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Tânia Ferreira deve ir a Mundiais de judô e luta

Atleta, que concilia quimono e 'macacão', está garantida no Mundial de judô, no Egito, é favorita para ficar com uma das vagas do país no Mundial de luta, na Hungria, e deverá se desdobrar para estar nos dois torneios, ambas marcadas para setembro deste ano

Murilo Garavello
Em São Paulo



Arquivo/Folha Imagem
Tânia Ferreira lutou na Olimpíada de Sydney-2000 como judoca


Rio de Janeiro, 2001. Menos de um ano após a eliminação na segunda luta na Olimpíada de Sydney-2000, a judoca santista Tânia Ferreira conversa com um amigo do Flamengo e lamenta a dificuldade de se esquivar do ataque a suas pernas -estratégia predileta das rivais que notavam a principal vulnerabilidade da judoca, alta e magra. O amigo logo percebe que o antídoto estava em posturas e movimentos da luta olímpica. E indica a Tânia um professor da modalidade.

Interessada em melhorar seu judô, Tânia procura Jefferson Teixeira, especialista então vinculado à Universidade Gama Filho. Aprende os primeiros golpes e passa a gostar dos treinos da modalidade. No mesmo ano, disputa o Campeonato Brasileiro de luta. E vence. "À primeira vista vi que ela seria muito boa", afirma Teixeira. "Ela é dedicada, ouve bastante, tenta entender os detalhes. Depois descobri que é realmente uma aluna exemplar: treina forte, é disciplinada, nunca reclama, nunca dá qualquer problema".

TÂNIA FERREIRA

Nome: Tânia Cristina dos Santos Ferreira
Data de nascimento: 17/7/1974
Local: Santos (SP)
Altura: 1,68 m
Peso: 57 kg
Principais feitos no judô:
-Bronze nos Jogos Pan-Americanos (2003)
-Bronze no Campeonato Pan-Americano (2003)
-Ouro nos Jogos Sul-Americanos (2002)
-Tetracampeã Sul-Americana (1994, 95, 97 e 2000)
-Prata no Torneio da Áustria (2002)
-Bronze no Torneio de Varsóvia (2002)
-Bronze no Torneio de Praga (2002)
-Foi à Olimpíada de Sydney-2000
Principais feitos na luta livre:
-Campeã da Copa de luta olímpica de praia (Rio de Janeiro - maio de 2005)
-Duas vezes campeã brasileira (2001 e 2005)
-Um vice brasileiro (2002)
-Terceiro lugar no Pan-Americano em 2005
São Paulo, 2005. Olhos fixos, rosto impassível, concentração extrema. É Tânia Ferreira, de quimono, a poucos minutos do início da luta contra Danielle Zangrando. Em jogo, uma vaga no Mundial de judô deste ano. As duas rivais se conhecem bastante: há anos se revezam no posto de titular da seleção na categoria leve. Após uma luta "travada", estudada, que vai ao tempo extra -chamado no judô de "golden score"- Tânia consegue aplicar um golpe em Danielle. Os árbitros confirmam: ela venceu a luta e também a seletiva. Está classificada para o Mundial. "Justiça! Estou de volta!", berra Tânia Ferreira.

Nos quatro anos que separam os fatos acima expostos, Tânia viveu altos e baixos. Em 2003, titular da seleção, passou meses em estágio de treinamento em Havana, aprendendo fundamentos da premiada escola cubana de judô. Em Cuba, as alusões constantes a suas "piernas flaquitas" (pernas magras) fizeram com que passasse a ser chamada por este apelido em seus tempos na ilha. Em seguida, ganhou a medalha de bronze no Pan-Americano de Santo Domingo-2003 e teve participação apagada no Mundial, um mês depois.

Após um 2003 movimentado, Tânia colecionou problemas em 2004. Logo no início do ano, já contundida, perdeu a seletiva -e o posto de titular da seleção brasileira- para Danielle Zangrando. Pouco depois, submeteu-se a duas cirurgias: uma no joelho direito, outra no ombro esquerdo. Enquanto os ex-companheiros de seleção se preparavam para a Olimpíada de Atenas-2004, ela se recuperava das contusões, em silêncio.

Recuperada, Tânia decidiu apostar mais na luta -que estava em um segundo plano entre suas prioridades desde 2003. Afinal, nessa modalidade, pouco divulgada no país e que estreou em Olimpíadas apenas em Atenas-2004, não há concorrência tão forte: as chances de obter resultados de expressão -inclusive no Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro-, pareciam -e são- mais concretas. Ao mesmo tempo, entretanto, a santista não quis deixar de lado seu esporte de origem. Dividiu suas fichas nas duas apostas.

E o plano tem dado certo. Neste ano, conquistou o Brasileiro de luta livre pela segunda vez e foi 3ª colocada no Pan-Americano -competição em que o Brasil obteve 12 medalhas, pulverizando a melhor marca anterior, de três. De quebra, sagrou-se também campeã da primeira Copa de Beach Wrestling -isso mesmo, luta livre na areia-, no Rio de Janeiro. Tal desempenho faz Tânia julgar-se classificada para o Mundial de luta, que tem início na Hungria em 26 de setembro -exatos 15 dias depois do fim do Mundial de judô, que começará no dia 8 do mesmo mês no Egito.

