"Juiz não erra de propósito"

Sandro Meira Ricci fala sobre ser árbitro, processo contra Neymar e não ter sido escalado para final da Copa

Fernanda Schimidt e Karla Torralba Do UOL, em Brasília
Kleyton Amorim/UOL

O apito não vai até a boca quando necessário, o cérebro não acompanha a jogada imprevisível, o posicionamento não é o melhor para saber: Foi falta? Foi pênalti? Foi mão? E ainda tem jogadores e torcedores pressionando, gritos e xingamentos, a transmissão esportiva detonando, o programa de TV analisando cada decisão daquele homem que, sozinho, apita o final do jogo.

É o árbitro. Ninguém precisa avisar que foi um dia ruim. Ele sabe.

“Você sai de casa para estar bem, mas o futebol é dinâmico. Você não consegue prever tudo, nem o comportamento do jogador e nem o seu. Tem situações que fogem da sua alçada. Se você não tiver equilíbrio, é afetado. Quando saímos de casa, temos o conceito, mas tem dia que é noite”, define o ex-árbitro Sandro Meira Ricci, único brasileiro no quadro da Fifa na Copa do Mundo de 2018 – ele se aposentou após o torneio.

Se você é torcedor de algum time brasileiro, já pode ter soltado críticas mais quentes contra Sandro. Ele entende, mas também sabe que não errou de má-fé. Juiz de futebol é treinado para aquele tipo de situação, tem o domínio das regras do futebol, mas continua sendo gente como a gente.

 “Uma certeza eu tenho: nunca errei de má-fé. Nunca perdi o sono por desconfiar de mim mesmo. Não posso me arrepender de ter errado porque nunca errei querendo. Eu sabia que errar é normal em uma atividade como essa”.

A experiência de competições internacionais, duas Copas do Mundo, finais importantes e clássicos fazem Sandro encarar com tranquilidade, em longa conversa com o UOL Esporte, as polêmicas mais delicadas da carreira, os erros mais polêmicos e até as questões mais pessoais.

"Eu corria xingando quando uma jogada me surpreendia"

Essa questão de ser bom não é permanente. Eu falo que não tem passado e nem futuro, tem o dia. Você pode ter feito vários jogos bons, mas faz um ruim e você passa a ser ruim. Ninguém lembra que você era bom. Eu fui bom, ruim, péssimo, ótimo. Eu não podia me influenciar por essas avaliações

Sandro Meira Ricci, sobre como o árbitro sabe que é bom

Ricardo Nogueira/Folhapress Ricardo Nogueira/Folhapress

O árbitro não pode se defender publicamente

Até quando é personagem principal do jogo por causa de polêmica, o árbitro sai da partida direto para o vestiário. Não pode falar com jornalistas e se defender. Enquanto isso, é bombardeado por críticas em entrevistas, nos programas de TV, nas mesas de bar. O jeito de Sandro Meira Ricci se defender quando teve sua moral afetada foi o tribunal. Em uma ocasião assim, ele processou Neymar.

Foi em 2010, quando o jogador postou um tuíte em que o xingava de “ladrão” após um Santos x Vitória. “Juiz ladrão, vai sair de camburão”, dizia a postagem apagada logo depois. O astro perdeu a ação e teve que pagar R$ 15 mil ao árbitro.

“Foi a primeira agressão moral que eu tive na carreira. Eu lembro de chegar em casa e ficar bastante chateado. Não era o que o Neymar é hoje, mas já tinha uma repercussão grande. Eu me senti ofendido e defendi meus direitos como cidadão. Estivemos na Justiça, em Santos, não tivemos problema nenhum. Ele alegou que um dos amigos pegou o celular e digitou na conta dele. O juiz colocou que tinha uma senha. No fim, resolvemos na Justiça e nunca mais teve problema nenhum”, contou.

