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Confesso que Perdi: Livro mostra que Juca não esqueceu sonhos de juventude

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Imagem: UOL

Luis Augusto Símon

Colaboração para o UOL, em São Paulo

03/10/2017 04h00

"Confesso que Perdi" é o livro de memórias de Juca Kfouri. O nome remete imediatamente a "Confesso que Vivi", do poeta chileno Pablo Neruda, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. E remete, também, quase imediatamente à frase de Darci Ribeiro, grande antropólogo e, principalmente, grande brasileiro:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.

Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.

Tentei salvar os índios, não consegui.

Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.

Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.

Mas os fracassos são minhas vitórias.

Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".

Em 245 páginas de um texto muito saboroso, Juca conta 50 anos (ou mais) de sua história, da história do futebol brasileiro e da própria história brasileira. Afinal, dos grandes personagens dos últimos 30 anos, ele lamenta apenas não ter tido contato com Ulysses Guimarães

A política e o futebol estão unidos na vida do jornalista por acaso. Pois não foi a partir de um conselho de Joaquim Câmara Ferreira, o Velho, braço-direito de Carlos Marighella, que Juca Kfouri está aí, vivinho da silva, para contar suas memórias? Ele era o motorista de Ferreira e o responsável por sua segurança, em um “aparelho” no centro da cidade. A conselho do Velho, Juca iria entrar no CPOR para aprender táticas militares. Então, recebeu um convite para trabalhar na Abril. Conversou com o mentor, que o libertou, talvez já descrente das mais de uma possibilidade da Revolução.

O Velho morreu torturado em 1970, aos 57 anos. Não era tão velho assim. Juca, com 20 anos, também teria morrido, tudo indica. Levando consigo a alegria do tricampeonato, pois ele, mesmo de esquerda, nunca deixou de torcer para a seleção. O que lhe causou fama de alienado no curso de Ciências Sociais, da USP.

Juca foi convidado por Maluf para ser secretário municipal de esportes em 1992. Foi convidado para ser ministro de esportes de Fernando Henrique Cardoso em 1994. Não aceitou. Não aceitou, mas indicou Pelé. Foi quem armou o encontro entre os dois. Para isso, precisou mentir para colegas jornalistas, do que não se orgulha.

A amizade com Pelé ainda persiste, mas um pouco abalada. O Rei apostou em um esquema de conciliação com a CBF. E com a CBF, a "Casa Bandida do Futebol", Juca nunca fez acordo. Sempre foi seu moinho de vento. E o capítulo em que conta como foi criado o Clube dos 13 em 1987 é revelador de como é dura a luta, contando com aliados tão frágeis como os dirigentes dos clubes. Sem cometer spoiler, podemos dizer que Carlos Miguel Aidar, esse mesmo de agora, era o que havia de mais moderno na época.

Juca já disse que, no limite, um jornalista não pode ter amigos. Mas a história de sua amizade com Sócrates, na seleção de 1982, na Democracia Corinthiana e na própria democracia brasileira é muito bonita, com muita cumplicidade quixotesca

Há mais, muito mais no livro. A vingança de Montezuma no México, a convivência com Lula, Dilma, o arrependimento por não fazer parte da invasão corintiana, o erro fatal em um jogo de basquete, a ameaça de morte por parte da Fiel Torcida, de que ele nunca negou fazer parte, sua entrevista com Castor de Andrade, o pênalti de Junior Baiano contra a Noruega, como, a pedido de Ayrton Senna, não publicou fotos de Adriane Galisteu, na Playboy, e revelações políticas da luta pela Copa e pela Olimpíada, no Brasil.

E, enfim, o grande furo, a meu ver.

Como Juca Kfouri apresentou a milhões de brasileiros agradecidos a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro.

Juca, ao olhar para trás, se confessa um derrotado. Derrotado, juntamente com sua geração, pois apesar de tanta luta, o Brasil ainda é um país injusto e o futebol, nossa paixão, para o jornalismo, nossa profissão e também paixão, não são como ele idealizava na juventude.

Um raciocínio que não fecha, pois esquece que somos brasileiros. E aqui, a luta é muito mais difícil, muito mais inglória. Um raciocínio bonito, pois comprova que Juca não esqueceu os sonhos de juventude. E que valeu a pena lutar. Juca perdeu, mas o que fica é a frase maravilhosa de D. Paulo Evaristo Arns, um de seus gurus: “Não há derrotas definitivas para o povo”. Talvez fosse um bom nome para o segundo volume de suas memórias.

Juca lança livro nesta terça-feira

Juca Kfouri lança a obra “Confesso que Perdi” (Editora Companhia das Letras) nesta terça-feira, 03/10, em São Paulo. O evento será na livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis, às 19h.

Os fãs de Belo Horizonte, Rio e Campinas também poderão participar de uma sessão de autógrafos com o jornalista. Em Campinas, o lançamento acontecerá no dia 17 de outubro, na livraria Saraiva do Shopping Iguatemi, às 19h. No Rio, o lançamento está marcado para dia 24. Em Belo Horizonte, o evento será realizado na livraria Leitura do Shopping Pátio Savassi em 7 de novembro, às 19h. 

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