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Protestar no hino, pode? Nos EUA, patriotismo põe atletas na berlinda

 Otto Greule Jr/Getty Images
Colin Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers, iniciou protesto e virou alvo Imagem: Otto Greule Jr/Getty Images

Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

02/10/2016 06h00

Vídeos de policiais atirando sem justificativa em negros que estavam desarmados provocaram uma ebulição nos Estados Unidos. Sob a ordem de que #BlackLivesMatter (“Vidas negras importam”, em uma tradução livre”), milhares foram às ruas em diversos pontos no país para pedir tratamento digna das forças da lei. Colin Kaepernick, quarterback do San Francisco 49ers, resolveu participar do movimento em um protesto silencioso: recusou-se a ficar de pé durante a execução do hino norte-americano em um jogo da NFL.

“Tem várias coisas injustas acontecendo e as pessoas não estão sendo responsabilizadas por isso. E isso é algo que precisa mudar. Liberdade, justiça para todos... São coisas pelas quais esse país se preocupa. E elas não estão acontecendo agora”, explicou Kaepernick, segundo a ABC.

É como se ele tivesse cruzado um limite. Um dos símbolos máximos da cultura e do patriotismo norte-americano, o hino é frequentemente visto como uma forma de homenagem a soldados que deram a vida lutando pelo país. Não por acaso, uma das maiores crises políticas do esporte aconteceu quando dois velocistas protestaram por igualdade racial no pódio olímpico das Olimpíadas de 1968. John Carlos e Tommie Smith ergueram o punho direito durante a execução do hino, o que revoltou boa parte dos EUA.

Quase 50 anos depois, Kaepernick está numa posição parecida. O jogador foi alvo de inúmeras críticas e chegou a ser ameaçado de morte. O fato dele ter ganhado companhias de peso não mudou o cenário. Na verdade, quem o seguiu viveu do mesmo mal. Megan Rapinoe, estrela da seleção de futebol feminina, branca e homossexual, apoiou a causa de Kaepernick e passou a também ajoelhar-se durante a execução do hino:

Kyle Robertson/The Columbus Dispatch via AP
Imagem: Kyle Robertson/The Columbus Dispatch via AP

No começo do mês, seu Seattle Reign foi visitar o Washington Spirit e os donos da casa anteciparam a cerimônia oficial para que a música tocasse antes da entrada das jogadoras em campo. “Nós decidimos tocar o hino em nosso estádio antes do planejado em vez de submeter nossos fãs e amigos ao desrespeito que nós sentimos que tal ato representaria”, escreveu o clube em nota oficial. Quando Rapinoe repetiu o gesto em um jogo da seleção (a primeira a fazer algo do tipo representando os EUA, segundo a Sports Illustrated), a federação americana ameaçou puni-la.

“Como parte do privilégio de representar nosso país, nós esperamos que jogadores e treinadores se levantem e honrem nossa bandeira enquanto o hino nacional está sendo tocado”, disse a US Soccer, que no fim desistiu de punir a jogadora.

Por que o hino é tão importante nos EUA?

AP Photo/Stephen Brashear
Imagem: AP Photo/Stephen Brashear

“Os EUA não têm uma formação nacional de identidade como boa arte dos países europeus. Os EUA são relativamente jovens, criaram seus símbolos do nada. Foi um país que ficou independente e de repente se viu com a necessidade de construir símbolos. Parte dessa identidade construída tem a ver com esses símbolos como o hino, a bandeira e a águia, que representa a liberdade”, explica Lucas Leite, professor de relações internacionais na Faap que tem os EUA como sua linha de pesquisa de doutorado na Unesp.

A explicação acima ajuda a entender porque a reação do americano comum é tão dura ao protesto de Kaepernick e companhia. O momento político dos EUA, com a comunidade negra em um confronto tenso com as forças policiais, fez com que até o presidente Barack Obama se manifestasse sobre o assunto.

