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Outro lado do mito revela Scheidt caseiro e família

Apaixonado pelos sobrinhos e pelo tênis, heptacampeão conta com estrutura familiar sólida e crença em superstições para se tornar o atleta mais vitorioso da história do esporte brasileiro. Jeitão "tranquilo" e presentinhos de free shop garantem popularidade dentro da família

Murilo Garavello e Vicente Toledo Jr.
Em São Paulo



Arquivo
Scheidt ao lado do pai Fritz



Pete Sampras em Wimbledon. Michael Schumacher na Fórmula 1. Tiger Woods no golfe. Poucos são os exemplos no esporte mundial em que um atleta domina tanto sua modalidade como faz Robert Scheidt na classe Laser. Nesta quarta-feira, o brasileiro obteve em Bodrum (Turquia) seu sétimo título em um Campeonato Mundial.

Esportista mais vitorioso da história do país, em seu cotidiano Robert Scheidt é um "cara normal", como define genericamente o pai, Fritz, 65. "Ele leva as coisas a sério, mas é brincalhão, se diverte. Quando não está competindo, vai aos 'bailinhos' dele, dorme tarde"

"Eu sou um cara bem tranqüilo. Não sou muito de sair à noite. Apesar de gostar de sair de vez em quando, sou mais para caseiro. Curto acordar cedo e aproveitar pra caramba o dia", define o próprio Scheidt.

Ao menos dois elementos são fundamentais para entender a personalidade de Scheidt: o amor ao esporte -não apenas à vela- e a proximidade da família. Foi o pai quem o introduziu na modalidade, na represa de Guarapiranga (São Paulo), quando Robert tinha nove anos.

"Meu início no esporte teve tudo a ver com a minha família. Meu pai já tinha uma formação esportiva bastante ampla e fez questão de mostrar vários esportes para mim e para meus irmãos. E um deles foi a vela", conta o heptacampeão. A mãe, Karin, esteve a seu lado em todas as viagens ao exterior até que completasse 18 anos. "Ela é minha eterna secretária, sempre organiza tudo", diz Scheidt.

Arquivo
Com a irmã Carla e os sobrinhos

Até os 22, o velejador contou com dinheiro dos pais para competir e se sustentar -a medalha de ouro no Pan-Americano de Mar del Plata-1995 atraiu a atenção da mídia e os primeiros patrocinadores consistentes, que permitiram a ele abrir mão do "paitrocínio". A ajuda financeira, porém, não foi a única contribuição dos Scheidt na formação do jovem campeão.

"Meu pai sempre me falava que quanto mais vento melhor. No primeiro dia que veio uma tempestade, o pessoal todo voltou para o clube correndo, e eu lembrei disso. Meu barco virou, eu desvirei, tirei a água e continuei velejando no temporal. Isso ficou muito marcado para mim porque me tornei um velejador bom em ventos mais fortes por ter quebrado esse medo", revela.

Hoje, aos 30 anos, Scheidt, de certa forma, retribui. Após suas viagens ao exterior, é comum o velejador trazer consigo garrafas de vinho -para o pai-, roupas e jóias -para a mãe-, lembrancinhas para os irmãos e sobrinhos. "É um cara com quem tenho uma relação de amizade. Jogamos tênis, mergulhamos, andamos de lancha juntos. Sempre velejamos, mas agora estou um pouco velho para isso", conta Fritz. "Sempre que pode ele se junta a nós nos fins de semana. Vamos ao iate clube, à praia, ele brinca com os sobrinhos (Julie, 11, Nick, 10, e Alexia, 8 -filhos da irmã, Carla, 38, que é desenhista industrial)".

O outro dos "pilares" de Scheidt é o esporte, paixão alimentada pelos pais desde os quatro anos, quando começou a praticar atletismo e natação no Banespa. "Ele era um garoto esperto. Acabava a obrigação dele rapidinho: em meia hora já tinha feito a lição de casa. E ia direto pro clube. Não perdia tempo com televisão, jogos eletrônicos ou de computador", recorda Fritz.

Na transição da infância para a adolescência, praticou no Pinheiros -tradicional clube paulistano- esgrima, vôlei, basquete e tênis, modalidade que o velejador cortejou entusiasmado antes de optar pela vela. No Pan de Santo Domingo-2003, a pedido de uma emissora brasileira de TV, Scheidt bateu bola com Fernando Meligeni. Quem assistiu garante que o heptacampeão mundial de vela é talentoso também com a raquete nas mãos.

"Eu jogava tênis e velejava, nenhum dos dois eu fazia bem ainda, mas eu fazia os dois. Meu técnico de tênis reclamava que eu não estava indo para os torneios, e aqui no clube de vela o pessoal reclamava que eu não estava indo para todas as competições. Chegou um momento em que tive que optar. Talvez eu até melhorasse meu jogo, mas não chegaria a ser um grande tenista", explica.

Folha
Receita: vela até nas folgas

Hoje, quando não está velejando, Scheidt segue dando suas raquetadas. Mas não é só. "Gosto muito de mountain bike e natação, acredito que esses esportes também ajudam no meu treinamento", revela o brasileiro que, curiosamente, até há pouco tinha enjôos no mar. "Ultimamente, isso passou. Mas sigo competindo com um emplastro na orelha, por via das dúvidas".

