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Fabiano de Paula, da Rocinha para o circuito mundial de tênis

EFE/EPA/PETER SCHNEIDER
Fabiano em ação na Suíça em seu primeiro campeonato de primeiro nível no circuito mundial de tênis Imagem: EFE/EPA/PETER SCHNEIDER

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

19/09/2014 06h00

O tênis permitiu que Fabiano de Paula, 25 anos, conhecesse realidades bem diferentes do local onde nasceu. Morador da maior favela do mundo, a Rocinha no Rio de Janeiro, em julho ele esteve em Gstaad, cidade nos alpes suíços, para disputar um campeonato. Foi a estreia nos torneios de primeiro nível do circuito mundial.

A distância entre os dois locais faz parecer que ambos estão em mundos distintos. Nas encostas de morro da Rocinha destacam-se manchas laranja desbotado, resultado da ação do tempo nas casas sem reboco. Há ainda centenas de pontos azuis, são caixas d’agua que disputam os telhados com as antenas de TV/gato.

Gstaad também está entre montanhas, mas sem mar nas proximidades. O encanto é garantido pelas casas elegantes que nem de perto lembram o gosto extravagante dos novos ricos ou a falta de alma dos prédios nos grandes centros. Os restaurantes e cafés oferecem requinte e qualidade. Por motivos pessoais e profissionais, Fabiano adorou conhecer o lugar que sedia um tradicional campeonato de tênis.

Foi em Gstaad que o jogador disputou o primeiro ATP 250 da carreira, ou seja, fez a estreia em torneios de primeira linha do circuito. Uma conquista sem dúvidas, mas bem diferente do sonho de infância. Na década de 1990 ele caminhava pelas ruelas da Rocinha imaginando os gols que faria como atacante do Flamengo.

Mas nestes dias a vida tinha seus percalços. Há 12 anos, diferentes líderes do Comando Vermelho travavam uma guerra pelo domínio da Rocinha. Fabiano estava na rua perto da meia-noite, quando um tiroteio começou. O então adolescente correu para dentro de um bar e se jogou no chão.

Foram cinco horas deitado torcendo para não ser encontrado por uma bala perdida. Também temia que criminosos invadissem o estabelecimento e metralhassem todo mundo.Mas a violência do tráfico não era novidade para ele.

O tenista cresceu em um ambiente que tinha gente andando com armas e vendendo drogas. Fabiano conta que mais de um amigo morreu por ter escolhido o caminho errado. Lembra que eles se revezavam entre a cadeia e o crime até serem mortos. Mas o tenista não gosta de falar do assunto. “Essas coisas nem vem ao caso. Coisas de tráfico, não gosto de tocar no assunto”.

Mas se a pergunta for o começo no esporte, ele não tem nenhuma resistência e explica como tudo aconteceu. Assim como outras crianças pobres, Fabiano conheceu o tênis trabalhando de boleiro para ajudar a família. Estudava de manhã e a tarde batia ponto no Hotel Intercontinental. Fazia R$ 3 por hora.

Sobrando um tempinho dava uma brincada e no ano seguinte já era lembrado quando faltava alguém para completar as partidas de duplas dos veteranos. A intimidade com a raquete aumentou aos 14 anos pois se tornou rebatedor dos sócios quem faziam aula no local.

Uma dupla de empresários acreditou nele e integrou Fabiano a uma equipe de competição do Rio. Esperavam estar ajudando a formar um professor de tênis, mas o resultado foi além da expectativa. O tenista terminou o juvenil como número um do Brasil. Parecia que uma carreira estava se abrindo, mas dois empecilhos fizeram o sonho virar pó: não ter patrocínio e o Exército Brasileiro atravessar o caminho.

Chegava a idade do serviço militar e ser escolhido representaria um tremendo atraso para um atleta juvenil. Não adiantou escrever cartas aos superiores, pedir para falar com os oficiais, levar DVDs ou matérias de jornal. Durante um ano o tenista virou soldado.

Se quando estava nas cabeças do ranking brasileiro já era difícil conseguir patrocínio, depois de um ano parado não houve jeito. Fabiano precisou trabalhar dois anos como professor de tênis para se sustentar. O retorno às competições ocorreu somente aos 21 anos.

Disputava torneios Future, a porta de entrada para o circuito e que tem premiação que não chega aos cinco dígitos. Bem sucedido, ascendeu aos Challengers, uma espécie de Série B do circuito profissional. Os resultados colocaram Fabiano como número 212 do mundo.

O ranking sofreu uma queda e hoje é o 385º do circuito. Mas o tenista acredita que chegará ao top 50 e para isso confia muito nas pernas. Por não tem a altura dos grandes sacadores, trabalha muito para sempre devolver uma bola a mais e assim quebrar a resistência do adversário.

Fabiano tem certeza que a escalada no circuito é questão de tempo. Justifica que foi forjado na dificuldade e com a personalidade que construiu não vai deixar cavalo passar encilhado. Se transformar os planos em realidade promete que o pai, a mãe, a irmã e o sobrinho vão mudar de CEP. Todos moram com o tenista na Rocinha e a primeira providenciar será comprar uma casa nova melhor.

Hoje a grana está só empatando, mas o dia em que viajar à Suíça for rotina ele vai estar habituado aos dois mundos. Promete não esquecer o que passou e devolver o auxílio recebido apoiando instituições que ajudam jovens.

 

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