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O que o "marido de Gisele" tem a ver com a representatividade feminina?

Kevin C. Cox/AFP
Tom Brady beija Gisele Bundchen; tratamento ao quarterback diz muito sobre a visão que se tem das mulheres Imagem: Kevin C. Cox/AFP

Dibradoras*

Colaboração para o UOL

01/02/2018 04h00

Neste domingo, o marido de Gisele Bundchen entrará em campo com a chance de conquistar seu sexto troféu no Super Bowl.

Há quase um ano, a esposa de Tom Brady deixou as passarelas após desfilar na São Paulo Fashion Week.

É fácil perceber que nenhuma das duas frases acima fazem qualquer sentido no contexto em que são apresentadas. No futebol americano, Tom Brady já deixou seu nome como um dos maiores da história, com cinco títulos em sete finais disputadas e sendo eleito o MVP em quatro delas. Nas passarelas, Gisele Bundchen sustentou por 15 anos o posto de modelo mais bem paga do mundo e se tornou uma das maiores referências internacionais da moda. Os dois construíram um protagonismo absoluto em suas respectivas áreas e merecem reconhecimento por isso.

Mas há algo de interessante para se notar aí: nas reportagens de moda, Gisele nunca é referenciada como “mulher de Tom Brady”. Enquanto isso, em matérias esportivas, já foi (e ainda é) muito comum ver o nome do quarterback dos Patriots omitido nas manchetes que o chamavam de “marido de Gisele”.

O termo costuma revoltar, com razão, os fãs de NFL. No futebol americano é ele quem brilha, então deixem todos os holofotes para Brady.

O argumento da mídia esportiva por muito tempo foi que “Gisele era mais conhecida no Brasil do que o marido” - algo que qualquer fã básico de futebol americano por aqui haveria de negar, já que provavelmente não há nome mais conhecido entre os brasileiros nesse esporte que o de Tom Brady. Esporte esse que, aliás, tem crescido muito neste que é o chamado “país do futebol”. Segundo a própria ESPN Brasil, que transmite a NFL aqui, desde 2010 a audiência do campeonato quadruplicou. E, de qualquer forma, quem lê matérias sobre futebol americano quer saber sobre futebol americano - sendo assim, a referência “marido de Gisele” no título não faz qualquer sentido.

Mas por que, então, se coloca o nome dela em matérias que são, na verdade, sobre ele? Pelo mesmo motivo que se multiplicam as matérias das namoradas dos jogadores x, y, z. Pelo único motivo pelo qual a mulher é representada na mídia esportiva: a beleza/objetificação.

Colocar “Gisele” em uma manchete sobre Tom Brady e o futebol americano vai gerar mais cliques, chamar mais atenção e dá até para colocar uma foto da modelo e atrair olhares masculinos curiosos. Fazer matérias sobre as namoradas dos jogadores de futebol não traz relevância para os veículos esportivos - mas traz audiência, aquela disputada a todo custo.

"Veja as mulheres mais gatas dos jogadores do Brasileirão"; "Top 10 namoradas de jogadores de futebol"; "Namorada de Kaká posa sem maquiagem e leva fãs à loucura": todas essas foram manchetes recentes de publicações esportivas no Brasil. Não houve matérias sobre as jogadoras que foram destaque dentro de campo, as que ganharam títulos, que foram artilheiras - mas sobre as “namoradas gatas” não faltaram.

O próprio Google não nos deixa mentir. Os resultados para a busca “namorada de jogador” beiram os 700 mil. Já quando procuramos “jogadora de futebol”, são pouco mais de 500 mil - sendo o primeiro deles “Jogadoras de futebol mais gatas do mundo”.

O protagonismo das mulheres no esporte ainda é oculto na mídia esportiva, onde a participação delas se resume à estética. E até mesmo quando são elas o foco principal da notícia, acabam escondidas em um aposto, como “a namorada do piloto da Fórmula 1” classificada para os Jogos Olímpicos.

“Mas a Gisele e as namoradas gatas dão audiência, o esporte feminino não dá audiência” - pois bem, já passou da hora de essa discussão ir além da “audiência”. Até porque, se for pura e simplesmente uma decisão de cliques, os veículos esportivos podem fechar as portas e apenas reproduzir galerias de musas de biquíni e repercussões do Instagram de Bruna Marquezine e Neymar. Um veículo de imprensa precisa, antes de pensar só nos números, refletir sobre sua responsabilidade como “formador de opinião”.

Então vamos esquecer o marido de Gisele e lembrar que Tom Brady é quem estará por trás dos passes milimétricos que poderão levar os Patriots aos touchdowns decisivos de mais um Super Bowl. E vamos também parar de ignorar o protagonismo das mulheres no esporte e estampá-los nas manchetes, garantindo a elas o espaço que já conquistaram há muito tempo.

*Dibradoras é um projeto que busca dar visibilidade para mulheres no esporte

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