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Cria de Paraisópolis vê vida mudar com o rúgbi e é aposta da nova geração

Luiz Pires/Fotojump
Imagem: Luiz Pires/Fotojump

Bruno Romano

Colaboração para o UOL

17/05/2017 04h00

O formato oval da bola de rúgbi ainda pode ser estranho para muita gente mais acostumada com o futebol. Ela não rola solta pelo gramado, nem atrai por estas bandas do planeta a fama e a grana da versão redonda. Mesmo assim, ela tem visitado os sonhos de jovens brasileiros. O giro e o alcance da "ovalada", como se diz no rúgbi, também fascina e ajuda a inspirar uma nova e motivada geração, em um momento promissor da modalidade por aqui. Neste mês de maio, a seleção masculina do Brasil, recheada com promissores talentos, encara o Sul-Americano 2017 que vale como eliminatória para o Mundial de 2019 no Japão, grande desejo do rúgbi nacional.

Para trazer esse papo para a realidade, um bom pontapé inicial é uma visita ao campo da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, que recebe a mais de uma década os treinos do Instituto Rugby Para Todos (IRPT). Projeto social pioneiro no país, o IRPT já soma mais de 5 mil alunos atendidos entre a infância e a adolescência, fruto de uma iniciativa corajosa, que se mantém por 13 anos nos trilhos diante de inúmeros obstáculos. Em outras palavras, sua primeira leva de atletas começa agora a fazer barulho nos principais clubes e nas nossas seleções. Um "tempero" mais que bem-vindo a um esporte no qual, por natureza, nada vem fácil.

"A primeira coisa que eu pensei foi: 'que bola diferente'", se diverte Robert Tenório, 20, lembrando de seus primeiros passes e chutes no IRPT, em 2004, aos oito anos de idade. Era o começo de tudo, conta ao Uol Esporte este paulistano, nascido e criado em Paraisópolis, que defende hoje o clube Pasteur (SP) e as seleções brasileiras de rúgbi XV e Sevens — esta segunda, a modalidade olímpica escolhida para representar o retorno do rúgbi aos Jogos, na Rio-2016, após 92 anos de ausência.

Enquanto você lê este texto, ele provavelmente está dando duro nos treinos dos Tupis, apelido da seleção, como um dos 34 escolhidos pelo head coach argentino Rodolfo Ambrósio para a campanha do Sul-Americano. Na estreia do último sábado, Robert atuou no segundo tempo, quando o Brasil vendeu caro a derrota para o Chile em Santiago (15 a 10). A seleção precisa correr atrás de triunfos sobre o Uruguai, fora de casa, e Paraguai, no fim deste mês, em São Paulo — apenas o vencedor do torneio avança para as próximas fases das eliminatórias.

Início no rúgbi: olhares desconfiados e raiva descarregada

De volta para onde tudo começou, assim que chegou na comunidade, o rúgbi ainda levantava algumas sobrancelhas e torcia narizes desconfiados dos locais, mas, aos poucos, foi conquistando o merecido respeito. Entre crianças como Robert, o efeito foi transformador. O novo esporte trouxe um horizonte alternativo. Atiçou os instintos da molecada. E instigou novos grupos de amigos a buscarem um caminho, digamos, diferente.

Observando essa "revolução" bem de perto, a psicóloga Natália Souza logo notou as mudanças. "Muitas crianças, como o Robert, tinham dificuldade de expressar suas emoções, carregadas de raiva, e desabafavam com palavrões ou desobediência", analisa, ela que atua como coordenadora pedagógica do IRPT. "Fica claro que o rúgbi promoveu um equilíbrio interno, fazendo-as compreenderem que cada emoção pode ser transformada em uma palavra, que a tristeza pode ser compartilhada para aliviá-la, que chorar não é ruim e que sempre estaríamos ao lado deles para escutá-los", pontua Natália.