Sandro explica que as críticas ao caráter e a impossibilidade de defesa fazem o juiz deixar de acompanhar o noticiário esportivo. “Depois de um tempo, eu não assistia mais. Eu lembro que, quando eu estava começando, o Márcio Rezende (de Freitas, ex-árbitro) disse que não via jornal. Era ruim porque essa crítica não envolve ser ruim ou bom, ela diz que houve uma predisposição minha de ajudar A ou B. Esse tipo de comentário não acrescenta em nada, só joga para a torcida e tenta atingir sua moral. Entendo que o dirigente e o treinador tem que jogar para torcida, é função deles. Mas não resolve”, opinou.

As polêmicas de Ricci: Dedada em Cavani, Neymar e gol anulado no Fla-Flu

AP Photo/Rebecca Blackwell AP Photo/Rebecca Blackwell

Fora da final da Copa do Mundo

Foi como um gol perdido aos 90 minutos do segundo tempo, valendo título. Sandro Meira Ricci não esconde a frustração por não ter apitado a final da Copa do Mundo de 2018. O argentino Néstor Pitana apitou a decisão entre França e Croácia. Era sua segunda Copa e ele sabia que a aposentadoria estava próxima.

“Dessa vez eu tinha a expectativa. Nosso quarteto fez três bons jogos, sem VAR, e o trio iraniano também. Como o iraniano, por ser da Ásia, era neutro, todo mundo acreditava que ia ser ele. Eu pensava que se não fosse ele, eu teria chance. Assim como o argentino tinha chance. Tinha uns quatro ou cinco cotados. Era bom ser cotado para final. Foi a primeira vez que o pessoal torceu um pouco para a arbitragem, foi bem gostosa essa energia”.

“Na hora, é um banho de água fria. Todos mereciam, ninguém pediu. O trio escalado não tem culpa. A comissão achou que fosse o melhor, mas foi aquele balde frio, porque você precisa ir lá e desejar boa sorte ao companheiro e não pode ser falso. Na hora eu fui lá, desejamos boa sorte, depois fui procurar colo. Mas vida que segue”, completou.

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"Um minuto a mais e eu não aguentaria"

Antes disso, Sandro passou por dois momentos marcantes na Copa do Mundo da Rússia. O positivo aconteceu nas quartas de final entre Croácia e Rússia, que acabou empatado em 2 a 2 na prorrogação e os croatas avançaram nos pênaltis.

Ficamos torcendo para o jogo acabar com 90 minutos, mas a Croácia empatou no fim. Foi para a prorrogação. Foi para os pênaltis. Foi muito exaustivo. Mas valeu muito a pena. Foi o jogo mais legal que eu fiz na minha carreira, porque envolvia a seleção da casa e outra sensação”.

“No fim desse jogo, eu estava completamente esgotado. Se tivesse mais um minuto, eu não dava conta. O gás vinha da possibilidade, do esforço que você fez para estar ali. Tudo o que você construiu na carreira era para estar ali. Você não podia perder”.

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"É péssimo errar como árbitro de vídeo"

O negativo envolveu o VAR, o árbitro de vídeo. O sistema pode ser eletrônico, mas quem opera continua sendo um juiz de carne e osso, passível de erro. Sandro sabe disso. Aconteceu com ele em Inglaterra x Tunísia. O jogo valia pela fase de grupos da Copa e o brasileiro era o responsável pelo VAR. Não assinalou pênalti em cima do inglês Harry Kane, mesmo revendo o lance na sala do árbitro de vídeo.

“É péssimo errar com o VAR, porque você tem tudo para acertar. Você tem todos os ângulos, um tempo maior que o árbitro, você tem tudo. Quando o lance é muito claro, a bola está parada, a pressão é menor. Você sabe que o jogo só vai reiniciar quando você autorizar lá da cabine. Então, você tem um tempo razoável para checar o lance. Outra pressão é de rever uma decisão do árbitro de campo e dizer que o seu colega está errado. Tem que falar, mas é uma pressão adicional. Às vezes, você tende a encontrar algo para defender a decisão do árbitro”, explicou.

KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP

A primeira Copa

Enquanto na Copa de 2018 a presença de Sandro na final era uma possibilidade real, sua estreia quatro anos antes no Mundial no Rio de Janeiro aconteceu quase que por acaso. Foi o preparo físico que o ajudou a ser escolhido o árbitro da casa na Copa do Mundo de 2014.

“Na Copa de 2014, o árbitro era o [Wilson Luiz] Seneme, mas ele teve um problema no tendão e não conseguia ser aprovado no teste. Só que ele era tão bom que insistiu, mas era um problema crônico. Eu não tinha esperança porque tinha Seneme, [Leandro] Vuaden, Heber [Roberto Lopes]. Eles tinham mais experiência. Só que, nas avaliações físicas, os três árbitros, em algum momento, falharam. Começaram a sondar um sem problemas. Quando começou o teste, caiu um temporal em Assunção [no Paraguai, onde foi feita a seleção] em que quem não estivesse muito preparado não ficava. O Seneme parou no começo e o Vuaden parou mais no final. Eu fui até o fim. No fim do dia, comunicaram que eu entraria no processo”.

“Disseram que iriam dar todos os jogos para me preparar. Eu mantive os assistentes do Seneme, conversei com eles, depois um foi trocado pela Fifa e entrou o [Marcelo] Van Gasse. Em 2013, fiz todas as rodadas de eliminatória e deu tudo certo. Nesse ano, fui para o Mundial sub-20 na Turquia, fiz vários jogos eliminatórios, Mundial de clubes e, em janeiro, confirmaram. A parte física é eliminatória. Errar e acertar, todos vão”.

Melhores e piores, por Sandro Meira Ricci

  • Os mais imprevisíveis: Hernanes e Ganso

    "O Hernanes jogava com as duas pernas. Ele colocava para a direita, eu antecipava. Ao mesmo tempo, ele jogava para a esquerda e lançava. Era difícil prever. Eu tinha a tática de esperar. Os dois mais imprevisíveis eram Hernanes e Ganso".

    Imagem: Rubens Chiri/saopaulofc.net
  • O mais reclamão: Cavani

    "Eu diria que o Cavani é reclamão. Se eu falar isso do jogador, ele vai falar que eu gerei a reclamação. Cada jogador se relaciona de um jeito diferente com o árbitro. Mas, vendo pela TV, o Cavani confirma isso com outros".

    Imagem: Julian Finney/Getty Images
  • O que fala muito: D'Alessandro

    "Quem fala muito é o D'Alessandro, mas não necessariamente reclamando. Ele fala com o adversário, com o treinador, com todo mundo. Uma vez eu estava com o Dunga e ele me contou que o D'Alessandro não gosta de perder nem no rachão".

    Imagem: Ricardo Rímoli/AGIF
  • O técnico mais difícil: Hélio dos Anjos

    "Hélio dos Anjos. Isso é experiência individual. Comigo, o mais difícil foi ele. O mais fácil era o Muricy Ramalho, disparado. Sem comparações".

    Imagem: Figueirense F. C. / Luiz Henrique
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Rebaixar árbitro por erro é "absurdo"

Nas competições nacionais, o árbitro que vai mal em um jogo dificilmente volta a apitar na primeira divisão. É a “geladeira”. Para alguns pode parecer um jeito de melhorar a arbitragem deixando apenas os melhores. Para Sandro Meira Ricci, significa não encarar o problema com seriedade.

“Esse rebaixamento acaba com o árbitro, é um absurdo. É fácil ser gestor assim. Você erra e eu te rebaixo. Você já viu algum treinador ir para uma entrevista e dizer: ‘O meu jogador perdeu um pênalti e, a partir de hoje, ele está fora do elenco’?. É exatamente o contrário que acontece. Na arbitragem, tinha que ser o mesmo. Senão o subordinado perde a confiança, gera insegurança. Árbitro inseguro é polêmica na certa”.

Clélio Tomaz/AGIF Clélio Tomaz/AGIF

Insegurança financeira

A geladeira também gera outro problema: a falta de dinheiro. Na arbitragem, funciona assim: quem apita, ganha. Quem não apita, não ganha nada. Por isso, a insegurança que Sandro cita não é só psicológica, mas também financeira. Imagine se o árbitro errar em uma partida e ficar duas, três rodadas sem ser escalado? Não vai receber nada e a conta pode não fechar ao final do mês.

