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Há 18 anos Guga foi zebra, venceu Roland Garros e impressionou o tênis

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

08/06/2015 06h00

Quando ganhava torneios juvenis Gustavo Kuerten ligava para dois jornalistas de Santa Catarina, as vezes a cobrar porque o dinheiro era curto, contando suas façanhas e pedindo notinhas. Mas em 8 de junho de 1997 toda a imprensa brasileira corria atrás de informações do novo ídolo nacional, o moleque boa praça que acabara de se tornar campeão de Roland Garros. O feito era inacreditável para um país sem tradição no esporte, como se a Austrália ganhasse a Copa.

No caminho para consagração Guga passou por estrelas do circuito. Ex-número 1 e considerado o rei do saibro da época, Thomas Muster foi o primeiro a cair em partida da terceira rodada. Um desabafo em momento de irritação do austríaco demonstra o nível apresentado pelo brasileiro

“O que é isso? Estou jogando meu melhor tênis e este garoto está me matando. Quem é ele? Um gênio?”, esbravejou Muster no segundo set depois de tomar uma deixadinha.

Ele virou motivo de piada nos vestiários por causa da declaração, mas o tempo comprovou que não se tratava de qualquer garoto. Outro que ficou surpreso foi o jornalista Renato Mauricio Prado, que estava em Paris pelo jornal O Globo. Em um treino ele se espantou com velocidade da bola de Guga e perguntou quem era aquele “Rayovac”, numa brincadeira com o uniforme amarelo chamativo vestido pelo tenista.

Nesta altura os jornalistas brasileiros tentavam descobrir quem era aquele magrelo desengonçado. Bastou saberem do gosto de Kuerten por ondas para o tenista virar o “surfista do saibro”. Com os estrangeiros a situação era ainda pior porque o sobrenome anglo saxão embaralhava tudo para eles.

A fama do brasileiro ficou maior depois das quartas de final diante do temido russo Yevgeny Kafelnikov. Foi o maior desafio na campanha de Roland Garros e considerada a melhor partida do ano. O brasileiro explica na biografia que o adversário, a quem chamava de “café no copo”, era o cara que colocava medo nele.

Por mais que buscasse saídas, ele não conseguia acreditar ter qualidade para bater o então campeão de Paris. No único confronto entre eles Kafelnikov havia vencido fácil e Guga se sentia sem armas para fazer frente.

Ocorre que no jogo contra Muster o catarinense aprendeu a vencer os grandes. Junto com o técnico Larri Passos, estabeleceu uma tática e soube por em prática. Quando precisou de ajustes, acertou na mudança de estratégia. Vitória em cinco sets e o espanto crescia nos vestiários do tênis e na sala de imprensa do complexo de Roland Garros.

Com a vitória, Kuerten foi apontado como favorito para a final por Björn Borg, dono de seis títulos de Roland Garros e que entregaria o troféu naquele ano. O catarinense fez jus a declaração e venceu a decisão contra Sergi Bruguera por 3 sets a 0. Na tribuna de honra da principal quadra de saibro do mundo o príncipe Albert de Mônaco batia palmas em pé para um garoto cabeludo e sorridente.

Principal narrador de tênis na época, Rui Viotti chegou a soluçar no microfone da TV Manchete tamanha a emoção. “Aquilo que nós sempre sonhamos em ver”, disse na ocasião. O ambiente sóbrio do tênis conhecia o jeito brasileiro de comemorar. Os franceses se surpreenderam ao ouvir a batucada na arquibancada que continuou pelo complexo de Roland Garros após a cerimônia de entrega de troféu.

Georges Homsi trabalhou para o jornal L’Équipe e a Federação Francesa de Tênis e mais tarde relatou a surpresa em ver Guga indo ao encontro dos fãs. Ele acredita que este lado humano cativou o público. Treinador do Brasil na Copa Davis na época, Paulo Cleto esteve em Paris para cobrir o torneio deste ano e escreveu em seu blog que considera a reverência de Kuerten a Borg antes de receber o troféu o momento crucial nesta relação de amor com a torcida de Paris.

Usando a camisa amarela, tênis azul e o boné com a aba para trás, Guga teve o cuidado de limpar os pés antes de subir no palco montado para cerimônia. Ao ver Borg, esticou os braços para frente e dobrou o tronco. No discurso, agradeceu à família e ao técnico Larri Passos.

Um novo jeito de jogar no saibro

O título teve implicações financeiras também. Então com 20 anos, o tenista tinha acumulado US$ 280 mil em premiação. Em um único torneio recebeu US$ 644 mil. Na época, Guga imaginava quantos CDs poderia comprar conforme o desempenho nos torneios. Era uma forma de recompensa tirar parte do dinheiro para comprar cinco CDs se chegasse as oitavas, 10 em caso de decisão. Depois daquele domingo esta conta ficou sem sentido

Desde o título de Guga em Roland em 1997, nunca houve uma zebra tão grande no circuito. Goran Ivanisevic também venceu Wimbledon sem ser cabeça de chave em 2001, mas ele já tinha disputado duas finais do torneio. Kuerten chegou sem currículo nenhum e chamou atenção por ser implacável, não perder de véspera porque ia enfrentar adversários renomados. Também ficou marcado por um novo jeito de atuar no saibro.

Os jogadores de sucesso nesta superfície se caracterizavam por alongar os pontos e se viram perdendo para um oponente de estilo agressivo. Guga pegava a bola na subida, o que pode não significar muito para quem não joga. Na prática, a bola quica e é atingida antes de entrar na parte descendente da trajetória. Como viajou menos está mais rápida e difícil de ser controlada. Em compensação, o golpe sai mais potente.

As partidas que costumavam ser um festival de ralis viam um cabeludo metendo winner a torto e a direita. O mais curioso é que o próprio catarinense confessa que ainda não estava preparado para conseguir uma precisão tão grande que permitisse ganhar Roland Garros. Por ser novo e ter o jogo em desenvolvimento, havia falhas.

A temporada de saibro europeia era prova disso e Kuerten obteve um desempenho ruim que fez voltar para Curitiba duas semanas antes de Roland Garros. Escolheu jogar um torneio de segunda linha para ganhar ritmo de jogo e readquirir confiança. Deu tão certo que alcançou um nível que classificou como "150%" da capacidade.

Por este motivo que um enredo de novela sobre Guga em 1997 soaria piegas por tão improvável que foi. Seria a história de uma família que fez sacrifícios financeiros para bancar a carreira de um jovem atleta. Uma mãe que criou três filhos sem o marido porque o pai do catarinense morreu enquanto apitava um jogo de tênis.

Um tenista que ocupava a modesta 66ª posição, bateu ex-campeões, superou seus dramas interiores e voltou para a cidade natal cercado de glórias. O toque final de humanidade é saber que ao chegar em casa, o jogador dava os troféus para Gui, irmão com deficiência e xodó da família.

Guga diz que sua trajetória é o absurdo do absurdo. Faz sentido porque se vão quase 20 anos e não apareceu nenhum esportista como ele num país de 200 milhões de habitantes.

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