Talvez Robert não tivesse notado todo esse processo interno lá atrás. Ele estava mais preocupado em se divertir um pouco, enquanto tentava entender como aquela bola maluca girava. E, principalmente, como ele faria para ficar mais forte, rápido e ligeiro, único jeito de se dar bem nesse novo e desafiante ambiente. "Os treinos passaram a significar tudo pra mim, e era meio que uma forma de não me envolver com pessoas erradas", desabafa. "Do mesmo jeito que o rúgbi entrou na minha vida e a mudou para sempre, a mesma coisa aconteceu com os meus amigos", garante, ele que soube da chegada da "ovalada" ao seu bairro em uma ação do Instituto na escola em que estudava.

"Eu olho para o Robert hoje e vejo uma pessoa muito mais aberta e comunicativa, uma mudança profunda e positiva na personalidade dele", comenta Fabrício Kobashi, um dos fundadores e atual diretor do IRPT, que se lembra bem da época reclusa do menino, que dificilmente falava ou olhava nos olhos dos professores. Um ano antes de experimentar o esporte, aos 7, Robert viu de perto a separação dos pais. O rompimento o afastou da figura paterna, a quem ele se dizia muito próximo, ainda que, atualmente totalmente distante.

Luiz Pires/Fotojump
Imagem: Luiz Pires/Fotojump

Por outro lado, sua mãe fez de tudo para o manter saudável e feliz, como relata o próprio filho. Na prática, significa que ela precisava trabalhar dobrado, conciliando serviços com estudo. Muitas vezes, ela saia de casa antes de Robert acordar e só voltava quando ele já estava dormindo, sobrando apenas um dia da semana para conviverem de fato juntos. Como o restante da família morava longe Robert tinha de cuidar de si mesmo e de um irmão mais novo por conta própria.

Pancadas + disciplina + dedicação = chance na seleção

É mais ou menos assim que se sente um ponta, nome de uma posição chave no jogo de rúgbi, onde Robert costuma atuar. No ataque, o ponta é o finalizador: precisa achar espaço, escapar das pancadas e driblar adversários para pontuar. Na defesa, tem a dura missão de marcar exatamente alguém com este mesmo perfil arisco do outro lado. As chances verdadeiras de try (ponto máximo do rúgbi), em um jogo pegado e de alto nível, costumam ser raras. E, quando o adversário está com a bola, é normal um ponta se encontrar em uma situação desfavorecida, seja contra um número maior de atacantes ou em momentos do tipo "bola na fogueira". Em suma, ser destemido, objetivo e preciso é uma premissa para vestir a camisa. E um toque de jogo de cintura cai mais do que bem.

É por essas e outras que, logo nos primeiros anos de juventude, a dedicação e a disciplina de Robert começaram a chamar atenção. Enquanto dava um jeito de se desdobrar na rotina, o garoto se organizava para não perder os treinos. Doses generosas de esforço, tackles e trombadas depois, e lá estava Robert celebrando sua primeira viagem internacional, rumo a um tradicional torneio em Montevidéu, no Uruguai, sua porta de entrada para alcançar a seleção juvenil, em 2013.

A partir de então, o garoto de Paraisópolis já estava de vez no radar dos treinadores das seleções. Não demorou a conquistar seu espaço na versão olímpica (Sevens), há dois anos, e na tradicional (XV), há um ano, sendo um dos poucos atletas que circulam atualmente em ambos elencos. Ele ainda rema por um espaço de destaque entre a concorrência, é verdade, mas é um "osso" que, se depender dele, não vai largar mais.

"Na primeira vez que entrei em campo com a camisa da seleção senti algo incrível que ainda é bem parecido com o que sinto até hoje", diz. "Percebo que estou realizando um sonho e fazendo realmente o que eu mais amo", descreve. Robert tem visto de perto momentos chave da história do rúgbi brasileiro, como a recente vitória surpreendente dos Tupis sobre os Estados Unidos, pelo Americas Rugby Championship (ARC) de 2016.