“Árbitros não sabem quanto vão ter no final do mês. Você tem que estar bem fisicamente, porque lesionado você não trabalha. A remuneração fixa é mais importante para resolver essa instabilidade emocional do que resolver os problemas da arbitragem. É um direito que deveria ser dado ao árbitro para ele ter segurança. Se olhar hoje, os árbitros já fazem isso exclusivamente. Qual lugar vai aceitar você viajar para o exterior, viajar na terça e voltar na quinta?”, disse Sandro.

Como funcionário público, Sandro teve amparo legal para se ausentar das funções para competições esportivas e isso o ajudava a conseguir levar duas profissões ao mesmo tempo. “O que tinha que ser feito, eu fazia de madrugada. Muitas vezes, meus assistentes viam que eu trabalhava na viagem. Muitas vezes, você pode planejar e não deixar pendência. Eu tinha que planejar minhas carreiras”, explicou.

Às vezes, os árbitros não avisam quando estão em tratamento porque não sabem quando vão trabalhar novamente. Se o árbitro tiver uma lesão que ele consiga esconder, como o jogador, ele vai para o jogo. O árbitro é igual: quer estar no jogo. Só que o árbitro tem uma gravidade porque ele não recebe se ele não estiver

Sandro Meira Ricci, sobre a falta de condições físicas de alguns árbitros

REUTERS/Amr Abdallah Dalsh REUTERS/Amr Abdallah Dalsh

Sonhava ser jogador, virou árbitro

Antes de ser árbitro, Sandro Meira Ricci já era aficionado por futebol. Não conseguiu ser jogador por falta de talento. Durante uma longa espera para ser chamado após passar em um concurso público, virou triatleta. Treinava em um clube onde, um dia, viu um anúncio de curso de arbitragem. Virou madrugadas estudando a parte teórica, mas foi o físico que se tornou seu maior trunfo para, em 2006, ser árbitro de futebol de verdade.

“Quando eu comecei a fazer o curso, percebi que tinha encontrado meu lugar. Eu não seria jogador profissional e a arbitragem era uma oportunidade para estar em campo, participar do futebol profissional. Quando eu percebi isso, eu comecei a me dedicar ao extremo. Preparação teórica, física, prática”, recordou.

“Eu ia correndo para o curso. Não importava onde estava, eu saía uma hora ou antes e ia correndo e voltava correndo. Às vezes, eu nem dormia traduzindo livro de regras. Eu percebi que o pilar físico estava desclassificando muitos árbitros porque estava muito puxado. Eu sempre coloquei na minha cabeça que queria ser o melhor. Sempre trabalhei para ser o primeiro. Quando não conseguia, treinava mais. Foi assim que me preparei para ser árbitro”, contou.

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O ego: "Queria que me ligassem quando ia bem"

A marcação certeira de um árbitro no começo de carreira é como um gol em um clássico. Juiz também tem vaidade e gosta de receber elogio quando vai bem em uma partida. Sandro Meira Ricci assistia aos próprios jogos no início da carreira “para autoestima”.

“Sempre assisti. No começo, a gente vê mais para autoestima, infelizmente. Depois, começa a ser mais autocrítico. Tem jogo que você sabe que foi bem e tira o dia para ver e fica todo cheio, vai jantar, quer que te liguem. Com o tempo, você aprende a lidar com isso. Eu aprendi a lidar com autoestima, porque, na arbitragem, um dia eu poderia estar com a autoestima boa e, em outro, ela estaria péssima. Nunca deixei que minha autoestima estivesse na arbitragem”.

