Tênis

Andy Murray, porta-voz acidental pela igualdade de gênero no esporte

Da BBC Brasil

20/09/2017 09h27

O tenista britânico Andy Murray cresceu treinando com meninos e meninas e, depois de ter virado profissional, chegou a competir com algumas das melhores tenistas do mundo nas duplas mistas. Recentemente, ele ganhou as manchetes de todo o mundo por conta de uma correção que fez a um jornalista em uma coletiva de imprensa valorizando a conquista das mulheres no esporte.

A série "100 Women" da BBC - projeto anual que traz histórias de mulheres influentes e inspiradoras por todo o mundo - abriu espaço para Murray contar por que decidiu falar sobre (e defender publicamente) a igualdade de gênero no esporte.

Veja o depoimento do tenista:

Eu nunca me propus a ser um porta-voz pela igualdade de gênero.

Mas minha experiência trabalhando com Amélie Mauresmo me fez notar algumas atitudes em relação a mulheres no esporte - porque era pouco comum para um tenista homem ter uma mulher como técnica. Então eu sou sempre fui questionado sobre isso.

Trabalhar com a Amelie era, para mim, uma questão de ela ser a pessoa certa para o trabalho - e não uma questão de gênero. No entanto, ficou claro para mim que ela não era tratada do mesmo jeito que homens na função em outras situações, então comecei a sentir que precisava falar sobre isso.

Desde então, passei a ser questionado sobre igualdade de gênero, e eu acharia difícil olhar nos olhos das melhores tenistas do mundo se não falasse o que penso sobre isso.

As pessoas muitas vezes subestimam o trabalho e o esforço necessários para conseguir ser um tenista profissional. E a ética profissional é a mesma, seja você homem ou mulher.

Você passa horas na musculação, na quadra, na fisioterapia, viajando, estudando os adversários, conversando com sua equipe, cuidando do seu corpo e, claro, fazendo inúmeros sacrifícios.

Qualquer um que tenha passado algum tempo com uma das melhores tenistas do mundo sabe que elas fazem exatamente os mesmos sacrifícios, são tão determinadas e comprometidas com a vitória quanto qualquer outro tenista homem que esteja entre os melhores do mundo.

Quando fui perguntado pela BBC o que achava sobre meninas e meninos jogando tênis juntos até a adolescência, a resposta era muito clara para mim: é uma excelente ideia!

No tênis, o benefício é ainda mais claro, porque temos as disputas em duplas mistas no profissional, então seria uma forma de meninos e meninas já irem se acostumando com a ideia.

Alguns dos jogos mais divertidos que fiz na vida foi jogando em duplas mistas - com Heather Watson e Laura Robson na Hopman Cup na Austrália e nos Jogos Olímpicos. Apesar de talvez elas não dizerem a mesma coisa sobre jogar comigo!

Eu cresci em Dunblane (Escócia), e minha mãe e meu pai sempre me incentivavam a jogar contra meninas no clube da cidade.

Arquivo Pessoal
Andy Murray jovem já envolvido no esporte - ele começou a jogar tênis aos três anos Imagem: Arquivo Pessoal

Eu também costumava jogar com Svetlana Kuznetsova quando treinava em Barcelona. Quando você pratica esportes mistos, isso traz inúmeros benefícios - você faz novas amizades, consegue ter mais confiança e isso também ajuda a economizar dinheiro para escolas e clubes.

Nessa idade, quando a gente é mais novo, o tênis é muito mais sobre desenvolver uma habilidade com a bola, sobre coordenação, e sobre ter um espírito competitivo - não é sobre força ou velocidade. Então não faria sentido, considerando esses objetivos iniciais da modalidade, ensinar meninas e meninos da mesma idade juntos?

Incentivo às meninas

Ter uma mãe que era tão interessada e envolvida no esporte - como a minha era - fez com que sempre parecesse natural para mim que as meninas deveriam ser tão engajadas no esporte quanto os meninos.

Eu sei que não é bem assim e que muitas meninas desistem do esporte na adolescência.

Isso é algo que minha mãe sempre quis mudar. Ela tem um programa chamado "Miss Hits" que ensina meninas o básico do tênis. Atualmente, para cada menina que joga tênis, existem quatro meninos.

Ela está conseguindo avanços, mas ainda é preciso ter mais técnicas no esporte em geral e também é preciso mais apoio ao esporte feminino de elite para conseguir um impacto maior.

Os esportes femininos nunca têm a mesma cobertura de mídia que os masculinos e ainda não há muitas mulheres nas principais funções do esporte - mas as coisas têm evoluído.

O tênis já evoluiu bastante nos últimos 35 anos, desde que o US Open concedeu premiações iguais pela primeira vez para homens e mulheres.

E é ótimo que todos os Grand Slams hoje paguem a mesma premiação para homens e mulheres no tênis. Nenhuma outra modalidade está fazendo tanto quanto o tênis nesta questão e é muito bom fazer parte de um esporte que está na vanguarda nesse sentido. Espero que isso possa coloca uma pressão em outros esportes, para que eles façam o mesmo.

Os Jogos Olímpicos de Londres também foram uma excelente plataforma para os esportes femininos no Reino Unido. Nós tivemos excelentes exemplos, como Jess Ennis-Hill (ouro no heptatlo em 2012) e Nicola Adams (ouro no boxe no mesmo ano), que alcançaram a glória na competição - vai ser muito interessante ver como isso vai inspirar as próximas gerações.

Estamos vendo progressos importantes em outros esportes tradicionalmente dominados pelos homens - o ICC (Conselho Internacional de Críquete) trabalhou arduamente para incentivar mais meninas a jogarem em um nível amador e, claro, o título da Inglaterra na Copa do Mundo da modalidade foi uma conquista importantíssima em termos de visibilidade para o esporte.

O futebol também está evoluindo nesse sentido e é ótimo ver que o futebol feminino está na TV agora.

No rúgbi, foi triste ver a confederação da modalidade encerrar o contrato com a equipe feminina de rúgbi 15 - parece ter sido um passo para trás em um esporte que está claramente crescendo entre as meninas.

Mas espero que nada impeça as mulheres de tentar o esporte se elas tiverem vontade.

Arquivo Pessoal
Andy Murray jogava tênis com meninos e meninas na infância Imagem: Arquivo Pessoal

Inspiração

No Reino Unido, esportes que já são dominados por homens estão começando a investir para melhorar o nível do jogo entre as mulheres para que, assim, as performances se tornem mais atrativas para o público e para a cobertura da mídia. Isso aconteceu por aqui nos últimos anos com o futebol feminino, com o hóquei, o críquete e o rúgbi. Agora, elas estão tendo muito mais exposição - o que é ótimo. Se mais meninas puderem assistir às mulheres competindo em alto nível, isso pode motivá-las a iniciar no esporte de algum jeito.

No geral, acredito que o futuro é positivo. Nós temos mais mulheres no esporte para inspirar as meninas, mais comentaristas mulheres e mais pessoas lutando pelos direitos das mulheres no esporte do que nunca.

As coisas estão caminhando numa direção positiva e eu estou empolgado para ver o futuro em que o campo de jogo seja tenha o mesmo nível e ofereça as mesmas oportunidades para todos.

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