João Neto/Fotojump
Imagem: João Neto/Fotojump

Pode não ter sido a maior zebra do esporte nos últimos anos, posição ocupada pelo Japão com o triunfo sobre a África do Sul, no Mundial 2015. Mas em termos de diferença de ranking (algo valioso e bem apurado no rúgbi), foi um feito até maior. No ARC deste ano, os Tupis levaram um dolorido troco dos EUA, mas conseguiram outra vitória inédita e de destaque, desta vez superando o Canadá.

"Às vezes nós até esquecemos que o Robert tem só 20 anos", brinca Jacob Mangin, head coach da seleção brasileira de Sevens nos torneios do início de 2017. Jacob acompanha a trajetória de Robert desde seus primeiros passos nas seleções, e apostou no seu nome para embalar uma completa renovação do grupo após o fim do último ciclo olímpico. O técnico não está sozinho. Nas competições de começo de temporada, Robert ganhou um troféu "moral", comum em equipes do esporte, ao ser reconhecido pelos próprios companheiros (e pela comissão técnica) como quem mais trabalhou duro dentro e fora de campo. "Ele é um ótimo cara para se ter no grupo: age com o exemplo e pensa no coletivo, sem falar que tem um enorme potencial para ser desenvolvido", resume Jacob.

O talento de Robert está sendo lapidado com calma — ainda que ele não veja a hora de voar mais alto. Sua mistura de versatilidade, coragem e faro de try o colocam na mira do XV e do Sevens. "Gosto mais de jogar Sevens, pois tem bastante espaço para duelar e é também um lugar em que mais times que não são favoritos conseguem surpreender", se anima. "Mas no XV é incrível como todos precisam trabalhar juntos para avançar, em um jogo onde o contato é muito mais forte, o que gosto bastante também", fala.

Mudança na vida de Robert e de Paraisópolis

Quem visita hoje Paraisópolis e pisa no gramado verde e sintético talvez não saiba da existência do antigo "terrão" que ocupava o espaço. O mesmo lugar que Robert e seus amigos começaram a treinar há já quase 14 anos tem evoluído junto das pessoas que passam por ali. "Quando vejo o campo cheio de crianças, sinto algo diferente, que me deixa super feliz", fala Robert, apostando que a nova geração pode chegar ainda mais longe. "Percebo essa criançada jogando e entendendo o rúgbi muito melhor do que eu na idade deles", agrega. Sua figura já se tornou importante referência para os mais novos. "Não há dúvida de que ele encontrou no rúgbi aceitação, o que despertou nele um forte sentimento de pertencer a algo e a algum lugar", comenta Natália.

Robert sonha alto — quer jogar uma Copa do Mundo de Rúgbi pelo Brasil —, mas mantém os pés no chão. Ele completou recentemente o ensino médio e planeja agora começar uma faculdade de educação física, para seguir uma futura carreira de treinador. Em meio ao duro cotidiano de treinamentos que um esporte como o rúgbi exige e às novas oportunidades no horizonte, ele não parece se deslumbrar: "Quando olho para os garotos, principalmente no IRPT, só penso que precisamos deixar o esporte no nosso país no patamar mais alto possível, para quando eles chegarem aqui fazerem o mesmo, como muitos outros já fizeram antes de nós".

A maturidade no pensamento e nas ações tem colocado Robert como um provável nome forte para o futuro do rúgbi nacional. "Ele ainda vai crescer fisicamente e vai ganhar total noção das suas forças, assim como mais confiança na medida em que for atuando mais vezes na equipe principal", defende Jacob. "Ver o seu crescimento nos deixa muito contentes, e espero poder ajudá-lo a atingir seu potencial máximo nos próximos anos", conclui.

Robert segue a mesma linha. E já começa a decifrar melhor esta imprevisível e muitas vezes traiçoeira trajetória da bola oval. Ou, nas suas próprias palavras: "O rúgbi já faz parte da minha identidade e, se eu não tivesse começado a jogar, a verdade é que não sei onde estaria agora". O que importa é que está no lugar certo. Ele mesmo concorda. E arremata: "Só sei que a melhor decisão que já tomei na vida foi entrar no rúgbi por completo". Parece que o rúgbi também concorda.

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