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Briga, sustos e vida no Havaí: campeão do "Oscar" do surfe abre o jogo

Sofie Louca/WSL
Yuri Soledade na maior onda da temporada Imagem: Sofie Louca/WSL

Guilherme Dorini

Em colaboração para o UOL, em São Paulo

25/05/2016 07h00

Depois de ver o esporte explodir no Brasil com as conquistas de Gabriel Medina e Adriano de Souza na modalidade tradicional, o surfe de ondas gigantes espera seguir as mesmas remadas para alcançar seu “lugar ao sol” no país. Um dos ícones de uma das melhores gerações brasileiras de todos os tempos, Yuri Soledade, baiano radicado no Havaí, venceu no mês passado o prêmio da maior onda da temporada no XXL Big Wave Awards, conhecido como “Oscar” do surfe, e contou com exclusividade ao UOL Esporte sobre o significado desta conquista.

Além de lembrar detalhadamente daquele dia, quando pegou a onda de sua vida em Jaws, registrada oficialmente com 22 metros, Yuri analisou a evolução do surfe nos últimos 20 anos, os sustos que já passou dentro e fora do mar, inclusive combatendo o famoso localismo havaiano, e ainda contou sobre sua vida na ilha de Maui, sua casa desde 1994, onde se divide entre o esporte, a família e os negócios.

UOL ESPORTE: Você lembra exatamente daquele dia em que pegou a maior onda da temporada?

Yuri Soledade: Lembro sim. Na verdade, essa onda é uma coisa que vai ficar marcada para o resto da minha vida. Foi um swell (ondulação) quase que no final da temporada, no dia 25 de fevereiro, quando estava rolando o Eddie Aikau... Por isso muitos dos caras que não são de Maui, estavam lá no Eddie ou em outros lugares. Acabou sendo uma sessão só da galera local mesmo. Foi um dia especial. O mar estava em condições bem extremas, previsão era de ter um vento forte, mas o vento até que não entrou, tinha um ventinho, mas nada comparado com o normal. Foi minha primeira onda do dia, logo cedo, sol ainda estava raiando, e estava até um pouco tenebroso, meio escuro, fica um pouco cabuloso. Foi emocionante estar naquele mar, ver aquelas ondas. Mora aqui há mais de 20 anos e nunca tinha visto um mar daquele, foram as maiores ondas desses últimos 20 anos.

WSL
Yuri Soledade ganhou o prêmio de maior onda da temporada Imagem: WSL

Como estava o mar?

No momento que estava no outside, entrou a série, e eu estava meio que me preparando ainda. Senti que a alça da minha prancha estava meio solta e fui parar um pouco para consertar. Nesse momento, o meu parceiro falou que estava vindo uma série e que era para eu me preparar. Acabou que nem deu tempo de arrumar a alça. Veio a primeira onda da série e pensei: ‘não quero ir na primeira’, já que nunca sabemos o que vem atrás. Aí veio a segunda, e ele me disse que era essa, mas, por algum motivo, eu tive o sentimento que viria uma terceira. Demos a volta e, quando veio, foi algo inacreditável, algo que nunca tinha visto em Jaws. Normalmente, a onde tem um pico e ela quebra e vai diminuindo, como um triângulo. Essa não, ela veio fechando a baía inteira de Jaws, de ponta a ponta, estava gigante. Sabia que seria uma onda extraordinária, fiz a onda e quando cheguei ao canal estava todo mundo delirando, gritando, comemorando. Já sabiam o que eu tinha feito.

Naquele dia, a maior parte dos surfistas estava em Mavericks e você optou por ficar em Jaws. Por que dessa escolha?

Sou apaixonado pela onda de Jaws. Desde que surfei lá a primeira vez, fiz um pacto comigo mesmo de tentar estar em Jaws toda vez que quebra. Quando vi o swell, sabia que seria especial. Sabia que seria um dia extraordinário, nem passou pela minha cabeça sair daqui. Realmente foi um dia que esperei por esses 20 anos de Havaí.

O Brasil viveu um ‘boom’ do surfe com as conquistas de Medina e Mineirinho. No entanto, os brasileiros que surfam ondas gigantes ainda são um pouco desconhecidos do público geral. Como você vê isso?

Ainda é um esporte que está crescendo. Nunca tivemos o apoio da mídia, nem os campeonatos para que as pessoas possam acompanhar. Sempre foi uma coisa de sentimento, não tinha um acompanhamento. Isso tudo começou a mudar. O futuro é bem promissor, as futuras gerações de surfe de ondas grandes vão ter um respeito. Começou a ser mais divulgado, agora com a Liga Mundial de Surfe (WSL, em Inglês) comprando o Big Wave Tour, acho que a tendência é só melhorar. Espero que no futuro o pessoal seja tão bem valorizado quanto o atleta do Circuito Mundial de Surfe (WCT).

Acredita que um dia a galera das ondas gigantes atingirá esse nível?

