Formação alternativa

O homem que criou a ESPN Brasil sequer completou o Ensino Médio e passou mais tempo no bar que na escola

Felipe Pereira Do UOL, em São Paulo
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A Vila Madalena é um bairro descolado e endinheirado de São Paulo cheio de grafites, feiras orgânicas, patinetes, cervejas artesanais e bares. Também é o lugar onde mora José Trajano. O jornalista combina com o lifestyle da vizinhança. Em bar, é PhD. E integra a elite de esquerda progressista que defende a bicicleta e o feminismo do alto de apartamentos que passam fácil de R$ 1 milhão. A diferença é que o padrão local também inclui nível superior, MBA, mestrado e doutorado.

Trajano estudou só até os 16.

Mas ele não tem qualquer problema com a falta de instrução formal. Enquanto frequentou o banco escolar, estudou em um lugar que lhe encheu de orgulho. O Colégio São Bento do Rio de Janeiro fica junto a um mosteiro que começou a ser construído em 1633 e é um dos principais monumentos de arte colonial do país.

Ele trocou o colégio pela redação de jornal e ganhou a independência. A trajetória profissional dura cinco décadas. Neste período, colocou a ESPN Brasil em pé. Fica difícil dizer que Trajano não aprendeu direitinho na escola da vida.

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Maracanã, bar e redação

Trajano foi trabalhar no Jornal do Brasil aos 16 anos com o pensamento Lulu Santos: abandonar a velha escola e tomar o mundo feito Coca-Cola.

No caso dele, não era bem refrigerante. O que importa é que Trajano convivia com os melhores jornalistas do país e viveu aqueles dias com intensidade. O "JB" era considerado um jornalão de reportagens profundas e alto padrão de qualidade.

A instrução de Trajano era abastecida por livros indicados pelos colegas que escreviam sobre os assuntos mais falados do Brasil. Ele considera estas leituras, e a convivência com os jornalistas, como sua faculdade.

O tempo ocioso era gasto na dobradinha Maracanã + boteco. Trajano era o caçula da redação e acompanhava os mais velhos na boemia até altas horas. Nestas ocasiões, conversavam sobre cultura, política, futebol e mulheres. Ou seja, experimentou a rotina de leituras, bebedeiras e papos-cabeça tradicional dos universitários, mas pela pedagogia do boteco.

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Um dia meu pai foi ao jornal perguntar se para ser jornalista precisa chegar em casa todo dia de madrugada e bêbado

José Trajano, jornalista

Ainda na ativa

As redações gigantes alimentadas pelo estalo de teclas metálicas nos rolos das máquinas de escrever viraram história. Sorte de Trajano. Hoje, a tecnologia permite que a sala de sua casa seja redação e estúdio do programa de televisão que leva ao ar de segunda a sexta. Não que esta fosse a previsão original de uso do local.

O apartamento é aquilo que as revistas do ramo chamam de ambiente arejado. Formas simples, cores neutras, poucos móveis e bom aproveitamento de espaço. As prateleiras que amparam os livros ficam dentro da parede, como se tivessem enterrado a estante no cimento.

A decoração é resultado das andanças de Trajano. Tem tapetes e trilhos sul-africanos comprados na Copa de 2010. As estátuas nordestinas disputam atenção com cartazes de filme consagrados ou bonecas matrioscas.

O ambiente caseiro reina somente aos finais de semana. Na segunda, às 14h30, começa a metamorfose. Cinco produtores chegam e, quando o trabalho deles está pronto, a harmonia da residência vai embora.

Até a sexta, fios cruzam a sala, notebooks e celulares aguentam a pressão dos dedos ágeis de quem passou uma vida digitando e um tripé sustenta uma câmera que aponta para a mesa. O rosto de Trajano aparece na pequena tela no começo das noites, quando o programa vai ao ar. O apresentador lê as notícias com tanta assertividade que cria a credibilidade que é o sonho do vendedor de carros.

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Look do dia: camisa, bermuda e chinelo

O programa é veiculado na TVT, canal mantido pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e transmitido na Grande São Paulo, e também é publicado no YouTube. O sinal ainda entra na programação de três emissoras comunitárias de Salvador, Brasília e Rio de Janeiro. Durante meia hora, o apresentador lê entre 17 e 20 retrancas, que é como os jornalistas de TV chamam as matérias. A cada edição, Trajano diz há quantos dias o assassinato da vereadora Marielle Franco está sem solução.

O perfil exclusivamente esportivo ficou no passado e fala-se de tudo. A aridez das notícias de política, economia, e tragédias (algo que não está faltando neste ano) é aliviada por histórias de músicas e filmes. O apresentador não se esquiva de fazer comentários com expressão séria. Mas o figurino lembra a lenda de Cid Moreira, que apresentava (ou não) o Jornal Nacional de camisa e bermuda.

