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Guga diz que tênis não aproveitou seu auge por ganância

Guga em entrevista em Florianópolis - Vinicius Andrade
Guga em entrevista em Florianópolis Imagem: Vinicius Andrade

Rubens Lisboa

Do UOL, em São Paulo

27/05/2019 04h00

O Brasil não aproveitou a Era Guga. Esta é uma das frases mais repetidas quando se analisa o que ocorreu após o sucesso de Gustavo Kuerten com seus três títulos de Roland Garros e o número 1 do mundo. Mas ele vê o país melhor preparado hoje para o caso de um novo ídolo surgir e cita que na época de seus triunfos o interesse financeiro de pessoas ligadas ao tênis prejudicou o desenvolvimento do esporte.

Com negócios ligados ao tênis, como a Escola Guga, o ex-tenista entende que atualmente as pessoas do ramo são mais preparadas e comprometidas. Por este motivo, acredita que não se repetiria o comportamento de enxergar um ídolo apenas como uma oportunidade de ganhar dinheiro, o que Guga diz ter visto durante seu auge.

"Naquela época houve uma imersão ao tênis gigantesca, as pessoas vieram de forma avassaladora para conhecer, descobrir, investir no esporte e hoje acredito que estaríamos prontos para ter respostas", afirma o catarinense.

Guga declarou que o interesse que seus resultados despertaram nas pessoas não foi revertido no desenvolvimento do tênis.

"Tem estrutura, de gente, de conhecimento, pessoas que estão orientadas e vão conseguir entender quais são os passos do caminho a ser seguido. Na (minha) época, era ganhar dinheiro com o tênis e isso, em qualquer iniciativa, a gente vê que não é saudável", completa o tricampeão de Roland Garros.

Segundo Guga, no seu início jogando tênis havia um trabalho mais apropriado. Era o final dos anos 80, com professores voltados a desenvolver atletas, o que acabou se perdendo com o aumento de academias quando ele se tornou número 1. O momento pós-Guga teve resultados individuais com Thomaz Bellucci e Teliana Pereira em simples, além dos duplistas.

Julian Finney/Getty Images
Imagem: Julian Finney/Getty Images

Otimismo mesmo sem resultados

Hoje a situação em simples é de nenhum top 100 e a falta de brasileiros entrando por ranking em Roland Garros. Somente Thiago Monteiro está na chave e entrou pelo qualifying. Mas Guga é otimista e vê momento como mais promissor do que nos seus melhores anos.

"Ter o número 1 significa que o tênis estava bem? Era porque quatro malucos resolveram investir, acreditar no impossível e deu certo. Todo mundo melhora durante alguns anos, mas é tudo ocasional, não foi o tênis que floriu. Eu sempre falo que precisamos construir esse processo, o tênis ter profundidade, ter base estrutural e começar a avaliar resultados", afirma Guga.

"Eu estou bem confiante, se for para analisar, o tênis brasileiro está mais propenso a funcionar hoje do que naquela época em que nós tínhamos quatro ou cinco, inclusive um cara que ganhava Roland Garros, só que olhava para trás e pouca reação acontecia", completa Guga.

O catarinense não se envolve diretamente na política do esporte atualmente, mas liderou em 2004 um boicote ao time brasileiro da Copa Davis, que culminou na saída de Nelson Nastás da presidência da CBT (Confederação Brasileira de Tênis). No lugar, entrou Jorge Lacerda, com quem o ex-tenista tinha uma relação próxima, mas fez uma gestão conturbada e foi condenado por irregularidades.

Atualmente a CBT é dirigida pelo catarinense Rafael Westrupp, que também tem ligação com Guga, tendo sido seu encordoador de raquetes e sparring durante a carreira. O próprio conselho consultivo da entidade em Florianópolis conta com a participação de Rafael Kuerten, irmão do ex-tenista.

"No ano que vem vai estar melhor, daqui cinco ainda mais, daqui a 10 e 15 anos, uma hora chega, vai bater na porta a consequência. Eu estou bem convicto por todas as nossas experiências e análises ao redor do tênis bastante profunda nos últimos 10 anos desde que começamos a Semana Guga", projeta Guga.

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