, em São Paulo
Marcello Zambrana/Agif

Everton chegou para derrubar verdades absolutas criadas nos últimos anos. Os pontas existem, e não são apenas memórias nostálgicas em preto e branco. O brasileiro não perdeu sua essência de drible e improviso. Os apelidos não sumiram do futebol. E a seleção brasileira ainda é, sim, capaz de engajar o público.

O atacante cearense, natural de Maracanaú, é o queridinho desta edição da Copa América. Capaz de jogar uma partida decisiva, com o Brasil sob pressão, com a mesma leveza de quem brinca em uma pelada. Mas quem está por trás da construção de um novo protagonista?

Cebolinha criou vínculos especiais ao longo da carreira. Laços que não serão esquecidos pelos orgulhosos tutores e que foram revisitados pelo UOL Esporte. A gente até queria fazer mais um capítulo do "Minha História" com o Cebolinha, mas os editores acharam que seria "muito luim pala os leitoles entender a tlajetólia do pelsonagem mais quelido da galela".

A agenda cheia demais também dificultou. O Everton dos campos tem jogo contra o Paraguai em Porto Alegre, às 21h30; nas telas de cinema de todo o país, Cebolácio Menezes da Silva Júnior (sim, o Cebolinha dos gibis tem seu nome de registro) estreia o filme "Turma da Mônica: Laços".

Lucas Lima/UOL Lucas Lima/UOL

Com a palavra, Mauricio de Sousa

"O Everton demonstrou que vai muito além do nome Cebolinha. É um craque e vem demonstrando isso nos jogos da seleção na Copa América. Fico muito contente de ele estar associado ao nome de um de nossos personagens da turminha. Acho que o Cebolinha, personagem nosso, também está muito contente e pede para que o Everton fuja das coelhadas de alguns jogadores do outro time com os dribles que ele faz com maestria. Só que o Cascão ficou com ciúmes porque na turminha ele é o que mais adora futebol"

REUTERS/Amanda Perobell REUTERS/Amanda Perobell

Como Cebolinha foi lapidado para ser o "dono da rua"

É bem verdade que Everton Cebolinha nunca encontrou uma Mônica armada com seu Sansão pelo caminho. Mas o fato é que o atacante de 23 anos hoje é o "dono da lua", digo, "dono da rua" na seleção brasileira. O trabalho para alcançar esse status foi árduo e contou com uma participação essencial do Grêmio.

Nos últimos anos, o clube gaúcho se notabilizou pelo projeto "Lapidar", em que jovens talentos eram captados pelo país e na base gremista para trabalhos específicos de cada posição. Foi uma solução para refinar a técnica dos jogadores em um momento em que muitas equipes priorizavam a força física.

Foi assim que velhas dificuldades de Everton foram corrigidas, como o uso da perna esquerda para tocar e chutar e até mesmo o cabeceio. O "Lapidar" também foi o responsável por revelar outros nomes de sucesso recente pelo Grêmio como Luan, Arthur, Wendell e Pedro Rocha.

Lucas Uebel/Grêmio FBPA Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Roger Machado foi "Seu Cebola" e pôs Everton na linha

Quem acompanha de perto a carreira de Everton não tem dúvidas: Roger Machado é o grande responsável pelo crescimento do atacante. "É muito importante exaltar o trabalho do Roger. Foi ele quem mais teve cuidado para orientar o Everton a variar mais as jogadas, e não só cortar para o meio e chutar", lembra Júnior Chávare, responsável por contratar Cebolinha para o Grêmio em 2013.

Roger se preocupava com o risco de Everton se tornar previsível para os marcadores. Por mais rápido e habilidoso que fosse, era preciso confundir os marcadores, e não só repetir a mesma jogada sempre. Mas havia outro pedido mais importante e recorrente do atual técnico do Bahia nessa relação paternal com o atacante.

"Foi o Roger quem colocou na cabeça do Everton que ele tinha de ser protagonista. Insistia para que ele chamasse a responsabilidade nos jogos. Quando ele entendeu isso, ficou ainda mais confiante para arriscar os dribles e os chutes", destaca Chávare.

Para quem acompanhou o Everton na base, não é surpresa nenhuma vê-lo tendo sucesso no profissional, na seleção principal. Ele faz tudo aquilo que já apresentava mais novo

André Jardine

André Jardine, Técnico da seleção brasileira sub-20 e treinador de Everton no sub-17 do Grêmio

Lucas Uebel/Grêmio Lucas Uebel/Grêmio

Cebolinha encara o novo e o frio, mas não desiste de "plano infalível"

Everton pensou em desistir. Estava sem espaço no time sub-15 do Fortaleza quando o técnico Jorge Veras ouviu os apelos do pai do jogador e decidiu levá-lo para o sub-17. A promoção fez tudo mudar. Ainda com o cabelo raspado - e consequentemente sem o apelido de Cebolinha -, conquistou títulos, chegou ao sub-20 de forma precoce e chamou a atenção do Grêmio na Copa Carpina de 2012. Na temporada seguinte, após disputar a Copa São Paulo mesmo mais novo que a média, acabou contratado pelos gaúchos.

