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Crossfit evita tédio, cria legião de fãs e faz alguns desmaiarem de cansaço

Divulgação/TCB
Atleta do crossfit compete no torneio mais tradicional da modalidade no Brasil Imagem: Divulgação/TCB

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

11/09/2016 06h00

Sayuri Fukushima tem 30 anos e a fala mansa, e costuma ajeitar o cabelo preto delicadamente atrás da orelha. Ela está sempre sorrindo, mas em um sábado recente no estádio do Palmeiras alguma coisa deu errado.

Ela e seu time, as Superpoderosas, tinham dez minutos para completar a segunda prova do dia. Era um dia nublado, as nuvens cinzas em contraste com o rosa-choque da camiseta de Sayuri.

Apoiada por amigos na arquibancada, ela levantou uma barra de ferro de 61 kg à altura da cintura 20 vezes. Depois, correu em volta do campo pulando sobre três muros de no mínimo 2,5 metros sem ajuda de ninguém. E então puxou sacos de areias de 20kg até uma altura de mais ou menos quatro metros.

Ela tinha que repetir esse movimento 20 vezes.

Na 13ª vez, Sayuri desmaiou.

Os bombeiros e o corpo médico foram socorrê-la. Uma amiga a abanou com uma toalha. Um profissional mediu sua pulsação. Ainda deitada no gramado, ao lado dos sacos de areia que havia carregado, Sayuri foi recuperando a consciência. Atada cuidadosamente a uma maca, foi levada ao posto de saúde do estádio.

Quando ela passou ao lado da torcida, o locutor oficial pediu: “Vamos aplaudir a nossa atleta! É muita dedicação!”

E então, a torcida aplaudiu.

Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

No ambulatório, suas duas companheiras de time, vestidas com a camiseta das Meninas Superpoderosas, comentavam o desmaio da amiga. “Isso sempre acontece com ela”, me disse uma delas.

Sayuri levanta e anda, e abraça as amigas. Recuperadas do susto, as três tiram uma foto sorrindo na frente do ambulatório. Outra amiga se aproxima e diz que o pessoal tinha levantado celulares com a frase Eu já sabia rolando na tela quando Sayuri desmaiou.

Faz dois anos que ela pratica crossfit, um treinamento de origem militar adaptado às necessidades e anseios de civis. Ela já havia participado de torneios, mas nunca naquela categoria, mais intensa.

Pergunto se as outras amigas também já tinham desmaiado.

“Comigo é diferente”, disse a menor do grupo. “Eu vomito. Só quando vomito é que fico satisfeita com um treino, porque aí sei que ultrapassei meus próprios limites.”

O que atrai as pessoas à intensidade do crossfit?

Desafiar os limites do corpo é só um dos aspectos que têm levado milhões de pessoas ao crossfit, um esporte que ganhou imensa popularidade nos últimos anos. Só no Brasil existem 640 boxes, o termo em crossfitês para academia.

No último fim de semana, São Paulo recebeu dois torneios da modalidade, o BRV Games e o Torneio Crossfit Brasil, que reuniram quase 2 mil pessoas, entre atletas e torcedores, no Allianz Parque e em Barueri.

Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Mas o que motiva alguém a encarar um exercício tão pesado e sofrido que o leve até a passar mal? Simpáticos atletas desfilavam pelo estádio exibindo seus corpos bem definidos e comentavam empolgados as maravilhas da modalidade.

Eles dizem que desmaios e vômitos não são comuns no dia a dia de um box, e que cada exercício é adaptado às condições físicas e ao preparo de cada um.

Todos em algum momento se viram desanimados com a rotina de repetições tradicionais da musculação e da ginástica. Até que conheceram um mundo novo, no qual as pessoas podem fazer exercício físico usando apenas o próprio corpo ou objetos como sacos de areia, pneus de caminhão, muros e caixas de madeira. Levantamento de peso também entra no cardápio.

Sem rotina, os resultados aparecem rápido

No crossfit não existe rotina. Cada WOD (em crossfitês, exercício do dia) é montado cuidadosamente para que ninguém caia no tédio. Nos boxes, reina um clima de camaradagem e todos se ajudam a completar a tarefa do dia.

Os resultados individuais são anotados na parede para serem superados no dia seguinte.

Nas competições, o último a completar a prova é quase tão aplaudido quanto o primeiro. E o campeão sempre volta para incentivar os demais a também terminarem o exercício.

