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Referência em esporte e cozinha, Silvio Lancellotti recorda 'furo' da morte de Senna e fumaça com Silvio Luiz

Augusto Zaupa e Vanderlei Lima Do UOL, em São Paulo
Rafael Roncato/UOL

A comunicação acabou virando uma plataforma para Silvio Lancellotti externar suas principais paixões. Começando através do jornalismo convencional, ele acabou virando uma referência tanto no esporte como na gastronomia. E, em todas essas frentes, sempre como um embaixador da cultura italiana no Brasil.

Incentivado por Luciano do Valle nos anos 80, Lancellotti virou o primeiro comentarista esportivo do país focado em futebol internacional. No caso específico, nas históricas transmissões do Campeonato Italiano na Bandeirantes. Foi lá que emplacou uma famosa dupla com o narrador Silvio Luiz, entrosados no microfone e nos muitos cigarros dentro da cabine.

Na entrevista ao UOL, Lancellotti relembra essas e outras façanhas da carreira, como o "furo" da morte de Ayrton Senna, levado ao ar na Band antes da Globo, que tinha equipe no local. O jornalista ainda rememora casos com Ronaldo e Ricardo Teixeira, quando a veia de repórter chegou a versões diferentes da história oficial.

Hoje, aos 75 anos, Silvio Lancellotti se prepara para cobrir os Jogos Pan-Americanos, comentando para a TV Record. Em paralelo, o veterano do jornalismo, da literatura e das cozinhas luta para amenizar os efeitos de um acidente automobilístico, que atrapalham sua capacidade de locomoção.

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Sinal da RAI ligado para monitorar estado de Senna

Em 1º de maio de 1994, Lancellotti estava em casa acompanhando pela TV o GP de Ímola de F-1 quando presenciou o grave acidente de Ayrton Senna na curva Tamburello. Imediatamente partiu até a sede do grupo Bandeirantes em São Paulo para buscar informações sobre o estado de saúde do piloto.

"Nunca fui um torcedor do Senna. Gostava mais do Nelson Piquet por uma questão de personalidade. Fiquei chocado com o acidente. Quando acabou a transmissão do Campeonato Italiano, falei para o pessoal da coordenação não desligar o sinal da RAI [emissora de TV da Itália] para saber o que estava acontecendo."

"Àquela altura, o Senna estava em Bolonha, no hospital, quando de repente sai uma senhora de branco, obviamente uma médica, com um bando de jornalistas ao redor dela. Ela disse: 'lamento informar, era questione de silenziamento elettrico'. Fico arrepiado até hoje: o cérebro havia parado de funcionar", recordou.

Anúncio da morte em primeira mão

Lancellotti diz que foi ele quem divulgou em primeira mão no Brasil a morte de Senna, e não Roberto Cabrini, então repórter da Globo, presente em Bolonha.

"O Elia Júnior estava no ar ancorando o Show do Esporte. Subi [para o estúdio] e passei um bilhete: 'silenziamento elettrico'. O Elia olhou e não entendeu na hora. Sabia do acidente, lógico. No intervalo, ele perguntou o que era. Falei que o cérebro do Senna havia parado de funcionar. O Elia deu no ar aqui no Brasil a notícia da morte do Senna porque eu tinha passado a informação. A Globo, que tinha o Cabrini lá, deu a notícia 40 minutos depois da gente."

"Esse episódio me devastou. É uma coisa terrível você dizer no ar que uma pessoa que o país idolatrava morreu. Puta merda, eu me senti meio responsável por aquilo. Passei mal. Eu fui para casa. As minhas duas filhas já tinham nascido, uma era bebê e a outra tinha dois anos. Lembro que eu tomei um porre porque eu não conseguia controlar a minha tensão, chorava que nem um garotinho desmamado", recordou.

A médica que deu entrevista para o Cabrini também deu para a RAI. E lá ela falou em morte cerebral e nós estávamos no ar para o Brasil. Não posso advogar essa causa, se foi ou não furo nosso, mas demos junto com a RAI porque a gente pegava o sinal do Campeonato Italiano. Foi muito marcante

Elia Júnior

Elia Júnior, ex-apresentador do Show do Esporte, sobre a cobertura da morte de Senna

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Conversa indiscreta de Ricardo Teixeira no avião

Um bom jornalista também precisa de sorte. E Lancellotti foi agraciado por ela em um voo para Itália, onde iria cobrir a Copa de 1990. Ao conseguir um upgrade para a primeira classe, o então repórter da Folha de S. Paulo testemunhou uma conversa entre o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, e Kléber Leite, dirigente que presidiu o Flamengo anos depois.