Um jogo perfeito é só um jogo perfeito: “Estávamos num torneio sub-20 na Turquia, em 2013. Fizemos um jogo nesse dia, tudo certo. Eu dei pênalti, corri 15 km. Fiz tudo certo. No outro dia tem uma reunião de avaliação e colocaram sete vídeos meus, sempre positivos, e isso não é normal. O Alessandro [Rocha, assistente de Sandro] colocou a mão na minha perna e pediu serenidade. Aquilo foi um ensinamento porque naquele dia tinha sete bons e depois poderia ter sete ruins. Você vai aprendendo que não vale a pena ficar tão feliz quando acerta, porque não pode ficar tão triste quando erra”.

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Mãe nunca viu Sandro em campo: "ela rezava"

Se Sandro sempre assistiu aos próprios jogos, Norma, sua mãe, nunca o viu em ação. Nem mesmo a a última partida da carreira do filho, na Copa do Mundo da Rússia.

“Minha mãe não gosta de futebol e nunca assistiu a um jogo meu. Durante meus jogos, ela rezava. Então, eu falei: ‘Mãe, será que eu sou tão ruim que você precisa ficar rezando?’. Ela ficava muito nervosa. Toda vez que eu falava sobre viajar para jogo, ela perguntava quando eu ia parar. Ela era louca para eu parar. Ela sabia que eu gostava e era feliz, mas sabia que teria consequências”.

“Graças a Deus, conseguimos ter mais felicidade do que infelicidade. Minha mãe acabou se acostumando com esse ambiente. Então, ela não se envolvia. Sempre que eu voltava dos jogos, ela perguntava se tinha ido tudo bem. Eu dizia que sim para não preocupar, mesmo se não tivesse sido bom. Ela não queria saber, ela só queria ouvir se foi tudo bem. Ela manteve distância, foi inteligente”.

As tentativas de aposentadoria

O adeus após a Copa da Rússia poderia ter acontecido quatro anos antes. Sandro ensaiou se aposentar logo depois de sua primeira Copa, em 2014. Chegou a pedir um tempo da arbitragem. Na época, sua vida pessoal passava por um momento turbulento. A filha mais velha, Isabella, havia sido diagnosticada com um cavernoma cerebral, doença vascular marcada por lesão benigna no sistema nervoso central, que requisitou intervenção cirúrgica.

Foi a própria filha que incentivou o pai a seguir na arbitragem. “Ela é um anjo que me ensinou muito. Eu não teria a coragem e a frieza que ela teve. A cicatriz dela é uma história. Ela não deixou a peteca cair. Foi quando eu percebi que, mesmo ausente, graças à educação da mãe, deu certo”, disse.

Com o apoio da família, Sandro teve fôlego para uma Olimpíada, celebrada como sua última e inédita competição oficial na arbitragem. Mais um empurrão da família e o árbitro esticou para outro Mundial. Então, parou.

“Eu nunca pensei em duas Copas. Quando eu terminei duas Copas, eu pensei no que mais faria, de onde iria tirar motivação. A parte financeira na Conmebol está muito boa, mas ficar por dinheiro? Eu não queria”, explicou.

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Uma nova chance com as filhas

Agora aposentado como árbitro, Sandro Meira Ricci consegue passar mais tempo com a família. Ele chegou à entrevista acompanhado da filha mais velha Isabella, do primeiro casamento, e da mulher e ex-auxiliar de arbitragem, Fernanda Colombo, com quem se casou seis semanas após a Copa.

Ele sorri, também, ao falar da filha mais nova, Manoela. E admite que a paixão pela arbitragem fez perder o crescimento das meninas. “Eu estive ausente por muitos anos, principalmente na educação da filha mais velha. Não posso me arrepender porque não tem volta. Hoje, fora da arbitragem, tento fazer o melhor que posso para ter o melhor relacionamento possível com minha filha”, disse, sobre a garota de 18 anos.

“Com a primeira, eu aprendi a ser um melhor pai para a segunda. Eu sabia que teria que estar mais presente. Hoje, a relação com a filha menor é mais próxima do ideal. Com a mais velha, graças à personalidade dela, que é muito boa, temos uma relação perfeita”.  