Aos 17 anos, trocar o Nordeste pelo Sul do Brasil fez Everton novamente hesitar. Era o medo do novo, de uma mudança drástica. E os primeiros meses gelados em Porto Alegre, morando no antigo estádio Olímpico, deixaram tudo mais complicado. Só que o sonho de ser jogador profissional e melhorar a vida dos pais falou mais alto.

Em pouco tempo, Everton surpreendeu o Grêmio pela evolução física. Ganhou massa rapidamente, cresceu, mas não perdeu a agilidade em campo. E de repente, antes mesmo da maioridade, estava na equipe profissional. Enfim, Cebolinha conseguiu colocar em prática um "plano infalível".

O inverno no Rio Grande do Sul é muito forte, ainda mais para quem não estava acostumado. Ele pensou em desistir, mas demos a segurança para ele continuar

André Jardine

André Jardine , Técnico da seleção brasileira sub-20 e treinador de Everton no sub-17 do Grêmio

Ele era um garoto muito tímido, na dele. Subiu para o sub-20 ainda muito novo e ficava bastante quieto, mas em campo já dava para ver que ele era diferente

Max Walef

Max Walef, Goleiro do Fortaleza e ex-companheiro de Everton no time cearense

Outros guias da carreira de Everton

  • Jorge Veras

    Foi o técnico das categorias de base do Fortaleza quem evitou que Everton desistisse da carreira no futebol. Conta que também foi um incentivador da transferência para o Grêmio: "Ele tinha uma paquera e estava com medo de terminar (risos)".

    Imagem: Divulgação/Fortaleza EC
  • André Jardine

    Hoje comandante do sub-20 da seleção brasileira, Jardine teve passagem vencedora e importante pelo Grêmio. Treinou Everton no sub-17 tricolor e foi responsável e por revelar outros jovens de sucesso, integrado com o projeto "Lapidar".

    Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
  • Enderson Moreira

    Atual técnico do Ceará, Enderson comandava o profissional do Grêmio em 2014 e deu as primeiras chances a Everton. O atacante começou jogando no time reserva que disputava o Campeonato Gaúcho, mas logo cavou mais espaço.

    Imagem: Kalyne Lima/cearasc.com
  • Tite

    Os apelos populares nos últimos meses miravam muito mais outro gremista, Luan. Ou então o palmeirense Dudu. Mas a escolha de Tite por Everton tem a ver com a expressão que chegou a virar chacota para o público: ele é um "externo desequilibrante".

    Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
Lucas Lima/UOL Lucas Lima/UOL

Decidir um jogo é simples como ler um gibi

"O Everton sempre foi muito focado, concentrado. Entrava em jogos de categorias acima e não sentia pressão, jogava igual. Não importava muito a situação, ele jogava", recorda o técnico Jorge Veras, que trabalhou com Cebolinha na base do Fortaleza.

Essa facilidade para lidar com momentos difíceis também foi notada nas categorias inferiores do Grêmio. André Jardine, hoje à frente da seleção brasileira sub-20 lembra de vê-lo decidindo clássicos, até mesmo quando subia para jogar com os juniores: "Ele chegava nos Gre-Nais e decidia sempre".

A marca registrada prosseguiu para o profissional, com gol no primeiro jogo como profissional e depois para o deleite de Renato Gaúcho. O técnico é conhecido pela personalidade, pela postura incisiva, e vê em Everton uma peça de confiança para assumir a bronca em jogos complicados. O histórico é vasto!

Para o Everton, jogar uma final de Copa do Mundo é a mesma coisa de jogar uma pelada de casados contra solteiros. Não sente a pressão e joga sério igual

Júnior Chávare

Júnior Chávare, Diretor das categorias de base do Atlético-MG e responsável por contratar Everton para o Grêmio em 2013

Almanaque dos grandes jogos

LUCAS UEBEL/GREMIO LUCAS UEBEL/GREMIO

Calando o Allianz Parque

Nas quartas de final da Copa do Brasil de 2016, o Grêmio havia vencido o Palmeiras por 2 a 1 na Arena. Na volta, no Allianz Parque, estava perdendo por 1 a 0 até os 30 minutos do segundo tempo quando Everton partiu para sua jogada característica: cortou para o meio e bateu de direita para marcar. Cebolinha ainda marcaria um dos gols da vitória por 3 a 1 sobre o Atlético-MG na primeira final do torneio conquistado pelo Grêmio.

