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Aos 13, ela recolheu lata, vendeu caneta e miçanga. Tudo para jogar xadrez

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Gabi vendeu canetas para participar do Mundial de xadrez Imagem: Reprodução Facebook

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

24/07/2017 04h00


Gabriela Feller, 13 anos, tem talento, só não tem dinheiro. Ela já ganhou torneios nacionais de xadrez e tem vaga no Mundial da modalidade, que será disputado no Uruguai (setembro), e no Sul-Americano do Paraguai (dezembro). Só que faltavam R$ 9,6 mil para pagar voo, hospedagem e alimentação. O jeito foi ir à luta.

Gabi e os pais decidiram vender canetas a R$ 5 para levantar o dinheiro. Encomendaram três mil unidades e saíram às ruas de Blumenau (SC), cidade onde moram. A campanha também incluiu oferecer o produto nas redes sociais. O estoque foi zerado em 12 de julho, depois de dois meses de vendas.

“Tenho muito orgulho da campanha que eu e minha família estamos fazendo. Nós estamos lutando por um sonho”, afirma Gabi. As canetas foram parar em estados brasileiros que a família nem imaginava, conta Cristiane Feller, mãe de Gabi. Uma mulher no Maranhão organizou uma rifa e com o dinheiro comprou 90 unidades.

Uma pessoa ligada ao xadrez no Paraná mandou o link da campanha para grupos de WhatsApp. Arrematou 200 canetas e avisou que não desejava receber o produto. Pediu que fosse doado a escolas públicas.

Cristiane ressalta que não haveria condições de Gabi viajar sem a ajuda de quem comprou as canetas. Explica que R$ 9,6 mil é muito mais do que ela, professora, e o marido, técnico em eletrônica, ganham por mês.

E as competições são importantes porque Gabi quer ser enxadrista quando crescer. Ela já enfrenta adultos e afirma que é igual jogar com qualquer pessoa. A garota pensa assim hoje, mas confessa que na primeira vez, quando tinha 10 anos, achou que perderia por ser uma criança contra um adulto.

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Miçangas para viajar à África do Sul

Os 10 anos foram marcantes na vida de Gabi. A primeira viagem para competir aconteceu nesta idade. Ela e a irmã faziam pulseiras de miçangas para consumo próprio. Quando ganhou vaga no Mundial, a brincadeira virou negócio. As duas prepararam uma caixa para vender em competições no interior de Santa Catarina. Nascia a primeira campanha para a menina viajar.

A mãe contribuiu fazendo tiaras e a garota partiu para Caçador (SC) com uma caixa de enfeites. O lucro se somou a doações e venda de produtos que a família ganhou, como cuecas e livros de xadrez. Gabi conseguiu os R$ 6 mil que precisava para viajar à África do Sul. A participação no mundial foi legal, mas teve uma parte ruim

“Fiquei com bastante medo e muito nervosa. Foi muito tempo longe (10 dias) e senti saudades dos meus pais e da irmã (10 anos)”. Ela também estava preocupada porque era época de um surto de ebola na África. Sem saber o que ia enfrentar, estava apreensiva. Mas havia uma parte da jornada que não causava qualquer temor.

“A melhor parte foi o avião, porque é boa sensação de estar ali nas nuvens, ver a cidade lá de cima. Eu gosto, é bonito”.

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Latas por passagem aérea

A segunda campanha teve contribuição decisiva do pai. Assim como aconteceu na viagem para África do Sul, em 2016 Gabi era campeã brasileira e tinha inscrição e hotel custeado. Mas o destino era a Geórgia. O voo sairia R$ 6,2 mil.

O pai mandou imprimir panfletos pedindo para bares e restaurantes guardarem latas de bebidas. Todos os dias ele e Gabi passavam nos estabelecimentos coletando sacos e sacos. Demorou quatro meses para conseguirem a meta, 150 mil latinhas.

Tudo foi para a reciclagem e Gabi pode experimentar outra vez a sensação boa de estar nas nuvens. Ela diz que viaja sozinha e conta com a ajuda de algum adulto que está indo ao campeonato para se virar nos aeroportos - fazer check-in e pegar a mala.

Chegando no destino, encontra a delegação brasileira e tudo fica fácil. Até para agradar os pais. “Sempre levo lembrança para minha família. Eles (pais) falam que não precisa, dizem para eu comprar alguma coisa pra mim, mas sempre trago alguma coisinha para eles”.

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Treinos desde os 6 anos

Gabi conheceu o xadrez num programa de iniciação esportiva na escola pública que frequentava. Com seis anos, não curtiu vôlei, basquete ou balé. Com xadrez, foi diferente. A menina gostava da professora e com o tempo o sentimento se estendeu à modalidade.

Hoje, ela treina três horas por dias em todas as tardes da semana. Ensinou xadrez à irmã mais nova, Isadora, e sonha em ser profissional. Se tivesse oportunidade, sairia de casa para aprender com professores top. Como esta possibilidade não apareceu (ainda), assiste vídeos de aulas e cursos na internet. Os que mais gosta são os de estratégia.

Apesar da facilidade em jogar xadrez, Gabi diz que não se acha mais inteligente que as outras pessoas da mesma idade. Ressalta que não é a melhor aluna da sala. Mas pela dedicação ao esporte, acabou que a maioria dos amigos são os companheiros de treino de xadrez. A mãe comemora a opção da filha e, principalmente, as campanhas.

“Tem o aspecto da educação também. A criança vê o valor que o dinheiro tem e o esforço para conseguir as coisas”.

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