Topo

Tênis

Aposentado, brasileiro campeão de Slam diz "não sentir saudades" do tênis

AFP
Campeão na Austrália há oito anos, Tiago Fernandes chegou a ser número 1 do ranking juvenil Imagem: AFP

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

14/09/2018 04h00

Thiago Wild alcançou um novo status no tênis brasileiro ao vencer no último fim de semana o torneio juvenil do US Open, o último Grand Slam do ano. A conquista de uma competição deste porte, entretanto, está longe de significar uma longa carreira no esporte. Tiago Fernandes, que levantou o troféu no Australian Open de 2010 com apenas 17 anos, atualmente vive uma nova rotina: longe das quadras e sob o anonimato de quem um dia ouviu comparações com Gustavo Kuerten e trabalhou com Larri Passos.

De grande revelação do tênis brasileiro para a vida "comum" de um universitário que se divide entre o curso de engenharia e os estágios, Tiago diz "não sentir nenhuma saudade do circuito".

Hoje aos 25 anos, o alagoano traça um novo plano para a vida. A ideia é abrir uma empresa com os irmãos; somente no tempo livre, o tênis ressurge na rotina, especialmente quando grandes torneios são exibidos na televisão.

Mas, afinal, por quê um atleta que ganhou o Aberto da Austrália e era trabalhado para ser o próximo grande tenista brasileiro desistiu da vida profissional nas quadras? A infelicidade surge como resposta, como Tiago Fernandes contou ao UOL Esporte, após acompanhar o sucesso do xará no US Open desta temporada.

“As probabilidades de retorno pessoal e financeiro que via no tênis nos últimos anos, para o que eu imaginava para o meu futuro, eram desproporcionais a tudo que o tênis exigiu e exigiria. O tênis que se vê na televisão em algumas semanas é bastante distante da realidade de 95% dos jogadores”, justificou Fernandes, agora aluno do nono período de engenharia civil.

“As dificuldades são diversas e inerentes ao esporte individual de alto rendimento que apenas privilegia 60-70 jogadores no mundo, agravadas pelo fato da posição geográfica em que o Brasil se encontra e o bom nível de tênis estar concentrado nos EUA, Europa e Ásia. Isso demanda um esforço pessoal e financeiro maior para os sul-americanos”, acrescentou.

AP
Tiago Fernandes em ação no Australian Open de 2010 Imagem: AP

Há quatro anos longe das quadras, Tiago Fernandes retornou a Maceió para viver próximo à família. A distância dos parentes durante a adolescência influenciou diretamente na formação do ex-tenista como homem; o campeão do Australian Open juvenil de 2010 vivia em Santa Catarina e agora tenta recuperar o tempo perdido no nordeste brasileiro.

“Quando parei não sabia ao certo o que faria em seguida, apenas tinha a certeza que o caminho da minha felicidade não era mais aquele. O que me dá mais prazer hoje em dia é o fato de estar perto das pessoas que amo, tendo em vista que sai de casa aos 14 anos. Eram raros os encontros com a minha família e ainda mais raras as comemorações de datas festivas”, relembra.

O último campeão juvenil de um Grand Slam antes de Thiago Wild olha para trás com orgulho, apesar de todas as dificuldades vividas durante a pequena trajetória no circuito mundial e a aposentadoria precoce com apenas 21 anos.

“Acredito ter trazido uma boa referência para o meu estado [AL] e incentivado crianças a praticar o esporte. Talvez o fim não tenha sido como alguns e até eu mesmo imaginava, mas esta foi a jornada. Só tenho que agradecer de coração a quem me apoiou”, completou Tiago, que pretende dar um tempo maior para a raquete (como forma de lazer) em um futuro próximo.

Lições de quem flertou como ‘novo Guga’ para Thiago Wild

Marcelo Justo/Folhapress
Tiago Passos trabalhou com Larri Passos, treinador de Gustavo Kuerten Imagem: Marcelo Justo/Folhapress

Imediatamente ao título na Austrália, Tiago Fernandes passou a encarar constantes comparações com Gustavo Kuerten, o maior vencedor da modalidade no Brasil. Fora a consagração em um Grand Slam ainda como adolescente, o trabalho direto com Larri Passos potencializava a pauta. Agora é Thiago Wild quem recebe perguntas sobre qualquer mínima semelhança com Guga.

Anos depois de encarar a mudança de patamar e agora com uma visão completamente alheia do circuito mundial, Fernandes acredita no sucesso do compatriota, que vai passar a frequentar torneios profissionais com uma maior frequência a partir da conquista da última semana.

“Conviver com a pressão passa a ser mais um item a ser treinado, com certeza o Wild está cercado de bons profissionais que o ajudará a evoluir com isso nessa transição para o profissional. (...) Cedo ou tarde, o atleta que se destaca vai passar por estas comparações com o Guga”, comentou Fernandes, antes de dar uma última dica ao novo vencedor do tênis brasileiro.

“É ter resiliência e confiança. Não existe uma fórmula mágica [para obter sucesso], cada jogador extrai seu melhor de uma forma diferente. Estando perto de bons profissionais, com certeza essa extração será eficiente”, encerrou.

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!