Trajano usa uma camiseta qualquer durante a tarde. Instantes antes de a transmissão começar, um dos cinco funcionários vai até a impressora (que fica no quarto do dono da casa) pegar as folhas que contém as notícias. Simultaneamente, Trajano abre o guarda-roupa e escolhe uma camisa. Alinhada e bem passada, ela não combina com os chinelos de dedo que estarão fora do quadro da câmera.

Mas o look faz todo sentido. Aqueles letreiros que sobem ao final de telejornais dizendo que o apresentador veste Hugo Boss, Zegna ou Prada não cabem no programa de Trajano. A espontaneidade é bem mais a cara dele.

"Ele não gosta de subserviência"

O apresentador fez fama trabalhando no nicho esportivo. Os cinco funcionários que ajudam a por o programa da TVT no ar têm ligações com a ESPN. Agora, eles trabalham com Trajano para atender a um público ainda mais segmentado: pessoas politizadas de esquerda. A audiência não é a mesma de outros tempos, mas o jornalista conta que a bolha não é tão pequena assim.

Há afinidade política na equipe, mas Edu Souza, uma espécie de editor-chefe, fala que às vezes acontecem arranca-rabos. E acrescenta que Trajano considera positivas estas situações.

"Ele não gosta de subserviência".

Também existem dias de comemoração. Edu diz que durante a Copa eles chegaram a marcar 1.1 ponto nas praças onde estão. Bateram a RedeTV! e a TV Cultura. Mas o público de Trajano ficou feliz em outras ocasiões: as participações especiais que estiveram no estúdio. Lula, Haddad, Ciro e Manuela - assim, sem necessidade de nome-sobrenome, como amigos na sala de estar.

Pagando para trabalhar

A repercussão das entrevistas com convidados especiais foi imensa. Mas a brincadeira precisou ser interrompida, porque estava ficando cara. Trajano quis conferir um padrão de qualidade elevado ao programa com pessoas conhecidas nacionalmente e isto exige infraestrutura.

"Eu precisava alugar uma mesa de áudio e um operador para ela. Precisa de câmeras e operadores. Estava ficando caro e não recebia. Estava tirando do bolso. Até que não deu mais. Se não está entrando, não pode ficar saindo", explicou Trajano.

O apresentador também refuta qualquer impressão de que esteja nadando em dinheiro depois de uma rescisão milionária com a ESPN. Justifica que primeiro saiu do cargo de diretor para o de comentarista e, por último, recebia por participação.

Hoje, eu preciso trabalhar. A única coisa que tenho é este apartamento".

Fãs desde longa data

Trajano recebe da TVT e de doações no Catarse, um site de financiamento coletivo. As pessoas que contribuem apoiam um conteúdo de que gostam e têm chance de acompanhar o Pontapé, programa que conta com a participação de Trajano e é veiculado às segundas-feiras na Rádio Central 3. Felipe Tognoli foi uma destas pessoas.

Ele contribui com R$ 20 mensais e é o espectador-padrão de Trajano. Considera que o retrato de Marielle no estúdio da rádio é mais que adequado. Adora o Sócrates, é corintiano e acredita que a ESPN se descaracterizou com a saída do jornalista.

"Sou fã dele desde o Cartão Verde. Quando saiu da ESPN, fiquei muito desapontado. Mas o canal do YouTube é melhor, porque democratizou. Não precisa de TV a cabo para ver".

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Trajano voltaria a TV

O programa na TVT é o último ato de um dia de trabalho, com exceção das segundas-feiras. Trajano começa a manhã editando seu site e respondendo às pessoas nas redes sociais - o funcionário que cuida de suas contas diz que o jornalista não responde haters. O apresentador gosta da rotina que leva, mas não descarta voltar a um estúdio que não seja a sala de casa.

"Acho difícil trabalhar em um concorrente da ESPN. Até porque fui a cara da emissora por muito tempo. Me chamavam de Trajano da ESPN. Também não sei se me sentiria à vontade. Mas se uma emissora montar uma equipe de esporte, tipo a CNN, que está vindo para o Brasil, e me chamar, eu poderia pensar".

O jornalista conta que há disponível no mercado uma equipe de pessoas que trabalharam com ele na ESPN e hoje estão se virando como podem. Outra novidade possível é ele fazer podcast. Há uma negociação em curso com o Spotify e Trajano está otimista.

"Acho que vai dar samba".

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Volta às origens paulistanas

Enquanto novos contratos ficam no campo das possibilidades, Trajano trabalha na mídia alternativa. É uma repetição de como a história dele em São Paulo começou. O caminho Rio de Janeiro-São Paulo não foi uma ponte aérea. Houve uma escala em Londrina (PR). Um morador local tinha pretensões políticas e montou uma publicação com jornalistas da Revista Realidade, a maior ganhadora de prêmios na década de 1970.