AFP PHOTO / SAUL LOEB
Obama ergue o punho direito como os Panteras Negras durante cerimônia com atletas olímpicos na Casa Branca Imagem: AFP PHOTO / SAUL LOEB

“Eu quero que o sr. Kaepernick e outros que estão de joelhos... Eu quero que eles ouçam a dor que eles podem causar em alguém que, por exemplo, teve um marido ou filho morto em combate e por que machuca ver alguém não se levantando”, disse o presidente à CNN, ressaltando também que as pessoas precisam entender os argumentos do quarterback.

“Eu tenho um grande respeito pelos homens e mulheres que lutaram por esse país. Eu tenho familiares que fizeram isso. E eles lutaram por liberdade, pelas pessoas, por justiça. Isso não está acontecendo. As pessoas estão morrendo em vão porque esse país não está fazendo a sua parte”, disse Kaepernick segundo o site SB Nation.

Os atletas e aqueles que apoiam os protestos pedem que as pessoas foquem no tema que está sendo levantado, e não na forma. Essa oposição entre patriotismo e ativismo serve, na visão de quem defende Kaepernick, para seguir empurrando a discussão sobre igualdade racial para debaixo do tapete.

“Nos protestos aqui no Brasil você também vê um conservadorismo muito grande que usa desses símbolos de forma ufanista e acrítica”, compara Lucas Leite. “Em situação de extremismo, os símbolos viram escudo para situações de ataques aos direitos dos outros”, completa.

“Uma das ironias da maneira que as pessoas expressam seu patriotismo é que elas se gabam das liberdades, especialmente a de expressão, mas tacham de antipatrióticos aqueles que usam essa mesma liberdade de expressão para demonstrar seu descontentamento com a maneira que o governo está manejando a Constituição”, disse Kareem Abdul-Jabbar, maior cestinha da história da NBA e ativista do movimento negro, em uma coluna no Washington Post.

Protestos não devem parar

Yong Kim/The Philadelphia Inquirer via AP
Jogadores da escola Woodrow Wilson, em Nova Jérsei, se ajoelham durante o hino Imagem: Yong Kim/The Philadelphia Inquirer via AP

Kaepernick e Rapinoe já não estão sozinhos. Jogadores de diferentes times da NFL já manifestaram apoio ao movimento ajoelhando ou erguendo os punhos durante a execução do hino em partidas de futebol americano. Antes de um jogo de playoff da WNBA, as meninas do Indiana Fever seguiram o exemplo e também ficaram de joelhos, assim como vários alguns times de faculdade e colégios nos Estados Unidos.

O alcance dos protestos deve crescer nas próximas semanas quando começar a pré-temporada da NBA. Na última semana, a maior parte dos times atendeu a imprensa e praticamente todos os grandes jogadores foram instados a se posicionar a respeito dos protestos de Kaepernick.

Darryl Dyck/The Canadian Press via AP
Na abertura da pré-temporada da NBA, jogadores do Raptors deram as mãos durante o hino como forma de protesto Imagem: Darryl Dyck/The Canadian Press via AP

“Eu vou me levantar durante o hino. Isso é quem eu sou e no que eu acredito, mas isso não significa que eu não respeite ou acredite no que Kaepernick está fazendo. Você tem o direito de ter a sua opinião, brigar por ela e ele tem feito isso do jeito mais pacífico que eu já vi alguém fazer”, disse Lebron James, segundo a ESPN.

Steph Curry, Carmelo Anthony e Chris Paul foram na mesma linha. Se esquivaram sobre repetir, mas manifestaram apoio e até discutem outras formas de agir. Ao lade de Dwayne Wade, Lebron, Carmelo e Paul fizeram um manifesto pedindo igualdade racial no fim do primeiro semestre durante os ESPY’s, o prêmio da ESPN americana para a elite do esporte local.

Fora do basquete, Serena Williams, maior vencedora de Grand Slams da história do tênis na era aberta, se manifestou pelas redes sociais. “Como o dr. Martin Luther King disse: ‘Chega uma hora em que o silêncio é uma traição’. Eu não vou ficar em silêncio”, disse a tenista ao relatar que ficou apreensiva quando viu seu sobrinho, negro como, cruzar o caminho de um policial dirigindo o carro em que ela estava.

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