“Na academia é aquela coisa”, explicou Victor Teixeira, um sujeito que usava um megafone para animar os atletas de Pindamonhangaba na competição, “você chega, põe seu fone de ouvido, faz o que tiver de fazer e pronto. No dia seguinte, repete. No crossfit a gente é como se fosse uma família. Treina junto, sai junto, bebe junto...”.

Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Nesse ambiente, sob uma rotina intensa de muito treino e pouco descanso, os resultados aparecem rápido. Em um torneio de crossfit, você precisa procurar muito para encontrar alguém acima do peso. “Você devia vir treinar com a gente”, disse um rapaz que poderia atuar como figurante no filme 300 à única pessoa claramente sedentária que ele encontrou por perto: eu mesmo.

Raul Pessoa/BRV Games
Imagem: Raul Pessoa/BRV Games

Todos os crossfiteiros vão te explicar que a vida deles se divide, como a história da humanidade, em AC e DC: antes e depois do crossfit. Na mesa do bar, na sala de aula, no escritório, todo lugar é um bom lugar para espalhar a boa nova e mostrar os resultados dela no próprio corpo. A primeira regra do clube do crossfit parece ser “Você nunca para de falar do crossfit”.

Assim cada praticante atua como uma espécie de apóstolo da CrossFit Inc, empresa americana cujo modelo de negócios se baseia principalmente na cobrança de uma taxa de 3 mil dólares anuais a cada box – são mais de 13 mil boxes no mundo.

A revista Forbes estimou no ano passado que o mercado como um todo movimente receitas de até US$ 4 bilhões anualmente.

No crossfit é tênue a fronteira entre o sofrimento e o prazer

Você precisava estar lá para ver. Centenas de mulheres carregando barras mais pesadas do que homens adultos, fazendo agachamentos com pesos acima da cabeça, subindo três vezes em cordas do tamanho de árvores e então, quando tudo que elas parecem querer é ir pra casa e não levantar da cama nas próximas 24 horas, repetindo tudo outra vez. Você fica exausto só de olhar.

"O verdadeiro exercício começa quando você sente vontade de parar", diz a camiseta de um fortão. "A dor é a fraqueza saindo do seu corpo", diz a de outro.

Enquanto as caixas de som explodiam com rock dos anos 90 e raps remixados, a locutora narrava o desempenho das que iam na frente: “Olha a velocidade que a Bartira subiu nessa corda! Tá fácil pra ela!”.

Raul Pessoa/BRV Games
Imagem: Raul Pessoa/BRV Games

Mas não, não estava fácil para a maioria delas. Quando o cronômetro já se encaminhava para o fim, Gisele Santos, uma ex-comissária de bordo, largou os pesos no chão e lançou um olhar desesperado e exausto a alguém que a incentivava na torcida: “Não dá mais para mim”, disse ela, mexendo os braços, frustrada.

Quando perguntei o que ela estava sentindo naquele momento, ela apontou sua musculosa coxa esquerda e explicou que sabia que havia uma lesão ali e que era impossível fazer agachamentos naquele estado.

No dia anterior, elas tiveram que correr, se pendurar na barra, pular em uma caixa de areia e carregar uma bola pesada sobre os ombros, tudo isso vestindo um colete de 8kg. “Foi o pior exercício que já fiz na vida”, disse Gisele. “Terminei a prova chorando.”

“Às vezes no meio do WOD você se pergunta ‘O que que eu tô fazendo aqui?' Mas depois, ao completar o desafio, você percebe que valeu a pena.”

“Depois de cada WOD, você se joga no chão, uma exaustão absurda, e você sente que está perto de desmaiar”, disse Eduardo Maia, crossfiteiro há três anos. “Mas ao mesmo tempo seu corpo acaba sendo bombardeado por endorfina, que vicia mais que cocaína. O pessoal aqui é viciado em exercício.”

Mas uma carga tão intensa é segura?

Fiz esta pergunta ao médico ortopedista Vinicius Ferreira Bueno, responsável pelo atendimento aos atletas do Torneio Crossfit Brasil, o mais tradicional do país. O próprio médico pratica crossfit e o indica a seus pacientes pela diversidade de movimentos e a possibilidade de adaptá-los a qualquer público.