Mesmo nas horas vagas, porém, o atleta não se afasta da grande paixão. Quando quer relaxar, "foge" para Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, cidade considerada a capital da vela no país. "A vela está tão arraigada na minha vida que, quando chega um fim de semana em que eu não vou treinar, costumo ir para Ilhabela, pegar meu windsurfe e velejar", conta. "Sinto muita harmonia lá, vou nadar, pedalar, pescar, mergulhar. Antes da Olimpíada quero dar umas fugidas para lá para espairecer um pouco", completa.

Durante as competições, Scheidt tem uma companheira inseparável: a superstição. Não compete se estiver sem seu crucifixo e a correntinha que o acompanha. Na Olimpíada de Atlanta-1996, o técnico Claudio Biekarck teve de usar fio dental, à noite, para fazer um remendo ao utensílio recém-quebrado. Correntinha e crucifixo no pescoço, o brasileiro acabou com a medalha de ouro na competição.

Scheidt tem outros dois amuletos principais: uma viseira e um cavalinho, peça de jogo de xadrez -modalidade que aprendeu com a mãe-, que encontrou quando passeava ao lado do pai em Florianópolis. "Guardamos o cavalinho de lembrança. Aí começamos a brincar que ele dava sorte. E tanto ele foi dando sorte mesmo que o Robert carrega ele até hoje para onde vai", diz Fritz.

Apesar de, teoricamente, ainda ter muito tempo de vela pela frente, Scheidt terá diversas opções para seu futuro. Em 1996, além de ser ouro na Olimpíada, formou-se em administração de empresas pelo Mackenzie. Fala fluentemente inglês e alemão. Se comunica muito bem em espanhol.

"Ainda não tenho nada concreto, mas é claro que uma proposta para abrir um negócio pode surgir nos próximos anos. Seria legal fazer alguma coisa ligada ao esporte, talvez alguma coisa na área de marketing esportivo, que é mais ou menos a minha formação", especula Scheidt, para quem falar sobre aposentadoria ainda é um exercício de futurologia.

"Quero continuar velejando por um bom tempo ainda. A vela tem esse lado positivo que é você poder ter uma carreira longa. Enquanto eu puder, tiver apoio e conseguir ser competitivo, eu vou continuar", promete o heptacampeão. O esporte brasileiro agradece.

Publicado em 19 de maio de 2004





Não se pode ganhar sempre, isso a gente tem que aprender com o esporte. Às vezes a coisa pende para o seu lado, às vezes não. O importante é nunca desistir, esse sempre foi meu lema. Só ganhei tanto no esporte porque nunca tive medo de perder

Robert Scheidt




107

é o total de títulos de Robert Scheidt na carreira





Enfim, o hepta
Depois de perder o Mundial de 2003 na última regata, Scheidt aprendeu a lição e não deixou o título escapar em 2004.



Nunca fiz esporte para ter sucesso, para ser um cara famoso, isso nunca foi o meu objetivo. Meu objetivo sempre foi velejar, que é o meu grande prazer, e ir atrás de desafios, superar limites, ganhar torneios, quebrar recordes de números de vitórias, de números de títulos mundiais, isso sempre foi o meu combustível

Robert Scheidt
Principais Conquistas

(clique nas fotos para ver o álbum)

1991
• Campeão mundial júnior
• Campeão paulista*

1992
• Campeão brasileiro
• Campeão sul-americano júnior
• Campeão sul-americano

1993
• Bicampeão sul-americano

1994
• Bicampeão brasileiro
• Campeão paulista
• Tricampeão sul-americano

1995
• Campeão mundial
• Tricampeão brasileiro
• Bicampeão paulista
• Campeão pan-americano

1996
• Campeão olímpico
• Tricampeão paulista
• Bicampeão mundial
• Campeão da Semana de Spa (Holanda)

1997
• Tricampeão mundial
• Tetracampeão sul-americano
• Tetracampeão paulista
• Bicampeão da Semana de Spa (Holanda)

1998
• Tetracampeão brasileiro
• Tricampeão da Semana de Spa (Holanda)

1999
• Vice-campeão mundial
• Pentacampeão brasileiro
• Bicampeão pan-americano
• Pentacampeão paulista
• Campeão da Semana de Kiel (Alemanha)

2000
• Tetracampeão mundial
• Hexacampeão paulista
• Medalha de prata na Olimpíada de Sydney
• Hexacampeão brasileiro
• Bicampeão da Semana de Kiel (Alemanha)

2001
• Pentacampeão mundial
• Campeão sul-americano
• Heptacampeão brasileiro

2002
• Hexacampeão mundial
• Octacampeão brasileiro
• Tetracampeão da Semana de Vela de Spa (Holanda)

2003
• Campeão da Semana de Vela de Medemblik (Holanda)
• Tricampeão pan-americano
• Heptacampeão paulista
• Campeão brasileiro pela 9ª vez

2004
• Campeão brasileiro pela 10ª vez
• Campeão da Semana Olímpica de Hyéres (França)
• Hexacampeão sul-americano
• Heptacampeão mundial

*título na classe Finn; os demais foram na Laser