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"Não é loucura. Superstições no esporte ajudam mesmo", dizem especialistas

Giselle Hirata

Do UOL, em São Paulo

18/09/2013 06h00

Entrar na partida com o pé direito, usar amuletos e fazer o sinal da cruz. Esses são rituais clássicos, mas existem outras maneiras (algumas muito bizarras!) de atrair a sorte. É engraçado e pode até parecer loucura, mas acredite: as superstições podem mesmo ajudar os atletas a garantir um bom resultado.

Não, ainda não há provas do que é capaz de atrair a sorte - mesmo depois do episódio do sal grosso nas escadarias do Morumbi, que pode (ou não) ter ajudado o São Paulo a vencer o Fluminense. Mas, psicólogos explicam que os rituais são uma poderosa arma para acalmar a ansiedade. “Se apegar a uma superstição ou a algum amuleto realmente pode melhorar o desempenho do atleta, uma vez que isso traz a sensação de bem-estar, força, autoconfiança e vitalidade”, afirma Ricardo Monezi, pesquisador da Unidade de Medicina Comportamental da Unifesp. Segundo ele, essas crenças atuam no sistema límbico do cérebro, que libera hormônios e neurotransmissores, que faz com que a pessoa tenha aquele sentimento bom de que tudo vai dar certo.

É claro que ninguém admite que aposta na sorte, mas a verdade é que poucos se arriscam a entrar em uma partida sem uma pitada de simpatia ou sem fazer um ritual particular.

O ex-tenista Gustavo Kuerten, por exemplo, cumpria uma rotina durante os campeonatos. “Ele comia no mesmo restaurante e a mesma comida sempre que ganhava. Duro era quando nesse primeiro dia o restaurante era péssimo. Lá íamos nós a semana toda aguentar a gororoba do lugar”, conta o ex-tenista e comentarista Fernando Meligeni, em seu blog. “Eu mesmo entrei em uma de não pisar nas linhas da quadra”, confessou à reportagem do UOL Esporte.

“Ter superstições é comum, acho que todo tenista tem, sem exceções. Teve uma época em que na nossa equipe surgiu uma mania de tomar ducha antes do jogo sem usar o sabonete”, lembra o ex-tenista Mauro Menezes. A explicação? “Não tinha muita lógica, mas acho que era para não tirar o suor do treino e do aquecimento”, comenta.

Manias e superstições dos atletas

Ainda no vestiário, também é comum ver uma fila para tomar banho em um único chuveiro. “Os outros podiam estar vazios, mas o pessoal costumava esperar para tomar a ducha no mesmo boxe. Já vi gente achando que perdeu o jogo porque não esperou a vez. Me lembro que um dos que acreditava muito nisso era o equatoriano Andrés Gómez”, diz o ex-tenista Adriano Ferreira.

A tenista número 1 do mundo, Serena Williams, também tem suas excentricidades. Ela tem o costume de amarrar os cadarços de uma maneira específica, bater a bola cinco vezes e levar as sandálias do banho para a quadra. Assim como Nadal, que costuma tomar banhos gelados antes dos jogos, sair pulando do vestiário e alinhar suas garrafinhas de água durante a partida. "As pessoas acham estranho e algumas até se irritam com o Nadal, mas se isso está funcionando não tem por que ele mudar. Na época em que eu jogava, procurava não ter rituais porque eu imaginava que isso iria me atrapalhar. Hoje, eu penso que se isso te deixa mais confiante, que mal tem?", analisa Menezes.

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No futebol, o técnico Cuca, do Atlético-MG, é o mais conhecido pelas suas superstições. Em julho deste ano, o UOL Esporte publicou uma lista de manias e rituais do ex-jogador. Entre os mais curiosos: não gostar que o ônibus do time dê ré e carregar a bola do pênalti que o goleiro Victor defendeu no jogo contra o Tijuana para os jogos decisivos.

E de amuletos o zagueiro do Chelsea, John Terry, entende muito bem. O jogador usava as mesmas caneleiras até perdê-las em um jogo da Liga dos Campeões da Uefa no Camp Nou. “Sou supersticioso. Sempre sento no mesmo lugar do ônibus, dou três volta de faixa nas meias, escuto sempre o mesmo CD a caminho do estádio e estaciono o carro na mesma vaga”, disse em entrevista ao The Sun.

O ex-goleiro argentino, Sergio Goycochea, tinha o hábito de urinar no campo antes das decisões por pênaltis. Coincidência ou não, ele defendeu várias cobranças na Copa de 1990.

No vôlei, Paula Pequeno declarou, durante as Olimpíadas de Pequim (2008), que usou o mesmo top, a mesma blusa, o mesmo shorts e até a mesma calcinha durante as quartas de final. Harley Marques, do vôlei de praia, também seria adepto do uso de peças da sorte. Enquanto está ganhando, ele usa a mesma bandana e óculos de sol. Se não estiver dando certo, ele troca os acessórios.

O ex-jogador e astro do basquete Michel Jordan, por exemplo, não entrava em quadra sem o shorts da equipe da faculdade Carolina do Norte por baixo de seu uniforme da NBA.

Até mesmo Tiger Woods, o maior jogador de golfe do mundo, entra na dança. Ele costuma usar uma camisa vermelha aos domingos – que geralmente é o dia mais importante dos torneios. “Eu visto vermelho aos domingos porque a minha mãe acha que essa é a minha cor do poder. E você sabe que deve sempre ouvir sua mãe”, explicou a um fã em seu site oficial.

Ou seja, por via das dúvidas, melhor não dar sorte ao azar. Mas os médicos advertem: “Tem que ser com moderação. As superstições não podem e não devem prejudicar o rendimento do atleta. A partir do momento em que a pessoa se torna escrava das crenças, a ponto de não conseguir realizar a atividade se não fizer o ritual, isso já é prejudicial. É como um remédio: faz bem, mas tem que ser dosado”, ressalta Monezi.

O mesmo afirma a neuropsicóloga do Hospital das Clínicas, Simone Vieira. “É importante que o esportista acredite, antes de tudo, em sua capacidade. Tudo bem ter suas manias e crenças. Isso faz parte de todo ser humano. Mas é bom lembrar que o que faz alguém ganhar um jogo é um conjunto de fatores, como o treino e a própria habilidade, e não somente a sorte”, pontua.

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