Eu era muito ciumento, mas hoje eu consigo entender mais a outra geração. Eu não entendia. A minha geração era a certa, a outra era errada. Eu entendi que eu estava errado

Sandro Meira Ricci, sobre ser um pai ciumento

Você perde um pouco da relação de amizade, da confiança de que você sempre estará ali. O que mais perdi foi a convivência. Sentia falta. Hoje, tento ficar com ela o máximo que posso

Sandro Meira Ricci, sobre o que perdeu da criação das filhas

Kleyton Amorim/UOL Kleyton Amorim/UOL

Celebridade? "Uma amiga brinca que vou participar da Fazenda"

O casamento com a ex-bandeirinha Fernanda Colombo colocou o casal nas páginas de entretenimento, fora do conhecido campo de futebol. Sandro ri ao ser citado como celebridade.

“Nunca fui e nunca seremos. Uma amiga brinca que é subcelebridade e que vou participar da Fazenda. Jamais vou sentir isso, tenho dificuldade de me ver como referência. Eu estava na escola da minha filha mais nova e uma criança estava assustada de me ver, chocada. Nesses momentos, eu penso que valeu a pena ter sido árbitro. A melhor coisa é ver crianças me admirando por ter sido árbitro. Agora, ser celebridade e referência é muito difícil. Às vezes, vou a uma cidade e tem árbitro local que quer me conhecer. Eu atendo todo mundo”, ressaltou.

Reprodução/Instagram Reprodução/Instagram

A vida nova ao lado de Fernanda

Sandro e Fernanda se casaram nesse ano, após sua aposentadoria da arbitragem. Apesar de compartilharem a profissão, os dois se conheceram fora de campo, durante uma viagem à São Paulo.

Em 2014, Sandro acompanhou de longe as polêmicas envolvendo a futura mulher. Ela marcou impedimento equivocado contra o Cruzeiro em um clássico contra o Atlético-MG. O erro rendeu uma avalanche de comentários machistas. Em um deles, o diretor do Cruzeiro Alexandre Mattos (hoje no Palmeiras) chegou a dizer que ela não estava preparada e sugeriu que posasse para uma revista masculina.

“Eu gostei da reação dela, achei que teve personalidade para encarar a imprensa, porque não é fácil”, lembrou.

Hoje, Fernanda ajuda Sandro a se preparar para uma nova carreira, possivelmente como comentarista. “Quando eu quis ser árbitro, eu treinava. Agora, eu treino para ser comentarista. Faço vídeos, que não publico, comentando. A Fernanda grava”, contou. Do outro lado, Sandro incentiva a mulher, que tem se especializado em VAR – ela dá palestras sobre o sistema e pretende ser comentarista analisando árbitro de vídeo.

Comentários em redes sociais geram polêmicas e fãs

Sandro Meira Ricci treina para ser comentarista de arbitragem com cursos na área de comunicação e fazendo comentários de jogos em seu Instagram. Algumas críticas chegaram a irritar ex-companheiros de profissão.

“Perguntaram se eu tinha esquecido que já tinha sido árbitro. Eu tenho a liberdade de expressão e, hoje, eu enxergo com mais clareza. Não posso ser injusto de não entender o erro, mas tenho conhecimento para saber se errou e acertou. Isso é um serviço. Se não explicar por que errou, na cabeça do torcedor vai parecer que o árbitro roubou. Os caras me escrevem dizendo que achavam que eu era uma coisa, mas que eu sou um cara bacana”.

“Tem torcedor que diz que não tinha uma certa visão da arbitragem e que não xinga mais o árbitro. Se a gente fica calado e o árbitro não pode falar, falam o que ele quiser. Toda vez que alguém diz que teve o time garfado, eu vou lá e respondo”, disse.

"Não quero ser o novo Arnaldo"

Impossível ser um novo Arnaldo. Ele foi o precursor da função. Eu não tenho a pretensão de ser o novo Arnaldo

Sandro Meira Ricci , sobre Arnaldo Cezar Coelho

Ser comentarista de arbitragem foi um dos planos que fiz para quando terminasse a carreira

Sandro Meira Ricci, sobre futuro após se aposentar

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