Na ocasião, o homem que mandava na CBF disse que estava arrependido de ter contratado Sebastião Lazaroni para comandar a seleção no Mundial.

"Foi um furo acidental. O Ricardo Teixeira e o Kleber Leite estavam sentados logo atrás de mim. Estavam enchendo a cara e falando mal do Lazzaroni. Eu tinha um gravadorzinho e gravei a conversa. Cheguei na Itália e, ainda no aeroporto, liguei pra Folha. Ditei a matéria por telefone e a notícia saiu na primeira página da Folha."

A notícia deixou Teixeira enfurecido e o dirigente ameaçou processar o jornalista.

"Mandei uma cópia da fita para o advogado dele. O Ricardo desistiu de me processar. Ele estava bêbado. Ele falou que o cara [Lazzaroni] era um burro, que havia sido uma cagada ter contratado aquele cara. Falou que o cara era um imbecil, que jamais deveria ter o colocado na seleção."

A sua versão sobre a convulsão de Ronaldo em 1998

Lancellotti trabalhou em oito edições de Copas. Em 1998 no Mundial da França, horas antes da final entre os donos da casa e o Brasil, Ronaldo teve uma convulsão no hotel onde a seleção estava concentrada.

No seu livro 'Almanaque da Copa do Mundo', Lancellotti revelou que na véspera do jogo decisivo o atacante havia brigado com a namorada, Susana Werner, que havia feito uma visita escondida ao jogador no Château de Grand Romaine, em Lésigny.

"O Ronaldo tinha síndrome do pânico, somado à tensão do jogo, a pressão que ele estava sofrendo. Também tinham os boatos de que a Suzana estava tendo um caso com o [jornalista] Pedro Bial, o que não é verdade, e com um jogador dos Estados Unidos, o que também não é verdade. Sacanearam o Ronaldo. Ele ficou com aquilo na cabeça. Eu conto no livro a história da visita que ela [Susana] fez", comentou.

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No 'Almanaque da Copa do Mundo', o jornalista relata que a então atriz da Globo havia dado, sem consentimento dos médicos da seleção brasileira, um calmante ao Fenômeno, o que poderia ter influenciado na convulsão.

"Fiz um levantamento meticuloso. Apurei com inúmeras pessoas, inclusive da família do Ronaldo, da comissão técnica, funcionários do Château, do hospital Des Lilas [onde Ronaldo foi levado antes da partida] e até mesmo com o Massimo Moratti, que foi presidente da Inter de Milão, onde o Ronaldo jogava", descreveu.

Outra "bomba" das Copas

O Maradona não se dopou em 94. Ele estava tomando remédio para emagrecer e foi sacaneado pela própria AFA [Associação de Futebol Argentino]. No livro, conto como a mulher do Julio Grondona [ex-presidente da entidade] odiava o Maradona. Ela falava aos berros: 'esse índio tem que se foder'. Odiava por preconceito racial. Conto em detalhes

Silvio Lancellotti, em mais um caso de bastidores das Copa do Mundo

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Comentarista graças a Luciano do Valle

Em meados dos anos 80, Luciano do Valle montou um esquadrão de profissionais para levar ao ar o Show do Esporte, atração dominical com 10 horas de duração. A equipe contava com nomes de peso, como os repórteres José Luiz Datena, Roberto Cabrini, Flavio Prado, Luiz Ceará, Eli Coimbra, Gilson Ribeiro e Luiz Andreoli, além dos narradores Silvio Luiz, Jota Júnior e Osmar de Oliveira.

Apesar de já ter trabalhado na televisão, Silvio Lancellotti não atuava como comentarista. Mesmo assim, Luciano do Valle resolveu apostar no colega.

"O Luciano fez de mim um comentarista esportivo. Um dia, fui almoçar com ele e comecei a falar sobre futebol italiano. Eu acompanhava, assinava um monte de revista. Então ele me perguntou se eu não queria fazer um teste num domingo, que iria ter Juventus e Milan", rememorou.