“Existe um preconceito no meio médico”, conta ele, que frequentemente é contratado para atuar em torneios da modalidade. “Médicos que não conhecem o crossfit dizem que causa muitas lesões, mas estudos indicam que a quantidade de lesões aqui é menor do que em esportes mais conhecidos.”

O que acontece, segundo o médico, é que a massificação do esporte, alçado à categoria de “exercício da moda”, pode estar levando muita gente a praticá-lo longe das melhores condições, pondo em risco a própria saúde. “Os atletas de ponta conhecem bem seu corpo e seus limites, mas e os atletas de fim de semana?”

Reprodução/Instagram @crossfit
Perfil oficial da Crossfit no Instagram brinca com a tendência ao vômito dos exercícios Imagem: Reprodução/Instagram @crossfit

No dia anterior, o ortopedista tinha atendido outro atleta que desmaiara durante uma prova. Mas o apagão, Vinicius contou, foi consequência direta de uma infecção alimentar contraída na véspera, o que levou o atleta a não se alimentar direito e precisar competir com febre.

Em março deste ano, um homem de 35 anos sofreu um colapso dentro de um box no Distrito Federal. Foi atendido por uma praticante médica, por bombeiros e pelo Samu, mas não resistiu.

“[Crossfit] pode matar”, admitiu o criador do exercício Greg Glassman ao New York Times em 2005. “Eu sempre fui completamente honesto em relação a isso.”

Reprodução
Imagem: Reprodução

A própria empresa abraçou de um jeito curioso a ideia de que o esporte pode acarretar riscos à saúde do praticante. Pukie, The Clown e Uncle Rhabo são dois mascotes criados para alertar sobre a possibilidade do crossfit levar a vômitos (to puke significa vomitar) e causar rabdomiólise, uma condição na qual os músculos entram em colapso. Ela já levou à morte alguns praticantes do esporte.

O crossfit diz se adaptar a todas as idades e silhuetas

Numa segunda-feira fria, a advogada criminalista Danielle Nogueira acordou e levou a bulldog francesa Fran para passear pela vizinhança. Depois, vestida com roupa de ginástica, fez 20 flexões de braço sobre um caixote, pedalou por 2 km em alta intensidade sobre uma bicicleta ergométrica e fez agachamentos segurando pesos de 16 kg. Para finalizar, ficou sete minutos apoiada no chão sobre os braços em posição ereta, como uma prancha.

Sua barriga comprimiu com o esforço. Mas isso foi só o aquecimento.

No exercício para valer, Danielle ergueu sobre a cabeça uma barra de 25 kg, o equivalente ao peso de uma criança de 8 anos. Repetiu isso 91 vezes em 16 minutos. Ela está acostumada a levantar até 80 kg, mas hoje pegou leve porque, bem, Danielle está grávida de 37 semanas.

Ela tem uma lua tatuada nas costas. Sua primeira filha vai se chamar Luna.

Seu marido Luiz, que também é seu treinador, tem uma malinha de emergência e o endereço da maternidade gravado no GPS do carro, porque Luna pode nascer a qualquer momento. “Pretendo continuar treinando até o parto”, diz Danielle, que é atleta desde os 8 anos e pretende continuar em alto nível no crossfit depois da gravidez.

Ela tem aval do seu médico para o treino, e costuma adaptar os movimentos para sua condição de grávida. Diminuiu a quantidade de peso carregado e não força muito o abdômen até para evitar um parto prematuro.

Adriano Wilkson/UOL
Imagem: Adriano Wilkson/UOL

Ela não está sozinha. No dia anterior eu tinha conhecido Vivian Sakamoto, que já venceu o nacional de crossfit e hoje, aos 32 anos, está grávida de 38 semanas do segundo bebê. “Na primeira gravidez”, contou ela, “fechei a porta do box e no dia seguinte entrei em trabalho de parto. O parto foi rápido e simples. Com certeza estar fazendo crossfit ajudou.”

Não importa se você ainda está na barriga da sua mãe ou já passou dos 50 anos, o crossfit vai ter algum treino preparado para você. De fato, mesmo no Brasil, alguns pais já estão levando seus filhos de até três anos a praticar a modalidade. Uma das promessas da categoria no país tem 15 anos e começou a treinar aos 13.

“Todo mundo quer fazer parte de alguma coisa”, disse Cris Coutinho, 47, uma das grandes referências da comunidade, tentando explicar o sucesso mundial do crossfit. “E esse é um esporte para todo mundo.”

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