Esporte

Como um deficiente visual faz para conseguir disputar o Ironman

Arquivo Pessoal
Anderson e Guilherme participaram de provas. Entrosamento será testado no Ironman Imagem: Arquivo Pessoal

José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

27/04/2018 04h00

O Ironman surge como um dos maiores testes de resistência para os esportistas. A prova de triatlo que consiste em um percurso de 3,8 km de natação em mar aberto, 180 km de ciclismo e os tradicionais 42km195 da maratona é difícil para um atleta de alto rendimento. Imagine então para quem tem deficiências físicas? No próximo dia 27, em Florianópolis, Anderson Roberto Duarte, 38 anos, vai tentar concluir o percurso, mesmo sem contar com o auxílio da visão.

Atleta amador, que encontrou no esporte um escape para se motivar após ficar cego aos 25 anos, Anderson Duarte conta com preparação e equipamentos próximo ao de profissionais, custeados por rifas, incentivos de empresários e o apoio da Mizuno. Afinal, como alguém sem a visão conseguiria nadar em um mar aberto diante de centenas de adversários? Ou pedalar sem colocar em risco a própria prova ou a de colegas com uma colisão?

O segredo é o mesmo da maratona ou provas de corrida que as pessoas se acostumaram nos Jogos Paraolímpicos. Anderson Duarte conta com um guia em todos os minutos da competição. O também atleta Guilherme Rodrigues será o acompanhante nas mais de 11h de prova, tempo planejado pela dupla para finalizar o teste de resistência na capital catarinense e justificar todo o treinamento desde o ano passado.

Arquivo Pessoal
Modelo de bicicleta usado pelos competidores: Guilherme é o "piloto", Anderson o "motor" Imagem: Arquivo Pessoal

“O guia está presente em todas as fases do atleta. Na natação, temos uma guia amarrada em ambas as coxas, unidas por um elástico de mais ou menos 50cm e dois velcros colocados próximos às virilhas. No ciclismo, temos uma bike chamada tandem [com dois quadros e dois bancos]. Na corrida, usamos a guia tradicional, a cordinha colocada na mão”, explicou Guilherme Rodrigues, em conversa exclusiva com o UOL Esporte.

Em pleno mar aberto, Anderson Duarte se guia pela sensibilidade do velcro colocado na perna. Conforme o elástico que o une Guilherme Rodrigues estica demais, ele segura o ritmo; se afrouxa, o ritmo das braçadas deve aumentar. O guia atua como os olhos no mar e acompanha o atleta paraolímpico também no momento de transição para o ciclismo.

Sobre a bicicleta dupla, o guia atua como o piloto, e o atleta vem logo atrás para ditar o ritmo das pedaladas. É Guilherme quem também ajuda na troca de equipamentos e acompanha Anderson nos mais de 42 km de corrida.

Portanto, além do competidor, o responsável por incorporar os “olhos” do deficiente visual precisa contar com a mesma preparação, no mínimo, para aguentar o ritmo da longa prova. Ambos treinam juntos visando o Ironman de Florianópolis desde setembro com a meta das 11h, marca estipulada para a vitória dupla, de Guilherme e Anderson.

“Era cigarro e cachaça”

Divulgação
Empresas apoiaram atleta e guia, que vão como competidores amadores a SC Imagem: Divulgação

Anderson Roberto Duarte traçou o plano de competir no Ironman em 2017. O ingresso no esporte, no entanto, veio há mais de 10 anos. Motorista aposentado por invalidez, ele perdeu a visão do olho direito aos 25 anos, depois de complicações por um deslocamento de retina. Meses depois, enquanto estava assistindo a uma palestra, o olho esquerdo apagou.

“Fiquei dois anos parados: cheguei a pesar 120kg e era sedentário. Não conhecia o esporte. Recebi um convite para aprender a nadar quando tinha 27, 28 anos e consegui índice para campeonatos nacionais um período depois. Em 2016, encontrei o Guilherme [Rodrigues, guia no Ironman], que perguntou qual meu interesse. Disse que queria o Ironman, começamos a treinar e estamos hoje próximos disso”, relatou Anderson, que mudou grande parte da rotina.

“No início [imediatamente após perder a visão], era cachaça e cigarro [risos]. Ficou para trás. A vida está me levando para este desafio, busco uma superação própria. Dizem que é difícil, quero estar no meio e ver onde vou. Se chegar ao meu limite, paro e digo que não vou mais. Tenho 38 anos e tenho muita coisa a remar ainda. Estou focado e quero sempre acreditar que posso fazer o meu melhor”, encerrou.

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