"Fui preparadíssimo, tinha idade, altura, peso de todos os jogadores, sabia onde moravam, o que eles comiam e etc. Modestamente, sem nenhuma vaidade, eu dei um puta show na transmissão e todo mundo se impressionou. No dia seguinte, o Luciano me chamou para ser comentarista do Italiano", completou o jornalista.

Meu filho jogava futebol de botão e ia com ele para encomendar os botões em uma fábrica na Mooca. A gente fazia campeonatos e ele gostava de narrar o jogo. Um dia, ele falou: 'Pai, eu não sei os nomes dos caras'. Então comecei a assinar a La Gazzetta dello Sport. Escrevia os nomes dos jogadores numa etiqueta. Acabei virando especialista em futebol internacional sem querer

Silvio Lancellotti, sobre os acasos até virar comentarista de futebol

Julia Chequer/Folhapress Julia Chequer/Folhapress

Dupla com Silvio Luiz: "A gente fumava muito"

Em 11 anos na Band, Silvio Lancellotti foi parceiro do narrador Silvio Luiz nas transmissões do Campeonato Italiano, formando assim a "Dupla SL". A equipe ainda contava com a participação do empresário Giovanni Bruno, que era proprietário de um dos mais tradicionais restaurantes de São Paulo, o Il Sogno di Anarello.

"A parceria era perfeita. O Silvio é um cara por quem eu tenho um carinho e uma admiração. É um cara que amo. A gente fumava muito e a cabine era um inferno. Um dia, a Band proibiu que a gente fumasse na cabine, mas a gente fumava escondido. Eu não fumo mais há dez anos, felizmente", recordou.

"Trabalhar com o Silvio e com o Giovanni era sempre pitoresco. Eu chegava às 9 horas da manhã para fazer o Show do Esporte e o Giovanni chegava com salaminho, azeitona, pão italiano... era uma farra", emendou.

Mágoa na saída da ESPN

Além de futebol internacional, Lancellotti é expert em esportes olímpicos, tanto que escreveu o livro 'Olimpíada 100 Anos - História Completa dos Jogos'. Dentre as suas modalidades preferidas está o beisebol, fato que o levou a assinar contrato com a ESPN em 2002, encerrando assim um hiato de cinco anos longe das telinhas.

"Como eu tinha morado nos EUA, era fanático por beisebol. Eu tinha uma antena parabólica que pegava aquele canal das forças armadas americanas, isso antes da ESPN. Acho que eu era um dos cinco brasileiros que viam beisebol e alguém contou para o José Trajano que eu entendia. Ele estava precisando de um comentarista de beisebol para o Pan-Americano de 2003, em Santo Domingo, e eu fui", recordou.

Ao fim do Pan, Lancellotti fechou contrato para comentar o Campeonato Italiano na ESPN Brasil, pois o canal pago havia obtido os direitos de transmissão do torneio.

Reprodução Reprodução

Quase uma década depois, em 20 de maio de 2012, Silvio Lancellotti se despediu ao vivo da ESPN durante a final da Copa da Itália, no confronto entre Juventus e Napoli. A direção da emissora alegou que o contrato com o profissional havia sido interrompido porque não havia renovado os direitos de transmissão do Italiano.

Segundo Lancellotti, a decisão foi tomada porque ele havia sido contratado por José Trajano, jornalista que havia deixado a direção do canal em outubro de 2011.

"Ficou claro que foi uma limpa de todo mundo que era ligado ao Trajano. O Trajano foi sacaneado", disse o veterano jornalista. "Eu lamento não de ter acabado o meu contrato, porque isso é extremamente profissional, é legítimo. Agora, fazer isso por e-mail é brincadeira. Eu tinha dez anos lá", desabafou.

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O amor pela gastronomia

Silvio Lancellotti foi um privilegiado de trabalhar com temas que ama: futebol e gastronomia. O jornalista relata que já apresentou mais de 5 mil programas de culinária e escreveu cinco livros sobre este universo. Os primeiros passos foram ainda em casa, com o pai, Eduardo Lancellotti, que o ensinou a base da cozinha. Mas a culinária só se tornou parte da vida profissional quando o jornalista foi trabalhar na revista Vogue.

"Quando houve aquela famosa crise logo depois do assassinato do Vladimir Herzog [em outubro de 1975], o governo pediu a cabeça do Mino Carta [jornalista e criador da revista Carta Capital]. Fui trabalhar com o Luiz Carta na revista Vogue e tinha uma revista chamada Gourmet. Eu cuidava da redação", comentou.