Acho que sim. Acho que os atletas de ondas grandes vão, sim, chegar, talvez não no mesmo nível, porque dependemos da mãe natureza para que os eventos aconteçam, mas acho que, aos poucos, até com o apoio da mídia, empresas até de fora do segmento venham investir nesses atletas e divulguem cada vez mais. Espero que seja o pontapé inicial, para que no futuro o surfe de onda grande seja tão famoso quanto o WCT.

Bryan Berkowitz/WSL
Onda surfada por Yuri foi registrada oficialmente com 22 metros de altura Imagem: Bryan Berkowitz/WSL

Dá para ganhar dinheiro surfando ondas gigantes?

Yuri Soledade: Até o momento, o surfe de ondas grandes não dá dinheiro. É um esporte muito caro: as pranchas são bem mais caras que as normais, existe toda uma equipe por trás... Cada sessão de surfe é muito cara. Cada prancha, por exemplo, é mil dólares. Tem sessão que quebro duas pranchas em um dia só... Fora que precisa ter uma equipe de apoio. Há três anos achava que nós éramos invencíveis, que entravamos no mar e nada ia acontecer. Mas sofri alguns acidentes que poderiam ter sido facilmente evitados com uma equipe. Precisa acompanhar os swells, comprar passagem de última hora, alimentação, preparo... Tudo isso tem um custo. O dinheiro dos patrocinadores e dos campeonatos ainda não pagam isso, mas fazemos por paixão, independente de ganhar alguma coisa ou não. Enquanto eu puder, estarei lá. É o que me faz feliz.

Hoje, então, é só com equipe de segurança?

Yuri Soledade: Sim, depois desse dia, resolvi que todas às vezes eu ia ter um jet-ski de apoio. Com isso, o custo encareceu bastante, você precisa pagar mais uma pessoa, mais 500 dólares. Nos últimos dois anos, com uma posição financeira melhor, sempre investi para mim e meus amigos também. No último ano, meu filho mais velho começou a gostar disso e ele rapidamente virou um dos melhores seguranças na água. Então consigo economizar um pouco com isso, ele faz nossa segurança. Mas, mesmo assim, é muito caro.

Instagram/Reprodução
Kaipo, filho mais velho, ajuda na segurança de Yuri dentro do mar Imagem: Instagram/Reprodução

Já levou muitos sustos no mar?

Antigamente era problemático. A gente entrava no mar sem segurança, sem resgate, colete inflável, flutuador, nada... Era muito mais complicado. Uma vez, estava pegando onda em Jaws e acabei caindo e tomei quase 50 ondas na cabeça, fui expulso do mar, esgotado, cuspindo sangue, todo destruído. Depois disso, prometi para mim mesmo que nunca mais ia sem essa segurança. As marcas e atletas se juntaram e criamos métodos para ajudar na segurança. Nem acredito como fazíamos aquilo no passado sem ter nada disso. Era coisa de maluco. Olhando para trás, vimos que nossa vontade superava essa escassez de equipamentos, mas realmente era uma coisa de maluco. Não sei como a galera está viva para contar história. Só lamento alguns atletas que acabaram morrendo puxando os limites, porque não existia esses equipamentos.

Já sofreu muito com lesão...

Já tive minha cota grande de lesões. Tive várias. A última foi a costela quebrada, que foi muito dolorosa. Já quebrei o maxilar de quase apagar no mar, em Jaws... E teve a da perna, né? Foi muito séria e levou muito tempo para me recuperar. Estava na California e acabei, em um dia pequeno, dando um aéreo, caí de mau jeito e quebrei a perna em dois lugares.

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Yuri já sofreu com muitas lesões Imagem: Instagram/Reprodução

E vale a pena?

Essa fratura foi a mais difícil, quase seis meses para voltar a surfar. Esse ano foi difícil, três lesões, uma trás da outra. Mas sempre vale a pena, isso faz parte, acabamos aprendendo com isso. Serve para nos cuidarmos mais, treinar mais e não dar chance ao azar.

Consegue se bancar com dinheiro de patrocínio?

Meu patrocinador é uma marca da Bahia, de um amigo meu que me apoia desde quando eu era criança, com 13 anos. O apoio não cobre o custo de poder viajar, mas eu tenho o maior orgulho de representar a Mahalo, não só pelo que fazem agora, mas pelo que fizeram no passado. Sem retorno de mídia, é difícil justificar um investimento. Agora, com esse meu prêmio, as coisas podem melhorar.

Você disputou uma etapa do mundial na temporada passada. Como foi?

Fui agraciado com essa vaga para participar do campeonato da WSL em Jaws. Eles analisaram todos os atletas que surfaram na temporada passada, e teria essa vaga de “reserva”. Foi um ano que me dei super bem e acabei sendo escolhido. Durante o evento surgiu a vaga, o Kelly (Slater) acabou faltando e eu era o primeiro para entrar. Foi uma experiência muito boa.

Kelly Cestari/WSL
Surfe de ondas grandes desafia competidores Imagem: Kelly Cestari/WSL

Pensa em disputar mais campeonatos?