O projeto teve o tempo de uma gestação. Em nove meses, os profissionais brigaram com o patrão. Trajano estava com 28 anos quando foi convencido pelos colegas a ir morar em São Paulo. O ano era 1975, época da Ditadura e ele trabalhou em um veículo que fazia oposição ao regime militar. Morava em uma república e exercia as funções de jornalista e jornaleiro. Escrevia as matérias e ia para Praça da Sé vender o jornal.

Com o dinheiro dava para comer. O jornal ia muito mal porque o dono investia o faturamento em corridas de cavalo".

O dia era espartano, mas as noites, agitadas. Ele frequentava bares com os companheiros de redação e se revezavam escolhendo músicas na jukebox. Viravam atração.

"A mulherada vinha."

Trajano não diz em momento algum que era um pão, para usar a gíria da época. A cobiça feminina vinha de uma combinação de fatores. Trabalhar na imprensa contestando a ditadura conferia uma reputação de liberdade e coragem. Ele e os amigos ainda eram os cabeludos que andavam com artistas e moravam numa república sempre aberta e com violão disponível para quem chegar.

Filhos e filhas educados com rédeas curtas deixavam de ser certinhos e viviam seus momentos de independência. O modo de vida garantia a amizade dos rapazes e os beijos e abraços das moças. Em constante pindaíba, Trajano e os amigos aproveitavam.

"A gente se convidava para ir jantar e com elas pagando. Era a chance que tínhamos de comer melhor. E ainda aparecia com um ou dois amigos".

Trajano afirma que era uma fase muito rock 'n roll da vida. Mas que foi se acabando, porque uns se juntaram com namoradas e outros foram arranjando outros empregos.

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A responsabilidade chama

A vida era divertida, Trajano era contra a grande mídia, mas uma hora não teve jeito. A dureza do bolso vazio o obrigou a aceitar um cargo temporário no Jornal da Tarde, depois na Folha de São Paulo. Engatou vários empregos, viu a carreira decolar.

Virou editor do caderno de esporte da Folha, que mantinha uma rivalidade gigante com o Jornal da Tarde para ver quem fazia a melhor cobertura. O ápice da disputa ocorria nos cadernos das segundas-feiras, que contavam a rodada do final de semana. Os comandados de Trajano ficavam bebendo até a gráfica começar a rodar.

Uma vez, ele ficou tão orgulho da edição produzida que chamou os companheiros para irem ao bar em que o pessoal do Jornal da Tarde se encontrava. Queria esfregar na cara da concorrência o material preparado para segunda.

Por sorte, eles não foram aquele dia. Ia ser uma merda, uma brigalhada".

A melhor revista de tênis do mundo

Outra história que Trajano conta com sorriso no rosto foi quando um empresário deu carta-branca para fazer a melhor revista de tênis do mundo. Além de contratar quem desejasse, o jornalista teve liberdade para criar. Fez personalidades tirarem fotos com bolinhas de tênis. Gente do tamanho de Chacrinha, Brizola e Burle Marx.

"As fotos eram temáticas. Ulysses Guimarães, por exemplo, foi fotografado no Congresso. Sônia Braga colocou a bolinha nos seios".

Quando Trajano mandou um repórter de classe executiva para Londres cobrir Wimbledon, ouviu uma bronca. O empresário disse que funcionário dele não viajava se não fosse de primeira classe. A revista tinha extravagâncias como servir canapés e sanduíches às 6 horas da tarde acompanhado de sucos e vodca. Juntava jornalista da cidade inteira para aproveitar a boca livre.

"Não durou muito, claro. Um negócio desse não tinha como dar certo".

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O Trajano de hoje é um jornalista de 72 anos que tem uma varanda cheia de plantas com uma poltrona confortável. Mas ele se recusa a sentar e ficar tomando vento no rosto nos dias quentes. Recusa também o azul convidativo da piscina do prédio cercado pelo verde do jardim. A tentação está ao alcance dos olhos pela janela, mas o apresentador não enxerga sedução no ócio.

Vejo gente da mesma idade que eu muito mal. Eles têm caras cansadas. Quero me manter vivo. Trabalho com amigos e vou lutando contra a maré. Tenho seguidores que gostam de me ouvir. Quero fazer meus livros".

Ele interrompe a conversa dizendo que o táxi está chegando e precisa deixar a sala-estúdio. Vai para o programa de rádio. Edu, o editor-chefe, fica para finalizar algumas coisas. Terminado o trabalho, ele sai apenas encostando a porta.

"Não se espante, não precisa chavear. Aqui todo mundo trabalha junto e na confiança".

Grupo fechado é bem o tipo de ambiente que o jornalista sempre procurou construir. Como todas as pessoas, Trajano é reflexo da mistura de sua personalidade com as experiências vividas. A idade pode ser um problema em vários aspectos, mas também tem suas vantagens. A experiência ajuda a fazer escolhas melhores. Seja nas companhias, ou nas coisas que desejamos fazer.

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