Certo dia, já trabalhando na Folha de S.Paulo, Lancellotti resolveu inovar ao escrever a história da pizza em São Paulo, que abordava as gerações de pizzaiolos, tipos de massa, sabores e molhos. No fim, colocou no pé na página uma espécie de serviço aos leitores, com endereços e telefones das pizzarias, prática incomum no jornal.

"Numa sexta-feira à tarde, me liga a secretária do Dr. Frias [Octavio Frias de Oliveira, antigo dono do jornal]. Ela me disse que o Seu Frias queria conversar comigo. Pensei que ele iria me dar uma bronca porque dei os endereços das pizzarias. Ela me falou que a matéria havia feito um sucesso muito grande. Então o Seu Frias me convidou para escrever sobre gastronomia na Folha, isso foi em 1982. Foi aí que eu comecei a escrever sobre gastronomia", contou o jornalista, que chegou a ter uma linha de panelas com o seu nome.

Meu pai cozinhava muito bem. Quando comecei a namorar, fazia jantar para família da minha namorada. Fazia jantares para os amigos da redação da Veja, todos os sábados, na minha casa. Eu era o cara, porque gostava de esportes e também curtia gastronomia

Silvio Lancellotti, sobre a vocação pelo mundo das panelas e receitas

"O Palmeiras não tem Mundial"

A questão mais controversa do futebol paulista dos últimos anos também vem à tona no papo com Silvio Lancellotti: o Palmeiras é ou não é campeão mundial? Corintiano declarado, o jornalista refuta a façanha palmeirense de 1951.

"Eu falo porque eu sou um preciosista. Qualquer campeonato que for organizado vira mundial? Aquele foi um campeonato onde os times foram convidados a participar. O Flamengo é campeão Intercontinental [em 1981], é campeão do mundo porque corresponde ao campeonato do mundo. O Palmeiras é campeão da Copa Rio. O Corinthians ganhou a Pequena Taça do Mundo [em 1953], na Venezuela, é campeão do Mundo? Não, é campeão da Pequena Taça do Mundo", analisou.

Além da paixão pelo Corinthians, Lancellotti torce para a Juventus de Turim. E se os dois times um dia se encontrarem numa final de Mundial, como ficará?

"Eu não vou torcer para ninguém. Vou torcer para o jogo acabar em 0 a 0 e ir para a disputa de pênaltis, que nem foi a Copa de 94. Daí seja o que Deus quiser", brincou, citando o tetra mundial do Brasil contra Itália.

Rafael Roncato/UOL Rafael Roncato/UOL

A vida após o acidente de carro

Atualmente com 75 anos, Lancellotti tem dificuldades para se locomover devido a sequelas de um acidente de carro em 2016. O jornalista sofreu fraturas no fêmur e no quadril e passou por operações para a implantação de próteses.

"Eu não estava dirigindo, foi um acidente idiota. Felizmente, na época, eu tinha seguro saúde. Fiquei meses aprendendo a andar de novo. Não guio desde o começo do século, nunca tive problema de pegar ônibus e metrô. Até brincava dizendo que andava de graça em transporte público porque já havia passado dos 60 anos", explicou.

Isso me complicou a vida porque eu só posso fazer coisas sentado."

"Eu sou criativo, sou energético. Eu sou um cara ansioso pelo trabalho, amo trabalhar e isso me limitou. Hoje, vivo com o dinheiro contado. Sou aposentado com um salário mínimo. Nunca me preocupei. Quando resolvi me aposentar, tinha deixado de contribuir [ao INSS] há uns 12 ou 13 anos. Mas tudo bem, eu não me torturo por nada."

Apesar das dificuldades para se locomover, Silvio não abre mão da maior paixão: escrever. Atualmente, o jornalista mantém o blog Copa e Cozinha, no Portal R7, onde discorre sobre diferentes temas.

"O dia em que eu não tenho texto para escrever, fico desesperado. Se eu não escrever, eu não consigo me sentir pleno. Hoje, eu tenho o R7, que é a minha paixão desde 2012. Tenho a maior liberdade. Escrevo o que eu quero, sobre o que eu quero. Nunca mexeram num texto meu. Nem precisaria escrever todos os dias, mas não quero ficar sem encher o meu espaço", comentou.

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