GIUSEPPE CACACE / AFP GIUSEPPE CACACE / AFP

Semifinal de Mundial

Um ano depois, em 2017, o Grêmio foi campeão da Libertadores, com Luan como personagem principal. Mas no Mundial quem deu as caras foi Everton. Na semifinal contra o Pachuca, os gremistas sofriam para vencer a forte marcação dos mexicanos. Renato Gaúcho lançou Cebolinha no segundo tempo e, na prorrogação, o atacante salvou os tricolores. E de novo com a velha receita de driblar para dentro e chutar de perna direita.

REUTERS/Jorge Adorno REUTERS/Jorge Adorno

Carrasco paraguaio

Campeão em 2017 e semifinalista em 2018, o Grêmio não começou bem a Libertadores deste ano. No primeiro turno, só fez um ponto. Com a torcida incomodada e pressionando o time, Everton apareceu. Contra o Libertad, um dos melhores times da fase de grupos e fora de casa, Cebolinha não se intimidou e fez os dois da vitória por 2 a 0. O primeiro foi um golaço, deixando dois zagueiros e o goleiro caídos no chão.

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Contra as vaias no Brasil

Everton se acostumou tanto a combater momentos de dificuldade com jogadas individuais e chutes certeiros que não teve problemas de aplicar o mesmo remédio na seleção. Nesta Copa América, em que o Brasil sofreu com vaias quando sofreu pra engrenar contra Bolívia e Venezuela, respondeu sempre da esquerda para o meio. Chute no ângulo contra os bolivianos e um no contrapé do goleiro peruano.

Marinho Saldanha/UOL Marinho Saldanha/UOL

"Louco" por ver Cebolinha entre "os melhores do Brasil"

Quando foi ao Fortaleza buscar um atacante desconhecido para a base do Grêmio, Júnior Chávare recebeu muitas críticas. Quando Everton foi promovido ao elenco profissional por Enderson Moreira, mais questionamentos foram feitos. O dirigente que hoje trabalha no Atlético-MG, porém, não recuou.

"Muita gente perguntava dessa nossa aposta, não entendia. Mas eu sempre disse que ele seria um dos melhores atacantes do Brasil. Pode ir atrás das entrevistas. Eu apostava nisso e as pessoas chegaram a me ridicularizar, falaram que eu só podia estar louco. Sempre confiei no Everton", destaca Chávare, que também passou pela base do São Paulo.

Lucas Uebel/Grêmio Lucas Uebel/Grêmio

Vai brincar lá fora, Cebolinha?

O Grêmio se orgulha do sucesso de Everton, a torcida brasileira se sente mais identificada por ver um talento que joga no país brilhar pela seleção, mas esse casamento está perto de acabar. É muito difícil imaginar que Cebolinha vá permanecer no Brasil após a janela de transferências do verão europeu. O mercado externo já se agita na busca pelo atacante.

A multa rescisória é de 80 milhões de euros (R$ 349,9 milhões), e o clube gaúcho não abre mão de vender sua fatia dos direitos econômicos - 50% - por 40 milhões de euros (R$ 174,9 milhões), depois de ter pagado só R$ 300 mil para comprá-lo. Como o contrato é antigo, quando terceiros ainda podiam ter direitos, o empresário Gilmar Veloz ainda tem uma fatia, bem como o investidor Celso Rigo e o Fortaleza.

A equipe cearense tem 10% dos direitos. Uma venda de Everton ainda geraria mais porcentagem pelo mecanismo de solidariedade da Fifa. Ou seja, há grande expectativa pela bolada que pode pintar para o Leão do Pici. Jorge Veras, técnico que revelou Cebolinha, se sente orgulhoso: "É muito legal ver um jogador que a gente ajudou a se desenvolver fazer o que ele tem feito e ainda poder ajudar tanto o clube".

Encontrei o presidente (Marcelo Paz) e ele brincou comigo que tinha muita participação nisso. Uma pena que o técnico que revela não possa ganhar um pouquinho também (risos). Mas é brincadeira. Tomara que ele tenha um futuro brilhante e o Fortaleza também consiga melhorar com esse dinheiro

Jorge Veras

Jorge Veras, Técnico de Everton na base do Fortaleza

A gente não esperava que ele fosse sair tão cedo. Seria melhor se tivesse estourado no Fortaleza antes. Mas aí acabou saindo para o Grêmio, até por pouco dinheiro na época, logo depois da Copa São Paulo. Pegou a gente de surpresa. Foi de um dia para o outro. Ele sempre mostrou muito potencial

Max Walef

Max Walef, Goleiro do Fortaleza e ex-companheiro de Everton no time cearense

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