LUTA LIVRE x JUDÔ
Diferenças, por Tânia Ferreira:
"Na luta, não há quimono, você usa uma malha, chamada vulgarmente de macacão. Ao contrário do judô, não há finalização, chave de braço nem estrangulamento. Não existe finalizar. Assim como no judô, o objetivo principal é colocar adversário com costas no chão, mas, na luta, você tem de fazer adversário encostar os dois ombros no chão e segurá-lo nessa posição por cinco segundos. No judô, basta aplicar um golpe em que o judoca caia de costas.

"Como na luta não há quimono, muda o eixo da força que você tem de aplicar. Na luta, tem de ficar mais abaixada, tem de concentrar a força na perna e na região lombar. No judô, a coluna fica ereta; na luta, você fica com a coluna bem abaixadinha.

Na luta, você precisa de mais força física, mas em compensação, no judô você está mais susceptível a lesões por causa do pano. É comum o dedo ou a mão se enroscar no quimono e você torce, luxa.
"Se for alguém da minha categoria, irei eu", diz Tânia. "Só preciso esperar para ver quais categorias a confederação (CBLA - Confederação Brasileira de Lutas Associadas) irá levar para o Mundial", revela. Entretanto, Pedro Gama Filho, diretor da CBLA, diz que a judoca-lutadora não está garantida na competição húngara, apesar de fazer elogios a ela. "A Tânia, a princípio, é nossa titular. Mas ainda estamos estudando a possibilidade de fazer um campeonato nacional em setembro que servirá como indicativo para escolhermos quem vai viajar".

Gama Gilho explica que a CBLA enviará, ao menos, cinco lutadores para o Mundial -com verbas públicas da Lei Piva. Outros cinco brasileiros dependem da obtenção de um patrocínio. "Nosso plano é priorizar o feminino. Como só começou a valer medalhas olímpicas no ano passado, nossa lacuna é bem menor", explica o dirigente, para em seguida afirmar que Tânia é uma das mais fortes candidatas à vaga. "Ela está sobrando na categoria dela. Agora, se surgir uma nova menina muito boa, podemos substituí-la. Mas ela tem a seu favor a enorme experiência internacional, que permite a ela manter-se muito calma quando está lutando".

Para o técnico Jefferson Teixeira, apenas uma lutadora tem condições de atrapalhar os planos de Tânia. "A Tânia está perto de conquistar uma medalha de ouro no próximo Pan-Americano. Tá se dedicando muito, tá estudando, é uma batalhadora e está um nível acima da concorrência aqui do Brasil. A única menina que vejo que pode ganhar dela é a Gisele, da Gama Filho, mas eu sou mais a Tânia", diz o mestre, que vê a judoca em "constante progressão" na luta livre.

E o judô? Melhorou com a luta livre? "Melhorou muito", responde a técnica de judô de Tânia, Rosicléia Campos, do Flamengo, que conhece a judoca "desde menina". "No Leste Europeu, é normal os judocas realizarem esse tipo de luta como complemento. Porque realmente é positivo: a Tânia entrou para aprender a se defender da catada de perna e aprendeu muito, aprendeu até a jogar a adversária pela perna. Creio que será um ótimo diferencial para ela no Mundial deste ano", diz Rosicléia.

"Acho que uma coisa só complementa à outra, principalmente porque a Tânia é muito disciplinada e determinada. Ela faz judô todos os dias, faz preparação física e ainda luta. É um conjunto muito forte", opina a treinadora, responsável também pelo condicionamento físico da pupila. Rosicléia não teme nem o desgaste que Tânia enfrentará no caso de realizar dois Mundiais no mesmo mês. "Desgaste nada, será ótimo. Não vai atrapalhar nada. O que poderia ser um problema, o psicológico, não vai ser, porque a Tânia está com uma cabeça ótima e mostrou isso na seletiva".

Além de participar dos dois mundiais, Tânia tem o sonho de disputar medalhas tanto no judô quanto na luta no Pan de 2007, no Rio de Janeiro. Ao menos na parte burocrática, a atleta não deverá ter problemas. Por meio de sua assessoria de imprensa, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) informou ao UOL Esporte que não há qualquer restrição à participação de um atleta em duas modalidades diferentes, "desde que os calendários não coincidam". Nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo-2003 e nas Olimpíadas de Atenas-2004, as disputas de luta e de judô não foram nas mesmas datas.

"Vou continuar com os dois esportes até onde der. Nos Jogos Abertos deste ano vou disputar os dois por São Bernardo", revela a lutadora, que treina judô todos os dias da semana e dedica à luta três sessões semanais de três horas -não incluída na conta a preparação física. E a constante troca de quimono para macacão não confunde a atleta? "Nunca confundi", ri Tânia. "O que tento é sempre adaptar à luta coisas que eu faço no judô".

Publicado em 24 de junho de 2005




Na luta, você precisa de mais força física, mas em compensação, no judô você está mais susceptível a lesões por causa do pano. É comum o dedo ou a mão se enroscar no quimono e você acaba com torções e luxações
Tânia Ferreira




15

dias separam o fim do Mundial de judô, no Egito, do início do Mundial de luta, na Hungria




Funcionária pública
Além de judô e luta livre, Tânia Ferreira se dedica também aos estudos. Quer fazer concurso público. "Qualquer um", conta.