Adoraria fazer parte dos campeonatos e de ter essa vaga permanente em Jaws. Agora é esperar, não tive o resultado que esperava no ano passado, me machuquei na primeira onda. Fiz meu melhor, ficaram satisfeitos comigo, fiquei em quarto na bateria, perdi por muito pouco. Foi até meio controverso o campeonato, mas tudo bem. Estou esperando mais oportunidades.

Como foi produzir a série "Mad Dogs"?

O documentário Mad Dogs nos ajudou, principalmente para mim e para o Márcio Freire, a divulgar um pouco nossa história. E isso começou abrir portas para a gente, com a mídia. Por muito tempo, até por estarmos fora do cenário de Oahu, dos fotógrafos, sempre fomos um pouco esquecidos pela mídia brasileira e pela mídia em geral. Mas, com o crescimento do surfe de ondas grandes e a nossa série, começaram abrir portas para nós. Foi importantíssimo.

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Danilo Couto, Márcio Freire e Yuri Soledade: os Mad Dogs Imagem: Instagram/Reprodução

Como é sua vida em Maui?

Minha vida em Maui é bem tranquila, normal. Tento conciliar a família, o trabalho e o surfe. Sempre que dá, que tem onda boa, eu tento ir para o mar. O trabalho tem época que me exige mais, ou não. A família, com três filhos, é sempre muito agitada. Ainda bem que moramos em um paraíso, um lugar especial, que facilita ter esse estilo de vida. Agora ainda tento conciliar o treino aos jovens atletas. Cada dia é um dia diferente, cada dia tem um foco diferente. O segredo é viver um dia de cada vez.

Como você divide a rotina como dono de um restaurante e o surfe?

Essa rotina do surfe para conciliar com o trabalho é difícil, mas temos que tentar fazer o melhor. Para mim, o surfe vai sempre vir em primeiro lugar, é o que eu amo. Mas o trabalho é o que paga as contas, que coloca a comida na mesa, pros filhos, pra família. Realmente fica difícil, mas é ver a prioridade do dia. Pode ter certez: quando o mar está gigante, o trabalho fica para trás. Tenho uma equipe gigante, que entende o meu lado, desde minha sócia até os empregados. Eles me ajudam muito.

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Yuri é dono de um restaurante na ilha de Maui Imagem: Instagram/Reprodução

Como funciona a "negociação" para as viagens com a família?

Essa negociação é complicada, não só com minha sócia, mas com a família também (risos). A mulher, os filhos... Nunca sabemos para onde vamos, as decisões são sempre de última hora... É complicado, tem que usar o bom senso e a habilidade de negociação que o brasileiro tem para conseguir convencer todo mundo de que a gente tem que fazer aquela viagem, que vai ser o mar da vida, a melhor sessão da história. Graças a Deus, como eu falei, todo mundo que me acompanha dá o maior apoio e isso me facilita um pouco. O problema é que nessa temporada toda semana tinha esse “swell da vida”, aí complicava um pouco (risos).

Eles te acompanham?

Hoje em dia, sempre que dá, levo minha esposa, meus filhos. Como te falei, meu filho mais velho faz minha segurança de água, facilita um pouco de ter a família por perto. Minha mulher também curte pra caramba, está sempre do lado, me acompanha. Quando dá, ela vai junto, sempre colada nas aventuras.

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Yuri vive com Maria há mais de 20 anos no Havaí Imagem: Instagram/Reprodução

Sofreu muito com o localismo quando chegou ao Havaí?

Localismo é uma coisa que faz parte da cultura deles. Sempre existiu. Eles passam o ano inteiro esperando as ondas boas e, realmente, é difícil para eles assistirem pessoas de fora chegarem e pegarem as melhores ondas. Acho que, aos poucos, estão começando a se conscientizar que a briga não é a melhor forma de resolver, mas as pessoas tem que saber que eles têm a prioridade. No meu caso, sempre tive essa consciência, buscando meu lugar. No início dava prioridade para eles, mas tentei me impor. Eles gostam quando você mostra respeito. A melhor forma é dar respeito para ganhar respeito. O localismo existe e vai continuar existindo, faz parte.

Mas já se envolveu em alguma briga?

Às vezes acontece de vir um folgado querendo tirar proveito da situação. Comigo não foi diferente, rolaram algumas vezes, tive que me impor e isso gera brigas. Teve uma vez que briguei com um cara. Sempre tive uma base do jiu-jítsu e isso deu uma certa confiança. Teve uma vez que um cara me chamou para porrada na praia, a gente ficou rolando na areia, a praia toda observando, mas não foi nada demais. Me impus pelo jiu-jítsu, me ajudou bastante no início.

Você está na história do surfe. Qual o próximo passo?

O sonho é continuar a pegar essas ondas, até em uma idade mais avançada e ajudar as novas gerações. Plantamos uma semente, mostrando que era possível. Temos que continuar mostrando e dando valor sobre o que é ter esse privilégio de pegar essas ondas grandes. Os Mad Dogs plantaram essa semente, agora é dar continuidade para isso. Tem alguns picos que ainda estão inexplorados, já estamos pesquisando e, no futuro, vamos tentar pegar essas ondas.

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